“Vamos ver até onde vai esse
rigor moral todo. Porque quando tudo isso acabar eu vou voltar a advogar e o
dinheiro vai voltar a entrar como sempre entrou. Vamos ver se eu não vou ter de
volta a minha esposa bonita, bem vestida, cheia de joias, calada e sem ter a
menor noção de como se ganha a vida, afinal preocupação demais faz mal pra
pele”.
De repente, voltou uma moda: a de
moças que querem ser donas de casa apenas. Contudo, como tudo sofre por vezes
gourmetização para ser vendido mais caro, ocorreu o mesmo com essa ideologia, e
eis que surgem as mulheres troféu. Por definição são aquelas moças que não
trabalham, são sustentadas unicamente por um marido provedor, mas que também
não fazem ABSOLUTAMENTE NADA dentro de uma casa e/ou para filhos.
Exemplos são melhores definidores. E é possível ver uma definição gritante entre uma esposa dona de casa e uma esposa troféu mediante personagens de novela. Na novela Éramos Seis, Lola conta cada centavo de seus tricôs e economia para pagamento e despesas da casa e de seus quatro filhos, além de fazer todo o serviço doméstico praticamente. Ao passo que temos Sônia Sarmento de Cheias de Charme. Tal como outras amigas da mesma classe, sua única função é estar sempre muito apresentável com boas roupas e sapatos, dar ordens sobre como a casa deve funcionar, ir a eventos, chás e saber de cultura.
Nota-se a discrepância destas duas esposas. A ideia de que a esposa dita conservadora que não tem carreira foi disseminada por pessoas de fundamentalismo tradicional que não concordam que mulheres
trabalhem fora e crêem que apenas o marido deve prover. O que não mencionam é que há uma distância enorme entre o provimento dado a uma esposa dona de casa e uma esposa troféu.
Antes de aprofundar é necessário
colocar significado a palavras. Troféu é algo que não tem muita utilidade a não
ser, ser exibido para visitas. Logo deve estar sempre muito bem polido e a
vista. Sendo assim, esposas troféu não são vistas ao lado de homens de classe
média/baixa. Considera-se aqui rico um nível de renda mensal mima de 100000,00,
um casamento no qual caso a mulher trabalhe é por mero hobby ou para não se
sentir inútil. Agora passemos para a esposa dona de casa, normalmente ela cuida
de uma casa inteira, de filhos, do marido e sempre está atenta com finanças
para não desiquilibrar o orçamento familiar. De forma muito enfática, não
existe esposa troféu de classe média. Todavia sempre haverá um homem querendo
convencer que sua esposa “rainha do lar” que não tem renda própria e está
sempre fadigada é uma esposa troféu.
Agora que a definição de ambas
está clara, é preciso definir “Dependência”. Dependência é estar em um ciclo
condicionado e atrelado a outra pessoa ou coisa, sendo que sair de tal ciclo,
seja por qual motivo for causará quantidade maior ou menor de rugosidades,
traumas, dificuldade de adaptação dependendo do nível de dependência que esse
indivíduo se encontra. As donas de casa e esposas troféu convergem nesse ponto.
Poderiam tomar chá falando de suas discrepâncias financeiras, mas uma palavra
se repetiria no discurso de ambas: marido.
Inegável dizer que ambas em algum nível dependem do marido que está ao lado. De forma financeira, mais propriamente dizendo. Ainda que tenham estudado, tenham trabalhado antes do casamento, o mercado de trabalho torna-se cruel com quem fica fora dele muito tempo sem reciclagem, logo torna-se perigoso colocar todo o poder conferido a finanças a um único membro da família. As donas de casa
não trabalham remuneradamente, embora auxiliem o marido a economizar. As troféu são o reflexo do dinheiro que este homem possui, logo o luxo, o conforto não dão mesmo a estas senhoras a vontade de trabalhar. Até porque nem mesmo elas trabalham dentro de casa como mencionado, tem um time de empregados que fazem absolutamente tudo. Por vezes nem mesmo os filhos são criados por elas, mas por mentores, babás e enfermeiros. A esposa troféu é como um objeto de adorno, uma obra de arte para ser exibida, pois é personificação do dinheiro, poder e tudo que o homem comprar. É admirada pelo que representa, pelo mundo que personifica, contudo não propriamente pela pessoa que é em alguns casos; é como ter um quadro de Van Gogh na parede. Impressiona-se pelo fato de ser um Van Gogh valioso e oneroso, porém poucos apreciariam a pessoa do Van Gogh.
Estas esposas precisam estar sempre bonitas e em muitos casos, apenas isso. Lógico que há exceções como esposas de políticos importantes, de magnatas, as quais necessitam além de estar bem apessoadas, ter uma questão cultural irretocável com conhecimentos de mundo. Entretanto exceto estas, de forma muito vulgar dizendo, a esposa troféu é quase como uma acompanhante de luxo com uma aliança. Na série A GAROTA DO CALENDÁRIO” é exposto o mundo destas bonecas. Não é tão diferente assim. Há um contrato muito bem definido, elas fazem e são o que seus clientes precisam que sejam e mostrem enquanto acompanhantes. Sempre precisam estar visualmente adequadas para as ocasiões, sexo apenas consensual e não engravidar, é até colocado que engravidar de um estranho é burrice nesses casos, falam somente quando é preciso ou solicitado e precisam sorrir sempre, regras bem rígidas embora estejam muito bem providas de roupas, cachê e compras.
Não faltam esposas troféu mencionando que seus maridos arcam com tudo e estão seguras financeiramente, não querendo outra vida, apenas viver indo a restaurantes, festas, se exercitando e batendo bolsa em lojas. As esposas donas de casa não
precisa dizer muito. São aquelas moças que fazem tudo e mais um pouco, decoram a mesa com vasinhos de flores, servem comida em jogos americanos, dão banho e cuidam de seus próprios bebês, sem babá ou empregada. E para as menores despesas precisam pedir ao marido ou usar o ou ele dá.
Ambas as esposas tem marido, casa
e filhos, porém as logísticas mudam. A dona de casa arca com a casa, tarefas e
demandas; a troféu é como uma proprietária. Ela apenas manda seu time realizar
as jogadas, mesmo a maternidade é diferente nestas duas, a dona de casa faz
questão de estar perto, a troféu enche a criança de atividades extras em muitos
casos não transmitindo nem ao menos valores porque muitas de forma fatídica não
tem nenhum.
Na novela Cheias de Charme, como
citado, foram apresentadas as esposas troféu na sua forma mais pura, em termos
de caráter também. Mulheres que se regozijavam de sua postura, de seu ócio, da
exploração que cometiam, de apenas ter a dependência financeira, crendo-se
muitos invejadas por todos (encontra-se muitas assim nas redes), entretanto,
quando certas coisas vieram à tona, deu-se conta que o dinheiro e o modo como
este foi ganho colocou uma família inteira em risco. “Pra quem gosta de gastar,
o dinheiro vem naturalmente, como se fosse uma lei divina”. Não raro muitas
ofenderem-se quando confrontadas, dizem ter garantias, INSS, divisão de bens, todavia
sabemos que a justiça brasileira ainda a passou lentos, então até se ganhar de
fato, vai tempo e famílias entram em colapso.
A pandemia foi magistral nesse
ponto. Sua natureza democrática fez perecer não só os maridos de donas de casa,
mas também os das troféu. O que foi a diferença entre se reerguer e passar fome
foi o quanto de noção e iniciativa essas senhoras tinham.
Poder é a habilidade de direcionar o comportamento de alguém ou manipular situações e assim influenciar o curso dos eventos. Uma esposa dona de casa coloca todo o ´poder financeiro nas mãos do homem. Ele pode racionar as compras, privar a família de bens, usar o dinheiro para outros fins, isso é poder e a esposa por não ter nenhum fica a mercê e dependente, assim como os filhos. A esposa troféu também coloca todo o poder na mão do marido envernizado pelo provimento alto, todavia o dinheiro pode ser excurso, pode haver uma crise financeira e quebras de bolsa.
Ambas parecem diferentes, contudo, muitas durante a pandemia viveram o que mudou o rumo dos acontecimentos: a morte do cônjuge. As donas de casa além do luto precisaram arregaçar as mangas para fazer o que nunca tinham feito antes: prover; e as troféu precisaram literalmente sair da zona de conforto e trabalhar. A pandemia veio para ensinar o quanto é preciso ter poder sobre a própria vida, o
quanto a dependência, seja ela qual for e por menor que seja, pode alterar o curso das vidas e dos acontecimentos, influenciar em famílias e determinar se haverá mais ou menos sofrimento. Houve ao menos uma reflexão do quanto é seguro colocar tanto poder nas mãos de alguém quando se trata da própria vida.
Lógico que vale para a
universalidade, mas em termos de casamento parece ser aceito devido nossa
cultura e tradicionalismo. Sempre há acusação de aquando menciona-se independência
e sempre ter um plano B, é como um incentivo ou ode a separação. Quando na
verdade é justamente ter uma segurança a mais para que o casal fique junto,
afinal, você pode confiar inteiramente no policial que faz a ronda na sua rua,
porém não é por isso que deixará de comprar um bom cadeado para a porta.
Somos seres individuais, nascemos
com capacidade própria, logo seja para quem for, não se deve dar esse poder
individual de manejar a vida a ninguém. Somente assim poderemos chegar ao total
potencial que se possui e descobri as diversas habilidades e por conseguinte,
possibilidades.






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