ATENÇÃO. Este texto contém
SPOILERS sobre a idade da autora, coisas de sua infância e da melhor época do
mundo
Um dia desses incrivelmente
estava passando Os Goonies na televisão. Um clássico da Sessão da Tarde, que
marcou uma geração, seja pela história, seja pela coisa singela, seja porque
era simples. Puramente simples. Numa época em que os efeitos especiais eram
escassos, a maquiagem era nitidamente com próteses até meio mal feitas, mas
aquilo pra quem era criança, parecia a coisa mais fantástica do mundo. Eu
percebi as pessoas ao redor e notei que haviam aqueles super empolgados, que
riam gostosamente das cenas como quando provavelmente eram pequenos e aqueles
cobertos pela mais pura indiferença. Daí, comecei a ser tocada por uma
nostalgia, um sentimento até de pesar, não por envelhecer mas porque muito daquele
tempo se perdeu nas brechas dos anos e coisas que eram realmente legais e
incríveis.
Do início, a década de 90 foi uma época extremamente única. Por mais que hoje tenhamos uma internet mais veloz do que jamais tivemos, aplicativos que nos fazem alcançar os confins do mundo, a década de 90 foi e sempre será algo que na história jamais será esquecido. Pois bem, história do Brasil nunca foi minha favorita, todavia algumas coisas são extremamente pertinentes mencionar. Nosso país viveu uma ditadura militar até 1985. Muito de liberdade,
escolha e poder fazer algumas coisas sem medo só foram possíveis depois dessa data. Em 1988 é que pudemos ter uma constituição, em suma, foram décadas meio castrados em muitos sentidos. Não é a toa que muitos artistas mais polêmicos que se conhece nasceram nesse período de fim de ditadura e década de 90, ou seja, esse período teve um significado muito importante, marcando não só quem nasceu nele mas para outros.
Pois bem, ao meu humilde ver, percebendo o mundo após os anos 200 e sua fracassada profecia de fim do mundo, posso dizer que os anos 90 foram a década que mais se aproximou da perfeição. Mesmo que nossa política e cultura estivesse passando por profunda transformação, foi nesse período que se pode dizer que houve o divino equilíbrio entre a exposição de temas até ditos polêmicos e a naturalidade que eles eram encarados.
Os ditos “jovens” de hoje jamais saberão, mas a televisão naquela década era algo incrível. Sendo basicamente o único meio de entretenimento disponível, a maioria esmagadora da população só podia contar com ela, portanto, a programação recebia investimento pesado numa competição pela audiência. E isso era de segunda a segunda, 24h por dia. Antes da internet aparecer, havia programação de manhãzinha até altas horas da noite, pra pegar desde as crianças até a vida inteligente na madrugada. Muito hoje talvez seja difícil e
Hoje parece difícil de imaginar, mas havia programas direcionados ao público infantil e quando digo programas, são aqueles com apresentadora cheia de tic tac no cabelo e mascote cantando
Muitos esperavam o domingo
só pra poder acessar a vontade com desconto. O MP3 quando surgiu foi novidade,
porque o que muitos
Dentre outros aparelhos, tivemos o videocassete, depois foi substituído pelo DVD e pelo Blueray. Mas ah, a Disney faturou com seus VHS! Especialmente porque você comprava um e vinha sempre uma propaganda do próximo filme que seria lançado. Eu tive uma
coleção de fitas VHS da Disney e das mais variadas. Nos supermercados e lojas havia uma sessão somente disso que vivia sempre cheia, hoje em tempos de Netflix, Amazon e Disney+ essa sessão vive jogada ás traças. Quando foi a transição pra DVD perdi quase todas as minhas fitas, incrível dizer que naquela época era caro, mas ainda há quem tenha. Quem não podia comprar as fitas na década de 90 recorria ás locadoras.Sim, meus amigos modernetes, houve uma Netflix física um dia! Você ía nas prateleiras enumeradas e seccionadas de acordo com o gênero do filme, e ali, com toda a paciência do mundo, lia um por um, sinopse por sinopse e escolhia qual ia levar, filmes longos com três horas de duração eram divididos em duas fitas VHS, assisti Titanic assim. Sexta feira costumava lotar porque havia promoção 3 por 2 e você ainda ganhava pipoca de brinde. Se devolvesse não
rebobinada, pagava multa. Só esclarecendo, as fitas tinham um filme dentro que você precisava voltar no aparelho, pra ver o filme de novo do início, se devolvesse sem ter rebobinado, os funcionários tinham que ter o trabalho de faze-lo para o próximo cliente e você pagava uma multa por esse trabalho e gasto extra. As crianças de hoje jamais saberão o que era você fazer amizade com o atendente da locadora pra ele aliviar sua multa ou deixar você escolher filmes fora da sua faixa etária.A televisão passava filmes também. Ainda há alguns remanescentes, mas nunca vou esquecer a difícil decisão que era escolher quando passava dois filmes que eu gostava tanto na Sessão da Tarde quanto no Cinema em Casa. Classificação Etária (aquela coisa que avisam hoje antes de tudo que passa) era só uma mulher falando “Classificação 16 anos”, como eu era criança e não entendia patavinas o que aquilo significava, continuava vendo o filme mesmo assim.
Com isso vi inúmeros filmes de terror, com insinuações sexuais, duplo (até triplo) sentido, não havia muito filtro nesse sentido e na boa, nós entendíamos, mas se não, passávamos direto. Invocação do Mal é bico, naquele tempo o Chucky e Hellraiser é que deixavam você sem dormir por três noites. E bem, naquela época, as crianças
eram obedientes, se alguém dissesse não, elas obedeciam. O problema é que foi uma época com pouco não, porque muito era encarado com naturalidade. Os nãos ficavam com as coisas que realmente importavam, tipo, não falar com estranhos na rua e não pegar nada sem pedir, hoje as crianças já tem Instagram desde o útero da mãe.![]() |
| O mundo proibido. Classicão do Cinema em Casa |
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| A Lagoa Azul. Classicão da Sessão da Tarde |
Muitas das coisas eram escancaradas,
violência, sexo, homossexualidade... Alguns dos primeiros animes que vieram
para o Brasil continham essas nuances sem lentes, sem filtros, sem película. Hoje
parece que os desenhos são produzidos por pessoas que parecem gatos em uma sala
cheia de cadeiras de balanço, andando na ponta dos pés, temendo quaisquer insinuação,
quaisquer cor fora do lugar, quaisquer palavra inadequada que possa gerar a
mínima polêmica. Na década de 90 haviam as mesmas coisas, eram escrachadas, mas
não tinha toda essa repercussão talvez porque as pessoas eram mais divertidas,
mais leves, não havia internet tão fácil e a disposição para textos longos
questionando a cor de uma caixa de brinquedo.
Havia homossexualidade em Sailor Moon, Transsexualidade em Bucky, Sexo e violência em Dragon Ball Z, Digimon, mais sexo em
A televisão era algo sem
comparação com hoje, havia comerciais de brinquedos, de muitas outras coisas, hoje
com tantas opções e especialmente com o advento do celular e suas 10000
possibilidades de aplicativos, talvez investir em programação televisiva não
seja lucro, por um lado até entendo, afinal são só negócios, mas friso que
nisso Tio Silvio Santos foi gênio, ele foi o único remanescente a pensar que
crianças ainda precisavam de desenhos. As mais humildes, que não podem pagar
por planos de plataformas, pelo menos.
As músicas eram uma coisa que muitos papaizes e mamãezes mais impressionáveis também tentam esquecer. Quantos que não dançaram na boca da garrafa hoje ficam escandalizados com um mero “beijo na boca” em série ou trecho de música? A trilha sonora
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| Mamonas Assassinas e sua Excentricidade |
O pessoal se escandaliza com os funk, fazem textão de quando tocam nas festas dizendo ser péssima influência mas na infância, ouviam nos churrascos de domingo Reginaldo Rossi falando das mulheres gostosas, safadas, putonhas e levianas, das traições, dos gemidos, os boleros falando de cama e relacionamentos escusos, ouviram os bregas (Pará) nos quais o cara cantava que botava a
mulher “pra gemer”, “que só ia pra cama se fosse de camisinha”, dançavam o tchan, desciam por baixo da cordinha enquanto aquele tio bêbado estava jogado numa daquelas cadeiras de metal, isso quando eles próprios não estavam jogadas enquanto todo mundo virava o copo. CD e som era algo que evolui sumariamente naquele tempo, não tinha essa de pen drive, o que se aproximava disso era um negócio chamado disquete que tinha espaço pra tipo dois ou três arquivos de texto.Em termo de música, tinham uns discos enormes
parecendo um bolachão, as fitas cassete e depois os CDS que podendo comportar
só umas 12 músicas, quem colecionava ficava com um sacolão cheio deles. Minha
família levava aquela mala pra toda viagem a praia, éramos a família mais
popular das redondezas porque a música não parava um minuto.
As festas eram uma coisa bem excêntrica também. Salão e recepção eram coisa rara, só quem tinha contatos ou condição financeira (apesar de ser uma época bem legal, notamos que as diferenças sempre existiam), caso contrário tudo era em casa mesmo. O tio, o avô, a mãe, avó, madrinha, todo mundo contribuía com alguma
coisa, seja fazendo a decoração, os comes e bebes, os doces, bolo, cada um usando o que sabia e sempre virava um festão. Acho que não só o que pode parecer relaxamento com relação a polêmica que existia, mas os valores tinham algo de excepcional. As pessoas tinham uma capacidade de improviso incrível e valorizavam o trabalho manual. A casa podia ser pequena, mas um radinho com música, uma mesa cheia de salgadinhos, peru com farofa e balas de coco com certeza tinha, sempre davam um jeito de botar mais convidado nem que fosse emprestando mesa e cadeira do vizinho.O bolo era todo com cobertura de manteiga, açúcar e corante, um negócio cheio de gordura nitrogenada que lhe dava tanto prazer a cada mordida que você sentia a conexão com seus ancestrais da caverna. Não eram as mesas firulentas de hoje com docinhos e brindes milimetricamente contados e bolinhos de pasta americana chique. Não tem mais o bexigão de balas, ali era o primeiro teste da vida no qual você percebia que se não corresse atrás do que queria, ficava sem, seus instintos competitivos despertavam na hora quando o que estava em jogo era o Big Big. Antes as coisas eram fartas, porque por ser um dia de festa tinha que ser especial, os convidados saiam com a sacolinha de brinde e comida pro dia seguinte. São coisas que hoje só vemos em casas mais simples, que conservam esse costume das festas caseiras em família e fazem questão de que todos saiam extremamente satisfeitos.
As pessoas liam mais. Claro, as histórias eram aquelas mais tradicionais de contos de fada, princesas e heróis. As pessoas compravam revistas em quadrinhos para seus filhos. As revistas relacionadas a curiosidades de artistas, coisas da adolescência e atividades se consolidaram, álbuns de figurinhas eram uma febre. Isso foi diminuindo a medida que celulares e tablets foram surgindo com toda a sua tecnologia e modernidade. Livros com figuras
coloridas eram devorados e encapados com plástico transparente, as crianças de hoje não tem muito o hábito de ler, percebe-se a dificuldade quando chegam em séries mais avançadas. Infelizmente, serão adultos mais fechados. “Nunca deixe seu filho chegar a internet sem ter passado pela leitura e pelo escrever”, eu ouvi. A pessoa tem toda razão.A geração noventa foi uma das
melhores, talvez uma das menos traumatizadas pois o contato uns com os outros
era maior, tínhamos poucos recursos que substituíam o contato como hoje. Lógico
que mandar mensagens por aplicativos, falar com alguém longe em tempo real é
muito melhor que esperar duas semanas por uma carta, todavia a praticidade
também trouxe á tona tanta rugosidade e impressionabilidade que chega até mesmo
a não condizer com todo o avanço dos tempos modernos. Existe inúmeras
possibilidades de se compreender e comunicar, mas ao mesmo tempo é como se
estivessem totalmente inertes e se chocassem, como se recusassem que possuem a
capacidade de percepção e encarar com naturalidade coisas que sempre estiveram
aí.
Os anos 90 foram permissivos em muitas coisas, o perfeito balanço entre não se chocar com o que era corriqueiro, sendo politicamente corretos ao extremo e dar valor ás coisas que de fato eram importantes. Você via coisas até chocantes na televisão tipo mulheres numa banheira com fio dental minúsculo mas sabia que não devia esconder nada dos pais; você via travestis (termo não correto, assim
eram chamados na época todavia) nos programas de calouros cantando, muitos tiveram entrada na televisão assim, hoje seria um rebu, mas era encarado com naturalidade, não se via motivo para choque. Não havia celulares modernos, mas você sabia que não devia desviar o caminho de casa, se o fizesse era quase uma aventura de tão perigoso.Fomos uma geração que viu sexo, violência, homossexualidade e peitos de fora sem reservas, sem filtro e ainda assim fomos crianças bem inocentes, contraditório mas lógico. Por ver constantemente sem o enxame em volta, a naturalidade era tanta que se passava direto, aquilo era diferente mas não chamava atenção. Se de fato houvesse algo de cunho sério, os pais estavam ali prontamente para explicar da forma singela como a década de 90 foi. Os adultos que conheço que viveram nesse tempo de algum modo são leves, divertidos, fomos inocentes, mas não tapados, os melhores são aqueles que conseguiram ainda ter dentro de si, a reminiscência mais pura do quão exclusiva foi nossa geração.
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| Garotinha loira: Geração atual Vandinha: Nós dos 90 |
P.S: Quem quiser saber mais coisas dessa década, sugiro fortemente o Canal 90, do Nogy no Youtube





















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