O mundo mudou muito nas últimas décadas. O advento da internet, de mensagens instantâneas trouxe muita praticidade e ao mesmo tempo novidade, não propriamente e exclusivamente positivas. Claro que num meio onde você não precisa ser nem especialista nem autoridade para expor o que pensa e fatos que acredita, lógico que isso gerou um impacto na sociedade. De repente, houve um sentimento de liberdade sem precedentes e com ele, a sensação de que excessos poderiam ser cometidos á vontade. Legalmente houveram mudanças na tentativa de conter a instalação do caos. Há o ponto de se pensar que não tem limites no meio digital e que as pessoas não se mostram muito dispostas a ceder em suas convicções duras.
Atualmente o que tira do sério é o meio que as pessoas estão usando para mostrar seus pontos de vista, atitudes extremas... mesmo algo bom e decente ao cair no exagero e no radicalismo torna-se nocivo e torpe, o bastante para que as próprias pessoas adeptas das idéias considerem errado. E com isso inclusive, outros que poderiam se interessar em conhecer, sentem uma aversão tão grande que de cara tomam como algo extremamente negativo e ruim, mesmo que o cerne tenha sido projetado pra ser uma coisa boa. Em tempos de internet é lamentável que esteja ocorrendo com mais frequência que deveria, segue um pequeno resumo das coisas que mais tiram e vem tirando qualquer um do sério.
1. Falta de interpretação de texto
- Gostar: Trans. dir. = achar agradável, apreciar
- Aceitar: Trans. dir. = estar de acordo ou conformar-se com
- Respeitar: Trans. dir. = não causar qualquer prejuízo a, não perturbar
É bem pertinente começar falando do significado destas três palavras porque quando elas estão envolvidas em muitas discussões, por vezes ou é esquecido ou por espontânea vontade, se confunde o significado delas e transformam tudo em um bolo só. Daí a frase "não gosto" ou qualquer expressão do teor 'gosto pessoal' é tida como desrespeito ao objeto/pessoa alvo do não-gostar, geralmente acaba em ofensa e castração de opiniões, como se todos tivessem que gostar das mesmas coisas para não serem ofendidos ou precisassem constantemente rebuscar palavras e assumir para si uma responsabilidade (inexistente) pelo que o outro pensa e em como recebe as informações, por mais claras e explicadas que sejam. Eu sempre exemplifico com o caso de dois vizinhos. Se por acaso um for ligado em música gospel e o outro em super batidão, podem até não gostar do estilo, aceitar muito bem o fato de uma família ser mais discreta e outra descer até o chão mas se se respeitarem, é bem capaz de nas festas cantarem "Nossa querida vizinhança" juntos.
2. "Seu livre arbítrio agora é meu!"
Do mesmo jeito que a Mary Shaw matava para se apoderar das vozes das vítimas, hoje em dia há muitos que creem ter o poder ou direito de se apoderar da vontade das pessoas e dizer o que elas tem que gostar ou aceitar, o modo como devem proceder, no que acreditar e caso contrário, é rotulado de algo que quase na totalidade é muito ruim. E isso ressalta os rótulos, afinal se não é/acredita em A, automaticamente é B, portanto é C e apoia D. Se você é ateu, dizem que você vai pro inferno. Se é cristão, te chamam de idiota e fantasioso. Se come carne, é carnista e assassino sem empatia nenhuma. Se é mulher e não liga pra cantadas, é machista. Se critica racismo, está correto e recebe aplausos, mas se aponta alguma falha de caráter de uma pessoa negra para com uma branca está sendo racista porque afinal, o inverso não existe. Se gosta de determinada arte de museu é ok, mas se gosta de outro tipo, é chato. Fora que sobre alguns assuntos, determinado grupo de pessoas sequer pode opinar, talvez nem pensar sobre porque "não têm esse direito". Tudo está muito preto e branco, ninguém está conseguindo estabelecer nuances, um ponto de equilíbrio, o que está gerando esse verdadeiro problema de grupos distintos, seja de que tipo for, é que estes mesmos grupos nem sempre se mostram dispostos a interagir. Numa época em que clamam por diversidade, tolerância e interação, com esse tipo de coisa, fica claro que em muitos casos o mundo está é cada vez mais dividido em nichos.
3. Mazelas de redes sociais
Li certa vez que hoje em dia "Textão é o novo B.O". Com o advento da internet, claro que o ato de escrever em redes sociais se tornou frequente. Porém como sempre há em todo lugar, pessoas se aproveitam do ato para disseminar informações nem sempre verdadeiras. Ou ainda, escrevem relatos longos sobre crimes e compartilham, ao passo que tais relatos ganham curtidas e compartilhamentos. Não há problema em expor situações erradas. problema é quando a vontade de expor se sobrepõe às medidas cabíveis para os crimes que estão sendo expostos. Ou pior ainda, se sobrepõe a veracidade dos fatos. E mais ainda quando há incitação de conhecidos na exposição, envolvendo pessoas em assuntos que deviam ser resolvidos intimamente. Sendo que o expositor ao agregar pessoas acaba gerando uma bola de neve maior que a intenção original.
4. Falta de senso
No meio de tantas pessoas querendo provar que tem razão, nesse meio muitas não se importam de usar qualquer artifício pra conseguir isso. E aí se não houver argumentos, fatalmente acaba em falta de senso. Ao invés de argumentos, muitas pessoas, em muitos momentos começam simplesmente a ofender, usar palavrões e tentar diminuir os outros a qualquer custo. Por experiência própria, percebi que nem precisa ofensa, basta proferir uma opinião contrária a maioria. É como se não houvesse capacidade para lidar com isso, ou mais ainda, capacidade para entender que haverão opiniões contrárias, seja lá em que assunto for. E o mais curioso nesta situação é que na tentativa de defender um ideal comum, muitos acabam ignorando por completo se alguém deste mesmo ideal for um completo cretino e não mostrar caráter algum. Mais triste ainda é que muitas causas defendidas são até nobres, porém as pessoas que supostamente as defendem são torpes. Sempre lembro de um fato que vi em um certo grupo que relata abusos sofridos por empregadas domésticas. É notório o quanto é benéfico para a classe os desabafos mas também é notório o quanto parecem não aceitar ou não querem acreditar que o contrário simplesmente existe. E sim, há indivíduas no mencionado grupo que buscam a todo custo justificativas para o fato de que há funcionárias domésticas que não fazem o trabalho corretamente, que pegam e danificam coisas, maltratam idosos e crianças... Isso quando não chamam de "mesquinharia" por parte dos empregadores atos que são de fato, roubo. Mesquinharia é você preferir ficar com dor de barriga a dividir seu pacote de jujubas. Pegar algo que não lhe pertence e não lhe foi dada liberdade de pegar não se enquadra nisso. Mas aí, por algum motivo (ou falta de senso mesmo) já vi justificarem com "Ah, mas foi só um pouquinho", "Ah, mas ela tava grávida, com os hormônios em alta", amenizando o (mínimo) direito de propriedade que o outro tem, quebrando limites necessários e lógicos que há entre empregadores e funcionários. Outro exemplo, neste ano mesmo, foi sobre uma mãe que queria obrigar uma moça a dar um brinquedo para o filho dela. Gostei de ver o quanto muitas mesmo sendo mães acharam um desserviço e falta de educação, mas não faltaram aquelas que acharam egoísmo, de novo mesquinharia dando a nítida impressão que queriam que o mundo girasse em torno de suas opiniões e concepções. Quando se discute com pessoas assim é aconselhável dar um basta de cara, pois elas são do tipo que roubam fotos no perfil alheio para humilhar quem as contraria, pressupõem fatos de vida na tentativa de diminuir a opinião dada, isso quando não vasculham atrás de coisas pessoais, como por exemplo hobbies, como uma forma de ataque. É infantil a um nível que beira o ridículo, afinal até o ídolo Cazuza dizia que queria viver uma ideologia mas ele não mencionou nada sobre ser um escroto por causa disso.

5. Politicamente (Exageradamente) Correto
Não estou falando do politicamente correto que fez com que piadas muito torpes fossem evitadas com determinados grupos, que ridicularizavam ou que transmitiam uma ideia equivocada. Estou falando do politicamente correto que castra conteúdos que mesmo seguindo todas as normas de respeito, sofre críticas em muitas vezes infundadas. É o politicamente correto que queria castrar IT, A Coisa de Stephen King porque palhaços estavam perdendo empregos e pessoas que tinham fobia não queriam no cinema. É o politicamente correto que afirma que Maria Antonieta de Las Nieves, no programa Chespirito não podia ter feito a Rainha de Sabá (personagem negra) pois estava usando a chamada black face, sendo que não imagino qualquer outra atriz que conseguisse reproduzir com tanta maestria a interpretação feita. É o politicamente correto que acusa de racismo cosplayers que fazem personagens negros e usam de pinturas corporais para se parecerem mais com seus personagens favoritos ou afirmam que não se pode usar tal acessório por pertencer exclusivamente a um povo/cultura/etnia. Um politicamente correto que censura desenhos, animes e filmes. O politicamente correto atualmente que faz com que histórias, ficcionais, diga-se de passagem e muito boas sejam tiradas do ar porque "não tem nada a ver com a realidade". Um exemplo foi uma fanfiction chamada "A Outra Face de um Tirano", que narrava o envolvimento de um capitão nazista cruel com uma judia e em como mesmo começando como um relacionamento abusivo, coisas boas foram sendo despertadas no tirano ao longo da trama. A pressão foi tanta que a escritora deletou a fanfiction e não responde mais as mensagens nem da administradora do site. O politicamente correto hoje em muitos casos julga você por ser contra e se chatear com coisas que de fato são erradas, mas ele muitas vezes coloca você numa posição de incompreensivo ao tentar achar justificativas para o injustificável. O excesso de politicamente correto é bem castrador e censurador, ficou bem claro num episódio dos Simpsons. Margie estava bem insatisfeita com o desenho Comichão e Coçadinha que seus filhos assistiam, afirmava que era violento e ruim, ela tanto fez que mandou uma carta para o produtor e eles mudaram o roteiro. Semanas depois, os episódios passaram a mostrar os dois tomando chá, fazendo tricô juntos e se houvesse dúvida sobre alguma sequência, os produtores ligavam para Margie para perguntar sobre o mais correto a ser mostrado. O resultado dessa mudança drástica? As crianças se cansaram de assistir algo tão chato e começaram a brincar na rua. É, os Simpsons mais uma vez previram o futuro...

6. Síndrome de Veruca Salt
"Papai, eu quero outro pônei". "Papai, eu quero ser o destaque do telão na formatura". "Papai, eu quero entrar primeiro". Puxando o assunto das mamães que acham que o mundo deve se curvar a ela e suas crias, não há coisa hoje que esteja mais evidente do que a criação dessa população de Verucas Salt. Pra quem não lembra, Veruca era a menina mimada da Fantástica Fábrica de Chocolates, tudo que ela pedia era prontamente atendido e sem demora. Vemos muitas pessoas sendo criadas assim, dentro de uma redoma na qual seus pais querem submeter o ambiente a sua vontade, ao invés de serem preparados para uma adaptação a situações e superação de adversidades, fatalmente pessoas criadas assim se tornam adultos meio incapazes, despreparados. Vemos casos de pessoas que com essa percepção de terem sempre tudo, quando batem de frente com o mundo, usam de vários artifícios para conseguir o que desejam, nem que o pai ou mãe tenha que bater um papinho em particular com algumas pessoas na tentativa de uma regalia ou usam do puro e simples abuso e cara de pau. E se o mundo mostram que não é trouxa e percebe esse tipo de atitude, ainda é chamado de invejoso ou acusado de estar com dor de cotovelo.