Muitos artistas na história
começam de modo inusitado. Normalmente hoje com as redes é mais fácil a
divulgação de trabalhos e estilos. O próximo aprendizado de uma atividade
tornou-se de fácil acesso, com tantos cursos disponíveis. Todavia ainda assim
existe a questão nata, que muitos despontam e outros não, independente de
formação.
Pois bem, muitos artistas cujo
nome só ouvimos em aulas de história apesar do talento nato e das obras
incríveis tiveram pouco ou nenhum reconhecimento durante a vida. Por vezes há o
questionamento do porquê disso, já que muitas destas obras custam fortunas
incalculáveis ou sequer estão a venda, tal qual valor delas enquanto relíquia e
contribuinte para a história da humanidade. Aí vem uma hipótese que pode ser a
resposta: os olhos da humanidade na época destes gênios não eram os mesmos de
hoje. E isso gera suposições de que a sociedade teve sim momentos de atraso em
suas percepções, não sabendo reconhecer belas pérolas quando as via.
Van Gogh era um homem
atormentado. Mesmo sendo de família abastada, viveu boa parte de sua vida na
miséria, em barracos e se alimentando mal, literalmente barganhando para
sobreviver. Os quadros? Ninguém os comprava. Seja porque os achavam de mal
gosto ou por falta de interesse. A verdade é que Van Gogh vendeu um único
quadro em toda a vida e ainda foi para conhecidos. Cabe lembrar que ele tinha
cerca de 800 obras que iam além daquelas conhecidas e decorativas.
Quando acometido pela doença, as coisas pioraram. Até hoje se tem dúvidas sobre a verdadeira afecção de Van Gogh, inegável que este homem tinha um psicológico com sérias oscilações, o que lhe gerou internações variadas e mesmo dentro desses momentos ele pôde retratar beleza ali. Mesmo em um ambiente tão insalubre, bem mais que os de hoje pois estamos falando de SÉC. XIX, Van Gogh pôde enxergar além da prisão física e das barras. O perfeito exemplo de que a mente pode ultrapassar barreiras e até mesmo a dor e ver algo belo. É um tipo de característica em muito atribuída aos loucos. Afinal, parece meio impossível em um momento tão negativo, se consiga ressignificar e dar ao mundo algo agradável.
Curiosamente, hoje muitos buscam
a terapia para se conhecer melhor e fazem de suas experiências negativas algo
construtivo e mais evoluído, Van Gogh fazia isso naturalmente e de forma
singela. Todavia voltando ao ponto original: nem todos estavam prontos para ver
isso. Ele afundou-se em conflitos, brigas, depressões até o fatídico suicídio
no qual menciona que a “tristeza não vai passar”.
Na série Doutor Who, o artista é
levado a uma galeria no futuro para ver o sucesso de sua arte. Ele fica
estupefato de ver o quanto é querido e popular, o quão é elogiado por transformar
dor em beleza. Dá um pesar de pensar em como tudo podia ser diferente se ele
tivesse ouvido isso lá atrás... ele carregaria o cavalete com orgulho, as obras
seriam o dobro, muito mais beleza deixada para o mundo.
Muitos são como Van Gogh, aliás
todos já tiveram seu momento como o artista. Quantas vezes na vida não passamos
por situações nas quais por mais esforço que se empregue, mais do mais puro
talento e ainda assim o mundo parece ter olhos invisíveis? Lógico que o
desânimo é inevitável, a sensação de batalha perdida e inutilidade também,
porém algo muito presente não só em Van Gogh, mas em outros como ele fez com
que o mundo pudesse herdar tais obras, algo que é um exemplo a todos: a questão
intrínseca relacionada aos sentimentos.
próprio ego que clamava por uma expressão? Muito hoje se fala sobre o que se quer fazer, em se fazer o que gosta, entretanto, muitos não pensam que essa concepção começa no intrínseco, que é preciso voltar ao interior para que repercuta no exterior, saber da essência para que os derivados possam se manifestar.
Somos Van Gogh porque em algum
momento da vida por mais manifestação que nossos talentos tenham dado, muito ou
nada pode ter sido reconhecido, porém muitos talvez tenham divergido dele
porque esse não reconhecimento foi um freio, para o artista holandês não fez
diferença pois continuou em frente. Ele provavelmente teria desistido desse
chamado e aceitado os clichês que lhe eram oferecidos.
Atualmente, em muito as pessoas
encontraram-se meio “perdidas” porque fazem um caminho inverso de deixar que os
fatores extrínsecos determinem seu intrínseco. Muitos se perdem diante da
pergunta: “Você é você?”, ou seja, como seus olhos enxergam as coisas? Van Gogh
olhava para o céu e enxergava uma nebulosa escura cheia de pontos coloridos e
brilhantes, ele olhava os ciprestes e enxergava árvores tão altas que eram como
montanhas, talvez falte às pessoas olhar pra si e tentar olhar com seus
próprios olhos, encontrar suas próprias telas, sua própria voz e cores. Somente
assim a fonte será ilimitada, tal como o repertório de Van Gogh vai muito além
do que muitos conhecem dos livros.
E ao se descobrir o cerne da fonte intrínseca, do que de fato brilha dentro de si, com certeza se encontrará uma forma de manifestar isso ao exterior. Desse modo, com certeza outros olhos saberão ver a beleza das obras e de algum modo, de algum jeito, de alguma fonte, o reconhecimento acabará vindo também.
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