domingo, 25 de setembro de 2022

O Luto: o que é

 


O luto é algo no mínimo curioso. É uma palavra que causa temor em uns, causa pena em outros, mas em algumas pessoas ainda que ela paire sobre suas cabeças, pode ser sinônimo de conforto e paz. Muito desse imaginário vem porque luto não existe sem morte e morte não vem sem dor, e como os seres humanos fogem da dor causada pela morte, obviamente que a palavra luto não vai ser associada com coisas brilhantes e felizes.

Luto por definição é “um conjunto de reações a uma perda significativa”, aí começa a primeira coisa notória nessa conjuntura. É dita a palavra “perda”, não morte. Logo, se pressupõe que a morte não necessariamente significa perda, porque muitos não olham desse modo, a morte de algo pode significar muito mais uma oportunidade dependendo da situação do que propriamente uma perda.

O luto possui cinco fases. É muito comum nos cursos relacionados a humanas e saúde se falar nelas. Para que se possa identificar qual fase alguém de luto se encontra e tentar trabalhar em cima das reações e sentimentos que isso desencadeia. O luto é acima de tudo um processo, todavia o quanto esse processo vai durar até o chamado “ficar bem” varia muito de pessoa para pessoa, do quanto são profundas suas percepções, envolve muito de apego e como lidar com expectativas.

A primeira fase do luto é a negação. Seja qual tenha sido o objeto da perda, de início se nega isso. Por vezes, se tenta pensar que nada aconteceu, que foi tudo um sonho ruim, que as coisas são possíveis de continuar como eram antes. Se implora por isso. Quando não se tenta modificar a realidade


mentalmente, se tenta o afastamento de tudo que faz lembrar aquilo que foi perdido. Aí vemos pessoas que do nada desaparecem, largam ou pedem licenças de seus empregos, se afastam das famílias, da vida ou tenta negar a vida como se ao tomar tal atitude, pudessem ser outra pessoa que não esteja sentindo e passando por tudo aquilo.

A segunda fase é a raiva. Perdas normalmente trazem sentimento de injustiça. E quando a perda está personificada em uma pessoa, isso tende a se acentuar de um modo bem inflamado. A raiva é um sentimento de explosão e reação, logo se supõe que ao dar vazão a ela se esteja tentando reagir a algo e assim formar um escudo para não se machucar mais. Quando se trata de luto, vale a questão de “a


melhor defesa é o ataque”. No desenho Super Choque, Virgil nunca conseguiu lidar bem com a morte da mãe. E dados alguns episódios, ele se mostra preso na fase da raiva, pois não tolera que falem nela perto dele, não tolera lembranças dela, sequer tolera pensar em expressar seus sentimentos com relação a ela e com isso reage grosseiramente com sua família quando esta tenta coloca-lo em situação de contato. A fase da raiva tem a ver com revolta. Existe um certo sentimento de que se foi injustiçado e não se devia ter perdido o que se perdeu, seja uma pessoa, seja um desejo. E se por acaso, uma pessoa se envolve nesta “perda” tudo se torna mais aflorado e potente.

A terceira fase é a barganha. Leia-se aqui negociação, existe um certo sentimento de pensar em múltiplas possibilidades e alternativas que poderiam ter mudado o que houve, formas de ter feito diferente, independente da religião, muitos dão vazão a um contrato com suas divindades, numa tentativa de amenizar a própria dor. Certa vez, uma mãe perdeu sua filhinha mais nova afogada em uma piscina, em uma sequência de fatos totalmente inédita para a rotina da família. A menina conseguiu abrir portas que nunca havia aberto, desceu escadas sozinha que nunca tinha descido, o despertador não


tocou... Nesses momentos, o “E se...” torna-se um carrasco cruel. A mãe disse a seguinte frase: “Eu senti tanta dor que se Deus me desse um balde e me dissesse pra esvaziar o oceano com esse balde em troca de ter minha filha de volta, eu iria”; em um livro com história parecida a mãe acusa o marido e todos pela morte do filhinho, “se você não tivesse mandado o empregado a rua com uma lista enorme de coisas pra comprar ele teria voltado com o cadeado daquela maldita piscina e meu filho nunca teria entrado lá”. É como você tenta se convencer de que se fizer algo muito grande poderá ter o merecimento de receber de volta o que lhe foi tirado.

A quarta fase é a da depressão. Embora esteja em lugar quatro, é a mais intensa e visceral de todas. Talvez porque neste momento, há um certo cair de ficha que nas outras não existia, o combustível não mais se pauta numa reação, mas na passividade. O enlutado sente que tudo é real, sente a dureza dos fatos, o vazio na sua forma mais pura. Então as reações nesta fase se pautam na tristeza sentida, chorar


copiosamente ou sentir vontade de faze-lo nos momentos mais impróprios, o sentimento de viver em um arrasto constante, como se cada nascer do sol fosse uma espécie de vitória dolorida, porque para muitos a vontade é de não o ver mais. As lembranças nessa fase são mais densas também, em todo lugar que se olhe, qualquer som que se escute, existe associação imediata com a perda, é como uma presença agridoce que não se pode livrar.

A quinta e última fase é a aceitação. Aceitação do que não se pode mudar de fato, porém não de um jeito penoso ou doloroso, mas resignado seguido de alívio e certa tranquilidade. Os combustíveis nocivos foram queimados aqui e a realidade já é vista com um pouco mais de otimismo, que tende a crescer conforme o tempo vai passando. É a única fase na qual as lembranças não mais causam angústia, mas são


associadas com momentos bons e felizes. No mesmo desenho Super Choque, o pai de Virgil ao perceber a raiva e não aceitação que o menino ainda sentia pela perda da mãe, o esclarece dizendo que também se sentiu assim “Demorou muito tempo até que eu pudesse pronunciar o nome dela sem sentir dor”, ou seja, já estava na fase de aceitação, que a falta podia doer, mas não mais arrasava pela dor.

Embora existam essas fases do luto, não se pode dizer que é uma linha reta. Cada pessoa vai reagir diferente por aquilo que é perdido, algumas estacam em uma determinada fase que pode durar anos a fio, ou pulam direto para a fase da depressão e lá permanecem remoendo as dores, outras demoram pouco nas fases iniciais e aceitam logo a realidade e as novas conformações. Considerando o luto e todas as fases dele, pode-se dizer que não somente a perda de pessoas gera luto, mas a perda de sonhos, idealizações e expectativas também.

Sonhos perdidos também geram um sentimento de luto. O luto e todas as reações estão relacionados não apenas pelo sentimento de perder, todavia pelo vazio que a ausência das perdas gera. Ele dependendo do que se é perdido, pode ter mais a ver com ausência de todo o significado do que com outra coisa, sendo assim, mesmo que algo não seja em definitivo uma perda, a ausência da pessoa/objeto/sonho gera o luto e todas as suas fases, o vínculo afetivo e investimento de todo um sentimento, expectativa e desejo pode gerar rupturas que culminam neste sentimento. A dificuldade de não ter mais tão perto algo que lhe era querido, acariciado e quisto pode ocasionar raiva, fazer barganhar com os fatos, negar as coisas como são até o ponto de que se precisa uma conformação para entender que as coisas são diferentes do que se planeja. E que ainda assim, se precisa seguir.

O luto, seja de uma pessoa, seja de sonhos, de expectativas, do que está fora de nosso alcance e por ventura perdemos, precisa ser trabalhado de um modo que não nos faça afundar num mar de sentimentos escuros e nos impeça de ver o que de melhor possa ser feito. Afinal, a vida continua apesar de mudada e não significa que é pior, apenas diferente, e sendo diferente significa que existem múltiplas possibilidades.

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Somos todos Andy Dufresne

 


“Quando o imaginei indo pro Sul em seu carro de capota arriada, me deu vontade de rir. Andy Dufrene que rastejou por um rio de bosta e saiu limpo do outro lado. Andy Dufrene indo para o Pacífico...”

Alguns filmes são clássicos. Há muito que define um clássico, por vezes é a inspiração em um livro, uma visão do autor, uma lição dada ou tudo junto. Stephen King tem uma estranha sorte de além de ter filmes bons, esses gerarem adaptações muito boas. Adaptações que sobrevivem às décadas e por mais que sejam refeitas, por mais que tenham o toque tecnológico, sempre há aquele quê de clássico. Muito provavelmente porque as obras geram reflexões e questionamentos, e lições que são pra serem lembradas e nos tocam de algum modo, mesmo que jamais tenhamos vivido uma situação como a dos personagens retratados.

Uma dessas histórias é a do filme Um Sonho de Liberdade. É possível sentir como o ambiente de uma prisão pode ser hostil, tenebroso e sim, injusto em muitos casos, mesmo que este filme se passe nos anos 50, a energia de disciplina, rotina e sentimentos de todos os presos pode ser palpável. Todavia, isso é um pano de fundo para um assunto mais profundo: a questão das injustiças.

Muito embora os personagens que ali estão cumprindo pena tenham de fato feito algo errado e sofrido as penalidades da lei, há um que foi vítima do sistema. Andy Dufresne foi condenado a perpétua pelo


assassinato de sua esposa e seu amante, todavia o que ocorreu de fato foi uma sucessão de erros e provas mal alocadas, que direcionavam para Dufresne, a típica situação de estar no lugar errado na hora errada e ser punido pelo que poderia ser chamado de azar.

Ainda que ele estivesse preso injustamente, sofrendo todas as agressões não somente dos carcereiros, mas também de outros presos, ele mantinha uma positividade e procurava passar isso a outros com quem criou afinidade. Ele era um banqueiro respeitável, um homem de bem no sentido de ser correto e não quebrar regras, comparado com os outros ali, tinha mais instrução e cultura até mesmo do que os homens que o mantinham encarcerado, todavia em nenhum momento se mostra superior ou arrogante, pelo contrário se mostrou proativo melhorando o ambiente para todos.

A atitude que se pode dizer antecipadora chamou atenção dos superiores que viram nele alguém que poderia ser aproveitado de outra forma, que não os trabalhos braçais. E considerando o conhecimento intelectual de Dufresne, não demorou para que ele fosse coagido a entrar em esquemas escusos. Muito embora ele o fizesse conscientemente, a intenção não era maléfica, visto que ele não recebia absolutamente nada em termos de lucro, talvez proteção e algumas melhorias para seus companheiros, mas interessante notar que ele manteve sua dignidade e percepção do que era, de seu caráter até o fim. “Engraçado que lá fora eu era um homem correto, reto como uma flecha, precisei ser preso para virar um bandido”. Ou seja, ele sabia do que fazia de errado, mas tinha a consciência de seu verdadeiro eu quando olhava para si.

Dufresne tinha planos para escapar e ao fim consegue seu intuito. Ele consegue usar as falcatruas nas quais estava envolvido contra os próprios cabeças destas. Como o esquema envolvia lavagem e desvio de dinheiro, ele nada mais fez do que usar o fantasma que havia criado para sacar o dinheiro que


segundo ele era “seu salário por 19 anos de serviço”. E o estopim para a decisão da fuga foi perceber que ele jamais sairia dali. Primeiro porque o diretor não abdicaria de fonte tão rentável e segura nem de alguém que fizesse um trabalho tão meticuloso a ponto de os rastros serem imperceptíveis e segundo porque quando a oportunidade de sair surgiu na forma de um rapaz que tinha toda uma vida pela frente quando cumprisse sua pena foi assassinado a mando do diretor por um guarda corrupto quando veio à tona que o rapaz poderia através de um testemunho revelador inocentar Andy. Ou seja, alguém perdeu a vida e chance de recomeça-la.

Andy movido pela revolta não propriamente pela desonestidade financeira, mas pela desonestidade envolvendo valores morais torpes de saber a verdade, mas modifica-la e usar de poder para fazer parecer mentira, deu o impulso para de algum modo perceber que fugir de uma pena da qual ele era


inocente não era mais desonesto do que tudo ao que o diretor o estava submetendo. Daí a frase que ele rastejou pelos esgotos até conseguir fugir completamente. E rumar para sua liberdade definitiva em uma cidade do México perto do mar onde ele deixaria tudo pra trás.

O mundo gosta de uma história onde os personagens são puramente humanos em suas virtudes e condutas, e ainda assim no fim conseguem dar um tapa nas injustiças que os acometem. Curiosamente a motivação não é algo material ou riqueza ou poder em muitos casos, mas algo puramente intrínseco, algo de cunho emocional, sentimental seja com relação a si mesmo ou com outro. Algo muito parecido foi visto em Quem Quer Ser um Milionário. Jamal era um garoto pobre que possuía um grande amor com quem sonhou em se reencontrar durante a vida toda, após múltiplos desencontros. Havia pessoas poderosas também envolvidas que configuravam empecilhos, fora os desafios de percurso que envolviam sua história de vida difícil.

O modo que ele achou de poder ter uma notoriedade e conseguir chegar em seu amor Latika foi participar de um programa de perguntas que poderia lhe render dinheiro. De início houve suspeita de fraude, afinal, como um rapaz jovem, pobre, sem muita instrução poderia ter chegado tão longe em


um jogo no qual intelectuais não haviam chegado nem perto da pergunta final? A resposta foi simples: ele usou a própria adversidade da vida na qual aprendeu coisas que davam as respostas corretas. Ao ser interrogado, ele sequer parecia interessado no dinheiro, o que considerando sua condição seria o que lhe faria ficar tranquilo para sempre, surpreendeu as autoridades perceber que o motivo singelo: para Jamal, Latika estaria assistindo.

Não surpresa ele consegue uma fortuna e seu amor para viverem finalmente em paz. Todavia, o olhar dele mesmo sendo um milionário é de tranquilidade por ter a pessoa que ama e emana uma serenidade que estava pautada em ter conseguido seu intuito, independente das coisas materiais. Dufresne também saiu no fim com uma pequena fortuna, mas só consegue paz mesmo em um local simples a beira mar, com roupas simples de trabalho, uma lancha velha e a companhia de seu melhor amigo.

Muito provavelmente essas histórias cativam porque as pessoas gostam do chamado “cachorro de favela”, é aquele cachorro que passa por maus bocados, não têm pelo brilhante, vive na pindaíba tentando achar comida, passa por dificuldades, mas uma vez adotado, será o cão mais fiel, mais feliz e mais doce que se pode encontrar. Personagens que passam por toda uma sorte de adversidades, mas


conservam seus valores, sua doçura e preservam sua essência mesmo com tanta coisa que poderia mudar isso, traz esperança. Ao assistir esse tipo de personagem nossa esperança é renovada, algo bom é desperto dentro das pessoas, uma sensação de que a injustiça existe, mas se manter íntegro vale a pena.

No fim, seja como Jamal ou Dufresne, vale a pena se preservar. São os personagens humanos e ´possíveis de se encontrar nas esquinas, nas ruas e que mesmo sendo das telas, nos fazem acreditar que o mundo é de fato um lugar bonito como seus finais e mantém essa chama viva, afinal como o próprio Dufresne diz: e esperança é uma coisa boa e nada que é bom pode morrer.