quinta-feira, 11 de abril de 2024

Somos todos Van Gogh



Van Gogh era um pintor incrível. Ele se consagrou com pinturas cotidianas e escuros ciprestes. Ele nasceu com boa condição, em uma boa família, todavia algo no meio de sua história mudou. Havia algo nele que chamava atenção e uma vez ele que ele começou, não mais parou.

Muitos artistas na história começam de modo inusitado. Normalmente hoje com as redes é mais fácil a divulgação de trabalhos e estilos. O próximo aprendizado de uma atividade tornou-se de fácil acesso, com tantos cursos disponíveis. Todavia ainda assim existe a questão nata, que muitos despontam e outros não, independente de formação.

Pois bem, muitos artistas cujo nome só ouvimos em aulas de história apesar do talento nato e das obras incríveis tiveram pouco ou nenhum reconhecimento durante a vida. Por vezes há o questionamento do porquê disso, já que muitas destas obras custam fortunas incalculáveis ou sequer estão a venda, tal qual valor delas enquanto relíquia e contribuinte para a história da humanidade. Aí vem uma hipótese que pode ser a resposta: os olhos da humanidade na época destes gênios não eram os mesmos de hoje. E isso gera suposições de que a sociedade teve sim momentos de atraso em suas percepções, não sabendo reconhecer belas pérolas quando as via.

Van Gogh era um homem atormentado. Mesmo sendo de família abastada, viveu boa parte de sua vida na miséria, em barracos e se alimentando mal, literalmente barganhando para sobreviver. Os quadros? Ninguém os comprava. Seja porque os achavam de mal gosto ou por falta de interesse. A verdade é que Van Gogh vendeu um único quadro em toda a vida e ainda foi para conhecidos. Cabe lembrar que ele tinha cerca de 800 obras que iam além daquelas conhecidas e decorativas.


Quando acometido pela doença, as coisas pioraram. Até hoje se tem dúvidas sobre a verdadeira afecção de Van Gogh, inegável que este homem tinha um psicológico com sérias oscilações, o que lhe gerou internações variadas e mesmo dentro desses momentos ele pôde retratar beleza ali. Mesmo em um ambiente tão insalubre, bem mais que os de hoje pois estamos falando de SÉC. XIX, Van Gogh pôde enxergar além da prisão física e das barras. O perfeito exemplo de que a mente pode ultrapassar barreiras e até mesmo a dor e ver algo belo. É um tipo de característica em muito atribuída aos loucos. Afinal, parece meio impossível em um momento tão negativo, se consiga ressignificar e dar ao mundo algo agradável.

Curiosamente, hoje muitos buscam a terapia para se conhecer melhor e fazem de suas experiências negativas algo construtivo e mais evoluído, Van Gogh fazia isso naturalmente e de forma singela. Todavia voltando ao ponto original: nem todos estavam prontos para ver isso. Ele afundou-se em conflitos, brigas, depressões até o fatídico suicídio no qual menciona que a “tristeza não vai passar”.

Hoje uma obra de Van Gogh é relíquia. Parece injusto que tanto reconhecimento tenha esperado até ser muito tarde para se mostrar presente, contudo, talvez justamente o tempo precisou se fazer presente para que novas percepções surgissem e olhos diferentes pudessem enxergar o que havia por detrás das obras cotidianas de Van Gogh.

Na série Doutor Who, o artista é levado a uma galeria no futuro para ver o sucesso de sua arte. Ele fica estupefato de ver o quanto é querido e popular, o quão é elogiado por transformar dor em beleza. Dá um pesar de pensar em como tudo podia ser diferente se ele tivesse ouvido isso lá atrás... ele carregaria o cavalete com orgulho, as obras seriam o dobro, muito mais beleza deixada para o mundo.

Muitos são como Van Gogh, aliás todos já tiveram seu momento como o artista. Quantas vezes na vida não passamos por situações nas quais por mais esforço que se empregue, mais do mais puro talento e ainda assim o mundo parece ter olhos invisíveis? Lógico que o desânimo é inevitável, a sensação de batalha perdida e inutilidade também, porém algo muito presente não só em Van Gogh, mas em outros como ele fez com que o mundo pudesse herdar tais obras, algo que é um exemplo a todos: a questão intrínseca relacionada aos sentimentos.

Por mais que houvesse a frustração, algo neles relacionado ao coração os impulsionava a continuar. Algo que passava pelo reconhecimento, mas tinha uma nuance superior. Van Gogh pintava em um hospício, em termos lógicos, quem seriam seus expectadores? Para quem ele pintaria senão para seu
próprio ego que clamava por uma expressão? Muito hoje se fala sobre o que se quer fazer, em se fazer o que gosta, entretanto, muitos não pensam que essa concepção começa no intrínseco, que é preciso voltar ao interior para que repercuta no exterior, saber da essência para que os derivados possam se manifestar.

Somos Van Gogh porque em algum momento da vida por mais manifestação que nossos talentos tenham dado, muito ou nada pode ter sido reconhecido, porém muitos talvez tenham divergido dele porque esse não reconhecimento foi um freio, para o artista holandês não fez diferença pois continuou em frente. Ele provavelmente teria desistido desse chamado e aceitado os clichês que lhe eram oferecidos.

Atualmente, em muito as pessoas encontraram-se meio “perdidas” porque fazem um caminho inverso de deixar que os fatores extrínsecos determinem seu intrínseco. Muitos se perdem diante da pergunta: “Você é você?”, ou seja, como seus olhos enxergam as coisas? Van Gogh olhava para o céu e enxergava uma nebulosa escura cheia de pontos coloridos e brilhantes, ele olhava os ciprestes e enxergava árvores tão altas que eram como montanhas, talvez falte às pessoas olhar pra si e tentar olhar com seus próprios olhos, encontrar suas próprias telas, sua própria voz e cores. Somente assim a fonte será ilimitada, tal como o repertório de Van Gogh vai muito além do que muitos conhecem dos livros.

E ao se descobrir o cerne da fonte intrínseca, do que de fato brilha dentro de si, com certeza se encontrará uma forma de manifestar isso ao exterior. Desse modo, com certeza outros olhos saberão ver a beleza das obras e de algum modo, de algum jeito, de alguma fonte, o reconhecimento acabará vindo também.



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