terça-feira, 28 de março de 2017

Poças e Oceano


Prontidão
Pela noite adentro tão sozinha
Pensando onde posso enfim chegar
Prontidão
Pela noite adentro com meus sonhos
E temo de repente não poder mais voltar
Prontidão
Pela noite no escuro sombrio
Não sei bem o que é o meu esperar
Prontidão
Pela noite adentro a tentação é tão forte
E o perigo sempre vem me buscar
Já está pronta...
Ouço aquela voz a me chamar
Já está pronta...
Posso ouvir aquela voz

Existem algumas experiências que são decisivas na vida das pessoas. Todo ser humano é um mosaico de experiências, composto por fases, faces, momentos nos quais há variação de ambições, desejos porém mais nitidamente, variação de conceitos e aprendizados.

Por vezes esses aprendizados simbolizam um divisor de águas na vida e você percebe muito mais sobre si mesmo e sobre o mundo. Há a percepção de que ele nem sempre é perfeito como os desenhos coloridos que as crianças fazem na pré-escola, porém tal como esses mesmos desenhos é imperfeito e em muitos casos distorcido. Não há muito o que se fazer sobre isso, todavia, você ao longo dos anos vai aprendendo a lidar com ele.

Sendo o ser humano composto de fases, muito disso começa na escola. É fato que não se aprende numa ilha, admiraria muito alguém que conseguisse, pois a melhor forma de se lidar com as pessoas é convivendo com elas. Na escola, você começa a ver os amiguinhos, tem afinidade por muitos deles e conforme cresce, vem além da amizade a percepção de que muitos amiguinhos não são tão sinceros. Talvez nada mais quebrante para pessoas em idade escolar perceber que você estaria por um amigo até o fim do mundo, achar que ficaria com ele até quando estivessem velhinhos compartilhando fotos de netos, porém ao invés disso se deparar com a realidade de que nem se precisa terminar as últimas provas para perceber que esse mesmo amigo não pularia uma poça por você.
Provavelmente na vida adulta se a experiência pudesse ser transfigurada em um mapa ou em cores, uma das mais importantes, talvez ligada até com mudanças importantes, seja quando o indivíduo percebe quem é oceano e quem é poça. E isso o acompanha sempre, na convivência com todos em diversos ambientes, o que começa lá na escola tende a se aperfeiçoar. Vi pessoas que amavam aquele ambiente escolar, achavam que se pudessem ficariam para sempre lá e que todos eram bons, que todos os amiguinhos se importavam e era lindo, porém com o desgaste dos anos, percebendo condutas, arrogâncias, mudaram a ponto de não querer outra coisa além de cair fora da escola o mais rápido possível.
O ponto principal de quando você lida e percebe essas diferenças é a consideração que sente vinda das pessoas. Sabe, é o típico caso de você por exemplo se preocupar em comprar um presente para uma pessoa que considera muito, se lembrar dela mesmo que esteja longe e fazer questão de entregar, mas ás vezes a pessoa sequer o recebe pessoalmente, porém no dia do seu aniversário ela sequer lembrar de mandar um feliz aniversário ou mandar uma mensagem clichê porque foi lembrada pelas redes sociais. É você fazer esforço para que ela se lembre de você, é tentar manter conversas pois ela se mostra desisnteressada no que você fala e faz, ao passo que você ressalta o quanto está ali por ela e que ela pode confiar em você para qualquer coisa que precise, é se mostrar sempre disponível porém a recíproca não ser sentida nem mesmo diante de necessidade. 

Muitos permanecem assim por anos, atravessando oceanos, por um gostar que é até sincero e carinhoso contudo o tempo é implacável e ao perceber que sequer uma poça é pulada por você, seu fôlego vai se perdendo.

Claro que diante de tamanha descrição, pode parecer que é na base de interesses, o famoso toma lá- dá cá, porém é mais uma questão de respeito mútuo e saber perceber que algumas pessoas não sabem ou não podem, ou simplesmente não tem pra dar na mesma intensidade. Uma cena de Game of Thrones exemplifica muito bem essa questão. Tyrion, o famoso anão, estava preso e precisava de um campeão para lutar em um combate por ele. Sua primeira opção foi Bronn, seu capitão da guarda, contudo quando chamado em sua cela, ele se recusa em parte porque o adversário era enorme e em parte porque a irmã de Tyrion, Cersei, prometera e Bronn casamento vantajoso caso não lutasse. Tyrion poderia se sentir traído, mas não se vê nele tristeza, raiva, talvez um pouco de decepção porém como pessoa que já tinha aprendido muito sobre o mundo, compreendeu.

Tal como nosso leão, muitos compreendem. Depois de lidar com coisas assim, você acaba compreendendo e percebendo, sem rancor, que muitos não vão pular nem poças por você a não ser que queiram e mudem, porém você em respeito a si mesmo não vai ficar esperando nem atravessando oceanos enquanto isso não ocorre. É também uma forma de respeitar o outro, já que você o enxerga como ele é e não o pressiona com cobranças do que ele não pode nem tem como dar, simplesmente porque não se sente tocado. Ao contrário do que parece, não é uma linha reta de bom ou mau, apenas de maturo e imaturo. Você de forma alguma deseja mal, apenas se cansa de atravessar oceanos por pessoas que não pulariam uma poça por você.

Perceber essas atitudes nas pessoas em casos é como sair de uma caverna escura. Por mais que falem que você devia ficar lá, por mais que digam que você não devia ter saído não tem mais jeito. Quando você sai, enxerga, percebe, não tem mais como voltar...

domingo, 26 de março de 2017

Expectativas e lições dos novos Power Rangers


Quando saiu o trailer dos novos Power Rangers algumas coisas puderam ser notadas de cara. Claro que quem viu os Power Rangers originais estabeleceu logo o comparativo, o que tornou as coisas mais interessantes. Pra falar a verdade, talvez o maior público seja do pessoal antigo que quer viver de novo a nostalgia de ver e dizer " É Hora de Morfar!".

Para o povo das antigas, ficou claro que os novos tem umas coisas interessantes. Logo no trailer nota-se que ainda que destinados a serem heróis, os protagonistas não são pessoas perfeitinhas, descoladas, introsados um com os outros nem aceitos por todos. Todos os defeitos, pieguisses, características bulinadas e rejeitadas antigamente eram personificados nas figuras de Bulk e Skull, os garotos bobos que sempre queriam atenção, que tentavam se destacar, mas sempre recebiam olhares de desdém e nojo, desejavam notoriedade e um pouco de sucesso dos Rangers... traduzindo, eles só serviam para que se tivesse um alguém para apontar e rir. Desta vez, essas características estão nos protagonistas. Ou seja, eles poderiam ser qualquer um de nós.
Tudo gira em torno da escola regular, contudo, nem tão regular assim já que muitos dos integrantes dela são excepcionais em sua condição, de certa forma diferentes do resto. Jason, o Ranger Vermelho, continua sendo o bonitão, o forte que se destaca, porém claramente um rapaz problemático com péssimo relacionamento com o pai. O tipo de garoto que tem bom coração, defende colegas mais fracos porém com barreiras familiares que parecem intransponíveis.

Zac, o Ranger Preto, desta vez é representado por um oriental. Não se nota muito sobre ele nos trailers, porém percebe-se que ele é um solitário. Nas primeiras imagens ele é visto se inclinando em cadeiras no telhado, olhando ao longe. Talvez ele não seja muito sociável, bem diferente do Zac super descolado, com roupas coloridas e que adorava dançar, talvez ele seja mais como tantos rapazes e moças que preferem ficar em seu próprio mundo.

Billy dessa vez é um dos que mais tem a nos fazer refletir. Ele continua nerd, continua sendo o Ranger Azul,  porém nesta versão ele é negro e tem traços de autismo. Duas condições que tornam o personagem mais complexo e pelo trailer, mais propenso a exclusão. Ele ainda é quieto, com , com uma inteligência incrível por baixo de camadas de olhares aversivos. 

Curiosamente, Trini desde o início se mostrou minha favorita, mesmo eu não sendo fã da cor amarela. Se antes ela era atlética, ágil, esbelta, desta vez ela se mostra baixinha, rechonchuda, usa roupas que não parecem muito estilosas aos olhos de muitos, tudo isso ao ponto de escreverem em seu armário o "Morre maldita perdedora, ninguém se importa". Fora o fato de que ela anda por locais restritos, dá a impressão de que a família não a compreende, insinuando inclusive desconfiança de que ela possa se envolver com drogas e atividades ilícitas. Há inclusive confirmação de que ela é lésbica e está se descobrindo neste aspecto, como ocorre com tantas meninas nesta idade.
Kimberly continua sendo a bonitinha, moça de corpo bonito, com habilidades todavia ainda sofre com olhares de outras moças que discordam dela frequentar e conviver com pessoas diferentes. Ela não se sujeita a ser metida e arrogante, nem cheia de melindres. Ela dá a entender que é mais divertida e leve que a original.

O ponto destes novos heróis é que de alguma forma nos sentimos mais próximos deles. Quantos de nós na adolescência não sofreram com olhares julgadores dos colegas, eram massacrados pelos gostos pessoais, ou por ser introspectivo, nerd ou por ter dúvidas sobre a própria sexualidade e estar ficando maluco por isso? O mundo em muitos pontos está ficando exagerado, cheio de dedos com determinados assuntos que curiosamente, antes eram simplesmente mostrados livremente, contudo uma das coisas admiráveis é a de estar fazendo heróis com arestas, heróis que não são somente virtudes e carinhas bonitas, mas pessoas com atitudes heróicas e vontade de melhorar.

A melhor coisa desses novos Power Rangers é que poderiam ser qualquer um, poderiam ser encontrados em qualquer esquina, escola, hospital, parque e isso de algum modo nos faz sentir heróis. Mai heróis e melhor do que somos...


quarta-feira, 8 de março de 2017

Lições de Game of Thones - Parte 1


Existe um gosto muito peculiar em mim. Primeiramente feliz dia da mulher, no dia de hoje que resolvi escrever este post percebo que não posso deixar de chamar de peculiar esse gosto que me levou a finalmente assistir Game of Thrones. Se você olhar o discurso, pelo menos 5 em cada 10 mulheres vão exaltar a violência sofrida pelo público feminino todos os dias, logo o que me faz concluir que muitas vezes mulheres tendem a ter reservas com relação a qualquer coisa, mesmo que de entretenimento, que envolva violência ou atos abusivos. E Game of Thrones é cheio disso.

Sei que demorei muito a começar a assistir, só via as figurinhas aqui e ali, a raiva pelos spoilers, sabia do nome de um ou outro personagem quando tinha polêmica em alta e do autor que era malvado por matar todo mundo, porém um dia sem fazer nada, decidi ver. E depois de menos de 15 minutos me perguntava seriamente porque não tinha começado a assistir antes. Percebi que um lado meu desde a mais tenra idade gostava disso. Espadas, arcos, flechas, cabeças voando, membros decepados, detalhe, quando se tratava de batalhas antigas e eras antigas também, lembro de uma garotinha sentada com o pai assistindo os filmes clássicos de caras com espada. Lutas em idade contemporânea não me enchem os olhos, por isso que troco Pearl Habor por Conan ou Rei Arthur sem pensar duas vezes. Acho que mesmo com valores tão rústicos, ainda havia um cultivo de honra e muito do que surgiu nesta era foi pioneiro e base para o que temos hoje.

Atualmente, usam a expressão “Idade Média” pra se referir a toda opinião que pareça arcaica ou mazela do mundo, porém um pouco da lembrança das aulas de história e vendo Game of Thrones dá a nítida percepção que muitas idéias cultivadas a época permanecem, talvez executadas de forma diferente, com um pouco mais de polidez mas com cerne igual. Game of Thrones é mais que uma série, é um arcabouço de lições e fatos que merece ser exposto e quem sabe, despertar interesse de outros. Por isso aqui vão algumas das coisas bem perceptíveis na obra de George.


1.  Um nome ou influência não exime você de trabalhar duro.
Percebemos muito isso com a Família Lanister. Os três irmãos, Cercei, Jaime e Tyrion eram bem diferentes entre si e cada um tinha uma forma de encarar o “nome importante” que tinham. Tyrion principalmente. Por ser o anão, o subestimado, rejeitado e olhado de viés, ele se aprimorava o máximo que podia. “Se eu fosse de uma família de camponeses, eles teriam me deixado na floresta para morrer, mas eu sou um Lanister, eu procuro aprender e saber o máximo possível pra ser digno”, ou seja, o baixinho podia até ser de família influente, mas tinha plena consciência que precisava mostrar a que viera. Jaime ao contrário era mais vaidoso, era um cavaleiro que além de bonito era habilidoso, mesmo que se valesse mais de seu sobrenome desde cedo procurou se aprimorar.



2. Se valer de um sobrenome nem sempre é o bastante.
Embora pareça com o primeiro não é a mesma coisa. Pois há pessoas que nunca se preocupam com o amanhã acreditando que basta dizer que faz parte de uma família ou falar o nome de seus pais que todas as portas vão se abrir. Jaime estava em desvantagem e usava essa tática o tempo todo, “meu pai” pra cá e pra lá, até que alguém lhe deu a real “Você está no chão e acha que basta chamar o nome do seu pai que todos ficarão aos seus pés”, na vida real não é assim, dependendo de onde e com quem esteja, seu sobrenome não é nada e aí se volta para o primeiro ponto: você vai ter que contar consigo mesmo.



3. Algo que começa errado não necessariamente permanece errado.
Daenerys teve um casamento arranjado com um homem que se comparado a ela era um selvagem. Feições rudes, tinha quase o dobro de altura e infinita brutalidade, logo no primeiro episódio vemos como é penoso para Dany manter relações com ele num tempo em que a mulher tinha que estar sempre disponível. Com tudo isso se tende a pensar que ela vai viver uma vida infeliz até que decide aprender sobre como agradar seu Khal e aí a coisa muda de figura, querendo dar prazer a ele, ao ser correspondida passa a receber prazer também. E então o amor brota aos poucos de forma que Danny percebe que é muito melhor fazer amor olhando nos olhos.



4.  Sair de um relacionamento abusivo é difícil, mas depois que se sai, coitado do abusador.
Um dos maiores problemas atualmente são os relacionamentos abusivos. E também há o problema de quase sempre enviesarem como se somente casais pudessem viver esse tipo de relacionamento. Daenerys vivia um relacionamento assim com o irmão, sangue de seu sangue, não teve nenhum pudor em lhe arranjar um casamento arranjado em troca de um exército. “Eu deixaria que eles lhe estuprassem, eles e seus 1000 cavalos se isso me trouxesse a coroa”. Craster vivia um relacionamento abusivo com suas filhas-esposas. Elas engravidavam e se nascesse um menino, ele era sacrificado, o que não faz a coisa ser menos doentia do que é. Os envolvidos que eram os algozes nem preciso dizer que tiveram fins trágicos e com total desprendimento de aqueles que escravizavam, na verdade, numa opinião pessoal, Viserys, o irmão de Daenerys, mesmo sendo irmão teve um rumo mais interessante nesse processo do desprendimento da irmã e recomendo muito que assistam por causa disso.



5.  Não se nasce forte, se torna forte.
Jon Snow como o próprio nome diz, era o bastardo, era o apontado na rua, era o marcado como o que devia favores a esposa de seu pai que o acolhera, mas mesmo assim ele não desistiu e procurou se tornar melhor a cada dia. Arya, a menina que preferia espadas a vestidos não hesitava em mostrar que queria aprender a arte da espada, queria ser forte, ter um destino diferente do que era comum às moças e foi também aprendendo. E claro, não se pode deixar de mencionar Daenerys, a primeira vista ela era uma menina boba que não duraria uma temporada, mas ao conviver com os Dothraki ela foi aprendendo com sua força e descobrindo que era capaz, que podia ser uma rainha de verdade, ou melhor, uma Khaleesi.


6. Valor é algo que você precisa conquistar.
O mundo não vai lhe dar nada de graça, logo você precisa conquistar seu espaço e mostrar que não é um lixo qualquer. Jon Snow quando foi para o castelo negro era bom, mas carregava o estigma de ser o bastardo, o filho rejeitado de Ned Stark, mas mesmo assim mostrou ao que veio, demonstrou liderança, habilidade e com isso foi conquistando a confiança e admiração dos companheiros. É algo que devemos ter em mente: ninguém conhece você até que mostre o valor que tem.



7.  Uma ilusão mesmo que muito doce ainda é pior que uma verdade.
Talvez o golpe mais baixo que se possa dar em uma pessoa seja iludi-la com o que ela mais deseja. Isso já foi usado em várias séries, filmes e desenhos, você faz com que alguém veja o que mais quer do fundo do coração, como um espelho de Ojesed e lógico que qualquer um fraqueja diante de tal coisa. Como resistir a algo que é tão doce ao coração? Daenerys viveu isso, na busca por seus dragões ela foi tentada com a imagem das duas pessoas que mais amava no mundo: seu marido e seu filho. “Ou talvez eu tenha me recusado a entrar nas Terras da Noite sem você. Ou talvez eu tenha dito a Mãe das Montanhas pra ir se fuder e voltei aqui para esperar você”. Você treme, acha que é magia negra, muitos cogitariam por alguns segundos permanecer naquela cabana ilusória e perfeita, porém tal como Daenerys, acabam saindo. Não é fácil, porém é o certo.


8.  Um filho pode ser muito importante, porém ainda deve respeito aos pais.
Jofrey era filho de Cersei e ela o amava mais que tudo no mundo, afinal mesmo uma víbora ama seus filhotes, porém ela mesmo a contragosto fechava os olhos para as atrocidades que ele fazia ao passo que ele deixava claro que não aliviaria a barra de ninguém, nem dela. Em uma ofensa, ela lhe deu um tapa na cara dele e ele de cara disse que uma agressão ao rei era passível de morte e que deixaria passar daquela vez. Filhos criados assim não se pode esperar coisa boa, um filho pode ter o cargo mais importante, pode ser famoso, pode ser influente, mas se tem alguém por quem deve ter ao menos respeito, são seus progenitores.


9.  Um rei pode ser rei, mas não significa que terá o respeito de seus súditos.
Jofrey era rei, fazia questão de ostentar sua coroa para todos e não hesitava em mostrar sua crueldade. Infernizava a vida de Sansa, decapitava as pessoas por nada, queria ser temido e que todos se curvassem perante ele. O problema é que ser rei é mais que usar uma coroa, é mais que impor leis, fazer discursos e é tão fato que os súditos de Jofrey, mesmo sabendo de sua autoridade, não pensaram duas vezes me jogar cocô na sua cara durante um cortejo real ou de fazer piadas com sua pessoa nas ruas da cidade em rodas. Joffrey podia dar o chilique que fosse mas era inútil, ele tinha a coroa, a posição, ouro, mas poucos o viam como verdadeiramente rei, talvez nem a própria mãe. Não lembra um pouco o que acontece com a política de muitos países, inclusive a nossa?



10.   Aproveite as lições que aprende com quem não é tão legal.

Sempre digo que você vai conviver com gente cretina a vida toda, isso se chama mundo. Convivia com alunos bullies cretinos, na faculdade com universitários cretinos que se achavam melhores que todos e na vida adulta percebe que há desses em todos os serviços e que e muitos casos dificultam a beça sua vida. Ou seja, quanto a isso, não há nada o que fazer, mas você pode aprender com elas. Aprender a se defender, a ter mais percepção das coisas e pessoas em volta, saber como proceder em cada situação. Daenerys acreditava em Xaro Xhoan Daxos e em suas boas intenções, na sua conversa culta e promessa de tesouros, porém ele assim como outros da cidade só queriam seus dragões. No fim, ela usou sua ética dothraki e o prendeu em seu próprio cofre vazio.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Carta a uma velha amiga


Cara Amanda, já faz tempo desde que nos vimos pela última vez. Ás vezes me pego pensando em certas coisas, em como você está e outras coisas do tipo que você sabia bem. Ás vezes sinto saudades e penso em tudo quanto aconteceu em nossas vidas.

Lembro que você foi uma das poucas que me enxergou no meio de tanta gente. "Você tem cara de que gosta de animes e vai pra eventos", foi uma das poucas que olhou pra mim e de cara viu esse lado, talvez uma das poucas que olhava como algo não negativo ou infantil como tantas das pessoas da nossa turma, mas como algo cool. Você era a roqueira do nosso grupo, com cabelão preto, all star, acessórios característicos, estou querendo aprender a fazer porque os fretes são assustadores. Quem diria que eu iria começar a ser adepta desse estilo também.

Coleciono bonecas Monster High agora, esse era seu apelido, lembra? Você sempre contava que as crianças antes de apelidavam de Samara do Chamado, por causa do cabelão até a cintura, depois passou a ser Monster High, não consigo esquecer que nosso grupo ganhou esse apelido graças a você. Os cosplays estão indo, num dos eventos que fui, lembrei de você quando vi um monte de gente de Hora da Aventura, você havia perguntado como faz presa de vampiro, você gostava da Marceline não é? Acho que foi o empurrão que faltava pra eu decidir fazer esse cosplay, nem que fosse pra uma sessão de fotos, em sua homenagem.

Escutamos muitas coisas desde da última vez que ouvimos falar de você. Um dia me disseram que talvez você não estivesse tão bem quanto eu achei que poderia estar. Fiquei pensativa ao ouvir aquilo, porque desejo de coração que esteja tão feliz quanto seja possível estar. Acho que todos merecemos a felicidade, só que... ás vezes é difícil, sei lá. Ás vezes parece tão complicado... especialmente quando estamos onde não queremos estar, fazendo coisas que não queremos fazer, massacrados por vontades reprimidas e sentindo que mesmo que nosso corpo seja obrigado a permanecer em um lugar a nossa mente não aceita essa condição e voa. E por mais que queiramos traze-la de volta, não conseguimos.

Hoje, Amanda, sei como é difícil, sei como é difícil permanecer, como é difícil fingir. Fingir interesse, negar quando questionamentos vem na sua cabeça sobre onde está, com quem está convivendo. Se engajar em conversas quando tudo que queria estar era num limbo ou no mundo dos sonhos. Negar os olhares das pessoas que verídicos ou não parecem estar sempre ali, as perguntas, as indiretas, hoje sei como é difícil lutar consigo mesmo todos os dias, contra suas próprias adversidades... Algumas batalhas são mais fáceis que outras, mas nos dias de batalhas difíceis, você quase que explode.

Hoje eu sei Amanda, que devia ser muito difícil pra você. As pessoas não percebem. Na verdade, ninguém percebe ou preferem não perceber nem ver, sei lá, talvez cada um veja ou prefira não ver o que quer que seus olhos vejam e percebam. Por vezes a gente nota um olhar levantado, mas muitas vezes temos a dificuldade de abrir a concha de tanto que aprendemos a lidar sozinhos. 

Você um dia cansou de fingir, cansou de fazer de conta. Eu não concordo com seu modo de conduzir nem de resolver as coisas, eu mesma queria poder ter ajudado de algum modo. Pra ser sincera, me sinto culpada por não ter percebido como tantos não percebem. Sempre tenho na minha cabeça que não devemos nos transformar no que nos fizeram, no que nos disseram, no que achamos porcaria no mundo. Tenho passado por isso...

Lembra quando você me disse que queria abrir um bar? Eu acho que talvez pensasse que seu destino e felicidade não era onde estava. Quantos talvez não se questionem se estão no caminho certo? Se seus destinos são onde estão atualmente? O mundo dá umas pauladas violentas de vez em quando que a gente se questiona se não há nada melhor no horizonte, se não tem algo além do arco-íris ou algo que nos transmita mais paz do que temos atualmente. Eu espero que você possa achar essa paz, esse pote de ouro no fim do arco íris e aprenda cada vez mais Por vezes me questiono sobre o chão que piso e tenho vontade de voar pra longe, de uma forma que já nem consiga mais enxergar o que poderia deixar pra trás...Só que, falando por mim, talvez por uma percepção própria, tenho mais motivos pra ficar do que pra ir.

Amanda, lembro de você com carinho e desejo sua felicidade, você é uma ótima amiga. Talvez demore até nos vermos de novo, mas até lá, torço pra que tenha aprendido muito e encontrado o caminho das flores. Continuarei tentando aprender e encontrar esse caminho por aqui.

Com carinho, Rhayssa

domingo, 5 de março de 2017

O politicamente correto é sempre tão correto?



Talvez para os que nasceram na década 2000 pareça inimaginável uma época em que piadas, humor, música e afins eram feitos com objetivo primitivo e exclusivo de fazer rir. Parece estranha a afirmação? Pois não é. Não hoje. Em um era de textões, críticas e dedos apontados. Quem faz humor ou arte do tipo em geral não pensa mais se vai ser engraçado, pensa nas mil e uma pessoas que pode ofender com suas piadas. E isso me faz crer e pensar que ser humorista, no tempo que vivemos, é uma das profissões mais difíceis do mercado.

Antes de mais nada, friso o quanto é importante que tenhamos adquirido mais consciência com relação as chamadas minorias. Em termos de aceitação, conscientização com relação ao seu valor, isso foi algo positivo para a sociedade, devo frisar da mesma forma que embora a mudança tenha sido positiva, há momentos em que tanta positividade beira os raios do absurdo. Nos anos 60, tínhamos a Divisão de Censura de Diversões Públicas, que checava cada letra de música, cada script de jornal, cada peça, cada roteiro de filme para que nada que fosse ser falado ou mostrado saísse da linha, hoje numa comparação, mesmo que não literal, temos os chamados fazedores de textão, os quais sempre passam a impressão de grande moralismo, alta crítica e violenta repreensão.

Mais uma vez friso que de forma alguma seria legal que se voltasse a época em que piada era dizer que um sabão muito bom podia "lavar a pele do negro" ou que ofensa era dizer que um menino "lutava como uma menina com paralisia" (essa eu tirei de GoT), porém nesta semana semana houve muito pano pra manga que levantou essa questão.

Foi lembrado que estamos a exatos 21 anos sem Os Mamonas Assassinas, quem os viu sabe como foi. Eles não eram uma bandinha qualquer, na época foi assombroso o sucesso que eles fizeram curto, mas o bastante para que entrassem para a eternidade. Eram pouco mais que uma bandinha de garagem quando alavancaram, meninos jovens, sorridentes, numa época em que não existia The Voice nem Super Star, era tudo na ralação mesmo. Daí eu me questiono se o próprio nome deles não seria motivo de polêmica. Afinal, “Assassina” remete a violência e certa apologia a ela, pode ser forte demais aos ouvidos mais frágeis.


Contudo passando pelo nome da banda vamos às músicas. Mesmo com mais de 20 anos de idade, ainda se pode ouvi-las em algumas festas de 15 anos ou em aniversários de quarentões animados. O ritmo era animado, as coreografias engraçadas, porém as letras gerariam um problema social sério. Os Mamonas eram peritos no politicamente incorreto, suas letras sempre abordavam um grupo específico, como mulheres, gays ou nordestinos, e sempre com tom de piada. Enganam-se se pensam que não haviam  críticas, porém numa época em que as pessoas tiravam tão por menos e não existia internet para textões e memes toscos, acabava que o espírito e risadas dos cinco palhacinhos predominava.

Uma das músicas mais famosas,“Robocop Gay” seria jurada de censura e protestos pelos mais fervorosos, “O meu bumbum era flácido/ Mas esse assunto é tão místico/ Devido a um ato cirúrgico/ Hoje eu me transformei”, o que os rapazes poderiam esperar com esta canção do que acusações de LGBTfobia e Homofobia? Ou os típicos adjetivos de “Nojo”, “Palhaços” e “Lixo Humano”? Além de Robocop Gay, os versos de “Pelados em Santos” faria chover de moças indignadas a crítica de que “só porque um cara é legal, a moça não tem obrigação de ficar com ele”, na era da extrema disseminação do direito da mulher dizer “não” e por vezes esnobar quem quer que seja, a Brasília Amarela de Dinho ficaria para sempre vazia.


Isso sem falar na “Vira – Vira”, como eles se atreveram a cantar uma música tão misógina? Como pode a objetificação da mulher dessa forma? Ainda que hoje exaltem as letras “feministas” da Valeska Popozuda ou as “emponderadas” da Tati Quebra Barraco, multidões viraram e desviram no ritmo do “Roda, roda vira, solta a roda e vem”. Mas ainda que nos dias atuais, eles pudessem ser escrachados, eu os admiro pois até o fim eles passaram a mensagem de que se tem que rir e levar a vida dessa forma. Aliás, segundo raras fontes, só houve um momento de seriedade por parte do vocalista Dinho, em um show ele se ajoelhou no palco, agradeceu ao público e afirmou que diziam que eles nunca chegariam a lugar nenhum e incentivou a todos a correrem atrás de seus sonhos e nunca permitissem que o mundo os fizessem desistir. Um exemplo do palhaço politicamente incorreto.

Saiamos dos Mamonas Assassinas e vamos para algo mais antigo. Nosso Raul Seixas foi um cara que nasceu a 10000 anos atrás e visto como ícone de vida alternativa. O que muitos não sabem é que o cantor a frente do seu tempo também tem suas letras pra lá de incorretas. Muitos continuariam admirando Raul enquanto ele fosse o Maluco Beleza porém o repudiariam quando ouvissem "Rock das Aranhas",  "Eu vi duas mulheres/ Botando aranha prá brigar", canção que faz clara  referência a sexo lésbico. 

Raul não foi o único da MPB a ter músicas que possibilitassem esse tipo de análise. Tim Maia com seu “Me deu motivo” talvez não fosse muito bem aceito uma vez que quem vacila e faz jogo sujo é uma mulher. E acreditem, alguns simplesmente não recebem bem a informação de que uma mulher pode esnobar com os sentimentos e magoar um homem. Alcione com sua canção “Você me vira a cabeça” aos olhos mais atentos, assim como outras canções dela, relata os sentimentos de uma mulher por um homem de forma tão intensa e submissa que o relacionamento torna-se abusivo.

Trechos como “Você não me quer de verdade/ No fundo eu sou tua vaidade/Eu vivo seguindo seus passos/Eu sempre estou presa em teus laços/É só você me chamar que eu vou”, não duvido que muitas mais exaltadas não curtam a Marrom por causa de suas letras. Acreditem se quiserem, no meio do politicamente correto, filmes deixam de ser vistos se houver mínima insinuação, eventos deixam de ser assistidos (concursos de beleza por exemplo) e m´músicas ouvidas em nome de algo não “encaixado” nesse padrão considerado “certo”. 

Foi o que aconteceu com o finado programa Casseta e Planeta, eles eram tão incorretos que até os políticos que eu duvido que assistam televisão se doeram com as piadas que os comediantes faziam. E quem não se lembra do porteiro Severino, do tempo em que a Zorra era Total, com seu velho bordão “Isso é uma bichoooona!”. Pode parecer insensibilidade, mas na humilde opinião desta autora, vou rir toda vez que ver, vou doer a barriga de rir na verdade e ao ouvir a música da Marrom, ainda vou fazer o coro do “Tem!” e isso não me fará, do mesmo jeito que não faz ninguém menos empático com o próximo ou com o sofrimento alheio.

Talvez o problema do politicamente correto atualmente seja o extremismo, o qual é perigoso e nocivo em qualquer outra coisa. Não é problema você lutar para abolir o que não considera correto, o que não é certo é impor ou tentar proibir que as outras pessoas tenham contato com tal. Tentar boicotar filmes, programas em nada ajuda na elucidação, se esse for o objetivo, pelo contrário, criará uma aversão e o fatídico “bando de chatos”. No mundo em que vivemos, é necessário equilíbrio para saber discernir quando uma ação vem carregada com a intenção de ofensa e quando não.


E só pra terminar, houve uma situação em que o “politicamente correto” foi duramente criticado mesmo com quem concordava em massa com ele. Foi na época da morte de nosso querido Bolaños. Uma jornalista cujo nome nem lembro fez um texto apontando todos os erros de Chaves enquanto excludente e estereotipado. Em suma, realmente, se formos analisar, tem muita coisa: ele fazia piada com gordo (gordofobia) e com defeitos físicos (desde “burro”, bochechas grandes e estatura) sendo que cinco minutos depois as crianças estavam brincando de amarelinha ou futebol. Botava em cheque a violência (Mulher batendo em homem tudo bem desde que Seu Madruga não levantasse um dedo contra a Velha Coroca, digo, Dona Florinda), polemizava questão de classe social, mulheres que não se importavam em fazer tudo pelo homem que gostavam e violência infantil (Toma!). 

Em alguns episódios específicos até mencionaram questões relacionadas a negros (“As brancas valem o dobro das pretas”) e homossexuais (Seu Madruga ensinando Prof. Girafales a se declarar). Maria Antonieta de Las Nieves sofreria um enxurrada de críticas pela sua Rainha de Sabá e seria acusada de black face, mas sinceramente, não imagino ninguém fazendo aquele papel melhor que ela (“Essa que tá aqui atrás!”). Contudo, sabem por que ningupem fica pontuando excessivamente isso? Nem criticando? Porque as piadas, o enredo, os atores, o cenário, a atuação e simplicidade eram tão bons que no fim de tudo, todos riam. Fora que numa balança de intenção e ação, Bolaños nunca teve nem por um segundo intenção de ofender quem quer seja, de que público fosse.

Talvez o mundo pareça chato ás vezes porque falta riso nele. Mais riso... Mais leveza... Mais Chaves.