terça-feira, 20 de julho de 2021

O dinheiro sana as necessidades, mas não garante plena felicidade


Ultimamente tem rolado uma figurinha relacionando felicidade e dinheiro. Dizendo que quando se faz a afirmação de que “o dinheiro não traz felicidade” se está romantizando a pobreza, fazendo com que as pessoas tenham a ideia de que é preciso se conformar com uma situação vulnerável materialmente falando afinal, o dinheiro compra conforto, boa comida e todo tipo de bem material que proporciona a mais pura felicidade. Que o dinheiro compra tudo isso, é inegável. Agora, fato também é que não é porque você tem isso que será automaticamente feliz.

O dinheiro. Vamos pensar no que ele é de fato. Algum punhado de papel ou pedacinhos redondos de metal aos quais são atribuídos valores. Você troca essas coisas por outras que lhe são mais úteis, como comida pro seu corpo, cobertor pro frio, um teto... Sim, o dinheiro vai suprir suas necessidades. As necessidades são pontos

que estão praticamente de mãos dadas com sua sobrevivência. O que se necessita de primordial e imprescindível. Você precisa de comida, precisa de uma roupa minimamente boa que lhe cubra, precisa de uma casa que lhe abrigue e outras coisas que podem ser citadas aqui, remédios pro caso de doença e estudo pra que se possa crescer enquanto ser humano.

Todas essas coisas são perfeitamente compráveis e necessárias para a formação de uma pessoa em nossa sociedade. Muitos tem isso em excesso e de forma ostensiva até, do modo mais pomposo que o dinheiro pode comprar. O corpo precisa de comida, muitos gastam 1000 em uma conta de restaurante; precisam de uma casa, compram uma tão grande que sobram quartos vazios; precisam de uma roupa, gastam quatro dígitos em algumas poucas peças; querem o cobertor bordado com fios de ouro que brilham quando o sol aparecer na janela... E aí vem a pergunta: isso traz realmente a felicidade?

O contraponto aqui não é se negar a importância que o dinheiro tem, afinal, se você diz isso, é como se estivesse dizendo que não precisa dele pra nada, o que obviamente é um delírio tendo em vista a conjuntura atual que vivemos. Todavia o maior confronto é até onde vai o valor que alguém dá ao dinheiro e que espaço ele ocupa na vida deste indivíduo. Você pode ver esses pedaços de papel como algo que vai proporcionar sanção de suas necessidades e proporcionador de momentos de prazer, regalias e relaxamento, como também essas notas podem formar uma corda que sufocam e os pedaços de metal provocarem um tilintar tão forte que não deixam você dormir a noite.

“Ah, mas antes ser triste em Paris do que no ônibus”. É uma frase bem engraçada, considerando que quando se está triste, se estará assim em qualquer lugar e se vai enxergar tudo cinza de qualquer forma, pode até ser mais confortável em Paris, mas ainda assim

cinza. É extremamente perigoso colocar a felicidade apenas no que se pode comprar. Uma viagem, um objeto de coleção, uma bolsa de grife, porque há sempre o risco de se querer algo que não é propriamente comprável e aí, vem a decepção, o pesar de perceber que as notas não tinham todo o poder como se acreditava que tinham. No mundo dos famosos, podemos citar exemplos clássicos.

Quem não se lembra de Robin Willians? O ator tão risonho que fez gerações rirem com suas comédias? Ele mesmo antes de ser ator de sucesso faturando milhões já era rico. O pai era um executivo sênior de uma grande empresa, logo dinheiro nunca foi problema. Willians cometeu suicídio dentro de sua mansão. Chester, o ícone vocalista do Linkin Park, que fez história com seu rock, milhares de fãs, dinheiro,

se enforcou chocando o mundo com sua partida. Até mesmo o mais famoso youtuber do Brasil, Felipe Neto, já deu entrevistas dizendo que nunca teve tanto dinheiro e nunca foi tão infeliz, eu até entendo, ele tem notas pra fazer uma piscina como a do Tio Patinhas mas é tão criticado e odiado que talvez pareça ter só a piscina mesmo. Consideremos que ele teve uma infância pobre e hoje mora em uma mansão tão grande, que o estúdio dele de gravação é na própria residência, ter tanto dinheiro pra algo assim para os iniciantes que economizam mesada pra comprar uma tekpix e usam iluminação em cima de livros parece um sonho, todavia por algum motivo muitas pessoas que tem dinheiro sobrando não conseguem sentir essa tal de felicidade, por mais que possam comprar tudo que supostamente está relacionado a ela.

Por que será? Porque talvez como a maioria esmagadora, não saibam bem o que felicidade significa. A felicidade é algo relacionado ao seu cerne, a camada mais profunda do seu ser, logo, obviamente é algo que vem de dentro. Por isso, que por mais impossível que pareça, há pessoas que podem não ter muito dinheiro mas conseguem passar

uma felicidade que envergonharia milionários. A razão para isso é porque elas conseguem ressignificar as coisas simples nesse sentimento e mostram que os momentos de felicidade genuína pouco ou nada tem a ver com dinheiro. Muitas vezes tem a ver até com o caminho que se percorre para chegar até algo, que mesmo sendo material, o objeto material em si é o mais irrelevante perto do todo. É difícil de falar sobre isso para aqueles que possuem uma visão mais material e densa, principalmente se colocam o dinheiro sempre como fonte primária pra se conseguir a felicidade.

Muitos dizem que o dinheiro compra o remédio, é verdade, todavia não a saúde. O presidente do Santander era um dos homens mais ricos do país, ele morreu precisando de algo que é de graça: ar. E penso em como muitos que pregam tão veementemente a ideia de que o dinheiro resolve todos os problemas devem se sentir quando se deparam com algo que não se soluciona, mesmo que tenham muitas notas pra dar. Eu sempre digo que se um dos milionários daqui precisasse de um transplante, ele poderia ter o dinheiro que fosse pra comprar um órgão no mercado negro, traficar crianças ou quem quer que fosse pra tal, ainda precisaria achar alguém compatível e isso não dá pra comprar. Tal qual no filme Wolverine Imortal, um dos personagens podia ser multimilionário e ter todo o dinheiro para a tecnologia que prolongava sua vida, mas mesmo isso não traria a ele o corpo saudável sem os efeitos da radiação, porque o dinheiro ainda não consegue comprar tempo.

Colocar tanta expectativa, pra não dizer todas as expectativas na matéria é como se condenar a viver uma vida de paixões voláteis, sempre no plural. É ser movido sempre por objetos de desejo que vão mudar e se apagar mediante presença de outros que pareçam mais brilhantes. Você deseja comprar uma casa e consegue o dinheiro, mas aí ao visitar um parente vê que ele mora em um três andares com piscina. Sua casa que foi uma “felicidade” de repente

lhe parece feia. Compra um carro e se sente feliz andando com ele, se sente importante, aí a concessionária lança um novo modelo com bancos mais bonitos e espaçosos, o seu começa a parecer pequeno e você se sente frustrado de andar nele, a felicidade de outrora se fora.

Você compra aquele item de colecionador lindo, a empresa lança uma nova coleção e o seu parece defasado e não lhe dá mais a mesma sensação. É compreensível essa questão de sempre as coisas se inovarem, as empresas e todos os que trabalham nelas dependem do consumo e precisam sempre de coisas novas, conforme o mundo evolui. Mas como ocorre com qualquer coisa, o excesso se torna veneno, consumir em excesso crendo que isso traz felicidade quando

a matéria é tão volátil acaba se tornando um vício. Uma tentativa de preencher algo interno com algo de fora é estar sempre em eterna necessidade sem nunca conhecer a saciedade. Tanto que muitas pessoas que tem relativo dinheiro sempre dizem que estão sem ele. Podem morar no metro mais caro da cidade, viajar pra vários lugares e vestir grife, sempre dirão que estão "aperriadas", mas é porque no fundo queriam mesmo morar numa cobertura no metro mais caro da cidade, viajar pra Europa e vestir grife internacional.

O Capitão Barbossa no filme Piratas do Caribe inclusive faz interessante comparação quando conta a história de seu tesouro, ouro que reluzia mas estava banhado em sangue e uma cobiça insaciável, mas para quem deseja dinheiro e riqueza, isso se torna irrelevante, daí ele diz algo que fez pensar: “Nós encontramos, lá estava a arca e dentro o ouro. Pegamos tudo! Nós gastamos e trocamos por bebida, comida e prazer. Só que quanto mais gastávamos, mais ficava evidente que a bebida não satisfazia, a comida parecia pó em nossas bocas e toda a companhia do mundo não era suficiente. Somos homens amaldiçoados, senhorita. Éramos impulsionados pela cobiça, mas agora somos consumidos por ela”. Lógico que no caso de Barbossa e sua tripulação era bem literal, mas não significa que não possa haver metáfora com o real.  Colocar a felicidade em coisas assim é como ser um burrico com uma cenoura a frente, se consegue

sentir o cheiro, ver, até consegue tocá-la levemente mas sem jamais alcançá-la de fato. Tanto que não faltam escritores que inclusive mencionam que a riqueza e bens em excesso podem ser uma prova de vida mais difícil que a pobreza. O próprio Willians, segundo fontes ficava em dúvida se a aproximação era pela pessoa dele ou por ser filho de alguém tão rico e importante.

O dinheiro é importante, ele proporciona os bens que nosso corpo precisa, mas outras necessidades também precisam de nossa atenção e ele não atende a todas, por mais tentadora que pareça tal ideia. A falta total de dinheiro traz infelicidade de fato, mas a presença dele, mesmo em abundância, nem sempre é garantia de felicidade. As pessoas mais felizes do mundo talvez sejam aquelas que justamente não tiveram sua visão nublada pelo deslumbramento material, souberam dar o devido valor ao dinheiro sem superestimá-lo ao ponto de que ele assuma o controle.

Então convido a essa reflexão, o que realmente deixa as pessoas felizes? Mas uma felicidade genuína, tão genuína que não se dissipa como grãos de areia, mas permanece e é reavivada só com a mera lembrança. Será que esses momentos tem mesmo a ver com dinheiro? Uma questão para os sábios...
 

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