“Onde estão o cavalo e o
cavaleiro? Onde está a corneta que estava tocando? Passaram como chuva nas
montanhas, como vento nos prados. Os dias sumiram no Oeste atrás das montanhas
para as sombras. Como isso foi acontecer?”
Talvez o sentimento do Rei
Théoden antes da fatídica Batalha do Abismo de Helm, onde por mais armados e
preparados que os cavaleiros fossem, estavam sem esperança de vitória ou êxito,
defina exatamente o que o mundo de modo geral está passando atualmente. O nosso
mundo, a sociedade de modo geral está enveredando por condutas que tem deixado
mesmo os mais céticos de cabelo em pé, não apenas pela intensidade, mas pelo
desligamento de coisas que justamente nos fazem parecer mais humanos.
O ser humano ainda é um ser
social. Não mais precisam depender de outro para a sobrevivência, mas ainda se
precisa minimamente do contato uns com os outros. O isolamento tirou isso das
pessoas. De muitos ainda mais, considerando que nem todos possuíam uma rede familiar
presente e companhia. O isolamento não foi apenas com relação a domicílios, mas
com relação a toda uma questão social que envolveu estudos, lazer, trabalho e
expectativas. Fora a questão da saúde que assustou o mundo, houve quem perdesse
seus sonhos, seus momentos, suas vitórias. E indiscutivelmente isso causa
efeitos tão nocivos quanto uma doença.
Aliás, as doenças mentais se
potencializaram no período mais crítico do isolamento. Elas foram o reflexo de
tantos sentimentos dúbios e contraditórios, o medo de algo desconhecido e ao
mesmo tempo a revolta por não poder ir contra. Foram noticiados inúmeros casos
de depressão e síndrome do pânico, brigas de famílias, cansaços... Afinal,
quando se fica em casa tanto tempo ao lado das pessoas, pode acontecer de repente
arestas que antes eram ignoradas começarem a aparecer de forma mais efetiva,
certas conversas a tanto adiadas sob o manto das ocupações diárias não mais
tinham desculpas ou fugas. As pessoas além de terem que lidar com os próprios
medos, precisaram lidar umas com as outras, o que de certa forma é muito mais
difícil do que parece.
E aí a pandemia passou. Veio um
vislumbre de esperança quando as coisas começaram a voltar a normalidade. As
casas e estabelecimentos abertos, as ruas aos poucos ficando cheias novamente,
todavia talvez tenha sido apenas isso: um vislumbre. Um raio de luz proveniente
de uma estrela que passou muito rápido e que mal deu tempo de apreciar seu
brilho por mais. Foi um alívio ver a pandemia aos poucos ir embora, todavia
veio a guerra no leste Europeu.
Guerras sempre trazem uma apreensão. As mundiais na história foram avançando lentamente, levaram tempo para atingir seu auge e também tempo para terminar. Contudo, os tempos eram diferentes, as tecnologias outras. O que não é o caso atualmente. Mal a guerra estourou, os repórteres já noticiaram para o mundo inteiro como os civis estavam fugindo, como as estradas ficaram abarrotadas e a todo momento a imprensa chagava ao território. Os preços e produtos usados mundialmente também dispararam, tornando um cenário que ainda estava se recuperando das consequências de a pandemia sofrer mais uma baixa.
Doença, guerra, problemas,
morte... Tantas coisas negativas jogaram sobre o mundo uma espécie de véu da
apatia. Apatia é definida como estado não suscetível de interesse ou comoção,
uma certa ausência de sensibilidade ou emoção. Não que os sentimentos se tornem
maus ou não mais haja capacidade de sentir pelo outro, mas é uma ausência desses
sentimentos. É como se muitos houvessem se tornado ocos, um interior no qual a
terra ficou estéril após tantas tempestades.
O mundo ficou tão interligado em
apatia nos últimos anos que dias antes festivos passaram pelas pessoas sem
causar a comoção capaz de tirá-las do estado inerte. Vimos tantas datas
comemorativas virem e irem sem que houvesse a alegria de outrora, era como se o
de repente as pessoas passassem a viver de lembranças. Memórias de um tempo no
qual tudo era mais leve, não havia cuidados excessivos nem o temor de que o
chão de repente faltasse debaixo dos nossos pés.
Como chegamos nesse ponto? Como
ficamos tão cansados de modo que não conseguimos nos tocar com as coisas mais
simples? A apatia e o cansaço são portas perigosas. Ainda que faça certas
coisas se ausentarem dos corações dos homens, escondem um perigo que se infiltra
e pouco a pouco insufla uma chama que pode queimar multidões. Foi percebido que
a falta de sensibilidade deixou todos a mercê de quem soube se aproveitar
disso. Vimos durante a pandemia e mesmo durante a guerra pessoas com ideias
absurdas ganharem notoriedade e se destacarem com ideias torpes.
É algo lógico de entender até. Pessoas cansadas abrem a porta da apatia, a apatia libera falta de energia para pensar e até mesmo reagir contra absurdos, logo foi um terreno fértil para os mais espertos
querendo notoriedade se criassem e brotassem. Foi notório o boom de pessoas que instruíam as outras nos mais diversos assuntos, alguns de fato traziam benefício, uma vez que auxiliavam na questão da saúde e também de clarear a mente, outros, no entanto se fizeram com informações falsas, difamatórias, humilhando grupos específicos ou disseminando/incentivando condutas torpes e ganhando legião de fãs com isso.
Sempre existe perigo quando a apatia se instala seja em uma pessoa seja coletivamente. Pode parecer inofensiva de início, mas ela é capaz de apagar a mais bela das luzes interiores. Mesmo que no nosso mundo hoje se tenha instalado certa apatia, certo cansaço devido a situação geral, não esqueçamos que sempre podemos ver uma pequena luz nos locais mais escuros e uma esperança brilhando pronta para ser achada em cada um. Afinal, mesmo que Rei Théoden estivesse apático e quase sem forças antes da batalha do Abismo de Helm, ele pôde contar com seus fiéis homens e juntos conseguiram encontrar a força necessária para vencer mais uma batalha.




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