quarta-feira, 6 de abril de 2022

A Apatia e Nós

 


“Onde estão o cavalo e o cavaleiro? Onde está a corneta que estava tocando? Passaram como chuva nas montanhas, como vento nos prados. Os dias sumiram no Oeste atrás das montanhas para as sombras. Como isso foi acontecer?”

Talvez o sentimento do Rei Théoden antes da fatídica Batalha do Abismo de Helm, onde por mais armados e preparados que os cavaleiros fossem, estavam sem esperança de vitória ou êxito, defina exatamente o que o mundo de modo geral está passando atualmente. O nosso mundo, a sociedade de modo geral está enveredando por condutas que tem deixado mesmo os mais céticos de cabelo em pé, não apenas pela intensidade, mas pelo desligamento de coisas que justamente nos fazem parecer mais humanos.

No início da pandemia do COVID quando todos ainda estavam temerosos, meio sem saber o que fazer, como agir, houve um boom de emoções e ideias quando as medidas para contenção começaram a ser tomadas. O isolamento definitivamente foi a pior delas. E ali vimos os revoltados liberarem o pior de si, os mais medrosos serem tomados pelos seus bichos papões e a sensação de impotência, tristeza e pesar se assolar sobre um mundo que passou a se conectar quase que exclusivamente de modo virtual na maioria de seus habitantes.

O ser humano ainda é um ser social. Não mais precisam depender de outro para a sobrevivência, mas ainda se precisa minimamente do contato uns com os outros. O isolamento tirou isso das pessoas. De muitos ainda mais, considerando que nem todos possuíam uma rede familiar presente e companhia. O isolamento não foi apenas com relação a domicílios, mas com relação a toda uma questão social que envolveu estudos, lazer, trabalho e expectativas. Fora a questão da saúde que assustou o mundo, houve quem perdesse seus sonhos, seus momentos, suas vitórias. E indiscutivelmente isso causa efeitos tão nocivos quanto uma doença.

Aliás, as doenças mentais se potencializaram no período mais crítico do isolamento. Elas foram o reflexo de tantos sentimentos dúbios e contraditórios, o medo de algo desconhecido e ao mesmo tempo a revolta por não poder ir contra. Foram noticiados inúmeros casos de depressão e síndrome do pânico, brigas de famílias, cansaços... Afinal, quando se fica em casa tanto tempo ao lado das pessoas, pode acontecer de repente arestas que antes eram ignoradas começarem a aparecer de forma mais efetiva, certas conversas a tanto adiadas sob o manto das ocupações diárias não mais tinham desculpas ou fugas. As pessoas além de terem que lidar com os próprios medos, precisaram lidar umas com as outras, o que de certa forma é muito mais difícil do que parece.

E aí a pandemia passou. Veio um vislumbre de esperança quando as coisas começaram a voltar a normalidade. As casas e estabelecimentos abertos, as ruas aos poucos ficando cheias novamente, todavia talvez tenha sido apenas isso: um vislumbre. Um raio de luz proveniente de uma estrela que passou muito rápido e que mal deu tempo de apreciar seu brilho por mais. Foi um alívio ver a pandemia aos poucos ir embora, todavia veio a guerra no leste Europeu.


Guerras sempre trazem uma apreensão. As mundiais na história foram avançando lentamente, levaram tempo para atingir seu auge e também tempo para terminar. Contudo, os tempos eram diferentes, as tecnologias outras. O que não é o caso atualmente. Mal a guerra estourou, os repórteres já noticiaram para o mundo inteiro como os civis estavam fugindo, como as estradas ficaram abarrotadas e a todo momento a imprensa chagava ao território. Os preços e produtos usados mundialmente também dispararam, tornando um cenário que ainda estava se recuperando das consequências de a pandemia sofrer mais uma baixa.

Doença, guerra, problemas, morte... Tantas coisas negativas jogaram sobre o mundo uma espécie de véu da apatia. Apatia é definida como estado não suscetível de interesse ou comoção, uma certa ausência de sensibilidade ou emoção. Não que os sentimentos se tornem maus ou não mais haja capacidade de sentir pelo outro, mas é uma ausência desses sentimentos. É como se muitos houvessem se tornado ocos, um interior no qual a terra ficou estéril após tantas tempestades.

O mundo ficou tão interligado em apatia nos últimos anos que dias antes festivos passaram pelas pessoas sem causar a comoção capaz de tirá-las do estado inerte. Vimos tantas datas comemorativas virem e irem sem que houvesse a alegria de outrora, era como se o de repente as pessoas passassem a viver de lembranças. Memórias de um tempo no qual tudo era mais leve, não havia cuidados excessivos nem o temor de que o chão de repente faltasse debaixo dos nossos pés.

Como chegamos nesse ponto? Como ficamos tão cansados de modo que não conseguimos nos tocar com as coisas mais simples? A apatia e o cansaço são portas perigosas. Ainda que faça certas coisas se ausentarem dos corações dos homens, escondem um perigo que se infiltra e pouco a pouco insufla uma chama que pode queimar multidões. Foi percebido que a falta de sensibilidade deixou todos a mercê de quem soube se aproveitar disso. Vimos durante a pandemia e mesmo durante a guerra pessoas com ideias absurdas ganharem notoriedade e se destacarem com ideias torpes.

É algo lógico de entender até. Pessoas cansadas abrem a porta da apatia, a apatia libera falta de energia para pensar e até mesmo reagir contra absurdos, logo foi um terreno fértil para os mais espertos


querendo notoriedade se criassem e brotassem. Foi notório o boom de pessoas que instruíam as outras nos mais diversos assuntos, alguns de fato traziam benefício, uma vez que auxiliavam na questão da saúde e também de clarear a mente, outros, no entanto se fizeram com informações falsas, difamatórias, humilhando grupos específicos ou disseminando/incentivando condutas torpes e ganhando legião de fãs com isso.

Sempre existe perigo quando a apatia se instala seja em uma pessoa seja coletivamente. Pode parecer inofensiva de início, mas ela é capaz de apagar a mais bela das luzes interiores. Mesmo que no nosso mundo hoje se tenha instalado certa apatia, certo cansaço devido a situação geral, não esqueçamos que sempre podemos ver uma pequena luz nos locais mais escuros e uma esperança brilhando pronta para ser achada em cada um. Afinal, mesmo que Rei Théoden estivesse apático e quase sem forças antes da batalha do Abismo de Helm, ele pôde contar com seus fiéis homens e juntos conseguiram encontrar a força necessária para vencer mais uma batalha.

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