Empatia virou uma palavra da moda. Tem sido muito comum usá-la em situações onde um grupo/pessoa parece estar sendo oprimido por outros, ou humilhado ou subjulgado de algum modo. Mais do que uma palavra da moda, virou também uma arma.
Uma arma usada para atacar os que supostamente não a tem como sendo pessoas mais vis do mundo e quem se julga ter, como sendo um ser humano acima de qualquer suspeita, o detentor de toda moral, incorruptível. Mais do que moda e arma, empatia virou cobrança. Todavia, tem sido cobrada por pessoas que não sabem o que empatia de verdade significa.
Por partes, empatia por definição é "Se colocar no lugar do outro" ou "Entender a dor do outro", é puramente a prerrogativa do "Não faça ao outro o que não deseja que façam com você" e há um ponto na definição, não há ressalvas nem condicionais. E aí começa a dificuldade. Afinal, o mais comum é vermos as pessoas demonstrando a "empatia" apenas com causas e pessoas que despertam afeição. E nesse caso, por envolver um ponto individual, é complicado considerar uma pessoa como sendo empática, que é algo universal.
E como exemplo, peguemos o cenário atual. Fomos assolados por um vírus devastador, letal e cruel. Contudo, visto que as pessoas aqui tendem a rotular dependendo de fatores como corrente política e candidatos, não raro vermos casos nos quais se um individuo for da corrente A/votar em A e houver notícia da doença haverá comoção e mensagens de apoio, porém se for de corrente B/votar em B, e este for considerado errado, haverá comemoração mesmo que a causa da morte e ameaça sejam as mesmas. Ou seja, dependendo do envolvido, o vírus vai de ameaça a aliado em segundos, ainda que ninguém possa controlá-lo, e isso mais do que tudo é no mínimo ingenuidade.
Em uma matéria sobre transsexuais presidiários, um deles despertou atenção ao mencionar a solidão na cadeia. Os afins com este grupo logo se comoveram e quiseram fazer algo a respeito, desde campanhas a mandar cartas a pessoa. Todavia, os afins com as vítimas de crimes trataram logo de cavar e descobrir por qual crime o indivíduo fora julgado: estupro e assassinato de criança. Se voltaram para a mãe da v´pitima e fizeram questão de expor o que consideravam ser um absurdo, afinal, ao que parecia, as pessoas estavam defendendo um estuprador enquanto a mãe amargava a perda de seu filho.
Já ouvi que muitos avessos a pessoas de classes diferentes da sua ficam felizes quando alguém da referida classe se dá mal de alguma forma, seja por morte, por perda, por dificuldades, por doença... Mas cobram total empatia e consideração quando os mesmos infortúnios os acometem ou alguém que consideram digno, como se a vida tivesse alguma dívida para com os mesmos. Já vi pessoas chorando por um grupo com um ideal/corrente/ideias/pensamentos parecidos, não tendo a menos ressalva de desejar 10 minutos depois a morte de outro diferente de si... É nesse momento que é bem notório, ao menos para quem tem olhos para ver, que tais pessoas que gritam "Mais empatia!" não sabem nada sobre ela. E na verdade, são SIMPÁTICAS.
Simpatia é algo muito simples e raso. Ela se baseia no mero "gosto" ou não "gosto", "tenho afeição" ou "não tenho afeição",assim sendo, vai ser muito mais fácil e lógico você sentir compreensão, carinho, proximidade, olhar com consideração para aquilo/aqueles que possuem o mesmo pensamento e por quem sente mais afinidade. Sua simpatia vai lhe conferir um julgamento mais brando, a rigidez aplicada a outros será deixada de lado, palavras serão menos duras, serão dadas múltiplas chances, ao passo que a não afeição vai gerar uma aversão imediata, nada flexível, isso se não for taxativa.
E é ali que se percebe a nítida diferença. A empatia é universal. Ela está presente mesmo quando alguém com quem não concordamos está envolvido, afinal existe uma percepção de que a pessoa pode estar num estado de ignorância. E mesmo que atos sejam cometidos conscientemente, há uma benevolência de saber que vai haver uma colheita não muito boa depois e isso desperta compaixão.
Ao contrário do que podem alegar, isso não tem haver com negligenciar atos errados, amenizar crimes ou "passar pano" como dizem, tem a ver com um olhar mais amplo, um olhar de que todos estão propensos a erros e a julgamentos severos, mesmo que injustos, e tal olhar proporciona um sentido de compreensão maior.
Por isso é difícil a empatia no sentido totalitário que ela se propõe. Algumas fontes inclusive dizem que ela é nata, ou seja, ou você tem ou não tem e não há meio termo, ou ela nasce com você ou não. Pois ela não pode ser ensinada, não é um conteúdo frio que você fala para alguém "Seja empático" e a pessoa simplesmente aprende como ser e proceder assim. Ela pode ser despertada dentro de um ser humano, mas ainda assim, isso exige tempo, desprendimento de conceitos medíocres, de arestas limitantes, de percepções rasas, de fechamento de ideias... A empatia torna-se difícil porque nem todos conseguem, ou querem e estão dispostos a tais desprendimentos. Ela envolve você compreender a dor do outro, enxergar o problema de outro mesmo que você não considere aquilo um problema.
"Mas é os que são maus, fazem mal aos outros", essa é a prova de fogo da empatia. É você olhar para aquela pessoa e entender que não tem direito sobre o destino dela. Comumente escuto que "gente assim tem que morrer", "bem feito que fulano morreu", "a justiça foi feita", cabe o questionamento: esse direito realmente me cabe? É de fato meu direito desejar a morte de outra pessoa e decidir sobre isso? E mesmo que seja uma pessoa dita de má índole, sendo alguém que se denomina tão empático e se crê na razão de cobrar isso, não seria muito mais correto olhar para esta pessoa como sendo alguém que precisa pagar pelo que faz porém desejando que ela possa passar por isso de uma forma mais positiva? A percepção de colheita está ali, porém a benevolência também está. Por isso é bem contraditório pensar que pessoas que desejam a morte de outras com tanta facilidade mas cobrem bondade e compaixão para com outras se considerem tão empáticas quanto creem ser.
Ao contrário do que parece, ser empático também não tem a ver com ser besta, ser ingênuo, se deixar levar por maldades ou aceitar tudo. Muitos quando demonstram atitudes de fato empáticas são criticados pelo senso que possuem, chamados de burros, isso quando não mandam eles se ferrarem por suas percepções. Os empáticos que já apareceram no mundo, os que despertaram a verdadeira empatia ou já tinham ela desde sempre, foram pessoas extraordinárias, mas diferente do que pode parecer, isso não as fez ter regalias da vida ou não terem absolutamente nenhuma dificuldade. Ao invés disso, muitos sofreram duras críticas e privações, mas como a empatia vem de dentro, isso para tais pessoas foi irrelevante, uma vez que ao compreender o próximo suas perspectivas os aproximava e isso os preenchia. Irmã Dulce foi um exemplo de amor ao próximo, não importando que próximo fosse esse, era acometida por muitas afecções e mesmo limitada, construiu uma obra sem igual. Chico Xavier tomava café da tarde com as moças do prostíbulo da sua cidade, não porque fazia uso dos serviços como muitos podem insinuar, mas porque ele olhava para elas sabendo que muitas estavam expiando algo, que não era uma vida fácil e que ao contrário do que podia parecer, boa parte não estava lá pela mera "sem-vergonhice", da mesma forma como promovia campanhas de arrecadação para presidiários, mesmo que seus companheiros de trabalho criticassem alegando que criminosos eram pessoas más, mas Chico dizia que eles eram também pessoas que precisavam de ajuda. O Papa Francisco recebeu transsexuais, índios e até ditadores, deu declarações cujas palavras acolhiam pessoas que sua congregação julgava "condenadas", "perdidas", "pecadoras". Ele sabe das falhas, ele sabe o que se considera certo ou errado, mas acolheu tais pessoas em suas arestas com caridade e compreensão, mostrou benevolência e amor a elas e não julgamento, ele deu o exemplo da figura maior da sua religião que acolhia prostitutas, ladrões, ia na casa das pessoas ditas de "má vida" e jantava com elas, não se cercava dos que se julgavam justos e sábios mas dos que careciam de "remédio" e como Francisco é denominado por alguns? "O pior papa da história".
Empatia verdadeira é uma construção e despertar de uma vida. Exige esforço e tolerância, pois é muito difícil você passar pelos próprios ascos, pelas próprias aversões e até pelo próprio senso de justiça, afinal, ser empático é você olhar com benevolência tanto pro algoz quanto para a vítima, ambos em suas próprias situações. Voltando para o caso do estuprador, é muito difícil imaginar a dor dessa mãe vendo seu filho inocente perecer nas mãos de alguém. Mas o que a empatia poderia conferir nessa situação? Uma mãe perdeu seu filho, nunca mais será a mesma e viverá essa ausência para sempre, devemos ter compaixão para com ela, amor para com sua dor. E o criminoso? A colheita de sua própria semeadura será dura, será dolorosa, ele já está colhendo pela justiça dos homens, porém ainda que esta se cumpra, não haverá nunca mais uma possibilidade sem carregar a marca do crime, ele será lembrado todos os dias pela consciência e pela sociedade quando estiver de volta a ela. E para os que acreditam na vida além-túmulo, as coisas não ficarão mais fáceis também. Ser empático é olhar com compaixão para ambos e sentir que ambos em suas individualidades podem ser olhados com benevolência, mesmo que seja muito difícil passar por cima do conceito de "bom" e "mau", e que um merece bênçãos e outro somente maldições. Cabe a questão de que se você for benevolente apenas com quem concorda, ama e considera digno, que mérito há nisso?
Embora hajam dificuldades, a empatia verdadeira causa uma concepção maior, uma visão mais ampla da vida, você se sente mais próximo do outro de fato. E o outro por sua vez também acaba se tocando com sua atitude, ser empático é conquista, é vencer limitações perceptivas e por conseguinte, evoluir.




























