No dia de hoje sendo o dia do
trabalho, não podemos nos esquecer do quanto essa data nos remete a esse ponto
primordial de nossas vidas. Afinal, o trabalho, nesse caso o remunerado, é
imprescindível para nosso sustento, conforto, segurança e por que não dizer,
dignidade. Sendo que a dignidade conferida a trabalho é uma via de mão dupla. O
trabalho dignifica o homem por ensiná-lo o valor do próprio esforço e o fruto
deste, do mesmo jeito que o homem dignifica o trabalho que faz ao demonstrar
que se há necessidade dele este deve ser valorizado, não a toa que desde os
trabalhos mais braçais aqueles mais intelectuais, o respeito aos que o executam
deve ser primordial. Ainda que haja toda uma discussão em torno do trabalho,
que fatalmente recai na vida profissional, imagem e no manejo dela, existe algo
tão importante quanto e que muitos embora não mencionem explicitamente, tem um
peso considerável e diria até paralelo ao trabalho/profissão: a vida dupla.
“Eu preciso disso, pão fresco, café, bolo quente, eu preciso de um ambiente familiar, preciso dessa vida dupla senão não aguento”. Essa frase meio que é um choque de realidade quando se pensa em quem a disse e no contexto. Em uma novela chamada Laços de Família, havia a complicada situação de Capitu e sua amiga Simone, ambas garotas de programa que precisavam esconder suas verdadeiras identidades e fontes de renda da família de Capitu, idosos altamente tradicionais. Embora assim o fosse, era Capitu quem bancava as despesas da casa com esta única porta profissional que se abriu para ela. Diz-se porta
profissional porque ainda que haja o estigma, hoje esta se tornou uma profissão como outra qualquer, tirando a parte dos direitos legais, não difere em termos de pagamentos por hora, descanso, horário de trabalho e os inúmeros livros dos que trabalham no ramo expondo os segredos desse submundo é prova de que não mais há tanto constrangimento em se falar sobre ele como uma vez houve.
Voltando para Capitu e Simone,
quando Simone diz que precisa desse ambiente familiar e de coisas ditas cotidianas,
não é por falsidade ou hipocrisia, é porque essa era a vida dupla dela. A vida
dupla de um profissional, seja qual for, é aquele lado dele que está
desvinculado de sua profissão, ao contrário do que a expressão possa sugerir, não é algo negativo. Simone como garota de programa já devia ver o
pior que há no ser humano, o mais primitivo em termos de excessos e abusos,
logo quando não estava em seu meio de trabalho, no dito “expediente”, é óbvio
que iria querer ver e viver algo mais leve do que normalmente encarava nas
horas em que estava trabalhando. Em suma, a vida dupla é a parte de sua vida pessoal
que aparece quando a parte profissional desaparece.
É muito comum vermos pessoas dizendo “minha profissional é um, minha vida pessoal é outra”, lógico, desde que sua vida dupla não envolva crimes, abusos com outros e excessos que possam de algum modo respingar em sua vida profissional, ela é imprescindível a qualquer trabalhador, pois ninguém consegue viver trabalho e ambiente profissional 24h por dia, incluindo quando sequer está no ambiente de trabalho. Na verdade, quando alguém tenta ou vive assim, aparecem as síndromes psicológicas, o
estresse, as doenças somáticas que obrigam o indivíduo a olhar para si mesmo antes que um estado de saúde mais grave o faça, não raros casos nos quais muitos só conseguem dormir bem ou até mesmo viver bem depois da aposentadoria, quando podem finalmente se voltar para a vida dupla tão negligenciada nos anos de trabalho. Os casos de profissionais afastados por estafa, com desenvolvimento de doenças crônicas graves ou que vivem sobressaltados são o claro exemplo daqueles que se recusam a ter vida dupla.
Outro ponto é que abraçam a sua sem culpas ou medos por vezes sofrem críticas. E em casos até risíveis, que em absolutamente nada influenciam em seus trabalhos todavia sofrem olhares de reprovação ou até mesmo chacotas. Pontos como viagens, fotos em trajes de banho, gosto por festas até determinados hobbies e beber socialmente mesmo que em casa com amigos e família para alguns torna-se algo que deva ser criticado, a expressão “isso não condiz com sua imagem profissional” por vezes surge nessas situações como se a pessoa estivesse cometendo uma grande falta, um crime, um disparate.
Sendo que é quase imperioso para a boa saúde do ser humano ter uma vida dupla, um momento pessoal dela no qual ela possa desanuviar dos inúmeros deveres, responsabilidades e regras contidas no ambiente do trabalho, porque sim, por mais importante e por mais que um indivíduo goste de seu trabalho e da rotina dele, existe um lado seu de leveza que precisa ser alimentado igualmente. E muitos criticam a vida dupla do outro quando esta se mostra como se não a tivessem também. Ou pior, como se o que o que o outro faz em sua vida dupla que por ventura mostra fosse tão diferente ou indigno do que o que seus críticos fazem na sua vida dupla que ninguém vê.
Devido a isso muitos hoje,
temendo comentários por coisas banais em sua “vida dupla” por vezes apelam para
perfis duplos em redes sociais, um profissional e outro pessoal, uma forma
encontrada para poder exercer o direito de ter uma vida dupla sem temer futuras
represálias. Cabe lembrar que é extremamente raro e difícil alguém conseguir
convergir essas duas linhas paralelas de vida dupla e vida primária, ou seja, é
muito difícil conciliar algo que em teoria não é trabalho com sua profissão,
raro, mas os que conseguem transpassar essa regra podem se considerar
verdadeiros sortudos, verdadeiros felizardos por poderem ter tal leveza
presente também no seu ambiente de trabalho, que sempre exige máxima atenção e
cumprimento de deveres.
Pode parecer estranho alguém
chamar a parte pessoal de alguém de vida dupla, dando a entender que é algo
escondido e ilegal. Todavia, nada mais é do que uma parte da vida que está
desvinculada de trabalho, que pode ser surpreendente aos que ouvem, embora diga
respeito muito mais ao indivíduo. A vida dupla não é algo que deva assumir esta
conotação de obscuridade, mas de discrição. Pegando o gancho do exemplo de
Simone, se formos ver as profissionais deste ramo, um exemplo mais extremo, tal
como as atrizes da indústria pornográfica, não parece no mínimo insano que mesmo
após o desligamento das câmeras elas ainda permaneçam ligadas a essa questão do
sexo? Como se além de trabalharem com isso se supor que elas apenas se divirtam
ou pensem nisso? Não. Elas tal como todos também tem vida dupla, elas não são
ninfomaníacas que mesmo após os filmes e estúdio fechado achem prazer e se
divirtam apenas com coisas que envolvam seu “objeto de trabalho”, atrás das câmeras
elas são pessoas como qualquer outra, saem, vão ao cinema, brincam, podem ter
hobbies como jogar videogame ou serem atletas, e diferente do que podem pensar,
ter uma personalidade totalmente diferente e atitudes totalmente diferentes das
estereotipadas para esse tipo de profissional. Logo, se para as pessoas deste ramo a vida dupla se faz
indispensável, necessária, imprescindível e totalmente presente, por que com
outros profissionais seria diferente?
Ter uma vida dupla é a garantia de que sua mente e seu corpo permaneçam sãos. Como dito, desde que não envolva nada ilegal ou ilícito, são formas de você exercitar sua mente com outras coisas que não envolvam trabalho. Óbvio que ele é importante e toda a responsabilidade desprendida a ele também, mas é necessário que haja para todos esse outro lado no qual há apenas leveza. Não a toa que em grandes empresas já apresentam programas de relaxamento durante o expediente, com alongamentos e danças, uma tentativa de colocar um pouco de suavidade em ambientes naturalmente cheios de dever. A presença dessa suavidade e reconhecer a importância dela é primordial para um equilíbrio na vida de qualquer indivíduo, afinal se não fosse importante, não se teria a hora do recreio nas escolas, mostrando desde cedo que por mais atenção que se tenha que ter nos deveres, um momento de descanso, leveza e sutileza é necessário para o rendimento.





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