O luto é algo no mínimo curioso.
É uma palavra que causa temor em uns, causa pena em outros, mas em algumas
pessoas ainda que ela paire sobre suas cabeças, pode ser sinônimo de conforto e
paz. Muito desse imaginário vem porque luto não existe sem morte e morte não
vem sem dor, e como os seres humanos fogem da dor causada pela morte,
obviamente que a palavra luto não vai ser associada com coisas brilhantes e
felizes.
Luto por definição é “um conjunto
de reações a uma perda significativa”, aí começa a primeira coisa notória nessa
conjuntura. É dita a palavra “perda”, não morte. Logo, se pressupõe que a morte
não necessariamente significa perda, porque muitos não olham desse modo, a
morte de algo pode significar muito mais uma oportunidade dependendo da situação
do que propriamente uma perda.
O luto possui cinco fases. É
muito comum nos cursos relacionados a humanas e saúde se falar nelas. Para que
se possa identificar qual fase alguém de luto se encontra e tentar trabalhar em
cima das reações e sentimentos que isso desencadeia. O luto é acima de tudo um
processo, todavia o quanto esse processo vai durar até o chamado “ficar bem”
varia muito de pessoa para pessoa, do quanto são profundas suas percepções,
envolve muito de apego e como lidar com expectativas.
A primeira fase do luto é a negação. Seja qual tenha sido o objeto da perda, de início se nega isso. Por vezes, se tenta pensar que nada aconteceu, que foi tudo um sonho ruim, que as coisas são possíveis de continuar como eram antes. Se implora por isso. Quando não se tenta modificar a realidade
mentalmente, se tenta o afastamento de tudo que faz lembrar aquilo que foi perdido. Aí vemos pessoas que do nada desaparecem, largam ou pedem licenças de seus empregos, se afastam das famílias, da vida ou tenta negar a vida como se ao tomar tal atitude, pudessem ser outra pessoa que não esteja sentindo e passando por tudo aquilo.
A segunda fase é a raiva. Perdas normalmente trazem sentimento de injustiça. E quando a perda está personificada em uma pessoa, isso tende a se acentuar de um modo bem inflamado. A raiva é um sentimento de explosão e reação, logo se supõe que ao dar vazão a ela se esteja tentando reagir a algo e assim formar um escudo para não se machucar mais. Quando se trata de luto, vale a questão de “a
melhor defesa é o ataque”. No desenho Super Choque, Virgil nunca conseguiu lidar bem com a morte da mãe. E dados alguns episódios, ele se mostra preso na fase da raiva, pois não tolera que falem nela perto dele, não tolera lembranças dela, sequer tolera pensar em expressar seus sentimentos com relação a ela e com isso reage grosseiramente com sua família quando esta tenta coloca-lo em situação de contato. A fase da raiva tem a ver com revolta. Existe um certo sentimento de que se foi injustiçado e não se devia ter perdido o que se perdeu, seja uma pessoa, seja um desejo. E se por acaso, uma pessoa se envolve nesta “perda” tudo se torna mais aflorado e potente.
A terceira fase é a barganha. Leia-se aqui negociação, existe um certo sentimento de pensar em múltiplas possibilidades e alternativas que poderiam ter mudado o que houve, formas de ter feito diferente, independente da religião, muitos dão vazão a um contrato com suas divindades, numa tentativa de amenizar a própria dor. Certa vez, uma mãe perdeu sua filhinha mais nova afogada em uma piscina, em uma sequência de fatos totalmente inédita para a rotina da família. A menina conseguiu abrir portas que nunca havia aberto, desceu escadas sozinha que nunca tinha descido, o despertador não
tocou... Nesses momentos, o “E se...” torna-se um carrasco cruel. A mãe disse a seguinte frase: “Eu senti tanta dor que se Deus me desse um balde e me dissesse pra esvaziar o oceano com esse balde em troca de ter minha filha de volta, eu iria”; em um livro com história parecida a mãe acusa o marido e todos pela morte do filhinho, “se você não tivesse mandado o empregado a rua com uma lista enorme de coisas pra comprar ele teria voltado com o cadeado daquela maldita piscina e meu filho nunca teria entrado lá”. É como você tenta se convencer de que se fizer algo muito grande poderá ter o merecimento de receber de volta o que lhe foi tirado.
A quarta fase é a da depressão. Embora esteja em lugar quatro, é a mais intensa e visceral de todas. Talvez porque neste momento, há um certo cair de ficha que nas outras não existia, o combustível não mais se pauta numa reação, mas na passividade. O enlutado sente que tudo é real, sente a dureza dos fatos, o vazio na sua forma mais pura. Então as reações nesta fase se pautam na tristeza sentida, chorar
copiosamente ou sentir vontade de faze-lo nos momentos mais impróprios, o sentimento de viver em um arrasto constante, como se cada nascer do sol fosse uma espécie de vitória dolorida, porque para muitos a vontade é de não o ver mais. As lembranças nessa fase são mais densas também, em todo lugar que se olhe, qualquer som que se escute, existe associação imediata com a perda, é como uma presença agridoce que não se pode livrar.
A quinta e última fase é a aceitação. Aceitação do que não se pode mudar de fato, porém não de um jeito penoso ou doloroso, mas resignado seguido de alívio e certa tranquilidade. Os combustíveis nocivos foram queimados aqui e a realidade já é vista com um pouco mais de otimismo, que tende a crescer conforme o tempo vai passando. É a única fase na qual as lembranças não mais causam angústia, mas são
associadas com momentos bons e felizes. No mesmo desenho Super Choque, o pai de Virgil ao perceber a raiva e não aceitação que o menino ainda sentia pela perda da mãe, o esclarece dizendo que também se sentiu assim “Demorou muito tempo até que eu pudesse pronunciar o nome dela sem sentir dor”, ou seja, já estava na fase de aceitação, que a falta podia doer, mas não mais arrasava pela dor.
Embora existam essas fases do
luto, não se pode dizer que é uma linha reta. Cada pessoa vai reagir diferente
por aquilo que é perdido, algumas estacam em uma determinada fase que pode
durar anos a fio, ou pulam direto para a fase da depressão e lá permanecem
remoendo as dores, outras demoram pouco nas fases iniciais e aceitam logo a
realidade e as novas conformações. Considerando o luto e todas as fases dele,
pode-se dizer que não somente a perda de pessoas gera luto, mas a perda de
sonhos, idealizações e expectativas também.
Sonhos perdidos também geram um
sentimento de luto. O luto e todas as reações estão relacionados não apenas
pelo sentimento de perder, todavia pelo vazio que a ausência das perdas gera.
Ele dependendo do que se é perdido, pode ter mais a ver com ausência de todo o significado do que com outra coisa, sendo assim, mesmo que
algo não seja em definitivo uma perda, a ausência da pessoa/objeto/sonho gera o
luto e todas as suas fases, o vínculo afetivo e investimento de todo um sentimento, expectativa e desejo pode gerar rupturas que culminam neste sentimento. A dificuldade de não ter mais tão perto algo que
lhe era querido, acariciado e quisto pode ocasionar raiva, fazer barganhar com
os fatos, negar as coisas como são até o ponto de que se precisa uma
conformação para entender que as coisas são diferentes do que se planeja. E que
ainda assim, se precisa seguir.
O luto, seja de uma pessoa, seja de sonhos, de expectativas, do que está fora de nosso alcance e por ventura perdemos, precisa ser trabalhado de um modo que não nos faça afundar num mar de sentimentos escuros e nos impeça de ver o que de melhor possa ser feito. Afinal, a vida continua apesar de mudada e não significa que é pior, apenas diferente, e sendo diferente significa que existem múltiplas possibilidades.
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