quinta-feira, 30 de junho de 2022

Homenagem ao Dia do Dublador

“Eu estou encantada em conhece-lo Monsieur Gato Pilantra” “Igualmente Duquesa, a senhora é demais”. Dia 29 de junho é comemorado o Dia do Dublador, devo dizer que é uma das profissões que mais admiro, pois esses profissionais quebram paradigmas. Eles são atores profissionais, embora pouco apareçam nos veículos de grande mídia como televisão e cinema, salvo exceções quando a classe artística era pau pra toda obra, o próprio Lima Duarte dublou por anos o famoso gato Manda Chuva.


Eles são conhecidos por todos nós, suas vozes ecoam em filmes, desenhos, animes, mas sequer sabemos seus nomes, a grande maioria das pessoas que não está inserida no fã clube não se interessa em saber. Eles ajudam na inclusão de públicos, mas ainda assim muitos desvalorizam, a dublagem brasileira ganhou o equivalente ao Oscar devido sua qualidade excepcional, porém há quem diga com todo desdém “Prefiro legendado”.

Pois bem, não há como falar de dublagem sem passar pela era de ouro da programação aberta. Em épocas que hoje parecem longínquas, a televisão possuía uma programação peculiar que era aberta a todos os públicos, especialmente o infantil. Desenhos, filmes e posteriormente animes cujo acesso só foi possível devido ao trabalho desses profissionais de colocarem as vozes dos personagens no nosso idioma. Hoje com todas as plataformas e possibilidades, internet banda larga, parece meio impossível de imaginar quando as pessoas aguardavam ansiosamente pra que um filme fosse lançado em vídeo para que pudessem ver ou as crianças que saiam correndo para não perder um episódio de seu anime favorito, pois não havia chance de repetir. Esses acessos só foram possíveis porque quando estas mídias chegavam ao país havia todo um trabalho de tradução e posteriormente de dublagem, esses profissionais colocavam suas vozes para que conseguíssemos nos familiarizar com o que estava sendo mostrado.

Se formos viajar um pouco no tempo e analisarmos algumas coisas realmente antigas, de quando a própria dublagem era terra inexplorada e estava ainda se consolidando. Muitos artistas dos primórdios afirmam o quão diferente era, as bancadas eram diferentes, todos dublavam juntos, tipo trabalho em grupo no qual cada um faz um pedacinho enquanto o outro está ali vendo (mesmo isso se tornou


obsoleto com os meets digitais), os aparelhos não eram nem a poeira dos de hoje. Nosso saudoso Orlando Drummond foi o pai da dublagem, ele pisou nessa terra quando tudo era mato e areia, foi professor e inspiração de muitos que hoje entram na carreira. De nome pode ser que muitos não reconheçam, mas se eu disser “Scooby Doo”, todos imediatamente lembram, já que ele fez a voz desse medroso cachorro por nada menos que 35 anos, entrando inclusive para o Guiness como dublador que mais permaneceu em um personagem.

Hoje um lançamento no cinema já tem seu lançamento quase que instantâneo em streamings e plataformas privadas. Antes, apenas os mais abastados poderiam ter essa chance, uma vez que internet era cara e tvs por assinatura mais ainda, logo até o dublado era meio restrito e cabia aos que não podiam pagar aguardar os lançamentos em vídeo. Quem foi da geração da era de ouro da Disney sabe que as músicas jamais seriam eternizadas se não houvesse uma boa tradução e voz por trás. A Branca de Neve foi um trabalho excepcional, o primeiro filme da Disney e que recebeu duas dublagens, artistas de ponta da época, inclusive Drummond estavam no elenco. Uma famosa cantora fez a primeira dublagem, sendo substituída na segunda. Como era tudo muito rústico e os próprios atores ainda em processo de especialização, perdurou por anos uma diferenciação entre voz para diálogos e voz para canções, em filmes mais antigos da Disney é bem perceptível essa diferença. O ponto mais alto é que há canções que jamais seriam tão marcantes e eternas se não fossem as vozes que as embalam, com todo respeito, poucos se lembram de “Saber quem sou” de Moana, mas todo mundo se lembra de “Sentimentos são” da Bela e a Fera.

“Ain, mas no legendado os diálogos não se perdem, as vozes são diferentes”. Esse foi um argumento que ouvi. Para que os diálogos não se percam deve haver um bom trabalho dos dubladores em conjunto com tradutores. Curioso que podem falar disso na dublagem, mas não há atenção para o fato de que a questão de uma boa tradução se faz presente em qualquer obra estrangeira que adentre em nosso país, pois é preciso trazer minimamente uma correspondência com a realidade que vivemos, caso contrário mesmo um livro parecerá demasiado distante e não vai agradar. Daí vem o fato de que obras mesmo literárias que viraram filmes puderam ser vistas no Brasil ou no Japão e com a tradução adequada seguida de boas vozes não fizeram os telespectadores parecerem desnorteados ou se sentindo perdidos em um universo que parece demasiado longe ou estranho.

Os livros de Harry Potter contaram com uma tradutora tão boa que várias palavras caso permanecessem no idioma original não somente sequer poderiam ser pronunciadas como seriam totalmente esquisitas. Como se referir a um esporte como “Quiddich”? Pensemos em quem nunca estudou inglês e não sabe bem as pronúncias, essa pessoa sentiria vergonha de tentar falar. Mas ao se traduzir como Quadribol, parece que sempre foi um esporte até nosso, há o sentimento de estar mesmo inserido. Uma boa tradução e adaptação linguística é um modo de alcançar o público. E esse alcance não é de agora, as frases iniciais do post são do filme Aristogatas, de 1971. Um exemplo dentre tantos de filme Disney que não apenas os diálogos, mas as canções foram adaptadas. O próprio nome “Gato Pilantra” foi uma jogada de mestre para trazer aquela figura de gato de rua para nossa realidade, o original é “Gatuno
Jazz”, algo que no original faz sentido visto que os gatos malandros gostam do ritmo, no Brasil não faria muito sentido visto que esse ritmo não era muito conhecido. Expressões como “patota”, “ele conhece bem do babado”, “chapas da turma da pesada”, “entra no embalo bicho”, “bota pra quebrar” são traduções que para nós torna o filme natural e fluido, sem perder, contudo, quaisquer sentidos originais do que quer ser mostrado. E numa percepção pessoal de quem viu o idioma original dá pra dizer que a sensação não é mesma.

No anime Yu Yu Hakusho o excelente trabalho casado do tradutor com os dubladores também se fez presente. As expressões idiomáticas como “Você é grande, mas não é dois” fizeram com que aquele desenho de formato tão novo para a maioria que sequer sabia que a denominação certa era “anime” pudesse ter uma popularidade que nem mesmo os dubladores imaginavam que teria. Miriam Fisher, uma das dubladoras disse que começaram a receber cartas de pessoas dizendo que os conheciam, que


sabiam seus nomes, que se diziam fãs de seu trabalho e que aquilo foi de um espanto geral, pois estes profissionais se acreditavam anônimos, desconhecidos, pessoas de trás dos bastidores que não eram vistas. Marco Ribeiro, que também fazia um personagem, mencionou que eles começaram a ser chamados para eventos. Mais uma vez o espanto, pois “como assim? Dublador não é chamado para evento”, mas foi o início de um reconhecimento para com esses profissionais e para com suas vozes que cativam pela sonoridade e se eternizam pelo talento.

Muitos mencionam as vozes que são diferentes do chamado “original”, todavia não esqueçamos que tal como qualquer profissão há uma análise de currículo e testes para as vagas. E considerando o tanto de investimento que ocorre hoje, é mais que óbvio que os clientes ao trazerem seus produtos para o Brasil para serem dublados, vão querer os melhores disponíveis. Existem testes de diálogo e canções, questão de interpretação, técnicas. Cabe lembrar que o dublador não é um curioso, ele fez um curso profissional, tem o registro de ator, logo tem além das técnicas de interpretação manejos com a voz e timbres necessários para a dublagem.

Claro que vez ou outra se coloca uma figura que não é do meio para dublar, muitas vezes trata-se de uma jogada de marketing para atrair público, alguns casos são desastrosos outros não, depende muito da direção de dublagem, do quanto o indivíduo novo no ramo está aberto para receber as instruções e possui a percepção de que aquele é um campo novo. Vimos alguns resultados desastrosos como pessoas que não tinham menor manejo da voz e nuances assim como famosos que queriam colocar seus próprios sotaques quando os personagens mesmo com as traduções não pediam por tal. Por outro lado, houve atores inexperientes no ramo que fizeram trabalhos magistrais que eternizaram os personagens,


como o caso de ratatouille e Zootopia. Voltando para Aristogatas, já lá em 1971, quem dublou Gato Pilantra foi Monsueto Menezes. Ele era ator, de fato, mas era conhecido por ser um artista multimídia, sendo incrivelmente conhecido por composições para escolas de samba. Seu único papel na dublagem foi esse, fazendo inclusive as canções de Gato Pilantra com os trejeitos típicos e dando ao bichano um jeito meio malandro de se expressar, você consegue sentir ali o legítimo gato vagabundo que mia nos telhados, vive em bando e perambula pelas ruas.

Uma das dublagens que está a décadas no mercado e é considerada a mais perfeita já feita foi a do seriado Chaves e Chapolin. Os profissionais são taxativos ao dizer que se você quer saber se uma dublagem é de fato boa, é necessário ouvir e sentir que sequer é dublado, é preciso sentir que aquela


obra foi feita no próprio país. Cabe lembrar que Chaves e Chapolin foi feito também em época antiga, mas ainda assim as traduções e adaptações seja das expressões, dos pequenos trejeitos e até dos nomes dos personagens são tão excepcionais, tão pontuais e exatas que foram capazes de aliadas com o talento dos dubladores fazer pessoas rirem por pelo menos 30 anos seguidos.

A dublagem é inclusiva. Muito embora digam que “legendado é melhor”, fato é que ao traduzir um idioma para o português se consegue alcançar um público maior. Como foi falado, muitos sequer pisaram em um curso de inglês ou de qualquer outro idioma, como exigir dessa parcela da população familiaridade com um filme que já na língua se apresenta de forma tão diferente? De novo o mestre Marco Ribeiro (Woody, Toy Story) mencionou em um vídeo que existem milhões de analfabetos no Brasil, como exigir leitura de legendas deles? Deve-se excluí-los do acesso ao entretenimento? Há pessoas com déficits visuais, idosos, como querer que eles possam ler legendas pequenas que passam de forma rápida nas telas? E outro ponto que a dublagem também se insere é na questão da audiodescrição. Clécio Souto (Castiel de Supernatural, Tentomon e Batman do Futuro) ao realizar um trabalho de audiodescrição também fala sobre a importância desse tipo de trabalho para incluir outros públicos.



Lógico que deve haver um respeito para com aqueles que não desejam prestigiar a dublagem. Houve casos de dizerem que era coisa de ignorantes querer ver dublado, como se isso inferiorizasse de algum modo quem o prefere. Curioso porque em vários casos os próprios artistas quando conhecem seus dubladores ficam extasiados com o talento deles e demonstram gratidão pelo maravilhoso trabalho. Um fato que ficará para a história foi o encontro de Hugh Jackman, o eterno Wolverine, com seu dublador Isaac Bardavid, falecido este ano, promovido pelo apresentador Danilo Gentili. Jackman se ajoelhou perante Isaac, saudando-o e agradeceu por tudo. Gentili é um dos apresentadores brasileiros que mais prestigia os dubladores, enquanto classe, enquanto profissionais talentosos e já promoveu vários encontros deles com os atores aos quais emprestam suas vozes.

A dublagem brasileira é mundialmente famosa, não é à toa. Estes atores hoje podem ser alcançados através das redes sociais, de seus perfis, hoje eles possuem nomes e rostos além das vozes que nos encantam.  Por conta disso merecem todo nosso prestígio, toda nossa curiosidade com relação aos personagens que fazem e nosso encanto pelas magníficas obras que deixam.

terça-feira, 21 de junho de 2022

O que você veria no espelho?

 


"O que eu veria?"

"Nem o mais sábio pode prever, pois o espelho mostra muitas coisas. Coisas que são, coisas que foram e até algumas coisas que ainda não aconteceram"

Dizem que espelhos tem um significado muito profundo, mais profundo e antigo do que as eras do mundo. Na Idade Média eles eram objetos que envolviam medo, receios das pessoas. As pessoas


acreditavam que as bruxas utilizavam espelhos para se conectar com o outro mundo, falar com os mortos, fazer rituais de magia e até mesmo fazer um espelho mágico. Parece inclusive que no museu dos Warren, existe um espelho amaldiçoado que era usado para esse tipo de fim. Muito do que envolve esse imaginário dos espelhos diz respeito ao fato de que eles possuem uma voz única, que querendo ou não é a nossa própria.

Ao mostrar o reflexo de alguém, o espelho revela a imagem sua e de como os outros o veem. Não a toa que quando alguém está se arrumando pra uma festa ou evento importante, é muito cômodo que o faça em uma sala ou quarto que tenha espelhos, ele mostra o mais fundo dos nossos olhos, que por sinal são "o espelho da alma", pois é um reflexo muito específico, muito pessoal.

Quando olhamos para um espelho, ele mostra tanto o que queremos que os outros vejam mas também nós conseguimos ver nele o que desejamos ocultar, de forma muito curiosa, nossos olhos olhos refletem nós mesmos, o que inclui nossos sentimentos, nossas tristezas, o mais esperançoso que existe em nós. Na história da Branca de Neve, a Madrasta olha no espelho por um motivo. No livro no qual sua história é mais detalhada, é revelado que não apenas havia a questão da vaidade. Lógico que ter um pai que era um fabricante de espelhos e sempre dizer a ela que era feia e desengonçada tem um pouco a ver,


todavia existia o fato de que o espelho em especial que pertencia a ela era mágico e somente podia lhe dizer a verdade, independente do que lhe perguntasse. Os espelhos não mentem. Quando refletem algo, você pode tentar esconder suas sobrancelhas falhas, os cabelos brancos, os quilos a mais, mas ele sempre está lá a apontar silenciosamente através do reflexo seus defeitos ou suas qualidades. Na história, o espelho falava e como sempre dizia o verdadeiro, a pergunta favorita da rainha era sobre quem era a mais bela. Obviamente que quando ele deu uma resposta diferente da verdade que ela estava habituada, ela surtou. 

Espelhos estão sempre presentes nas histórias para mostrar coisas que nem sempre queremos ver, mas que são o reflexo mais puro do nosso coração. O Espelho de Ojesed em Harry Potter tem essa função. Tal como a função de um espelho, ele terá reflexos variados dependendo de quem olhe para ele, logo o que cada um vê é diferente de acordo com o que mais se deseja. Por vezes o que se deseja é aquilo que


por ventura faz mais falta, logo Harry, que cresceu sem uma família vê seus pais, Rony que sempre está a sombra de muitos irmãos mais velhos se vê finalmente tendo sua chance de glória, Dumbledore em uma cena tocante se vê jovem novamente, com aquele que amou intensamente sem poder ter vivido tal amor de forma plena mesmo desejando muito. É notório o pesar e tristeza de ver o reflexo encarando-o sem que ele possa mudar o passado. Talvez de tanto olhar para o espelho e vislumbrado o reflexo de um mero sonho, Dumbledore diga que não vale a pena viver sonhando e se esquecer de viver.

Em O Senhor dos Anéis, Frodo no espelho de Galadriel tem um vislumbre de seus medos, do que pode acontecer se ele por acaso falhar em sua missão. Ele vê todos perecerem nas mãos do mal, vê seu amado Condado prisioneiro e queimando sob o tirano da Terra Média, o espelho refletiu o que ele de mais tinha dentro de si em termos de medo. Tal como espelhos refletem nossos medos e receios, tal


como quando nervosos, vamos para a frente do espelho ensaiar caras e bocas que transmitam confiança até que ele mesmo diga "agora está bom".

Algumas das superstições envolvendo espelhos normalmente dizem respeito a mistérios. Antigamente quando alguém na casa morria, mandavam cobrir os espelhos, assim como em horas de tempestades com raios, o reflexo segundo esses antigos poderia não ser bom de se ver. O mesmo quando se dorme, afirmam que dormir com qualquer coisa refletindo traz sono conturbado, porque afinal, durante o sono, muito do seu subconsciente vem a tona e dizem que pode refletir no espelho.

Talvez os espelhos sejam um modo de parte da nossa alma vir a tona. Dela poder ser refletida naquele pedaço de vidro reluzente e polido, de mostrar a si através dos nossos olhos que também são espelhos transparentes. O que veríamos se um espelho pudesse refletir o que vai fundo em nossos corações? Que medos seriam ali mostrados? Que verdades nos seriam reveladas?

segunda-feira, 13 de junho de 2022

o amor em brasa de hoje...

 


O dia de Santo Antônio, o que pode ajudar com um casório feliz assim como o dia dos namorados sempre geram comoção. Curiosamente, gerava comoção somente nos que estavam de fato em um relacionamento, hoje, gera comoção inclusive em quem está solteiro. Seja porque se dissemina a ideia de amor próprio, seja por certo despeito, seja por desesperança. Talvez a principal razão pela qual este dia desperte tanta emoção seja porque ele mexe com algo primordial do ser humano: amor.


Não é mentira para ninguém que o ser humano é um ser social. Não social como no tempo das cavernas onde ficar só significa a morte, mas social no sentido de que vivemos em sociedade, desenvolvemos noções de respeito mútuo, harmonia, modos de se conviver, educação e acaba que precisamos uns dos outros pra nos sentir humanos. Mesmo que alguém viva só, sem uma rede de pessoas em volta, isso é diferente de ser só, pois do padeiro aos médicos do plano de saúde, este indivíduo precisa de outras pessoas para se manter. Todavia, não é bem desta relação que o dia dos namorados trata. Ele trata mais da relação que duas pessoas escolhem ter e desenvolver. 

Ter uma relação de dois não é fácil. Se começarmos por namoro, pode até parecer leve e divertida, afinal, existe um compromisso mas não um  círculo totalmente fechado de deveres e obrigações. É um período de encantamento e conhecimento, no qual você olha o mais bonito do outro, cada palavra, cada som, cada gesto assume um significado maior e mais bonito. Talvez por isso que antes o dia dos namorados focava muito em casais jovens, até mesmo adolescentes, pois se valia deste encantamento para as transações comerciais tão conhecidas. Hoje, já percebendo que muitos acabaram sendo voláteis, o foco mudou e não raro vermos casais até mesmo de idosos estampando as campanhas, demonstrando que o encantamento dos primeiros tempos pode perfeitamente durar uma vida inteira.

Após selar um compromisso mais sério, não que este néctar da descoberta se esvai, mas é substituído por  outras percepções, outros interesses, outros olhares. Uma delas é se surpreender com o cotidiano, se encantar com algo que pode estar sempre ali mas saber ver a beleza por diversos

ângulos, depois de um tempo de firmado o compromisso, a manutenção dele e saber apreciar cada ponto é que é o desafio. E muitos, que se acostumaram apenas com novidades não conseguem atingir esse ápice. Os que atingem podem se considerar bem felizardos, pois é m sinal de maturidade, da percepção de que amor verdadeiro não é feito de instantes nem de novidades constantes, mas de saber ver o melhor no mesmo, na rotina, nas pequenas coisas.

Além de pessoas mais idosas nas campanhas, uma novidade é que incluíram casais mais diversos também, no caso os homossexuais. Mesmo que isso gere um certo rebu (que não deveria), fato é que eles vieram pra mostrar que existem, não no aspecto de que não se sabia de tal existência mas no
sentido de que eles existem e podem ser felizes, saudáveis, íntegros e amorosos tanto quanto qualquer outro casal. É pertinente falar disso porque ainda hoje muitos pensam que casais homossexuais se formam na base da promiscuidade e perversão. E percebe-se não apenas no sentido dos comerciais, mas das mídias que estão saindo atualmente. 

Antes de entrar em polêmicas, lógico que muitas dessas mídias já são criticadas no momento de seu lançamento alegando que querem notoriedade e não tem sentido de existirem. O mais curioso é que a indústria der cinema, séries e afins se fizeram exaltando os casais ditos tradicionais, lucraram com isso desde que nasceram, mas quando se mostra outra possibilidade ainda é encarada como ameaça, seja por aqueles que ainda estão presos em arcaicos valores ou que acham que o mero fato de mostrar algo que existe desde os primórdios pode acabar com o que já existe e é aceito desde dos primórdios também. Pois bem, a real é que todos gostam de um romance. A maioria ainda sente

aquele frio na barriga quando vêem um casal, sem filme, novela, série, atravessando dificuldades, descobrindo o sentimento e quando o primeiro beijo acontece, muitos sentem as tripas retorcerem. Talvez seja uma sensação que remeta ao que eles mesmos sentiram com seus amores nos primeiros tempos, onde tudo era novidade.

Por suposto, se isso é algo tão inerente do ser humano, devia ser aceito com naturalidade independente do casal em questão. Sejam homossexuais, heterossexuais, até mesmo idosos, não se devia colocar barreiras ou ressalvas. Esse ano com algumas séries da Netflix nas quais casais não tradicionais foram apresentados e se desenvolveram de modo leve, gerou repercussão. Vamos imaginar uma situação. Todos conhecem Romeu e Julieta, o trágico casal de Shakeaspeare, que se amam intensamente e se matam tragicamente para fugir do ódio das famílias, eles viraram a referência de amor intenso e proscrito. Por mais que todos saibam como as coisas terminam, é fato que sempre acabam vendo. Agora, vamos imaginar que todo filme/novela/série apresentasse os casais com desfechos iguais ou parecidos com Romeu e Julieta. Seja ambos morrendo, ou um ficando sozinho. Numa percepção, em filmes nos quais o casal não fica junto ou sequer é formado parece que falta algo ali, o público anseia por um romance, um beijo, por mais breve e fugaz que seja. Imagine um volume de filmes nos quais tudo termina em tragédia?

Ademais, isso é quase sempre o que ocorre em filmes com casais não tradicionais. Principalmente os

homossexuais. Sempre ocorre uma tragédia no qual um morre, ou é assassinado, ou fica doente e morre, ou tem todo um contexto de preconceito e impedimento no qual é sentenciado a infelicidade. Injusto, não? Por isso que hoje as mídias estão se preocupando em mostrar que o romance é para todos e que para estes grupos é perfeitamente natural que vivam um relacionamento saudável, feliz e engrandecedor, mesmo que muitos ainda queiram manter isso a margem.

O amor é algo inerente do ser humano, existe algo dentro de nós que é primitivo neste sentido e que nos faz reconhecer esse sentimento. Quando se trata de amor entre casais, é um amor que se desenvolve por alguém que se escolhe de forma totalmente voluntária, com base em similaridades e compatibilidades. Lógico que da mesma forma como esse amor se desenvolve, o outro por ser também ser particular, pode favorecer que ou este sentimento se desenvolva ou se escasseie, é sempre importante que haja o equilíbrio entre o amor próprio e o que se dedica ao outro. E assim, pensando no compartilhamento, no equilíbrio, nas experiências possíveis, isso não pode ser chamado de felicidade?