quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Bilbo e a lição de sair da Toca

 


“Não gosto de aventuras, elas atrasam a hora do jantar”. Quando Gandalf chegou no Condado chamando o singelo Bilbo para uma aventura, este logo recusou pensando em como deixaria sua toca e sua rígida rotina para trás. Passou o dia inteiro fugindo do mago, porém a noite quando achava que sentaria tranquilo á mesa, para desfrutar de sua refeição, sozinho como todos os dias, há batidas na porta e aí se faz um verdadeiro redevu com a chegada e bagunça de treze anões, bagunceiros, agitados com apetite de impigens brabas. Ali Bilbo apesar da chateação foi confrontado com algo maior.

A invasão, a dispensa arrasada, o barulho e cantoria foram só o início de uma lição de moral que Gandalf queria dar: a de que Bilbo tinha se acomodado de algum modo e usava sua rotina segura e sem grandes emoções como um escudo para não viver algo maior do que a calmaria tediosa de sua toca. Ele é lembrado que quando criança saia de casa a noite e voltava com os pés cheios de lama e galhos, que sua mãe brigava com ele, mas ele nem


ligava porque buscava algo maior do que a calmaria dos dias. “Quando foi que as colheres de sua mãe ficaram tão importantes?”. Ali, Bilbo se lembra que um dia quis mais, quis ver o mundo, porém seja por medo ou por comodidade, resolveu ficar quieto do que se mover.

Isso mostra algo muito comum a todos. Todos fomos o Bilbo criança e por vezes as responsabilidades, a rotina exaustiva de um trabalho, de obrigações, de um mundo cinzento fazem com que se esqueça que há um mundo lá fora, limpa-se os pés sujos de lama, não se brinca mais com espadas de madeira, a criatividade e sonhos morrem ou são enterrados em nome de se voltar para uma toca, segura sim, mas sem grandes ofertas, sem maiores emoções, sem maiores movimentos e indiscutivelmente, sem maiores sonhos.

Paulo Coelho em um de seus livros disse que há sintomas de quando os sonhos morrem. E um dos sintomas curiosamente é a paz. É como se a vida virasse uma tarde de domingo, sem maiores emoções, sem maiores sentimentos que nos mova a algo maior do que vivemos até


então. Há uma estranha sensação de que tudo “está bem”, um tédio que não mais incomoda, mas abraça. Um conforto que de costumeiro não impulsiona mais o desconforto e propicia uma acomodação, o tempo vai passando até que se percebe que a tarde de domingo se estendeu demais e pode não haver mais tempo para se correr atrás do que se perdeu, e grandes aventuras deixam de ser vividas.

Bilbo na manhã seguinte viu sua casa limpa, nenhum vestígio de que anões ou o mago Gandalf haviam estado ali, nenhuma sujeira, nenhum móvel fora do lugar, era como se tudo estivesse como sempre foi, assim como ele queria. Contudo algo havia mudado. De repente uma chave foi gorada e uma porta aberta e Bilbo percebeu que as motivações na gaveta não estavam perdidas, que o menino que corria querendo achar criaturas mágicas estava ainda ali, lutando pra vir pra fora. E nisso, ele percebe que queria viver a experiência e que sua toca se tornara incômoda em seu silencia e prataria perfeitamente polidas.

Tal como Bilbo em algum momento todos sentem um chamado. O ser humano não foi feito para a inércia ou estagnação, seja física ou psicológica. A imobilização é a morte em vários aspectos. Seja dos movimentos do corpo, seja dos sonhos, seja de vontades há muito


deixadas para trás, o que representa um perigo para a vida e bom funcionamento desta. E assim como o pequeno hobbit, vencendo seus medos, suas neuras, seus melindres, saímos correndo para alcançar aqueles ou o que vai nos propiciar um encontro conosco, com o que pode estar adormecido, perdido e vão ser o fósforo a ajudar a acender velhas chamas, que nos façam encontrar novamente nossa luz própria.

Gandalf e os anões fizeram Bilbo sair de sua toca, motivaram-no a mais do que isso sair do medo de enfrentar as coisas. No decorrer do caminho houve melindres, coisas que o puxavam para trás, para voltar a sua clausura, foi importante para ele também vencer a si próprio, se abrir para ver as coisas sem medo, enfrentar não apenas os perigos físicos, mas os próprios, afinal, abdicar de sonhos e desejos também é perigoso. E com isso, o hobbit foi mais longe do que nunca imaginou. Viu paisagens, perigos, conheceu pessoas, conseguiu tesouros de um jeito como mesmo criança nunca imaginou, provando que quando o amadurecimento se faz presente, as aventuras imaginadas na infância podem ser melhores do que se poderia imaginar.

Daí no fim, ele pode voltar a sua toca, porém tal como Gandalf não podia garantir que ele voltasse, este contudo garantiu que se ele voltasse jamais seria a mesma pessoa, não apenas por sua redescoberta, porém pelas descobertas que fez com todos. Bilbo descobriu


que por mais que sua toca seja bagunçada, você chacoalhado, mesmo que possa voltar a segurança confortável, você também pode se abrir pra sair de vez em quando e viver aventuras, com isso ter o melhor dos dois mundos: ver o que há fora e ter um lugar pra onde voltar, lá e de volta outra vez...

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