Quando eu era criança, um dos sonhos era ser uma sereia. Por isso que eu adorava A Pequena Sereia da Disney, assistia sem parar, fazia desenhos e achava ela até uma tremenda boba de ter trocado a cauda e o mar por um par de pernas. Quando o Live Action foi anunciado, começaram campanhas por causa da cor de Halle, a atriz que faz Ariel. Foi surpreendente uma atriz negra fazer o papel, até para mim foi, não nego, contudo meu pensamento era: cara, é uma sereia, a sereia da Disney, como não ficar incrivelmente fascinada?
Pra começar importante mencionar as críticas ao visual da própria Halle, o fato dela ser negra era apenas um detalhe. Falaram dos dreads nos cabelos dela e a cor vermelha. A palavra “ruivofobia” chega a ser ridícula pois o vermelho da Ariel não é natural, uns pimbudos queriam insistir mencionando a data da história, pois bem, o livro não faz qualquer menção a cor do cabelo de Ariel, não menciona sequer o nome dela. E há o fato de que ela sequer teria cabelo vermelho, mas loiro, a troca de cor foi devido a confusão que poderia se fazer com Madison, outra sereia precussora. O cabelo vermelho de Ariel não é ruivo, mas vermelho sangue, do mesmo tom de cabelo da Meera e condizente com qualquer tom de tinta dessa
nuance. Um tom que gerava muito preconceito inclusive por ser berrante. Tons de ruivo natural são puxados para laranja como o da atriz Marina Ruy Barbosa ou um vermelho fechado como da família Weasley em Harry Potter, o tom vermelho de Ariel pe tão natural quanto o vermelho do cabelo da Arlequina. Portanto, no caso de Halle, os tons de vermelho (porque seu cabelo tinha três tonalidades) se mesclavam com castanho e eram condizentes com o tom de pele da atriz, logo ficou algo adequado.
Passando para o começo do filme em si. Os Lives Actions servem para tapar buracos, dúvidas, sanar coisas mal explicadas dos ditos originais e também há a liberdade criativa de acrescentar coisas que se julgam pertinentes. Contudo, vez ou outra acabam aparecendo carências de alguns pontos. Talvez uma enfatização de Atlantida e do Rei Tritão com maior imponência tenha sido algumas dessas carências, afinal, cidades aquáticas são fascinantes e um live action poderia ter
explorado isso de forma maior que os gráficos do desenho. Todavia a carência de Atlântida foi um pouco compensada no visual das outras filhas de Tritão, e até mesmo em esclarecimentos sobre a origem delas e detalhes sobre a mãe das sereias filhas. Era dito que cada uma representava um mar e ao observar a aparência delas, suas cores e diferença nas caudas, na percepção de etnias, isso foi deveras interessante. A questão dos navios naufragados também foi abordada, e de uma forma que consegue-se perceber o ponto de vista do povo dos ocenaos e a repulsa pelos humanos.
Mesmo que Atlantida não tenha recebido uma aparência imponente, a canção “Aqui no Mar”, uma das carro chefe do filme foi pura nostalgia, os trailers deram uma pitada do que seria, mas ela inteira foi fenomenal. Toda a diversidade da vida marinha que há no original e vivacidade das cores foi representada com muito louvor, não se pode deixar de mencionar que o dublador Yuri Chesman fez um trabalho que contribuiu e muito para o sucesso da cena, o dublador de Sebastião na animação já é falecido, todavia pode se orgulhar onde quer que esteja pois foi substituído a altura. Considerando Sebastião, Linguado e Sabidão, de fato a aparência dos amiguinhos de Ariel poderia ser deveras melhorada, claro que era preciso manter um certo realismo dos animais, todavia poderia haver um tom mais especial visto que eles são os fieis escudeiros da protagonista e sabe-se o quanto os bichinhos tem um lugar especial quando se trata de princesas.
Saindo do mar e indo para a terra firme, o príncipe Eric se mostra aventureiro como no desenho. Muitas críticas foram feitas a atuação de Jonah Hauer, com relação a sua expressão, muitos inclusive de forma até desonesta pegaram takes de expressões deles em cenas aleatórias para dizer que ele estava “sofrendo” ao contracenar com uma Ariel negra, quando na verdade ao se ver o filme inteiro percebe-se que o rapaz tem seu próprio jeito de atuar, um esforço, todavia ainda falta um certo peso em suas expressões. Algo de positivo pôde-se notar todavia. Eric enquanto príncipe na época foi um digno colírio da capricho, uma espécie de sex apeal masculino, suas expressões e o formato de seu rosto associado com a voz grave do dublador Garcia Junior davam um toque até adulto ao rapaz que devia ser pouco mais que um adolescente. No Live Action, o rapaz assume não só
expressões inocentes como também atitudes até infantis, a impulsividade, a rebeldia de ir contra as ordens da mãe, algo bem comum de um jovem de 18 anos. A novidade ficou por conta de uma música própria e mostrando um lado mais pessoal de Eric, como sua curiosidade para colecionar achados e pelo conhecimento, algo que foi bem colocado, já que o príncipe do desenho tinha em grande parte o sex apeal. Leve spoiler para a forma como ele descobre o nome de Ariel, fez muito mais sentido no live action e cobriu um buraco deixado no desenho.
Talvez a função dos Lives sejam exatamente essa: cobrir certas coisas mal entendidas e tornar tudo como o próprio nome diz, mais próximo de nós. Os detalhes do reino de Eric denotaram maior singularidade, no desenho apenas se via o castelo, uma costa, sem mostrar muito de seu povo ou como viviam. Lógico que quando as imagens sairam, não faltaram mais comentários de preconceito, na tentativa de que a intolerância se imiscuisse e parecesse algo de pouca qualidade, fizeram correlações com períodos escravagistas devido ao visual das roupas e
cenário, todavia isso no longa e em esclarecimentos posteriores se esclarece. Ora, é uma ilha tropical, as roupas são leves, tudo é muito colorido, as flores e frutas denotam um clima quente, assim se supõe que a ilha do príncipe seja em uma região tropical e zona de câmbio/tropical, logo diversa, com pessoas de diversas raças e cores, ficou muito mais rico olhar para este lado e acrescentar isso.
A caracterização dos personagens e figurantes também foi alvo de polêmica, todavia, a média foi boa de um jeito ou de outro. Mencionaram Úrsula e sua maquiagem, uma pseudocrítica do youtube afirmou que “ela não metia medo”, pois bem, a personagem Úrsula originalmente foi inspirada em uma drag queen, logo a prerrogativa da personagem não é ser assustadora, mas exagerada,
dramática, interpretativa, sua presença não é pelo susto mas pela exasperação. Ela em si tem uma presença que ocupa o espaço, seus tentáculos são expressivos e aliados com seus gestos e palavras sedutores a tornam persuasiva até mais do que se tivesse o tal canto da sereia, não a toa que consegue convencer os “corações infelizes” de negociarem qualquer coisa para ter o que desejam. Nesse ponto, Úrsula foi mais que acertada.
A Pequena Sereia Live Action foi no que se propôs, um acerto. Apesar das críiticas mal disfarçadas, é um filme bonito, colorido, que nos faz lembrar sim do antigo se abrirmos um pouco mais os olhos e corações, conseguimos imergir nesse mundo e sentir de novo aquela energia do mar, ficamos ao fim não só com o gostinho de querer ir a praia, mas pensando em quais outros lives ainda vem por aí.
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