Não é segredo o quanto as palavras
dos influencers hoje em muito são perniciosas, egoístas, oportunistas e
distorcidas nos mais diferente níveis, todavia devo admitir que um deles disse
algo muito pertinente no final do ano passado. Segundo ele, na época do ano
novo todos estão cheios de planos, pensando no que fizeram no ano que passou e
cheios de expectativas, contudo justamente por isso que não se deveria fazer
planos para o ano que vai entrar.
Afinal, esse estado de confraternização,
de amor ao mundo, de súbito surto de clareza, humanidade e energia renovada não
é o padrão, estão todos contagiados pela energia natalina e familiar, porém
passada a primeira semana, logo após o dia 05, começa a bater o velho cansaço e
vontade de deixar tudo pra depois. Aí o entusiasmo para os exercícios e a vida
fitness já não são mais os mesmos, aquela velha arrumação do guarda roupa e
mudança de estilo pode esperar e por aí vai. É semelhante aos cadernos novos
dos estudantes, no momento em que saem das papelarias estão ali, branquinhos,
novos, com aquele cheiro inebriante e rola um juramento silencioso de que a
dedicação será impecável e serão alunos diferentes, mas passada a quinta
página, o cheiro não é mais o mesmo, já tem folhas amassadas, riscos na capa e
o caderno não é mais ou não parece mais tão novo como antes.
Rola o mesmo com as promessas,
segundo o tal influencer, não se deve fazer promessas antes do começo do ano de
fato, afinal só quando você volta ao seu padrão é que começa a verdadeira
análise do quanto se quer de fato alguma coisa. Do quanto sua vontade é forte e
do quanto está disposto a persistir nisso. E como se diz que o ano só começa de
fato após o carnaval, talvez essa reflexão não tenha hora mais pertinente do
que agora.
Indiscutivelmente parece que o
tempo está passando mais rápido. Parece que a semana em muitos momentos é
interminável, mas a páscoa chega em um instante. E aí deve vir o
questionamento: o que estamos fazendo com esse tempo afinal? Será que agora,
passadas as luzes coloridas e o carnaval, a folia, a energia de que ainda se
estava no clima de festa consegue-se ver de forma clara o que se quer de fato
para o ano que está começando? Quais os objetivos e o quão se quer permanecer
neles?
Os anos anteriores ainda foram
bem nebulosos. Tal como um mundo que precisou se reerguer após as grandes
guerras, se precisou de uma recuperação após o COVID 19. Algumas adaptações
permaneceram como características permanentes, vimos faces sendo reveladas e
percebeu-se que o povo pode ser mais ignorante do que poderia se pensar. Daí
começa um novo ciclo no qual se questiona o que realmente se quer para este
novo mundo reformado.
E lógico que isso influencia nos desejos e planos da população. Ao perceber como muitas conjunturas mudaram, muda-se também as perspectivas de emprego, de carreiras e estudo. Com a desvalorização de determinadas profissões, muitos mudaram suas perspectivas com relação ao estudo e ao que desejavam
por trabalho. Influencer foi um trabalho que virou sonho de muitos, ao ter a noção de que se está falando algo de que goste, que se pode ganhar dinheiro com outros ouvindo criou-se o imaginário de que estudos e intelecto não são mais tão necessários, gerando uma onda de pessoas iludidas. Será que estes têm noção de onde estão se metendo? Será que vão dedicar seu ano novo a isso e esquecer de outras possibilidades mais seguras?
Da mesma forma como muitos se
iludiram com relação a trabalho, os relacionamentos viraram alvo. De forma
muito comum, se faziam pedidos para se achar a chamada “alma gêmea” no ano que
estava entrando. Hoje, muitos fazem questão de dizer que querem longe. Seja
porque perceberam que dentre as opções disponíveis nenhuma agrada e não se
submetem a qualquer coisa, seja porque há raivas mal resolvidas, traumas não
trabalhados e se estende más perspectivas a uma totalidade, seja porque
simplesmente não sente necessidade de dividir a vida ou há uma pura incapacidade
de tal, fato é que muitos não querem um relacionamento. Entretanto, se fosse só
o fato de não querer, isso é uma escolha pura e pessoal, mas tudo muda quando
esta escolha passa a ofender um grupo terceiro, com insinuações e acusações,
fazendo parecer que sua escolha deve se estender a uma totalidade de pessoas,
como que dando a entender que a escolha delas por ser diferente é inferior a
sua.
Com isso vimos esses grupos dos
pills, ou como já vi “supositórios vermelhos”, que transvestem suas ideias de
“valorização masculina” de puro e simples preconceito, grosseria e
intolerância, crendo-se no direito de despejar todo tipo de ofensa aos
discordantes. Se fosse somente a questão de relacionamentos, não é propriamente
uma novidade, já que muitos livros desse tipo foram lançados em décadas
passadas, mas tal atitude tem sido vista nos mais diferentes assuntos, desde
opção de mulheres por carreira ou ficar em casa, religião, hobbies, virou uma
verdadeira guerra de ideias ao invés de partilhar e demonstrar elas.
O ano de 2024 começou mas em muitos aspectos carrega a velha energia de seus antecessores. Como se de repente a sociedade, especialmente a brasileira, tivesse entrado em uma fenda do tempo, a qual tem looping eternos das mesmas situações, dos mesmos clichês, apenas com pessoas diferentes, assuntos diferentes mas em atitude tudo permanece. Muitos tentaram e tentam através do caminho da elucidação demonstrar que enquanto sociedade podemos evoluir, mas ainda é um trabalho de formiguinhas.
E aí volta-se para o questionamento
do início. Agora quais são realmente os planos das pessoas? Será que em uma
sociedade tão partida e cheia de dicotomias, pode-se sonhar com um mesclado de
ideias ao invés de apartheid delas? Será que se pode levar a velha noção de
respeito, tolerância e coisas novas adiante, ao invés de mais um ano repetindo
os mesmos erros, as mesmas falhas para que em dezembro de 2024, ao ouvir a
musiquinha deprimente de “e o que você fez?” só reste arrependimento e sensação
de tempo perdido? Se quisermos que seja diferente, seja o projeto verão de
emagrecimento, seja uma guinada da vida, tudo começa mesmo pelos planos, por
uma vontade que vai permanecer conforme a disciplina for sendo trabalhada.
Afinal, desejos, planos, as vontades e pedidos ao pular as sete ondas todos
tem, mas é a força de vontade e disciplina de regar tudo isso dia após dia,
mesmo depois da energia do ano novo, é que determina o sucesso.


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