Homeschooling (HS) é o irmão mais
novo do homeoffice. Com a mesma função e fundo de objetivo e com a polêmica do
casal preso e condenado por praticar homescholing com seus filhos isso
novamente entrou em pauta.
A definição de homescholing é “estudar em casa”, uma logística na qual os pais ensinam os filhos em casa, ministrando os conteúdos acadêmicos com metodologia própria. O ponto chave é que tal educação por sua definição não anda de mãos dadas com educação regular, na maioria das vezes. Lógico que sempre dão um jeito de transformar isso em uma guerra com lados. Algo dito sobre HS é o quanto as
crianças aprendem, no caso recente, as ditas liam 30 livros por ano, estudavam piano, arte sacra, latim, tinham excelente educação e conduta. Olhando assim, parece de fato tudo de bom. Afinal, quem não quer um filho super inteligente, poliglota, que descobre a cura do câncer e é praticamente um agente da Shield? Contudo são nas fendas que os questionamentos surgem.
Falar que a parte intelectual
fica sanada, não há dúvidas, até porque muitos pais a favor do HS também tem a
formação e contam com suporte educacional, a questão é: e os outros pontos fora
a questão acadêmica? A socialização, por exemplo. “Ah, mas as crianças
socializam”, dizem. Talvez não seja o “se”, mas o “com quem”. Por suposto, se
crianças socializam apenas com a família e unicamente com pessoas de sua ilha,
de sua crença, sua religião e classe, que aprendizado terá com relação a
conflitos e ao se deparar com realidades diferentes da sua?
Uma criança canibal socializa com
sua tribo, seus pais e sua crença. O mesmo se aplica a uma criança cristã, uma
judia, uma muçulmana que usa hijab. E se colocarmos estas crianças numa sala de
repente elas aprendem, de forma prática, que não se pode devorar o amiguinho,
que existem crianças diferentes no mundo, diferindo em crenças e provenientes de
diferentes lugares, com diferentes caráteres e percepções, realidades e
acessos, vivenciar isso não pode ser no campo das conjecturas, até porque as
percepções pessoais e formação de um indivíduo só é possível se consolidar
quando os contrapontos se estabelecem, fazendo uma situação de confronto e questionamentos.
E creio que os pais do HS prezando tanto pela formação de seus rebentos com
certeza querem seres pensantes.
Não apenas pensantes em seu contexto, mas de uma forma questionadora e ampla. Na escola, não há apenas convívio com diferentes, há noção de afinidades com estes diferentes e que de forma alguma o fato de alguém ter tantas curvas diferentes não significa ser errado ou seguir uma curva torta de valores, tal como não se pode crer em superioridades ou inferioridades pelo mesmo motivo. Muito da crítica ao
HS vem dessa atitude concêntrica e individualista em se tratando de sociedade. Enfim, não haveria problema algum se esta criança homoschooler fosse criada sob valores arriscados de intolerância com o diferente se fosse o caso dela permanecer unicamente dentro da ilha na qual foi criada. Só que muito provavelmente essa criança vai virar um adulto com estes valores e será jogada em uma sociedade que não se submeterá a caprichos e arrogâncias, e fatalmente os que não conseguem compreender isso, são quebrados ao meio.
Daí mencionam que o HS não é
sobre controle ou perpetuação de maus valores, porém sobre proteção às
crianças, a qual não devia ter interferência do estado ou de qualquer outra
esfera. Embora isso deva ser considerado, deve-se pensar que um indivíduo
despreparado para convívio social, na sociedade vira problema de todos. A principal
alegação embasadora é que as escolas são ambientes hostis e violentos, cheios
de influências e doutrinações pérfidas, usando como suporte os inúmeros casos
de bullying e crimes em ambiente escolar, todavia se for utilizado o mesmo
ardil, embasado por dados, é sabido que abusos infantis são em peso cometidos na
residência e por pessoas circulantes na casa. E doutrinação por doutrinação,
não há garantia que a dada em casa será efetivamente benéfica para um indivíduo
que planeja ir para uma sociedade plural. Desse modo, nessa balança de Anubis,
o ouro e a pena possuem o mesmo peso.
Cabe a pergunta final: “Qual o medo?”. Se o convívio e socialização são necessários, não seria interessante pegar o melhor dos dois mundos? Se a educação dada em casa e os valores são sólidos, não devia haver receio do que é dito por algumas horas durante cinco dias da semana, o resto do dia durante sete dias devia ser o bastante para manter esta criança pensante sobre influências ditas ruins. A educação dada em casa e os valores sendo sólidos, não devia haver receio algum de conteúdos externos. E há o
detalhe de que por mais sólidos que sejam, nem todos os pais por mais qualificação que tenham, não possuem condições ou metodologias para ensinar seus filhos em casa da forma como a metodologia exige, mas podem fazer o melhor e possível sem receios.
Eu estudei em escola regular,
tive rusgas no aprendizado social como toda pessoa em meio de pessoas diversas,
porém considerando repercussões na vida adulta, por mais difícil que tenha
sido, posso dizer que salvou muito do aprendizado. Lia livros em quantidade,
não sei se chegava a 30 porque nunca contei, contudo era a aluna mais assídua
da biblioteca assim como a leitura em casa era sempre incentivada e dada de
presente. As tarefas e deveres eram sempre acompanhados, todos se juntavam para
ajudar em trabalhos estimulando a criatividade e trabalho em equipe, havia
contato com professores a ponto destes se surpreenderem com o incentivo e
criação, algo elogiado até hoje na vida adulta. Então, o questionamento: sendo
passível, por que não pegar o melhor dos dois para formar um ser humano melhor?
E voltando a frase inicial, parece
e é muito tentador um ambiente de trabalho no qual as variáveis são mais
controladas, o ambiente restrito a preferências individuais, sem grandes
dificuldades de adaptação. Contudo para um adulto que já foi exposto, já está
feito e tem seu cerne e noções sociais bem definidas, estar em casa sem grandes
interações no quesito trabalho e estudo pode até ser tentador, porém para uma
criança que não tem sua visão ainda ampla, não se confrontou ou foi submetida
às rusgas do aprendizado e testes de caráter, educação e conduta na sociedade,
pode ser muito problemático. Para ambas as partes.


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