domingo, 24 de outubro de 2021

Por que Round 6 incomoda tanto?

 

No último mês Round 6 ficou no topo das paradas na Netflix. Mesmo quem nunca tinha visto, com certeza se deparou com memes e imagens engraçadas envolvendo pessoas com uniformes verdes e uma boneca gigante que permearam as redes sociais. Lógico que com um grande sucesso, indiscutivelmente vem as grandes críticas. Ou nem tão grandes assim, pois muito é mais como uma implicância gratuita fomentada por crenças exageradas e devaneios sobre mensagens ocultas escondidas em biscoitos.

A história toda gira em torno de Gi-Hun, um homem falido, que vive com a mãe idosa e sempre vive na pindaíba, ainda que aposte em cavalos mesmo devendo um dinheirão a agiotas e bancos. Tem uma filha, que mesmo amando muito e ela a ele, não tem condição de fornecer a menina uma boa casa e condições como a que o padrasto oferece. Gi-Hun em muitas atitudes pode ser até meio malandro, embora não propriamente mau, ele tem amor e empatia, se importa, mas é bem atrapalhado quando puxado para o mundo real que não


perdoa devedores e irresponsáveis. Nesse contexto, ele recebe um convite para uns jogos, sob argumento de que o ganhador teria um grande prêmio em dinheiro, todavia ao ver como é o caminho até lá, as coisas que se sucedem ao primeiro round e como os organizadores se portam, ele começa a repensar no quanto de fato vale o dinheiro e se compensa as submissões que teria que fazer para ganha-lo.


Assim como Gi-Hun, outras 455 pessoas atraídas pela possibilidade de um dinheiro ganho “facilmente” foram aos jogos, ali se pode encontrar pessoas novas, mais velhas, casadas, solteiras, homens, mulheres, alguns bem instruídos, outros simples, mas todos com algo em comum: o acúmulo de dívidas que faz com que se permaneça acordado durante a noite pensando em como será o dia de amanhã e quem vai bater a sua porta cobrando. Os jogos que compõe a competição de Round 6 são de cunho lúdico, brincadeiras antigas infantis, que podem até nem condizer com o público que ali está, que a princípio parecem fáceis, mas perder custa um preço alto: a própria vida do jogador.

Aqui começa a crítica: a violência. Logo no primeiro episódio, a cena de violência durante o primeiro jogo pode chocar os olhos mais, digamos, sensíveis. Pouco tempo depois da estreia da série, saiu uma reportagem sobre uma escola que enviou aos pais um comunicado avisando que não deviam deixar seus filhos assistirem Round 6, devido a violência contida nele e articulações, pessoas calculistas em nome de ter vantagem mediante a situação limite que vivem. Analisando isso e tendo por base muito do que se ouve hoje sobre escolas, fica a dúvida se isso realmente diz respeito a escola.

Quando eu estudava, Game Boys eram super comuns e mandaram um comunicado aos pais mencionando o joguinho, todavia isso ocorreu porque muitos meninos jogavam durante as aulas e o barulhinho incomodava e atrapalhava os outros colegas. Logo, se os alunos estão falando sobre e assistindo Round 6 durante o intervalo, não causando absolutamente nenhum dano ou atrapalhando o horário de aulas, talvez a escola não tenha quaisquer direitos de impor o que seus alunos devem ou não ver. Fora que não raro vermos pais afirmando que a escola em muitos aspectos quer “doutrinar” seus alunos, influenciando-os além dos limites de conteúdos escolares, enfim, coisas que não condizem com uma grade curricular de responsabilidade de uma escola. Logo, se os filhos estão assistindo Round 6, cabe aos pais permitir ou não, instruir se acharem adequado e auxiliar seus filhos a terem filtros.

Muito da crítica menciona a questão da tortura psicológica, todavia, consideremos o ambiente. Os jogadores estão ali, diante de um grande prêmio, mas também correndo risco de uma grande perda, o instinto deles sobre risco x benefício está aceso a todo instante, lógico que a tensão se faz necessária para dar clímax a história. Depois do choque do primeiro jogo, todos imploram para sair e estão


muito firmes em sua decisão, todavia, para dar mais pressão, é mostrada a quantidade de dinheiro dentro de um grande porquinho que fora acumulada até então, nessa hora, os que estavam tão seguros de quererem desistir, pensando nas dívidas e perrengue que havia do lado de fora, começam a balançar. Ao ser realizada uma votação para decidir se os organizadores liberariam, não é surpresa a quantidade de gente que desejava ficar.

Muitos começam sozinhos, logo se formam alianças de modo que se possa aumentar as chances de sobrevivência. Formam-se grupos para que troquem ideias, tracem estratégias, mesmo sabendo que ao fim apenas um pode ganhar, não significa que ao longo do caminho não se possa contar com pessoas que caminhem juntas até determinado ponto. A partir desse ponto, todavia, a individualidade retorna e o caráter e percepções é que falam mais alto. Em situações extremas, nas quais a sobrevivência fala mais alto, é comum se unir, mas depois traçar estratégias próprias. Retornando a questão polêmica das escolas, muitos dos que dizem que a escola está tomando domínios que não lhe dizem respeito, talvez por não gostarem de Round 6, seja pelo teor da história mesmo sem ter visto, seja por crenças ideológicas ou até mesmo por ser uma série de origem


coreana, são os mesmos que deram as mãos e razão concordando e até parabenizando a escola por alertar. Isso prova exatamente a mensagem que Round 6 passa nesse sentido: a de que você, em nome de uma vantagem, pode aceitar se aliar com alguém que discorde porque naquele momento é extremamente propício para você.

Muitos criticaram as brincadeiras relacionadas com a violência. Eu fiquei pensando seriamente nisso. Lógico que é algo meio tenso, mas ao mesmo tempo de um modo até meio mórbido, dá uma certa nostalgia, visto que são adultos brincando e cuja vitória vale algo maior do que um simples “eu ganhei”. Sejamos sinceros, que crianças brincam hoje em dia? Eu já vi crianças de um bairro da periferia brincando de um jogo que eu brincava, todavia elas o fazem não apenas pela diversão, mas pelas possibilidades. Vamos propor


um desafio: peguemos crianças de hoje e perguntemos a elas se conhecem 5, ou melhor, 3 (5 talvez ainda seja nível alto) brincadeiras de verdade. Brincadeiras que não envolvam vídeo game, televisão, celular, tablet ou quaisquer equipamentos áudio visual/ tecnológico, vejamos quantas conseguem mencionar brincadeiras diferentes dos clichês ou atividades físicas esportivas pagas. Crianças mais humildes brincam porque em grande parte não tem recursos para adquirir tecnologias e jogos eletrônicos, elas usam da criatividade para se divertir e gastam energia acumulada.

Ainda mencionando as brincadeiras, Gi-Hun em um dos episódios menciona várias brincadeiras e jogos ao seu grupo que podem ser usados na competição. Lógico que a tradução para o português de modo que fizesse sentido se fez necessária, todavia, todas as brincadeiras mencionadas são conhecidas por aqueles das antigas que costumavam brincar com seus amigos. Durante os episódios, os próprios jogos causam bastante reconhecimento e expectativa em quem um dia os jogou na infância e adolescência. O fato de se perceber que uma série que vem do outro lado do mundo possui jogos iguais aos daqui levanta questões até mais profundas, as de que talvez por mais diferentes que sejamos enquanto povos, no quesito


cultura podemos ter muitos pontos comuns, vindos de uma mesma origem, o que é um assunto que pra quem souber desenvolver dá uma dissertação de mestrado. Salientando sobre a tradução, a dublagem desta série foi algo de altíssimo nível e maestria, lógico que a voz máscula e marcante de Marcelo Garcia como Gi-Hun e outros nomes talentosos da dublagem brasileira deu um sentido a mais a série, todavia, impossível não dar esse crédito a esses profissionais que muito provavelmente tiveram que se adaptar a um idioma tão diferente.

Round 6 é uma série que fala de pessoas. Pessoas em seus mundos, pessoas com suas condutas e dificuldades próprias. Round 6 incomoda porque é real. Simples assim. Não é uma distopia com distritos e uma capital rica como Jogos Vorazes e crianças se matando por diversão e uma possibilidade de melhor comida, não tem um labirinto como Maze Runner ou uma tirania como Divergente. Tirando a parte de entretenimento da coisa toda, os


jogos, os organizadores meio bizarros e o sangue, ele trata de pessoas reais. Os jogadores não foram parar lá por um simples acaso, eram escolhidos a dedo conforme sua situação desesperadora. Tirando o fato de que os valores de dinheiro são meio exorbitantes, os personagens são coreanos, com aparência e língua muito diferentes, de resto poderiam ser pessoas facilmente encontradas em nossas cidades.

Pessoas que tem dívidas extensas, perseguidas, com medo, que lidam com situações humilhantes como o patrão que não paga o que deve ou pouca remuneração, o empresário bem sucedido que devido desvios de conduta se vê afundar na falência, a pessoa que faz empréstimos sem limites, até mesmo a questão dos agiotas, não


precisa cavar muito fundo para encontrar algum em bairros de várias cidades, aproveitando-se da necessidade alheia. Numa hipótese de haver um Round 6 no Brasil, ainda que fosse por metade do prêmio, haveria pelo menos o dobro de pessoas se candidatando. Um bom parâmetro são as filas que dão volta pra jogar na Megasena acumulada, todo fim de ano e que se repetem ano após ano.

Violência. Falam da violência. Muitos disseram que a violência é gratuita, que é chocante, cabe pensar se realmente este é o problema de fato ou apenas uma justificativa pra tentar criticar a série. Não faltam filmes de terror com violência psicológica/física, filmes de ação que balas voam de um lado a outro, com seus atores banhados se afogando no próprio sangue, vide os filmes de Tarantino. A violência e as mortes são de fato o problema? Até porque consideremos que vivemos no país em que seus habitantes mais


temem a violência e que ainda assim jornais tanto impressos quanto televisivos reservam um lugar bem especial para falar dela, em horário comum e com imagens explícitas, fora claro, o prazer nos compartilhamentos de WhatsApp nos grupos de família de cenas explícitas ou instinto de pegar logo o celular para gravar uma se vista na rua, logo uma violência em uma série não devia ofender tanto.

Muito da polêmica talvez se dê porque a série toca no mais profundo das relações humanas. Toca na questão das parcerias para sobrevivência, mas que podem ser revertidas rapidamente quando há dinheiro e individualidade envolvidos. Existe a questão de tirar vantagem se possível através de trapaças e “jeitinhos”, as pessoas são colocadas em confronto com seus próprios valores e fica claro que mesmo em situações limite, quem os tem de forma positiva


permanece com eles, ainda que adaptando-os, e quem tem tendência a falsidade não hesitará em aflorar isso. Mediante a quantidade de dinheiro, muitos se esqueceram dos que pereceram, muitos pesaram como era a vida fora da arena, no que iriam encontrar fora e pensaram nos jogos como uma possibilidade de mudar isso, movidos por desespero, por vazio, por falta de alternativa, por motivos envolvendo família e outras pessoas com as quais se importavam, motivos reais e palpáveis, facilmente encontrados em qualquer lugar do mundo, talvez até mesmo na sua rua.

Round 6 é uma série altamente recomendada, pode-se tirar lições incríveis dessa série, ela coloca nossos valores em conflito, nos faz ficar em desolação em como algumas coisas se desenrolam, não propriamente as cenas de violência, porém as que nos coloca de


frente com nosso interior, que envolve as relações familiares e nos toca de emoção. Afinal, pode-se até não querer brincar de Batatinha Frita 1,2,3, mas com certeza por se tratar de pessoas reais, nos veremos em seus personagens em algum momento e nos enxergaremos em seus conflitos, suas motivações, suas vidas e tentaremos responder as indagações que as cenas nos provoca.

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