domingo, 10 de novembro de 2024

O que mata não é a depressão...


É a desesperança

Não escrevi nada no Setembro Amarelo, quem diria que a inspiração viria no mês azul. Óbvio que durante o setembro muito se é falado sobre a depressão, em como ela vem sutil e silenciosa, consumindo lentamente as entranhas até que sua escuridão toma conta de todo ser. E em casos extremos, no meio do escuro não se consegue ver uma única luz que para o caminho fora dali levando ao temido suicídio. Contudo, em um insight e mix de sentimentos, experiência com uma obra percebi que talvez a depressão não seja o último estágio nem ela é a responsável de forma totalitária para a ocorrência do suicídio, mas existe um subnível, o extremo, literalmente o fim além do fim da linha: a desesperança.

No filme Memórias de uma Gueixa, após uma decepção e sentimento de perda daquilo que lhe era mais caro, a personagem fala a frase que mais define o que essa sensação: “O coração morre uma lenta morte, cada esperança cai como folhas. Até que chega um dia que ela acaba. Nenhuma esperança, nada permanece”. A desesperança é o último estágio, ela não cobre de escuridão, ela é a escuridão. Ela não traz a tristeza, pois a pessoa não consegue sequer sentir mais nada, nem mesmo a ausência uma vez que a desesperança deixa o interior oco de uma forma que nada mais há ali.

A depressão ainda é algo tratável, mesmo que subestimada, há grande incentivo de diversos profissionais e pessoas para seu diagnóstico e busca por ajuda. Há programas de assistência e consultas, medicamentos em casos extremos, terapias, fora que a ajuda de família e amigos é fundamental. Na desesperança é como se a pessoa sequer pudesse se sentir tocada, é como se por mais que houvesse um mundo interessado em seu bem estar e atrás para ajudar, seu interior nada mais tem que possa apresentar contato, não há mais condição de contato, tal como uma ponte quebrada na qual se consegue ver o outro lado, porém nada mais há que um abismo entre as pontas. Somente se percebe isso, essa diferença quando se é exposto e se reconhece tal sensação. 

Um livro muito interessante, dito de cunho infantil embora desperte muito mais sentimento adulto, demonstra isso de forma visceral. Meu pé de Laranja Lima, de José Mauro Vasconcelos, foi provavelmente a obra que o fez ser conhecido no exterior devido tradução para vários idiomas, obra essa que lhe deu
destaque similar a Paulo Coelho e Jorge Amado. Muito embora a história, a capa, até mesmo o personagem, segundo descrição é autobiográfico, pareçam tão inocentes, fofos e infantis, no decorrer das páginas percebe-se coisas que apenas quando se é adulto e já se passou pelas desilusões da vida se percebe.

Zezé, um menino de seis anos, levado e arteiro acaba sendo constantemente punido pelas travessuras que faz. A punição é sempre física, com espancamentos que deixam marcas no corpo e principalmente no espírito. De sua família, sendo pais e mais quatro irmãos, apenas dois irmãos, o mais novo e uma mais velha despertam nele real apreço pois dão a ele carinho e amor. Posteriormente, um senhor, o Portuga, o trata com amizade e carinho fazendo com que ele saiba o significado de ternura e ser bem tratado. Um enredo simplório, porém muitas falas denotam em Zezé o que seria o sentimento de desesperança que leva muitos a desistirem de vez da vida.

A família era bem pobre e a pobreza por vezes desperta o pior daqueles que não sabem lidar consigo mesmos e buscam algo externo pra descontar suas frustrações, em muito a família de Zezé era assim. O pai vivia constantemente bêbado e amuado, a mãe submissa, triste, acitando passivamente

os maus tratos dados a todos. O silência na casa era sempre tenebroso. Percebe-se logo o peso que o autor segurou logo no início da história nas dedicatórias, quando se dedica algo aos mortos em parte é porque não se tem ninguém vivo que se tenha tanto apreço para lembrar. José dedicou com grande saudade a seu irmão Luís que “desistiu de viver aos 20 anos” e a sua irmã mais velha Glória, “que aos 24 anos decidiu que viver não valia muito a pena”, e ao seu amigo Portuga, falecido em um acidente de trem quando ele era criança, que foi o que mostrou a ele o significado de ternura.

Zezé em muitos pontos fala coisas que se reconhece como a mais pura desesperança de viver. Palavras que não deveriam sair da boca de uma criança, assim como um olhar que não devia existir em uma pessoa com tão pouco tempo de existência. Adultos já reconhecem perdas, já viveram com amigos, amores, família, já sabem reconhecer o sentimento de ver algo desejado se esvair, porém quando uma criança menciona isso, dói na alma. E em muitos pontos, percebia-se o quão Zezé já tinha perdido a esperança e apreço, o quão oco estava seu coração mesmo com toda a imaginação e histórias que ele criava. Ele questionava se Deus

realmente olhava por eles que eram pobres, dizia que mataria seu pai dentro dele, deixando de gostar até que um dia nada mais haveria ali e sim, nenhuma criança pequena devia pensar que não devia ter nascido e sentir uma desesperança tão grande em seu destino que pensa em tirar a própria vida.

O ápice de desesperança são sempre perdas ou decepções tão grandes que tal como a frase da gueixa diz, nada permanece. Na morte de seu amigo Portuga, Zezé sentiu isso, tudo havia ali sido tirado dele, tudo que lhe era caro, uma crença de que podia ainda haver algo de luz em sua vida nebulosa através do carinho que seu amigo lhe dava, Zezé passou direto da depressão pra desesperança, o corpo reagiu rejeitando alimento e a própria vida. Contudo, Zezé permaneceu, mas o olhar ficou marcado. O olhar de quem está andando apenas, mas sem maiores motivações, o olhar perdido de quem perdeu uma parte grande de si e não tem mais como recuperar, enterrar tudo que lhe parecia certo e caro.


E o que se faz em casos como esses que parecem irreversíveis? Desesperança não é algo que se cura com remédios, eles não alcançam essa ferida de alma, essa sugada de vida, não reproduzem algo que não mais está ali. Porém esperança pode ser doada. Se alguém não tem e está em falta, com muito esforço alguém pode doar um pouco da sua. Zezé se apegou a lembrança de seu amigo pra poder produzir sua própria esperança de novo. Em muitos casos isso ocorre, mas é preciso que seja alguém muito amoroso, muito paciente e que também tenha o sentido de esperar pois esperança por vezes demora a pegar, demora pra que o desesperançoso sinta de novo essa chama e principalmente veja em si mesmo que não estava oco como pensava estar. Talvez no fundo mesmo em um nível maior, a cura pra desesperança seja o amor incondicional doado na forma de acolhimento que em doses de força, fazem o indivíduo sair do sentimento oco e substituir olhos antes sem vida por brilho novamente.


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