quinta-feira, 20 de maio de 2021

O que você deixou de ser quando cresceu?


Uma das discussões atuais que acaba sempre se tornando até uma batalha é sobre essa questão de "ser adulto". Muitos fatores entram em síntese de quando essa linha, muitas vezes tênue, é cruzada. O que é ser um adulto afinal? Os que já se tornaram sabem que o são, o mundo contudo, nem sempre compartilha da mesma percepção e acaba fazendo com estes se sintam inferiores quando comparados com padrões de adultice tidos como "aceitáveis".

Quando se cresce algumas coisas vem e são totalmente inevitáveis. Uma das coisas que se coloca como

primordiais é o ponto "trabalho". E aqui leia-se não qualquer trabalho, porque você treinar desenho ou escrever histórias dá trabalho, mas não é considerado como trabalho em sua totalidade logística. O trabalho aqui está relacionado com "ação que se faz em troca de um salário(dinheiro)" e com isso vem toda uma sorte de responsabilidades, deveres, cumprimento de regras, pontos que se forem transgredidos haverá punição ou advertência. Lógico que ser algo que você aprecie fazer é uma suposição lógica, mas nem por isso o manto de dever é retirado. É como na escola, na verdade. O fato de você adorar estudar uma matéria nunca eximiu você de tirar notas boas nela e passar mesmo assim, na verdade, a cobrança era até maior porque em teoria era mais fácil pra você a tarefa.

Voltemos para a questão do ser adulto. Muitos associam ser adulto com responsabilidades de cunho mais aprofundado. O trabalho remunerado traz isso, mas outras responsabilidades de nuances diferentes também podem fazer parte desse bolo. Não raro ouvir que quando se tem uma casa, se é casado ou tem filhos você virou adulto. Afinal, são coisas que não podem ser negligenciadas ou deixadas de lado, existem tarefas que não se pode deixar de fazer simplesmente. Logo essa necessidade de organização e dever faz com que você acabe deixando outras coisas de lado que quando comparadas são menos importantes.

Muitos vão dizer que ser adulto é ser maduro. Não deixa de ser, todavia, maturidade sem ação é extremamente fácil. Quando você não está sendo exposto a situações nas quais precisa exercer maturidade, lidando com circunstâncias que forcem você a tomar atitudes sensatas, sua maturidade não se mostra na totalidade e para isso fatalmente se precisa lidar com as outras pessoas. 

Esse exposto todo sobre adultice e o que supostamente faz de você um adulto é para um questionamento simples: o que você perdeu ao se tornar um adulto? O que deixou de ser quando se tornou um? É algo inquietante porque o mundo e sociedade nos faz crer que para se tornar um adulto você obrigatoriamente precisa perder algo, deixar algo pra trás, tipo um ritual. E uma vez adulto não dá pra recuperar isso, a menos que queira ser visto de forma vexatória. 

Esse tipo de pensamento sempre martelou na minha cabeça porque um dia me perguntaram: "Quando você vai crescer?" E eu de forma despojada e sem culpas disse: "Nunca". E francamente não me senti envergonhada por isso, embora assumir tal coisa nem sempre tenha sido fácil e demorou até que eu me sentisse segura para tal. Esmiuçando, eu me considero adulta. Do lado de fora pelo menos. E devo dizer que me sinto vaidosa de quando comparada com muitos conhecidos da minha idade eu pareça até mais jovem, creio que meu modo de encarar as coisas da vida ajude de sobremaneira. Tal como se espera de um adulto eu tenho obrigações de trabalho e estudo, com contas, sei cuidar de uma casa e me responsabilizo por pessoas também. Então por que muitos não consideram a mim e a outros que possam ser como eu assim? Porque me recuso a me tornar um espírito velho.

"Quando você vai deixar esse estilo de lado?"
Eu aos 90 anos
Ouvi certa vez que a juventude e velhice são duas coisas distintas. Só que por algum motivo, o mundo meio que exige que você junte as duas em um único bolo. A visão de um adulto que o mundo tem em muitos aspectos é de alguém que deixou o colorido pra trás. Você não pode gostar de certas coisas tidas "fora de sua idade". Inclua aqui roupas, modos de vestir, itens de coleção, até mesmo canetas coloridas e estojos de bichinhos. Determinados lugares já não são mais apropriados, seu estilo deve mudar totalmente pra se encaixar. E o mais traumático é: não perguntam a você se de fato se sente a vontade com isso. Ou se quer. Ou se não pode conciliar ambas as coisas. Em suma, o mundo exige que você mate algo pra entrar no roll da maturidade adulta. E essa é uma coisa que mesmo quando eu era adolescente nunca fez muito sentido pra mim. E hoje fico feliz de perceber que se antes eu me achava um heteroátomo, hoje não estou só e outros partilham da mesma percepção.

Você pode ser plenamente responsável e ótimo profissional e continuar gostando de coisas de quando era adolescente. Com senso de equilíbrio, necessário a tudo, pode perfeitamente continuar usando roupas de estilos alternativos. Pode continuar a ter hobbies excêntricos para sua idade ou tidos como para "mais jovens". Quem em cargas d'água disse que obrigatoriamente um adulto precisa trocar o cinema com pipoca por pubs e happy hours? Vi muitos que estudaram comigo parecerem ter em seus rostos a energia de alguém 20 anos mais velho, não que suas responsabilidades ou maturidade sejam maiores, mas o espírito envelheceu de sobremaneira, a sobriedade os infectou como uma erva daninha e o colorido de suas almas se perdeu. Quando isso ocorre a criatividade morre e fatalmente o adulto se torna mediocremente chato, metódico, maduro sim, mas extremamente rígido.

Com isso vemos que no caminho muitas coisas se adquire, você tem baixas ao longo do aprender, mas não precisa deixar o que lhe é mais caro de lado. Sempre há a premissa de que muitos sonhos permanecem e por ventura você só consegue realizá-los após se tornar adulto. Lembra aquele brinquedo que você queria quando criança, mas não podiam lhe dar? Eis que você vê e pode ter finalmente, compra não pra brincar mas pra que possa sentir aquele calor no coração. O lápis de cor incrível que era muito caro na sua época de escola está ao seu alcance financeiro hoje, você compra pra pintar aquelas mandalas em livros de colorir. Você não podia ter aqueles brinquedos caros que muitos dos seus colegas tinham, mas cresceu e vieram os bonecos colecionáveis. 

Muitas coisas dessa nuance parecem extravagantes para um adulto, passíveis de inúmeras críticas. Todavia meu conselho máximo é não ligar muito pra isso, pois curiosamente tais críticas são feitas justamente por outros adultos que diferentemente tiveram o que queriam, na hora que queriam, do jeito que queriam, passaram de fases sem nenhuma pendência, tiveram a regalia de poder vive-las no tempo dito "correto" e "correspondente" e justamente por isso podem se dar ao luxo de chamar de "infantil" ou dizer "isso não é mais pra você" quem não pôde ter tais coisas e só as conseguiu num tempo mais tarde do que gostaria, mas que pelo desejo ter permanecido, a pessoa desejou viver mesmo assim independente das críticas que poderia receber. É aquilo: quem foi para a disney até enjoar quando era criança/adolescente vai estranhar que um adulto queira ir nos brinquedos mais de uma vez. Sempre lembro de uma frase, de um filme bem legal (infantil inclusive): "Um sonho pelo qual você não lute, pode assombrá-lo pelo resto da vida".

Crescer é um empreendimento em muitos pontos nada agradável. Você ganha muitas coisas, mas se vê obrigado em outras a fazer algumas adaptações que a primeira vista não são tão agradáveis assim. Todavia, de forma nenhuma precisa abdicar de seu cerne, do que você é, nem ter prejuízos que tirem a cor de sua vida. É preciso inclusive a tal maturidade para que você possa continuar exercendo isso com equilíbrio. Crescer não deve nem pode ser sinônimo de apagar parte de você, principalmente se é algo que faz parte do seu cerne. Afinal, não é justo que depois de tanto trabalho, tantas rugosidades quando se lida com um mundo em muitos pontos até cruel, que você abdique do que tem de melhor.

2 comentários:

  1. Olá, essa postagem foi muito agradável de ler, trouxe uma reflexão interessante sobre crescer, mas não abrir mão de ser quem se é.
    É possível ser uma pessoa adulta, conciliar trabalho, estudos e outras responsabilidades e ainda assim preservar seu estilo e não sentir culpa pelos seus gostos, por não honrar o protótipo que as pessoas esperam.
    Enquanto escritora já senti na pele o preconceito das pessoas à volta, sabe, já ouvi pessoas próximas, que inclusive eu considerava amigas, dando a entender que meu trabalho não é "trabalho de verdade", isso me magoa porque é um ofício tão digno quanto qualquer outro, há muita dedicação e abnegação que ninguém por detrás das cortinas, logo, pareço só uma sonhadora tola.
    Na década dos vinte e poucos eu sofri bastante com essa transição para a vida adulta, pois sentia que não me encaixava no protótipo de "adulta" que a bolha em que vivo impunha/impõe porque continuei gostando de muitas coisas que gostava quando era adolescente, Chaves é um bom exemplo, continuei gostando de itens de papelaria, bichos de pelúcia, parques de diversões, já zombaram de eu usar camisetas do Mickey ou de bandas de rock e mesmo das bandas que eu gosto, como se só porque cresci, tivesse que abandonar tudo que gosto e me tornar algo que nunca me interessou ser.
    Crescer não significa deixar de sonhar, não importa qual seja o sonho, não significa matar ou negligenciar a criança que mora em você, é uma fase da vida, com altos e baixos, aprendizados inclusos e a possibilidade de discernir o que serve ou não para você, a maturidade ajuda muito a refletir se vale a pena se importar com as palavras muitas vezes mal colocadas de quem não conhece nem metade das suas lutas ou se vale a pena viver, ser feliz.
    Espero que muitas pessoas possam ler esse texto e se sentirem abraçadas.
    Parabéns pelo sempre excelente conteúdo.

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  2. Que review grandão! Me deixa com o coração quetinho! De fato, quando escrevi coloquei no papel uns pensamentos que tive altas horas, sem conseguir dormir muito passa pela nossa cabeça e lembrei dessa situação que vivi. A qual creio que muitos vivem também, uma cobrança indireta que o mundo faz como se ao chegar em um ponto de sua vida você obrigatoriamente tivesse que pegar todo o seu arcabouço do passado, de fases "não adultas", jogar em um baú destinado a um canto e colocar em um novo baú vazio coisas de "adulto", isso sem perguntarem se é de sua vontade ou sequer se você não deseja manter os dois baús. Por muito tempo me senti até culpada, humilhada até, inferior de não deixar coisas do primeiro baú de lado, não consigo deixar de gostar de chaves, não consigo não comprar agendas coloridas, não consigo deixar de gostar e usar tênis, isso faz parte de quem sou como faz parte do que muitos são, querer que a pessoa abdique isso é como querer que ela abdique de uma parte de si, o que é injusto e até cruel. Com o advento da internet, muito se ampliou e percebi que não estou sozinha, conheci pessoas que se mostram incrivelmente responsáveis mas você vê o brilho da juventude ali, Chaves previu o futuro com sua música "jovem ainda", ele descreveu o que vivemos e que é no seu coração que a juventude nunca morre. E sim, não se deve se sentir por baixo de quem nunca conheceu suas lutas e o quanto sofreu pra romper o casulo e se transformar em uma borboleta liberta. Muito obrigada pelo review! Queria adicionar você no facebook ^^

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