segunda-feira, 21 de junho de 2021

Histórias Vaselina não vendem

 


Existe uma premissa de que histórias felizes não vendem. O que é extremamente estranho, uma vez que supostamente o objetivo do ser humano é a felicidade plena.  Todavia algo muito confuso e até desequilibrado no ser humano é o caminho que ele percorre para essa felicidade. 

Começa que pra muitos é difícil estabelecer um ponto de equilíbrio. Ou se quer tudo com extrema facilidade, ou se existe a dificuldade, surge o discurso de romantização do sofrimento. Mas a realidade é que absolutamente nada na vida vem sem uma dose de desprendimento pessoal, o que obviamente causa certa revolta em
muitos. E mais revolta também há nos que lutaram e sabem das durezas, todavia agem para com os outros como se elas não houvessem, dando a entender um desdém para com o esforço alheio.

Do início. Quando se nasce, o bebê estava muito confortável sendo suprido integralmente pela mãe. Literalmente nem respirar por ele mesmo ele fazia. Só que vem o momento do nascimento. E quando dizem que é um momento traumático não é um eufemismo. Existe ali uma necessidade do bebê de respirar por si mesmo. Obviamente que esse ato ativo de puxar o ar não é totalmente confortável, o ar entra, o líquido das narinas sai. O ar entra abrindo milhares de alvéolos de uma vez, antes tão firmemente colados e depois o ar se espalha fazendo o corpo funcionar. O bebê precisa se esforçar ao menos para chorar se quiser ser alimentado e limpo, e todos sabem que chorar não é exatamente algo agradável.

Daí avançamos. Se você um dia tiver oportunidade de ir em um aniversário de criança verá sempre uma rodinha de mães contando as peripécias de seus amadinhos, especialmente quem andou primeiro, quem falou primeiro, quem descobriu a física quântica primeiro... E aí vem outra lição importante: uma criança só consegue avançar em seu aprendizado justamente na adversidade. Uma passagem de um livro que gosto muito diz: "Se você der sempre o brinquedo a criança no momento que ela desejar, que esforço ela fará para andar até ele?, então enquanto o bebê não sente a necessidade de alcançar aquele brinquedo lindo que está longe, ele não desprenderá o esforço de se colocar de pé e tentar ir até ele, mesmo que se apoiando e se arrastando.

E chegamos a vida adulta. Nada que se deseja vem totalmente de graça. Mesmo o que aparentemente vem, o preço ou foi ou será cobrado em termos de aprendizado e esforço. É muito importante se lembrar disso pra que não se cometa o erro de se crer superior, porque já se conseguiu/tem algo: Não se julgar tão inatingível porque se tem a chamada vida vaselina, na qual tudo parece deslizar facilmente e acontece de um modo como se fosse o mundo a tentar agradar. Pessoas que de repente se esquecem do esforço que a vida demanda e se julgam extremamente confortáveis e seguras em suas vidas vaselina, podem se tornar arrogantes. Ou pior: ignorarem os que ainda estão na luta julgando-os preguiçosos ou não esforçados o bastante. Olharem eles com desdém ou uma superioridade que fere, que humilha, que constrange.

São aquelas pessoas que adoram postar e exibir para todos viagens, paisagens, família e vidas perfeitas com a legenda: "Nunca foi sorte, sempre foi Deus" e parecem querer se esquecer, sequer lembrar quando a frase era: "Deus não mova a montanha, dê-me forças para escalá-la", querem esquecer de quando também passaram pelos

momentos de dificuldade e uma vez bem, rechaçam quem está na mesma posição que estiveram outrora como se isso fosse aproximá-los dos momentos difíceis que desejam esquecer. São pessoas que um dia podem ter precisado de ajuda, mas ao ter todas as portas se abrindo pra que entrem, esquecem de ajudar. 

A atitude de tentar fugir das adversidades denota medo, insegurança, temor de se perder o que se tem e dificuldade de lidar com esse fato que é da vida. Então retoma-se o que foi dito e é sabido desde a época em que Clark Kent era repórter: as histórias 100% vaselina não vendem. Não vendem não porque se romantiza o sofrimento excessivamente ou porque se gosta dele, mas porque ao se ver uma história na qual um esforço se desprende no caminho, as pessoas se sentem mais próximas, indiretamente se forma uma compatibilidade, uma espécie de ponto que conecta quem

pode estar vulnerável e ainda andando com aquele que já venceu mas que mostra as marcas dos espinhos ao longo da estrada, demonstrando que a vitória é possível e dando um exemplo positivo e incentivador. Ao contrário do que já chegou ao pódio, mas faz parecer que foi por puro presente divino ou dádiva por ele ser especial.

As histórias vaselina são rechaçadas até mesmo nos filmes e livros. Se no filme Titanic, Rose não tivesse que enfrentar as dificuldades para viver seu amor com Jack, se ele por acaso fosse outro rapaz rico e ela só vivesse um simples dilema de troca de noivo não haveriam oscars nem a eternização do enredo, não haveria suspiros e tudo pareceria até sem graça. Romeu e Julieta duram séculos mais pelo contexto da adversidade do que pela tragédia. Noah e Alie, do Diário

de uma Paixão, se não vivessem os revezes do tempo, não amadureceriam o bastante pra bancar a decisão de ficar juntos ainda que fossem diferentes. Sejam histórias de amor, de superação, de coisas incríveis, se não tiver a dificuldade sobra uma impressão de que não são reais, de que tem um quê de fantasiosas demais para acontecerem e sentimos elas muito longe de nós. 

Lógico que no caminho é importante aprender a discernir quando algumas batalhas são perdidas, mas mesmo para esse aprendizado haverão as dificuldades e ranhuras. Porque são elas que nos colocam em confronto com nós mesmos, no quanto desejamos de fato um

objetivo e se eles devem ou não mudar, e se for o caso de permanecer firme, são as dificuldades que ajudam na construção de uma força que nos melhora e nos permite ressignificar o que antes parecia terrível. Afinal, por mais complicado que seja aceitar, a vida é assim: ou ela fica fácil por você ter feito algo difícil, ou ela fica difícil por você ter feito algo fácil. Logo, as histórias felizes tem seu valor, mas que sejamos sinceros (e corajosos) pra expor toda a rugosidade que foi necessária pra se chegar até tal felicidade. 

Um comentário:

  1. Excelente reflexão. As vezes, queremos esquercer os percalços, mas através deles que nossa vida está sendo moldada.

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