quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Somos todos Andy Dufresne

 


“Quando o imaginei indo pro Sul em seu carro de capota arriada, me deu vontade de rir. Andy Dufrene que rastejou por um rio de bosta e saiu limpo do outro lado. Andy Dufrene indo para o Pacífico...”

Alguns filmes são clássicos. Há muito que define um clássico, por vezes é a inspiração em um livro, uma visão do autor, uma lição dada ou tudo junto. Stephen King tem uma estranha sorte de além de ter filmes bons, esses gerarem adaptações muito boas. Adaptações que sobrevivem às décadas e por mais que sejam refeitas, por mais que tenham o toque tecnológico, sempre há aquele quê de clássico. Muito provavelmente porque as obras geram reflexões e questionamentos, e lições que são pra serem lembradas e nos tocam de algum modo, mesmo que jamais tenhamos vivido uma situação como a dos personagens retratados.

Uma dessas histórias é a do filme Um Sonho de Liberdade. É possível sentir como o ambiente de uma prisão pode ser hostil, tenebroso e sim, injusto em muitos casos, mesmo que este filme se passe nos anos 50, a energia de disciplina, rotina e sentimentos de todos os presos pode ser palpável. Todavia, isso é um pano de fundo para um assunto mais profundo: a questão das injustiças.

Muito embora os personagens que ali estão cumprindo pena tenham de fato feito algo errado e sofrido as penalidades da lei, há um que foi vítima do sistema. Andy Dufresne foi condenado a perpétua pelo


assassinato de sua esposa e seu amante, todavia o que ocorreu de fato foi uma sucessão de erros e provas mal alocadas, que direcionavam para Dufresne, a típica situação de estar no lugar errado na hora errada e ser punido pelo que poderia ser chamado de azar.

Ainda que ele estivesse preso injustamente, sofrendo todas as agressões não somente dos carcereiros, mas também de outros presos, ele mantinha uma positividade e procurava passar isso a outros com quem criou afinidade. Ele era um banqueiro respeitável, um homem de bem no sentido de ser correto e não quebrar regras, comparado com os outros ali, tinha mais instrução e cultura até mesmo do que os homens que o mantinham encarcerado, todavia em nenhum momento se mostra superior ou arrogante, pelo contrário se mostrou proativo melhorando o ambiente para todos.

A atitude que se pode dizer antecipadora chamou atenção dos superiores que viram nele alguém que poderia ser aproveitado de outra forma, que não os trabalhos braçais. E considerando o conhecimento intelectual de Dufresne, não demorou para que ele fosse coagido a entrar em esquemas escusos. Muito embora ele o fizesse conscientemente, a intenção não era maléfica, visto que ele não recebia absolutamente nada em termos de lucro, talvez proteção e algumas melhorias para seus companheiros, mas interessante notar que ele manteve sua dignidade e percepção do que era, de seu caráter até o fim. “Engraçado que lá fora eu era um homem correto, reto como uma flecha, precisei ser preso para virar um bandido”. Ou seja, ele sabia do que fazia de errado, mas tinha a consciência de seu verdadeiro eu quando olhava para si.

Dufresne tinha planos para escapar e ao fim consegue seu intuito. Ele consegue usar as falcatruas nas quais estava envolvido contra os próprios cabeças destas. Como o esquema envolvia lavagem e desvio de dinheiro, ele nada mais fez do que usar o fantasma que havia criado para sacar o dinheiro que


segundo ele era “seu salário por 19 anos de serviço”. E o estopim para a decisão da fuga foi perceber que ele jamais sairia dali. Primeiro porque o diretor não abdicaria de fonte tão rentável e segura nem de alguém que fizesse um trabalho tão meticuloso a ponto de os rastros serem imperceptíveis e segundo porque quando a oportunidade de sair surgiu na forma de um rapaz que tinha toda uma vida pela frente quando cumprisse sua pena foi assassinado a mando do diretor por um guarda corrupto quando veio à tona que o rapaz poderia através de um testemunho revelador inocentar Andy. Ou seja, alguém perdeu a vida e chance de recomeça-la.

Andy movido pela revolta não propriamente pela desonestidade financeira, mas pela desonestidade envolvendo valores morais torpes de saber a verdade, mas modifica-la e usar de poder para fazer parecer mentira, deu o impulso para de algum modo perceber que fugir de uma pena da qual ele era


inocente não era mais desonesto do que tudo ao que o diretor o estava submetendo. Daí a frase que ele rastejou pelos esgotos até conseguir fugir completamente. E rumar para sua liberdade definitiva em uma cidade do México perto do mar onde ele deixaria tudo pra trás.

O mundo gosta de uma história onde os personagens são puramente humanos em suas virtudes e condutas, e ainda assim no fim conseguem dar um tapa nas injustiças que os acometem. Curiosamente a motivação não é algo material ou riqueza ou poder em muitos casos, mas algo puramente intrínseco, algo de cunho emocional, sentimental seja com relação a si mesmo ou com outro. Algo muito parecido foi visto em Quem Quer Ser um Milionário. Jamal era um garoto pobre que possuía um grande amor com quem sonhou em se reencontrar durante a vida toda, após múltiplos desencontros. Havia pessoas poderosas também envolvidas que configuravam empecilhos, fora os desafios de percurso que envolviam sua história de vida difícil.

O modo que ele achou de poder ter uma notoriedade e conseguir chegar em seu amor Latika foi participar de um programa de perguntas que poderia lhe render dinheiro. De início houve suspeita de fraude, afinal, como um rapaz jovem, pobre, sem muita instrução poderia ter chegado tão longe em


um jogo no qual intelectuais não haviam chegado nem perto da pergunta final? A resposta foi simples: ele usou a própria adversidade da vida na qual aprendeu coisas que davam as respostas corretas. Ao ser interrogado, ele sequer parecia interessado no dinheiro, o que considerando sua condição seria o que lhe faria ficar tranquilo para sempre, surpreendeu as autoridades perceber que o motivo singelo: para Jamal, Latika estaria assistindo.

Não surpresa ele consegue uma fortuna e seu amor para viverem finalmente em paz. Todavia, o olhar dele mesmo sendo um milionário é de tranquilidade por ter a pessoa que ama e emana uma serenidade que estava pautada em ter conseguido seu intuito, independente das coisas materiais. Dufresne também saiu no fim com uma pequena fortuna, mas só consegue paz mesmo em um local simples a beira mar, com roupas simples de trabalho, uma lancha velha e a companhia de seu melhor amigo.

Muito provavelmente essas histórias cativam porque as pessoas gostam do chamado “cachorro de favela”, é aquele cachorro que passa por maus bocados, não têm pelo brilhante, vive na pindaíba tentando achar comida, passa por dificuldades, mas uma vez adotado, será o cão mais fiel, mais feliz e mais doce que se pode encontrar. Personagens que passam por toda uma sorte de adversidades, mas


conservam seus valores, sua doçura e preservam sua essência mesmo com tanta coisa que poderia mudar isso, traz esperança. Ao assistir esse tipo de personagem nossa esperança é renovada, algo bom é desperto dentro das pessoas, uma sensação de que a injustiça existe, mas se manter íntegro vale a pena.

No fim, seja como Jamal ou Dufresne, vale a pena se preservar. São os personagens humanos e ´possíveis de se encontrar nas esquinas, nas ruas e que mesmo sendo das telas, nos fazem acreditar que o mundo é de fato um lugar bonito como seus finais e mantém essa chama viva, afinal como o próprio Dufresne diz: e esperança é uma coisa boa e nada que é bom pode morrer.


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