Esse é um post sobre
educação...
Esse mês saiu o resultado do
vestibular na minha cidade. Aqui se pode dizer que há uma exclusividade na
comemoração, existe uma música que é trilha sonora única para este dia, todo um
ritual que envolve quebrar ovos, trigo, colorau, laçarotes de jornal na cabeça
das meninas, buzinam quando passam diante de uma comemoração mesmo que não
conheçam quem passou. Aqui é uma mudança de status, é como passar pelo guarda
roupa de Nárnia rumo a um novo mundo, não raras histórias de filhos de
bombozeiro e bicheiros que conseguem a vaga e todos sentem intimamente o que
isso significa. É uma chance. Me fez pensar em como a educação está sendo vista
atualmente. Não é segredo pra ninguém que no nosso país ela é um privilégio e
bem exclusiva. Sofria reveses variados. Um deles pela própria questão de falta
de políticas públicas, materiais e ensino de qualidade, presente até hoje e
também claro, por aqueles para os quais era vantagem que parte da população
permanecesse nesse nicho da falta de instrução, comumente os que se valiam dos
serviços dessa fatia populacional. Já foi até retratado em novelas... a filha
da empregada era uma potencial futura empregada, o filho do jardineiro virava
motorista, dificilmente havia aqueles que gostariam dos serviços em um nível
superior, pois isso significaria pagar mais caro. Então, que ficassem
restritos.
Hoje as coisas mudaram e muitos acessos foram possíveis, todavia o revés se dá de outro modo, disfarçado, distorcido, parece inocente mas ganhou força, os reveses hoje (em parte) se chamam influencers e cocoachs, como já vi. O conhecimento no país já é restrito e considerando muitos seguidores, estes ainda se dão ao luxo de serem idiotas, mesmo com o
privilégio do acesso desvalorizam a formação superior, o conhecimento, a ciência, incentivando a disseminação de conhecimento promíscuo sem filtro ou moral alguns. Há os deslumbrados que se impressionam com carinhas bonitas. Tipo o rapaz com um nome e sobrenome estrangeiros que diz ter ficado milionário sem nem ter concluído o ensino médio e fala que a universidade é uma farsa. De forma muito comum (e conveniente) existe uma lacuna na história do ganho milionário baseado no “trabalho com internet”. E de forma até imoral faz parecer que o ensino superior é um desperdício e quem nele ingressa viverá uma vida medíocre, tudo enfatizando a fortuna feita “sem universidade”.
Vendo isso e percebendo o que
essa “farsa” significa pra pessoas mais vulneráveis em termos de acesso a uma
vida melhor é no mínimo indignante ver a concordância. A região Norte é
vulnerável. Não só pela imagem estereotipada de índios e onças na rua, mas pelo
histórico econômico e social que perdura em muitos aspectos, essa “bobagem” de
universidade foi o que possibilitou muitas pessoas de mudarem suas vidas e de
suas famílias, quebrarem ciclos de pobreza e terem chance em seu próprio lugar.
Só que é aquilo: não dá pra esperar que um menino branco, de uma região
historicamente bem desenvolvida, o qual mal deve saber o que acontece do lado
de fora da janela de seu suposto carro importado, vá entender isso: o que pra
uma população vulnerável significa uma chance de quebrar paradigmas.
Daí se um diz que a universidade é uma farsa, existe os que são farsas em si. Não formados em absolutamente nada, desde pedreiros a uber (não desvalorizando tais profissões), produzem conteúdo de uma área na qual não tem graduação e ainda menosprezam a educação e formação de fato. Comumente ocorre com indivíduos ditos religiosos. Disseminam ensinamentos preconceituosos sobre condutas, o que é certo ou não com base na Bíblia e ao mesmo tempo querem pautar seus artigos em bases “científicas” distorcidas,
sem sequer saber os mecanismos de como se faz uma referência científica. Ou seja, quer cativar os carolas do fã clube conservador e tradicional porém sem ao mesmo tempo parecer burro. Guloso o influencer, não? Quer agradar ambas as cozinheiras para ganhar mais sobremesa. E nisso escarnece de profissionais sérios, lucra, compra paraísos na colina, bens e segue incentivando que a educação superior é mixa, todavia se valendo dela nas partes mais convenientes. Dar palco para este tipo de indivíduo é como dar seu coração para ser operado pelo açougueiro só porque ele tem experiência em cortes ao invés do cardiologista porque acha que conhecimento teórico é dispensável. Tal como alguém que se acha tão superior a ponto de dizer que você não precisa de educação ou se crê tão incrível a ponto de disseminar coisas sem ter tido uma aula sequer.
Fora isso existem os que
ganham dinheiro de forma literalmente abjeta: elencando um grupo para ser
vítima de falas preconceituosas. Um dos alvos principais são as mulheres.
Sempre tem alguém que colocá-las como interesseiras, carreiristas, pessoas
ruins e lógico que vai haver um grupo de sequelados, que talvez não conseguiram
ressignificar seus traumas, com mórbido prazer em acompanhar o bonde. E
promover lucro pro influencer benfeitor que lhes fez o favor de “abrir os
olhos”. Em uma sinceridade despudorada: no Brasil já se teve notícias de
fortunas feitas com pedofilia, prostituição, abuso sexual e exploração de
menores, tráfico de variados tipos e mão de obra ilegal, sendo um país machista
(e fofoqueiro) em nuances terríveis, não é até óbvio que um rapazinho que fale
mal de mulheres também não vá ter seu quinhão? Assim como outros do mesmo buraco
fétido e mesmas ideologias também?
Todos os dias saem na rua o
malandro e o mané. O mané pode até não o ser pro malandro X, porém nada impede
de o ser para Y. e quando se encontram, dá negócio rentoso pra influencer
torpe. E de modo curioso, muitos destes usam o conteúdo de outros influencers
como exemplo do que não seguir, como se o lucro não fosse feito da mesma forma.
É como se o traficante de crack para quebrar o negócio do traficante de pó
começasse a fazer campanha anti-drogas. A regra devia ficar clara: não importa
o gênero, se o conteúdo for infame, o filtro deveria ser aplicado sem
pestanejos.
Até que nesse angu existem os influencers com instrução de fato. Pessoas cultas e instruídas, que felizmente usam o conhecimento para o bem, para o chamado impacto positivo na sociedade, seja fazendo receitas, com atividades manuais ou prestação de serviços úteis todavia há os que ainda que entendam o valor da educação, em nome de seus personagens criados nas redes, disseminam que o melhor é a internet em sobreposição a um trabalho regular fora dela. “Um emprego de 8h por dia é medíocre”, trabalhar para “outros” é
perda de tempo e todas estas falas sendo disseminadas de forma irônica e antiética. De forma muito pessoal, jamais foi visto nenhum destes senhores não fazer uso (e muito bem) dos serviços “medíocres”, com cartão de ponto, horário definido e contra cheque. Desde as cozinheiras que fazem sua salada proteica, os médicos que cuidam de sua saúde, da sua família, fazem partos e prescrevem dietas, se passarem mal quem prestará socorro serão os medíocres com escalas de 8, 2 até 24h do atendimento móvel, se tiverem problemas com a lei, os medíocres advogados com suas jornadas; para decorar a casa ou fazerem edições em seu conteúdo digital, os designers com seus estúpidos diplomas, ou seja, trabalhar para os outros é medíocre desde que os outros sejam literalmente “os outros”.
Entretanto como eu disse, é um
post sobre educação
O que todos estes influencers
e cocoachs tem a ver com os vitoriosos vestibulandos?
Simples: ao demonstrarem sua falta de ética e atitude rasteira com conteúdos disseminados na rede é como um escárnio ao verdadeiro conteúdo e educação. O influencer que só sabe falar mal das mulheres ou quem que seja, engorda a ilusão dos 75% de jovens que dizem querer ser influencers e talvez não fazer uma universidade, crendo que se pode ganhar a
vida fazendo esse tipo de coisa. O Brasil é um país materialista, ao que parece, desde que haja muitas garoupas envolvidas, uma boa parcela não quer saber de onde vem, sem se importar com os valores morais que permeiam a situação. Ainda que isso possa custar dignidade e a possibilidade de conhecer realmente o significado de satisfação pessoal.
Seja o cara pedreiro que se
acha psicólogo, o truncado fitness que se crê terapeuta de relacionamentos, o uber
que pensa conhecer as leis, o moleque com carro importado que ludibria dizendo
que fez milhão, todos jogam lama na carreira de pessoas que se esforçaram e se
esforçam por uma carreira dentro de moldes honestos e éticos. A educação no
Brasil é algo que sempre possuiu restrições. O acesso a ela para muitos
significa sair de uma realidade e passar por uma porta estreita rumo a outras possibilidades.
As dificuldades no acesso
começam na própria falta de políticas públicas, ensino e material de qualidade
para todos e claro, não se pode deixar de mencionar que era vantagem para os
que tinham sob seu domínio pessoas em um ciclo de ignorância permanecessem
assim, afinal, seus filhos seriam fortes candidatos a perpetuar o ciclo em posições
de subjugação ao invés de uma ascendente.
Combater esses cocoachs é
fazer com que seja freada a forma vulgar e abjeta com que a educação vem sendo
tratada e incentivada a ser tratada por eles. É combater essa promiscuidade de
conteúdo. E se perguntarem o porquê da importância disso, é simples: nosso país
já tem uma fama bem negativa em múltiplos sentidos, relacionada a maracutaias,
safadeza e pouca confiabilidade, se abdicarmos da única coisa que pode bater de
frente com isso, selaremos o destino de permanecer sempre abaixo sem muitas
possibilidades de melhora. Não permitamos que isso aconteça.
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