“Ain, não sei porque endeusam tanto Chaves, sempre achei
chatão” “Finalmente alguém que me entende”. Na semana em que foi anunciado o
fim da transmissão de Chaves em todos os canais abertos e fechados, em que os
fãs tem buscado salvar as listas de reprodução do youtube ainda não bloqueadas
e episódios perdidos a tapa, ouvir isso é quase um escárnio. Conheci pessoas
que não gostavam de Chaves e muitas vezes vendo a conduta delas e suas percepções, não confiava nelas... Lógico que para essas, fãs que se abalaram no
Brasil e no mundo com a disputa da Televisa e da família de Bolaños pelos
direitos é apenas um exagero. Afinal, é um programa velho que passa há mais de
30 anos e nunca renovou as piadas. Na tentativa de poder justificar as falas,
li muito mas creio ser muito pertinente explicar o porquê o abalo da
comunidade Chaves e Chapolin foi dessa magnitude.

Chaves e Chapolin (CH) é um programa engraçado. Muitos dirão que
não, mas em mais de 100 episódios se alguém não riu pelo menos uma vez é porque
realmente há um déficit ali. O humor que Bolaños explorou em suas séries era
diferente, não era uma coisa com piadas de duplo sentido, salvo algumas
exceções. Não haviam palavras sujas, nem personagens dúbios. Todos eram
transparentes em suas personalidades, mesmo Chiquinha que era arteira e se
aproveitava dos garotos, jogava limpo com relação a isso. Tinha uma transparência
ali que fazia os personagens terem autenticidade. Quando vemos os personagens
de hoje, em muitos casos há notória impressão de que são artificiais, que os
próprios atores estão se forçando a faze-los, seja porque não gostam ou porque
algo os está desagradando, não conseguem incorporar o gênero. Comédia é o
gênero mais difícil que existe, é preciso mais que caras e bocas para você
convencer uma pessoa a rir do que está propondo e fato é, que poucos se
consagraram nisso. E os que conseguiram, tornaram-se eternos. Sendo Bolaños um
dos incluídos.

Muitos falam: “Endeusam pela nostalgia”. Sim, de fato, é
nostálgico. Mas não, não é apenas por isso. Tv Colosso é nostálgico. Punky, a
Levada da Breca é nostálgico. Família Dinossauro é nostálgico. E mesmo algumas
coisas mais conhecidas pelas gerações como Bambuluá e Tv Globinho despertam
aquele sentimento de saudade de um tempo de criança sem maiores preocupações...
Todavia, Chaves e Chapolin permanecem não porque é nostálgico, mas porque tocam
em algo maior que a simples lembrança de infância. Risadas são algo muito de
momento. Você pode ver um vídeo de pegadinhas do finado Canal Boom e gargalhar,
mas passados alguns minutos, horas não mais lembra do que viu. O raciocínio se
baseia nisso. Chaves e Chapolin fazem você gargalhar, rir, porém suas bases são
mais profundas que o simples humor.

Vemos valores ali. Além das frases de estampa do Seu
Madruga, vemos características que se pode levar para além da infância e para
além das gargalhadas. Ensinamentos que permanecem, que ficaram impressos em nós
até a vida adulta e esse tipo de coisa é que é lembrada, e faz com que CH não
seja apenas uma nostalgia. Quantos de nós não aprenderam que devemos ser bons
filhos e bons amigos? Vemos na vila condutas que podem ser facilmente vistas
fora das telas e exemplos a serem seguidos. Seu Madruga mesmo levando tantas
cacetadas nunca levantou a mão para D. Florinda, mesmo que hoje até figuras
ilustres apoiem que se deve revidar sem pensar duas vezes. Vimos a gentileza da
D. Clotilde, que mesmo nunca sendo correspondida em seu amor platônico, não
deixava de ser solícita com seus vizinhos e com Seu Madruga dando bolos, comida
e frangos assados.
Chaves é a personificação de um menino pobre, que pode ser
facilmente visto em sinais e calçadas, mas ele mesmo assim em vários episódios
quando mencionado o ato de roubar disse que nunca o faria. Quem não se lembra
do icônico episódio do Ladrão da Vila no qual ele foi acusado injustamente?
Ele decide ir embora não por orgulho, mas porque não achava certo ficar em um
local onde desconfiassem dele. Quantas vezes também não o vemos mesmo sendo pobre, dividindo o que
tinha com os outros, dando o exemplo autêntico de amor ao próximo? Seu Madruga mesmo sendo chamado de vagabundo,
buscava todo tipo de emprego na tentativa de se virar e sobreviver, podia
dizer que não gostava de trabalhar porém estava lá trabalhando no que aparecesse, fora sua solidariedade com Chaves convidando-o para comer e se preocupando com ele, ainda que ralhasse bastante.
Vimos o cavalheirismo do Professor Girafales para com a D. Florinda, mostrando
como cortejar sem desrespeitar, sendo inclusive meio cafona com desafios para
duelo e declarações de poema ajoelhado. Isso sem falar nas lições de Chapolin
com elação a vencer a si mesmo, vencer seus medos, que você pode ser um herói ainda que imperfeito. Tudo isso mostra o quanto não é por mera nostalgia, pois quando
algo toca você e imprime ma memória, um valor, um sentimento, uma lição, esse
algo simplesmente permanece por toda a sua vida, mesmo que tenha acontecido
quando criança.
E se formos por outro caminho? Vamos analisar pela ótica dos
bastidores. CH foi um programa que consagrou atores e atrizes. Jogou seus nomes
numa história que ficou eterna. Lembremos de programas de humor dos últimos
anos. Quantos nomes conseguimos lembrar? Quantas risadas e piadas
conseguiríamos ver de novo e rir? Pouquíssimas. Um dos que existem atualmente,
Zorra Total lembro mais pela vinheta que é altamente grudenta do que por algum
quadro ou ator que faça parte. A Escolinha do Professor Raimundo é o mais digno
que podemos citar em termos de humor atualmente,
não apenas por Anísio que nos
presenteou com uma enxurrada de personagens criativos, mas por celebridades que
participaram como a lenda Orlando Drummond. O remake também tem sua dignidade,
mantendo boa parte dos moldes originais. Mesmo hoje, muitos atores que fazem
parte disso podem se considerar agraciados, ainda que a escolinha não faça
você propriamente gargalhar como a dinamicidade de Chaves e Chapolin faz.
Os atores que fizeram parte da época na qual humor era algo sem
gessos podem se considerar sortudos. Lógico que como tudo, mudanças são boas.
Todavia muitos quadros outrora engraçados do Zorra Total jamais seriam
reprisados atualmente devido a enorme quantidade de regras, de gessos “corretos”
que foram instaurados no gênero. CH sobreviveu a isso. Sobreviveu e permaneceu
sendo amado por décadas a fio, com comunidades criadas especificamente para
ele, mostrando que as pessoas de fato gostavam do humor simples e cotidiano,
das piadas pastelão, dos xingamentos entre crianças que numa hora chateava mas
que cinco minutos depois as fazia brincar juntas. Bolaños ao fazer roteiros
assim foi eternizado e já tem seu lugar na história.

E por falar em ser eternizado, muitos que não compreendem o
porquê do amor a Bolaños e sua obra não devem saber de onde o apelido “Chespirito”
vem. É nada menos que uma referência a Shakeaspeare. Esses devem conhecer. Foi um escritor com obras variadas e significativas na literatura, Bolaños inclusive adaptou sua famosa história de Romeu e Julieta em seus moldes, tornando-se um dos episódios mais famosos de Chapolin. Bolaños também em várias ocasiões encarnava o Magro de O Gordo e o Magro e Chaplin. Este último era um ator
bem significativo em termos de humor e comédia. Como eu disse, é o gênero mais
difícil de se fazer. Um ator de comédia pode fazer muito bem dramas dignos de
Oscar, como vimos Jim Carrey e Will Smith fazerem. Todavia, um ator de drama
nem sempre consegue fazer plateias rirem. Chaplin era de uma época na qual não
havia muitos efeitos especiais, os que podem fazer os atores parecerem mais
incríveis do que o são de verdade. Na verdade, não existiam nem cores ou sequer
som. Tudo o que ele tinha era sua pura expressão facial e corporal e com isso
precisava cativar. Bolaños não o fazia com tanta maestria a toa. Numa prerrogativa,
todos seus personagens eram absurdamente simples. Mesmo Chapolin que era o
super heróis era simples de entender, com armas e poderes singelos, conduta sem
muitos vieses, caímos de novo no ponto de que a simplicidade fazia com que o
humor fosse dos melhores.
Ainda no ponto dos bastidores, não só atores e atrizes que
atuaram no seriado se consagraram porém aqui mesmo no Brasil, outros se
consagraram pelo seriado. Os que deram suas vozes aos personagens de Bolaños
até hoje são reconhecidos por tal e se estabilizaram através do seriado. Profissionais
experientes do ramo não economizam em dizer que os seriados são o maior exemplo
de dublagem perfeita existente no país. Para quem não sabe, o Brasil é um dos
melhores do ramo, tendo ganho inclusive prêmios internacionais de dublagem
pelo excepcional trabalho que estes artistas fazem. O eterno Gastaldi, que se
eternizou como a voz de Chaves e Chapolin, cuja voz será lembrada sempre mesmo
que ele tenha tido uma morte precoce; Cecília Lemes (Chiquinha) e Carlos Seidl (Seu Madruga), que ficaram famosos por seus bordões e trejeitos, com quem tive
honra de tirar foto; Nelson Machado (Quico), que deu também sua voz a outra
fera do humor: Robin Willians e estará marcado por suas risadas e choro
característico, e tantos outros que já foram silenciados mas que estarão sempre
presentes. E considerando CH, não só a dublagem é um bom exemplo mas também a
questão das traduções, seja de diálogo, seja de músicas. Afinal, muitas piadas
em espanhol fazem sentido mas que ao serem traduzidas para português, nem
tanto. Todavia, ainda que não fizesse sentido, promover risos no público mesmo
assim é quase uma arte dos deuses.

Se formos mais a fundo na questão dos bastidores. Chaves e
Chapolin vieram em uma época na qual as opções eram extremamente escassas em
termo de entretenimento. Não querendo apelar, mas é fato que é difícil para
muitos das gerações mais novas com opções baratas como Netflix, amazon, spotify
e internet a vontade, falar que houve uma época na qual tv por assinatura era
algo extremamente restrito, internet era coisa de quem tinha muito dinheiro e
filmes somente em locadoras se voc~e tivesse dinheiro ou pegasse uma promoção
muito boa de fim de semana. Nessas décadas, a tv aberta era praticamente tudo
que se tinha. Por isso que quando se anunciava um filme que se gostava nos
finados Cinema em Casa, Cine Espetacular e etc., era correr pra não perder o
horário. Logo, um programa como Chaves e Chapolin, que abrangia o público
infantil, que mesmo naquele tempo era meio negligenciado, era colocado nas
alturas. Assim como os antigos desenhos de Tom e Jerry, Popeye, She-Ra, os
mesmo que muitos hoje criticam e pedem extinção por não considerarem adequados,
eram tudo que crianças de famílias não muito abastadas tinham. Aliás, para
muitos ter uma televisão já era abastamento suficiente e apenas o que as emissoras
abertas proporcionavam. Muitos nunca saberiam o que era anime se não houvesse
transmissão aberta, CH era uma das poucas opções para as crianças daquela idade
e pelos outros motivos já citados aqui, é que marcou uma geração inteira e
permaneceu tatuada nela.
E se formos sair dos bastidores e ir um pouco para o mundo
real. Bolaños era um exímio trabalhador. Ele em entrevistas afirmou que se
guiava pela frase que talento é 1% de inspiração e 99% de transpiração. Ou
seja, tudo era conseguido com suor, com trabalho. Ele imaginava os personagens e
histórias e sentava na máquina de escrever e ficava horas a fio escrevendo os
episódios. Não havia regalia, não havia jeitinho, nem artifício, nem uma equipe
que ficava lhe soprando as ideias... ele não era nenhum gênio por nascença,
mas como Chavinho disse: por maioria de votos. Trabalhou por algo e as pessoas
reconheceram esse algo como sendo de qualidade. Ao longo de seu caminho, também
teve negativas e baixas, mas permaneceu no caminho.
Chaves e Chapolin não foram apenas programas de humor
pastelão, que distraiam crianças numa época sem Netflix e youtube. Ele é e foi
mais que isso. Muitos fizeram amigos ao entrar em comunidades, muitos se
sentiam sozinhos por gostar e se encontraram quando descobriram iguais, há torcida
para que o programa volte, embora até o momento o que sinta seja apenas um
luto, uma falta que a ausência do programa nos deixou, um programa que trouxe mais do que risadas. Muitos hoje fazem
questão de estampar camisetas, colecionar bonecos, não é por uma coisa boba de
fã ou mera nostalgia, mas por um sentimento de que contribuição ao caráter e personalidade.
E acima de tudo, por gratidão.