terça-feira, 13 de maio de 2025

Polêmica: a subserviência do paraense a Região Sul

 


Assunto polêmico a vista. 

A região Norte sempre foi alvo de múltiplas opiniões. Por estar literalmente no coração da Região Amazônica, não é incomum acharem que os habitantes têm onças de estimação ou criam jacarés. Alguns ainda mais extremos creem que se mora em casas na árvore e cobras andam nas ruas livremente. As únicas vezes que vi estes animais foi no museu e no bosque, e ainda assim por trás de uma grade quando eles apareciam. Região Norte atualmente não é como se fosse uma protagonista, exceto por um evento relacionado ao meio ambiente que ocorrerá e que mesmo sendo um evento super esporádico que ocorre na região ao invés das tradicionais Sul e Sudeste, foi o bastante pra muitos se encresparem, tanto os de fora quanto os conterrâneos, estes últimos de forma mais espantosa ainda.

Pois bem, não é de hoje que muitos estão criticando a ocorrência do evento da COP 30 em Belém, afirmando que não há estrutura na cidade e tal. Tudo bem, não é de todo inverdade, a cidade precisa mesmo de melhorias todavia o que está se vendo não é apenas a crítica a infraestrutura, rede hoteleira e saneamento, afinal, os de fora já fazem isso com muito gozo, o negócio é ver quem mora na cidade dando pilha e falando deliberadamente mal. “Não venham pra COP 30” já virou um mantra de uma ou outra influencer. Por suposto que a cidade tem um sério problema com lixo, saneamento, estrutura dos pontos turísticos, isso é notório, falar em tom de crítica e elucidação, puxando para uma chamada de atenção para melhoria é uma coisa, mas as catirobas e galas secas não estão sabendo a diferença entre isso e deliberadamente falar mal da cidade. 

Lógico que a diáspora do paraense para a região Sul logo entra na roda e não falta quem comece a dizer que se pudesse não estaria mais aqui. Simples seria dizer: “Então meu mano, RASGA! Vai-te-imbora! Roberta Miranda pra você!”, como muitos (inclusive eu, confesso) dizem. Longe de mim querer castrar alguém cuja melhora está fora do estado, tenho muitos amigos que foram devido a realmente não encontrarem um lugar aqui, porém boa parte deles honram a farinha baguda que comeram e não ficam denegrindo o estado lá fora, pois sejamos francos, muitos só querem um pezinho pra olhar torto não só pro estado mas para o Norte como um todo. Sabe-se da diáspora, sabe-se das dificuldades em termos de emprego, você não é o brabo que prendeu a Matinta Perera por afirmar isso, agora é cabível perguntar: você faz algo pra ao menos tentar mudar a realidade, seja incentivando educação, não jogando lixo na rua fora dos dias combinados, recolhendo o cocô do seu cachorro ou é dos que só tem lábia pra falar mal e dizer que vai cair fora na primeira oportunidade? Lá fora adoram paraenses. Como não vão gostar? Lá muitos paraenses chegam, os de fora percebem como se arreganham e dão aos paraenses os empregos que os conterrâneos não pegam, ou seja, os que adoram lamber as regiões de baixo saibam que estão extremamente felizes porque vocês ajudam a região DELES a crescer. Sempre me perguntei sobre essa contradição. Como uma região cresce e se desenvolve se os que nela residem levam toda sua capacidade, força e inteligência pra fora? 

Olha, o Sul não nasceu rico. Tem uma novelinha antiga chamada Terra Nostra que mostra que os italianos ascendentes vieram em navios fugindo da fome e como já ouvi de um próprio sulista: “Tem muitos aqui que se gabam de serem descendentes, mas se esquecem que quem veio nos navios foi a ralé”, ou seja, maninhos, eles se dispuseram a melhorar a região com seu trabalho e capacidade, gerar, desenvolver e construir coisas lá, aqui tem uns que não vestem a camisa, mas também não caem fora, não passam o sal na mina, mas também não saem de cima dela. Curioso porque na nossa história denota uma época totalmente contrária a todos esses problemas. Na época da Belle Époque NÓS éramos os tais, inclusive se você for no comércio tem uma loja de tecidos chamada Paris N’América, que decorre desse tempo onde se vendiam tecidos finos apenas para a alta sociedade. Belém foi a primeira capital a ter bonde elétrico, o cinema mais antigo do Brasil, Teatro no estilo europeu, no auge da era da borracha e sua extração, de forma muito curiosa, NÓS éramos o sul, porque todo mundo queria vir pra cá em busca de trabalho e oportunidade. O que aconteceu então pra que nos desbancassem? Simples em duas palavras: Fomos roubados. 

Contrabandearam mudas de seringueira para o sudeste asiático e aí como dizemos aqui: levamos o farelo. Aliás até hoje rola isso. Vejo e ouço histórias de pessoas que vem pra cá, pegam tudo que podem, usam nossos recursos e força de trabalho, depois voltam para os seus, com bolsos cheios reclamando da chuva e do calor, já dizia nossa música popular: “Ninguém nos leva a sério, só o nosso minério”. Vejo muitos que vão embora renegarem sem pudor nenhum suas raízes, disfarçam o S arrastado, fecham os Ós e Ás pra fingirem que não são daqui, e em extremos, já se denominam do lugar pra onde migram, entretanto desculpa dizer, mas você não deixa de ser índio porque deixou seu arco e flecha em casa e quer esquecer como se usa ele, você sempre será visto como “nortista”, “do mato”, “do meio da floresta” raízes são coisas que não se pode cortar fora. 

E eu sinto muito pelos meus amigos que foram pra fora que continuam se orgulhando de onde são, que acreditam no potencial da cidade e que não merecem ouvir isso por conta dos pomba lesas que tem vergonha; lamento também por amigos sulistas/sudestinos que são muito receptivos e não merecem os rótulos que alguns intolerantes pintam na região. Belém é uma cidade cheia de problemas, mas com potencial e se não olharmos por ela, cobrarmos, fizemos nossa mínima parte, é um problema a mais. Então se for pra apontar os problemas faça a crítica, embora com a mesma deferência e cuidado que teria com um turista das regiões que bajula. Afinal, não queira bancar o maninho que curte enfeitar a casa e bajular só a amante enquanto a casa da esposa e dos filhos cai aos pedaços, isso fica feio pra ti.

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