A cena em que Constantine busca
uma resposta ou ao menos um consolo pelo seu trágico e inevitável destino e
recebe uma resposta ainda mais desoladora do Anjo Gabriel é um momento em que
quase sentimos nossa pequenez diante dos nãos da vida. Afinal, se até um anjo
fala de forma tão literal que você está ferrado não deve sobrar muito mais o
que acreditar no mundo.
Há muito escuta-se coachs, psicólogos, psiquiatras, influencers seja de nutrição, yoga e o que mais for falarem da necessidade do tal mindset, a mudança do pensamento e que você é aquilo que se afina e pensa, logo a importância de manter sua mente aberta para os pensamentos positivos tal como pensar
positivo sempre. O tal poder do Sim, eu posso que afirmam lhe dar a permissão para poder ser o que quiser e conseguir qualquer objetivo. Todavia, nesse processo talvez hajam alguns passos que são ignorados, especialmente os que se relacionam com o não.
A idade, experiências e convívio
com o mundo meio como que fazem perceber que os NÃOS estão aí, por vezes as
pessoas vão ouvi-los 100 vezes antes de ouvir um baixo Sim. Lógico que os que
persistem e tentam usar isso ao seu favor tendem a crescer muito mais do que os
que simplesmente desistem, todavia existe um nível de aprendizado com relação
ao Não que só é atingido quando não se tem mais medo dele.
Existem alguns estágios quando se está nessa trajetória de aceitar e entender os nãos da vida. O primeiro se relaciona a revolta. O que é muito comum, uma vez que é natural do ser humano projetar expectativas, daí por mais que se planeje com tanto afinco, com tanto cuidado, é muito provável que em algum momento as coisas não saiam como o planejado. Daí é natural que haja sentimento de revolta, como se algo tão carinhosamente construído fosse quebrado sem que se tivesse tempo ou possibilidade de evitar.
Indiscutivelmente, essa fase de revolta é muito própria de quando se é mais jovem. Aquele sentimento sempre de revanche e insatisfação pelas coisas não ocorrerem do modo como se quer. Muitos ainda não têm as percepções de ressignificar fatos adversos, então uma situação com a mínima aresta parece um sonho perdido de forma irreparável, algo que causa um rombo na alma que de tão doloroso é como se nunca fosse passar. Todavia o mais lógico é que com o decorrer do tempo as feridas cicatrizem e tudo que sobre seja os aprendizados e novas visões.
O segundo, conforme a evolução e amadurecimento ocorrem, vem o estágio da resiliência. Ela é definida como um sentimento no qual há uma aceitação sensata dos fatos que não podem ser mudados, mesmo que sejam negativos e causem sofrimento, o indivíduo se recupera desses fatos com melhor perspectiva. Existe um olhar diferente sobre tudo que ocorre, e
mesmo com machucados se mira
o lado melhor da situação. Existe uma visão mais limpa e clara das possibilidades, afinal, quem é resiliente consegue perceber como transformar as adversidades em diversidades. E com isso consegue trabalhar melhor seus próprios sentimentos em algo um pouco mais positivo. Não é imediato, mas o caminho torna-se mais fácil e menos penoso.
Terceiramente, vem a fase do otimismo/atratividade. Esse ponto é o que os coachs trabalham. Não que tenha algum problema em mencionar o quanto ser otimista atrai de fato coisas boas, é até usar a lei da física a seu próprio favor. Não há como atrair algo com o qual não se afine. Logo, existem estudos e métodos de como modificar as atitudes de modo que elas possam condizer com os pensamentos e sonhos, construindo desse modo a concreticidade do que antes eram apenas pensamentos. Válido e útil para que as pessoas possam se sentir capazes e enxergar seus pontos fortes. Todavia, a aresta principal é que por vezes essas mesmas pessoas ainda não passaram pelos outros estágios. Logo é difícil tentar mencionar otimismo para uma pessoa que sequer aprendeu como lidar com o não de forma mais leve e menos revoltado. Não que não se possa aprender, todavia algumas pessoas não podem pular etapas e precisam vivenciar o aprendizado passinho por passinho. Caso contrário, ao invés de absorver a importância de ser otimista, o efeito será o de se revoltar e achar que é impossível haver lados positivos e a tendência é se tornar alguém sem esperança.
Por fim, há o último estágio. Esse é só pra quem aprendeu sobre os outros, teve suas baixas e soube aprender com elas, pra quem aprendeu na prática, com observações, a custa de cansaços e lágrimas, em suma é alguém que conseguiu atravessar o deserto e chegou na terra prometida. É o estágio do abraço ao Não.
Quando se menciona abraço ao não, significa literalmente não ter medo dele. E vale para quaisquer outras palavras desse cunho. Não mais se tem medo de dizer ou até mesmo pensar as palavras “não”, “nunca”, “jamais”, “de jeito nenhum”, existe alívio em assumir que determinadas coisas ou situações
não virão a acontecer. Não se pode negar que para se chegar neste estágio, o primeiro passo é dolorido, é como abraçar um cacto no qual você sente a dor e até uma desolação, como quando existe uma vitória, mas essa vitória custou tanto de você, tanto de sua energia que ainda que tenha vencido você se sente drenado de múltiplas formas.
Todavia passado o primeiro momento dos espinhos e da vitória dolorosa, o alívio de assumir o não deixa o pesar de lado e gera certa tranquilidade. E tal tranquilidade vem justamente do fato de que interiormente por mais que o Não tenha sido incorporado, há uma maturidade de saber enxergar que este não para o X pode significar sim para Y. Quando se diz “isso nunca vai acontecer” com o desprendimento de medos do futuro e receios, imediatamente se começa a pensar no que se pode fazer em seguida, nas possibilidades existentes e em como transformar aquilo que foi negativo em algo afirmativo.
Daí é que vemos os exemplos de superação. Pois estes englobam todas as fases do aprendizado com o Não, podem ter a revolta, mas esta não dura nem um segundo. São resilientes porque veem o lado positivo, são otimistas porque já cultivam a positividade e abraçam o que lhes foi negado sem, contudo, ficar correndo atrás disso, tentam olhar para frente e perceber o que ainda pode ser seu e miram ali, sem culpas, sem temores, sem apegos ou lamentações. E quando se aprende a abraçar o não, quando se perde o medo dele, se consegue ter poder e domínio melhor sobre quaisquer adversidades.
O Não é algo que sempre estará presente na vida. Alguns dizem que haverá um maior peso dele do que de Sim, logo é até lógico que busquemos abraça-lo como a um velho amigo, sabendo que ele estará sempre em nossas vidas, mas que nós viveremos outras experiências nas quais ele não estará presente.
Tal como foi com Constantine, ele podia até estar ferrado com os pulmões tomados pela doença, condenado ao inferno, todavia quando ele abraçou todas essas negativas, eis que conseguiu sua redenção. Não é tão abstrato no mundo real, mas ainda assim um ótimo exemplo a se pensar.







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