sábado, 8 de junho de 2024

Joker 2: necessitamos do outro

 


Quando Joker foi lançado em 2019, coincidentemente o ano que antecedeu toda uma loucura mundial, ali vimos um dos vilões mais icônicos do cinema aproximar-se de nós.

Arthur Fleck de modo vulgar dizendo, era um ferrado. Um adulto vivendo m uma cidade decadente, em um trabalho exaustivo que lhe tomava a vida e não tinha grande retorno. Seus sonhos em muito eram apenas devaneios que não se realizariam, eram vontades que dependiam do mundo exterior em parte. E tal como acontece muito, o mundo não contribui muito para tal concretização, deixando apenas o pesar de sonhos enlutados para trás.

Além disso, Arthur tinha uma condição psicológica específica, andava com seu cartão de identificação, porém tal como é fora das telas, não há tanta compreensão com isso quanto deveria. O que ocasionava não apenas situações constrangedoras, mas também até tristes e humilhantes. Ele levava a vida como dava, com salário baixo, morando num prédio velho e cuidando da mãe. Ou seja, nada diferente de muitos fora das telas. A grande virada de chave se deu quando ele chegou no limite. Quando ele chega


no ponto crucial é que algo desperta. Ou se soar melhor, o que encobria se descortina e o verdadeiro vem à tona. Lógico que diferente de Arthur, nem todos vão cometer atos impensados, porém não significa que não podemos despertar algo que vire nossa realidade de cabeça para baixo e transforme nosso sorriso antes meio mecanizado para o mundo em algo com real propósito. O sorriso aberto para algo grande.

Em seu livro “Veronika decida Morrer”, Paulo Coelho menciona exatamente isso, que apenas se conhece a si mesmo quando se chega ao limite. Que limite seria esse não sabemos. Pode ser fazer ou nos permitir algo nunca feito ou pensado. Pode ser quebrar um ciclo desconfortável que torna-se insuportável e ao quebrar isso, novas possibilidades abrem-se para nós. Pode ser quando deixamos de ser telespectadores e nos voltamos para o palco. Abandona-se os pudores, a vergonha e se volta para si mesmo, para o que se deseja e ao ver isso, notamos que queremos mais.

Quando Arthur é mostrado no trailer, algo demonstra que ele chegou no limite. Principalmente o da solidão. Afinal, por mais pessoas que estejam ali, ainda há cada um em seu próprio mundo particular.


Paulo Coelho em seu livro também coloca seus personagens em cada situação única, o que levou a serem trancafiados em um lugar, não necessariamente possuíam uma afecção ou eram um perigo para a sociedade, mas erma muito mais ajustados ali naquela pequena sociedade criada pelos enjeitados pela sociedade exterior.

Algo bem nítido no livro de Paulo Coelho é a presença da necessidade de laços e contato. Não importa se é Vilette, o asilo de loucos onde Veronika do livro está ou Arkhan, fica claro que as pessoas enquanto seres humanos, enquanto seres racionais necessitam do sentimento de pertencer a algo, é evolutivo o instinto de que se precisa estar em comunhão com os outros da nossa espécie. Entretanto como somos racionais, essa comunhão vem acompanhada de sentimentos, de vontade de estar perto. Se antes a necessidade de estar em companhia/bando tinha a ver com a sobrevivência e se livrar de animais selvagens, hoje envolve uma sobrevivência da nossa própria humanidade, do que nos faz saber e entender o sentido do que de fato é ser humano, decodificar sentimentos, potencializar os aprendizados decorrentes destes sentimentos e descobrir novos.

De perto ninguém é muito normal. Sentir e pensar é o que nos torna diferentes dos outros animais, contudo também é o que nos confunde enquanto seres humanos pois estamos em constante aprendizado sobre o que sentimos e consequentemente conflitos sobre estes aprendizados. Aprendizados não são simples. Eles levam tempo e energia, por isso há o constante conflito de até onde eles vão nos levar e se estão nos acrescentando de fato. Contudo é verdade que independente do aprendizado ou do caminho que se toma para ele, o ser humano não consegue viver isolado e só. Não no sentido da solitude, e amor próprio, mas no sentido de que enquanto sociedade necessitamos da cooperação mútua.

Joker 2 traz isso de forma visceral mesmo em um trailer tão curto. É notório que mesmo em um lugar tão insalubre busca-se uma companhia, alguém que suplemente ou que possa oferecer um consolo ou sensação de pertencimento ao mundo, mesmo que seja o mundo alheio. Ali é demonstrado que a solidão


é uma doença pior que a própria doença e tal como Arthur diz: “A novidade é que não estou mais sozinho. A gente devia estar falando sobre isso” demonstra que é algo importante para alcance da cura que estejamos em conexão com o outro de algum modo. Sabe-se que por vezes não é o suficiente, ou o bastante por mais que o outro esteja ali, todavia torna-se impossível praticamente caso não esteja.

Ver Arthur com alguém embarcando nas mesmas “loucuras” que ele é algo que em parte desperta certa esperança e acolhimento, sendo perceptível a necessidade de comunhão e de que isso pode transformar tudo drasticamente. Todos hoje mencionam o quanto nós enquanto nós enquanto seres humanos desde a primitividade precisávamos uns dos outros, hoje mesmo não mais sendo uma questão de sobrevivência visceral, ainda se torna uma questão de sobrevivência emocional.

Logo Joker 2 levanta esse ponto de forma musical e poética, de como estar com alguém pode nos dar o sopro de vida que ansiamos para tapar buracos de nosso eu que por ventura esteja atormentado pelo mundo exterior. E com o outro nos sentimos ou podemos nos sentir inteiros novamente. Nas cenas nas quais ele dança com Harley, na qual eles fogem do mundo em chamas é simbólico e instigante de se concluir que por mais que nos bastemos enquanto pessoas, o outro nos suplementa mesmo na nossa


individualidade. A compreensão alheia e aceitação também faz com que barreiras sejam quebradas e possibilidades apareçam de forma natural. E ali descobre-se que as compatibilidades podem transformar ambientes, ideias, pode dar um novo significado a algo que antes era cinzento. De Joker a Veronika as lições convergem-se nisso: Não importa o quão “estranho”, “inadequado”, “divergente” você possa se sentir ou até parecer para o resto do mundo, se houver alguém que compreenda tudo isso, você com certeza se sentirá com seu mundo totalmente preenchido.

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