“Eu estou encantada em conhece-lo Monsieur Gato Pilantra” “Igualmente Duquesa, a senhora é demais”. Dia 29 de junho é comemorado o Dia do Dublador, devo dizer que é uma das profissões que mais admiro, pois esses profissionais quebram paradigmas. Eles são atores profissionais, embora pouco apareçam nos veículos de grande mídia como televisão e cinema, salvo exceções quando a classe artística era pau pra toda obra, o próprio Lima Duarte dublou por anos o famoso gato Manda Chuva.
Eles são conhecidos por todos nós, suas vozes ecoam em filmes, desenhos, animes, mas sequer sabemos seus nomes, a grande maioria das pessoas que não está inserida no fã clube não se interessa em saber. Eles ajudam na inclusão de públicos, mas ainda assim muitos desvalorizam, a dublagem brasileira ganhou o equivalente ao Oscar devido sua qualidade excepcional, porém há quem diga com todo desdém “Prefiro legendado”.
Pois bem, não há como falar de
dublagem sem passar pela era de ouro da programação aberta. Em épocas que hoje
parecem longínquas, a televisão possuía uma programação peculiar que era aberta
a todos os públicos, especialmente o infantil. Desenhos, filmes e
posteriormente animes cujo acesso só foi possível devido ao trabalho desses
profissionais de colocarem as vozes dos personagens no nosso idioma. Hoje com
todas as plataformas e possibilidades, internet banda larga, parece meio impossível
de imaginar quando as pessoas aguardavam ansiosamente pra que um filme fosse
lançado em vídeo para que pudessem ver ou as crianças que saiam correndo para
não perder um episódio de seu anime favorito, pois não havia chance de repetir.
Esses acessos só foram possíveis porque quando estas mídias chegavam ao país
havia todo um trabalho de tradução e posteriormente de dublagem, esses
profissionais colocavam suas vozes para que conseguíssemos nos familiarizar com
o que estava sendo mostrado.
Se formos viajar um pouco no tempo e analisarmos algumas coisas realmente antigas, de quando a própria dublagem era terra inexplorada e estava ainda se consolidando. Muitos artistas dos primórdios afirmam o quão diferente era, as bancadas eram diferentes, todos dublavam juntos, tipo trabalho em grupo no qual cada um faz um pedacinho enquanto o outro está ali vendo (mesmo isso se tornou
obsoleto com os meets digitais), os aparelhos não eram nem a poeira dos de hoje. Nosso saudoso Orlando Drummond foi o pai da dublagem, ele pisou nessa terra quando tudo era mato e areia, foi professor e inspiração de muitos que hoje entram na carreira. De nome pode ser que muitos não reconheçam, mas se eu disser “Scooby Doo”, todos imediatamente lembram, já que ele fez a voz desse medroso cachorro por nada menos que 35 anos, entrando inclusive para o Guiness como dublador que mais permaneceu em um personagem.
Hoje um lançamento no cinema já
tem seu lançamento quase que instantâneo em streamings e plataformas privadas. Antes,
apenas os mais abastados poderiam ter essa chance, uma vez que internet era
cara e tvs por assinatura mais ainda, logo até o dublado era meio restrito e
cabia aos que não podiam pagar aguardar os lançamentos em vídeo. Quem foi da
geração da era de ouro da Disney sabe que as músicas jamais seriam eternizadas
se não houvesse uma boa tradução e voz por trás. A Branca de Neve foi um
trabalho excepcional, o primeiro filme da Disney e que recebeu duas dublagens, artistas
de ponta da época, inclusive Drummond estavam no elenco. Uma famosa cantora fez
a primeira dublagem, sendo substituída na segunda. Como era tudo muito rústico
e os próprios atores ainda em processo de especialização, perdurou por anos uma
diferenciação entre voz para diálogos e voz para canções, em filmes mais antigos
da Disney é bem perceptível essa diferença. O ponto mais alto é que há canções
que jamais seriam tão marcantes e eternas se não fossem as vozes que as
embalam, com todo respeito, poucos se lembram de “Saber quem sou” de Moana, mas
todo mundo se lembra de “Sentimentos são” da Bela e a Fera.
“Ain, mas no legendado os
diálogos não se perdem, as vozes são diferentes”. Esse foi um argumento que ouvi.
Para que os diálogos não se percam deve haver um bom trabalho dos dubladores em
conjunto com tradutores. Curioso que podem falar disso na dublagem, mas não há
atenção para o fato de que a questão de uma boa tradução se faz presente em
qualquer obra estrangeira que adentre em nosso país, pois é preciso trazer
minimamente uma correspondência com a realidade que vivemos, caso contrário mesmo
um livro parecerá demasiado distante e não vai agradar. Daí vem o fato de que
obras mesmo literárias que viraram filmes puderam ser vistas no Brasil ou no
Japão e com a tradução adequada seguida de boas vozes não fizeram os
telespectadores parecerem desnorteados ou se sentindo perdidos em um universo
que parece demasiado longe ou estranho.
Jazz”, algo que no original faz sentido visto que os gatos malandros gostam do ritmo, no Brasil não faria muito sentido visto que esse ritmo não era muito conhecido. Expressões como “patota”, “ele conhece bem do babado”, “chapas da turma da pesada”, “entra no embalo bicho”, “bota pra quebrar” são traduções que para nós torna o filme natural e fluido, sem perder, contudo, quaisquer sentidos originais do que quer ser mostrado. E numa percepção pessoal de quem viu o idioma original dá pra dizer que a sensação não é mesma.
No anime Yu Yu Hakusho o excelente trabalho casado do tradutor com os dubladores também se fez presente. As expressões idiomáticas como “Você é grande, mas não é dois” fizeram com que aquele desenho de formato tão novo para a maioria que sequer sabia que a denominação certa era “anime” pudesse ter uma popularidade que nem mesmo os dubladores imaginavam que teria. Miriam Fisher, uma das dubladoras disse que começaram a receber cartas de pessoas dizendo que os conheciam, que
sabiam seus nomes, que se diziam fãs de seu trabalho e que aquilo foi de um espanto geral, pois estes profissionais se acreditavam anônimos, desconhecidos, pessoas de trás dos bastidores que não eram vistas. Marco Ribeiro, que também fazia um personagem, mencionou que eles começaram a ser chamados para eventos. Mais uma vez o espanto, pois “como assim? Dublador não é chamado para evento”, mas foi o início de um reconhecimento para com esses profissionais e para com suas vozes que cativam pela sonoridade e se eternizam pelo talento.
Muitos mencionam as vozes que são
diferentes do chamado “original”, todavia não esqueçamos que tal como qualquer
profissão há uma análise de currículo e testes para as vagas. E considerando o
tanto de investimento que ocorre hoje, é mais que óbvio que os clientes ao
trazerem seus produtos para o Brasil para serem dublados, vão querer os
melhores disponíveis. Existem testes de diálogo e canções, questão de
interpretação, técnicas. Cabe lembrar que o dublador não é um curioso, ele fez
um curso profissional, tem o registro de ator, logo tem além das técnicas de
interpretação manejos com a voz e timbres necessários para a dublagem.
Claro que vez ou outra se coloca uma figura que não é do meio para dublar, muitas vezes trata-se de uma jogada de marketing para atrair público, alguns casos são desastrosos outros não, depende muito da direção de dublagem, do quanto o indivíduo novo no ramo está aberto para receber as instruções e possui a percepção de que aquele é um campo novo. Vimos alguns resultados desastrosos como pessoas que não tinham menor manejo da voz e nuances assim como famosos que queriam colocar seus próprios sotaques quando os personagens mesmo com as traduções não pediam por tal. Por outro lado, houve atores inexperientes no ramo que fizeram trabalhos magistrais que eternizaram os personagens,
como o caso de ratatouille e Zootopia. Voltando para Aristogatas, já lá em 1971, quem dublou Gato Pilantra foi Monsueto Menezes. Ele era ator, de fato, mas era conhecido por ser um artista multimídia, sendo incrivelmente conhecido por composições para escolas de samba. Seu único papel na dublagem foi esse, fazendo inclusive as canções de Gato Pilantra com os trejeitos típicos e dando ao bichano um jeito meio malandro de se expressar, você consegue sentir ali o legítimo gato vagabundo que mia nos telhados, vive em bando e perambula pelas ruas.
Uma das dublagens que está a décadas no mercado e é considerada a mais perfeita já feita foi a do seriado Chaves e Chapolin. Os profissionais são taxativos ao dizer que se você quer saber se uma dublagem é de fato boa, é necessário ouvir e sentir que sequer é dublado, é preciso sentir que aquela
obra foi feita no próprio país. Cabe lembrar que Chaves e Chapolin foi feito também em época antiga, mas ainda assim as traduções e adaptações seja das expressões, dos pequenos trejeitos e até dos nomes dos personagens são tão excepcionais, tão pontuais e exatas que foram capazes de aliadas com o talento dos dubladores fazer pessoas rirem por pelo menos 30 anos seguidos.
A dublagem é inclusiva. Muito
embora digam que “legendado é melhor”, fato é que ao traduzir um idioma para o português
se consegue alcançar um público maior. Como foi falado, muitos sequer pisaram
em um curso de inglês ou de qualquer outro idioma, como exigir dessa parcela da
população familiaridade com um filme que já na língua se apresenta de forma tão
diferente? De novo o mestre Marco Ribeiro (Woody, Toy Story) mencionou em um vídeo
que existem milhões de analfabetos no Brasil, como exigir leitura de legendas
deles? Deve-se excluí-los do acesso ao entretenimento? Há pessoas com déficits visuais,
idosos, como querer que eles possam ler legendas pequenas que passam de forma
rápida nas telas? E outro ponto que a dublagem também se insere é na questão da
audiodescrição. Clécio Souto (Castiel de Supernatural, Tentomon e Batman do
Futuro) ao realizar um trabalho de audiodescrição também fala sobre a
importância desse tipo de trabalho para incluir outros públicos.
Lógico que deve haver um respeito para com aqueles que não desejam prestigiar a dublagem. Houve casos de dizerem que era coisa de ignorantes querer ver dublado, como se isso inferiorizasse de algum modo quem o prefere. Curioso porque em vários casos os próprios artistas quando conhecem seus dubladores ficam extasiados com o talento deles e demonstram gratidão pelo maravilhoso trabalho. Um fato que ficará para a história foi o encontro de Hugh Jackman, o eterno Wolverine, com seu dublador Isaac Bardavid, falecido este ano, promovido pelo apresentador Danilo Gentili. Jackman se ajoelhou perante Isaac, saudando-o e agradeceu por tudo. Gentili é um dos apresentadores brasileiros que mais prestigia os dubladores, enquanto classe, enquanto profissionais talentosos e já promoveu vários encontros deles com os atores aos quais emprestam suas vozes.
A dublagem brasileira é mundialmente famosa, não é à toa. Estes atores hoje podem ser alcançados através das redes sociais, de seus perfis, hoje eles possuem nomes e rostos além das vozes que nos encantam. Por conta disso merecem todo nosso prestígio, toda nossa curiosidade com relação aos personagens que fazem e nosso encanto pelas magníficas obras que deixam.
.jpg)




.jpg)














