sexta-feira, 28 de maio de 2021

A Síndrome de Doug Funnie

 

Pra quem se lembra, havia um desenho muito legal chamado Doug Funnie, bem típico dos anos 90. O sucesso dele se fazia pela simplicidade e história até meio clichê. Doug e sua família se mudam para uma cidade nova, Bluffington e o  garoto que tem por volta de 12 anos se vê em um ambiente desconhecido tendo que passar por todos aqueles processos de adaptação, seja na vizinhança, seja na escola, seja fazendo novos amigos.

A família de Doug é bem típica, pai, mãe e uma irmã mais velha daquelas que implicam sempre, Doug ao ir pra escola logo faz um melhor amigo (Skeeter), se apaixona por uma menina (Patti) que também é uma super amiga e tem rivalidade com o garoto chato (Roger). O vizinho Sr. Dink se torna uma espécie de conselheiro para Doug, a quem ele recorre quando precisa de ajuda com questões pessoais ou coisas maiores. Nada de novo até aí, pra muitos hoje essa
historinha pareceria até meio enfadonha, mas o que faz de Doug um desenho que toca até os adultos é como ele lida com todo esse meio que tem ao redor dele.

Doug tem um diário. Parece até inusitado, uma vez que diários eram bem mais típicos de meninas na época e considerando a tecnologia hoje, parece obsoleto imaginar adolescentes escrevendo ao invés de teclando, todavia lá estava Doug todo episódio começando com seu lápis e caderno, descrevendo seus pensamentos mais profundo e perturbadores. E nesse ato de escrever, percebemos algo que antes talvez quem assistia o desenho não notava ou pelo menos não sabia decodificar de forma tão literal em palavras: Doug é um ansioso nato.

Existe algo chamado “síndrome do jogador de xadrez”, é quando alguém tomado por suas ansiedades, excesso de futuro, formula tantas situações e desfechos em sua mente para um mesmo fato que ela fica a ponto de enlouquecer. Suas horas, minutos, dias, são consumidos com esses pensamentos, de modo que ela fica em um estado de exaltação cogitando um futuro que sequer pode existir. Esse estado é em muitos pontos tão nocivo que o indivíduo se martiriza, se preocupa, não come ou dorme direito nesse looping de mil e uma possibilidades. E o pior: quase nunca são possibilidades positivas, é sempre uma direção ruim, como se ele não se achasse merecedor de um melhor desfecho ou não acreditasse que tal desfecho pudesse existir.

Doug era assim. Óbvio que para um garoto de 12 anos, as menores coisas tinham nele um efeito bem maior do que tinham em um adulto, mas no desenho a graça é que além de jogador de xadrez, ele se deixava levar por uma imaginação fértil de fazer até roteiros em sua cabeça de como algumas situações ocorreriam. Em um dos

episódios, Doug retorna um pouco mais gordinho após uma temporada na casa de sua avó, quando sua irmã menciona o fato ele já em sua imaginação se vê 20 vezes maior do que realmente é, passando vexame ao entrar em uma lanchonete. O terror se potencializa quando seu amigo chega com um convite para uma festa na piscina, que ocorreria no fim de semana. O pobre Doug já faz o script em sua mente: tirando a camisa, cheio de gordura, caindo na piscina e esvaziando-a, acabando com a festa. E com isso, ele começa uma intensa semana de dieta e exercícios.

Outro exemplo foi quando ele e Skeeter acidentalmente quebram a churrasqueira do Sr. Dink, vendo o desastre que tinham feito, tentam a todo custo conseguir dinheiro com pequenos trabalhos para comprar uma nova, sem precisar contar ao vizinho do acidente. Nos seus pensamentos acelerados, Doug via o dócil vizinho se transformar em um monstro enorme no momento em que confessava o que tinha feito. E em outra ocasião, na qual Doug é convidado pra jantar na casa de Patti, ela brinca dizendo que o jantar será fígado, que Doug detesta. Ele tenta a todo custo passar por cima de sua aversão pra não fazer feio, desde hipnose até anestesiadores de língua, sendo que no fim, a solução para o problema e o estado de aflição é justamente experimentando e conseguindo engolir com esforço.

Todas essas situações ilustram como Doug ficava ansioso sobre o que lhe acontecia e ansioso em dobro com as situações que lhe eram amis importantes. Mas no fim, tudo se resolvia e de uma forma que nem mesmo ele esperava. Ele perdeu peso pra ir a festa da piscina, o
Sr. Dink no fim não ligou muito para a churrasqueira quebrada mas vendo o esforço dos meninos e como eles queriam pagar, fez uma proposta para que eles fizessem pequenos serviços para ele e no fim, Patti serviu hot dog com fritas em seu jantar dizendo que estava brincando. Com Doug vemos que as palavras podem ter uma influência muito grande sobre um ansioso escritor de script.

Óbvio que o mundo não tem culpa, essa característica é uma qualidade particular, cabe ao próprio indivíduo trabalhar isso, embora seja muito difícil. Essa peculiaridade de ser ansioso com o que vai acontecer e quase que imediatamente fazer um roteiro em sua cabeça pode ser ao mesmo tempo muito angustiante e frustrante. Angustiante porque se imagina mil e uma situações que podem ocorrer e frustrante porque muitos ao fazerem seu script, se preparam para aquilo, como em uma peça teatral e quando não ocorre do jeito como se idealiza, vem a decepção ou se perde aquela capacidade de se surpreender, afinal, se alguém imagina tantas possibilidades, acaba que está sempre na defensiva para elas ou para o que pode ocorrer.


Mas não apenas coisas negativas existem na Síndrome de Doug Funnie. Claro que a ansiedade, o script, a inquietação e angústia são mais do que pontos ruins, todavia existe algo também compensador: a imaginação. E isso pode ser trabalhado de forma extremamente positiva. Doug podia fazer em sua mente situações mirabolantes que angustiavam seus dias, mas ele também criou um mundo com personagens só dele, no qual ele era o herói e podia fazer o que quisesse, ser o melhor que podia. A imaginação é uma espada de duas lâminas, num ansioso ela é usada para fatos que o inquietam mas também possibilita a criação de algo que o conforta. Afinal, se você tem imaginação pra criar múltiplos desfechos e ainda assim nenhum deles pode ser o correto, também tem imaginação pra criar algo maravilhoso e encantador que lhe acolhe nesses momentos de angústia.

Doug era o exemplo de algo que hoje, em casos mais graves já é amplamente disseminado e recebe atenção especializada. Lógico que se percebe esses fatores no personagem, mesmo que atenuados e sempre de um jeito divertido. Doug mesmo em suas angústias tinha leveza e sempre uma lição ao fim, quase sempre elevando as coisas a um patamar positivo, de que não se devia esquentar tanto a cabeça, que as coisas podem ser melhores do que se imaginava e que tudo ao fim termina bem. Doug, mesmo depois de tanto tempo ainda é um desenho atual e extremamente educativo...

domingo, 23 de maio de 2021

Resenha Livro Heidi


Oi! E aí? Como é que tá? Eu li esse livro tem um tempo e devo dizer que é um dos livros mais significativos que eu tenho. A história muitos já conhecem de filmes, desenhos, de ter ouvido falar, mas quando você lê o livro, sua visão se amplia além do que as produções mostram. Há muito mais detalhes que enriquecem as percepções. Cabe lembrar que foi escrito em uma época na qual a literatura para crianças especificamente era escassa, logo por mais que fosse direcionada para este público, ainda se dava um jeito de colocar elementos maduros na obra. Tanto que no livro se vê passagens em que por mais que Heidi fosse uma criança, nota-se uma maturidade que muitos adultos sequer sonham em ter. Eu recomendo muito que adultos leiam e também comprem para suas crianças, um mundo sem leitores é um mundo oco.






quinta-feira, 20 de maio de 2021

O que você deixou de ser quando cresceu?


Uma das discussões atuais que acaba sempre se tornando até uma batalha é sobre essa questão de "ser adulto". Muitos fatores entram em síntese de quando essa linha, muitas vezes tênue, é cruzada. O que é ser um adulto afinal? Os que já se tornaram sabem que o são, o mundo contudo, nem sempre compartilha da mesma percepção e acaba fazendo com estes se sintam inferiores quando comparados com padrões de adultice tidos como "aceitáveis".

Quando se cresce algumas coisas vem e são totalmente inevitáveis. Uma das coisas que se coloca como

primordiais é o ponto "trabalho". E aqui leia-se não qualquer trabalho, porque você treinar desenho ou escrever histórias dá trabalho, mas não é considerado como trabalho em sua totalidade logística. O trabalho aqui está relacionado com "ação que se faz em troca de um salário(dinheiro)" e com isso vem toda uma sorte de responsabilidades, deveres, cumprimento de regras, pontos que se forem transgredidos haverá punição ou advertência. Lógico que ser algo que você aprecie fazer é uma suposição lógica, mas nem por isso o manto de dever é retirado. É como na escola, na verdade. O fato de você adorar estudar uma matéria nunca eximiu você de tirar notas boas nela e passar mesmo assim, na verdade, a cobrança era até maior porque em teoria era mais fácil pra você a tarefa.

Voltemos para a questão do ser adulto. Muitos associam ser adulto com responsabilidades de cunho mais aprofundado. O trabalho remunerado traz isso, mas outras responsabilidades de nuances diferentes também podem fazer parte desse bolo. Não raro ouvir que quando se tem uma casa, se é casado ou tem filhos você virou adulto. Afinal, são coisas que não podem ser negligenciadas ou deixadas de lado, existem tarefas que não se pode deixar de fazer simplesmente. Logo essa necessidade de organização e dever faz com que você acabe deixando outras coisas de lado que quando comparadas são menos importantes.

Muitos vão dizer que ser adulto é ser maduro. Não deixa de ser, todavia, maturidade sem ação é extremamente fácil. Quando você não está sendo exposto a situações nas quais precisa exercer maturidade, lidando com circunstâncias que forcem você a tomar atitudes sensatas, sua maturidade não se mostra na totalidade e para isso fatalmente se precisa lidar com as outras pessoas. 

Esse exposto todo sobre adultice e o que supostamente faz de você um adulto é para um questionamento simples: o que você perdeu ao se tornar um adulto? O que deixou de ser quando se tornou um? É algo inquietante porque o mundo e sociedade nos faz crer que para se tornar um adulto você obrigatoriamente precisa perder algo, deixar algo pra trás, tipo um ritual. E uma vez adulto não dá pra recuperar isso, a menos que queira ser visto de forma vexatória. 

Esse tipo de pensamento sempre martelou na minha cabeça porque um dia me perguntaram: "Quando você vai crescer?" E eu de forma despojada e sem culpas disse: "Nunca". E francamente não me senti envergonhada por isso, embora assumir tal coisa nem sempre tenha sido fácil e demorou até que eu me sentisse segura para tal. Esmiuçando, eu me considero adulta. Do lado de fora pelo menos. E devo dizer que me sinto vaidosa de quando comparada com muitos conhecidos da minha idade eu pareça até mais jovem, creio que meu modo de encarar as coisas da vida ajude de sobremaneira. Tal como se espera de um adulto eu tenho obrigações de trabalho e estudo, com contas, sei cuidar de uma casa e me responsabilizo por pessoas também. Então por que muitos não consideram a mim e a outros que possam ser como eu assim? Porque me recuso a me tornar um espírito velho.

"Quando você vai deixar esse estilo de lado?"
Eu aos 90 anos
Ouvi certa vez que a juventude e velhice são duas coisas distintas. Só que por algum motivo, o mundo meio que exige que você junte as duas em um único bolo. A visão de um adulto que o mundo tem em muitos aspectos é de alguém que deixou o colorido pra trás. Você não pode gostar de certas coisas tidas "fora de sua idade". Inclua aqui roupas, modos de vestir, itens de coleção, até mesmo canetas coloridas e estojos de bichinhos. Determinados lugares já não são mais apropriados, seu estilo deve mudar totalmente pra se encaixar. E o mais traumático é: não perguntam a você se de fato se sente a vontade com isso. Ou se quer. Ou se não pode conciliar ambas as coisas. Em suma, o mundo exige que você mate algo pra entrar no roll da maturidade adulta. E essa é uma coisa que mesmo quando eu era adolescente nunca fez muito sentido pra mim. E hoje fico feliz de perceber que se antes eu me achava um heteroátomo, hoje não estou só e outros partilham da mesma percepção.

Você pode ser plenamente responsável e ótimo profissional e continuar gostando de coisas de quando era adolescente. Com senso de equilíbrio, necessário a tudo, pode perfeitamente continuar usando roupas de estilos alternativos. Pode continuar a ter hobbies excêntricos para sua idade ou tidos como para "mais jovens". Quem em cargas d'água disse que obrigatoriamente um adulto precisa trocar o cinema com pipoca por pubs e happy hours? Vi muitos que estudaram comigo parecerem ter em seus rostos a energia de alguém 20 anos mais velho, não que suas responsabilidades ou maturidade sejam maiores, mas o espírito envelheceu de sobremaneira, a sobriedade os infectou como uma erva daninha e o colorido de suas almas se perdeu. Quando isso ocorre a criatividade morre e fatalmente o adulto se torna mediocremente chato, metódico, maduro sim, mas extremamente rígido.

Com isso vemos que no caminho muitas coisas se adquire, você tem baixas ao longo do aprender, mas não precisa deixar o que lhe é mais caro de lado. Sempre há a premissa de que muitos sonhos permanecem e por ventura você só consegue realizá-los após se tornar adulto. Lembra aquele brinquedo que você queria quando criança, mas não podiam lhe dar? Eis que você vê e pode ter finalmente, compra não pra brincar mas pra que possa sentir aquele calor no coração. O lápis de cor incrível que era muito caro na sua época de escola está ao seu alcance financeiro hoje, você compra pra pintar aquelas mandalas em livros de colorir. Você não podia ter aqueles brinquedos caros que muitos dos seus colegas tinham, mas cresceu e vieram os bonecos colecionáveis. 

Muitas coisas dessa nuance parecem extravagantes para um adulto, passíveis de inúmeras críticas. Todavia meu conselho máximo é não ligar muito pra isso, pois curiosamente tais críticas são feitas justamente por outros adultos que diferentemente tiveram o que queriam, na hora que queriam, do jeito que queriam, passaram de fases sem nenhuma pendência, tiveram a regalia de poder vive-las no tempo dito "correto" e "correspondente" e justamente por isso podem se dar ao luxo de chamar de "infantil" ou dizer "isso não é mais pra você" quem não pôde ter tais coisas e só as conseguiu num tempo mais tarde do que gostaria, mas que pelo desejo ter permanecido, a pessoa desejou viver mesmo assim independente das críticas que poderia receber. É aquilo: quem foi para a disney até enjoar quando era criança/adolescente vai estranhar que um adulto queira ir nos brinquedos mais de uma vez. Sempre lembro de uma frase, de um filme bem legal (infantil inclusive): "Um sonho pelo qual você não lute, pode assombrá-lo pelo resto da vida".

Crescer é um empreendimento em muitos pontos nada agradável. Você ganha muitas coisas, mas se vê obrigado em outras a fazer algumas adaptações que a primeira vista não são tão agradáveis assim. Todavia, de forma nenhuma precisa abdicar de seu cerne, do que você é, nem ter prejuízos que tirem a cor de sua vida. É preciso inclusive a tal maturidade para que você possa continuar exercendo isso com equilíbrio. Crescer não deve nem pode ser sinônimo de apagar parte de você, principalmente se é algo que faz parte do seu cerne. Afinal, não é justo que depois de tanto trabalho, tantas rugosidades quando se lida com um mundo em muitos pontos até cruel, que você abdique do que tem de melhor.

sexta-feira, 14 de maio de 2021

Extreme Look #36 - Rosa e dourado

 


Eu desde que comecei a fazer os extreme looks percebi o quão podemos fazer combinações de cores. Eu precisei ver e estudar a roda das cores e as combinações possíveis, mas é ótimo pra criatividade! As possibilidades tornam-se infinitas, tanto com as cores quanto com as técnicas, acabamentos, agora o look é rosa com uma pitada de dourado. Podemos combinar uma cor vibrante com uma outra de tom mais neutro ou sóbrio ou universal vibrante, fica lindo e recomendo que façam!









Extreme Look #35 - Céu a noite

 


Eu pensei em um look inspirado nas cores do céu a noite. Não é segredo pra ninguém que eu adoro azul, e a combinação de azul e prata pra mim é sublime, o céu a noite é algo extremamente fascinante, são tantas nuances que as cores são extremamente inspiradoras. Espero que curtam!











quarta-feira, 5 de maio de 2021

Você já ficou em coma?

 


É muito oportuno talvez a nova novela das seis ser justamente sobre esse tema de vida. Aos que não são noveleiros, um breve resumo.

Começa com a tenista Ana Fonseca, que tinha uma carreira brilhante no ápice, até que engravidou do irmão de criação Rodrigo, num arroubo apaixonado de adolescência, numa bonita cena dentro de um rio. Mesmo com os protestos da mãe Eva, que sugeriu o aborto e adoção, ela teve sua filha Júlia, seguindo apoiada pela irmã Manuela. A mãe esconde de todos que Júlia é sua neta, registrando a menina como filha de modo a evitar o escândalo.  Após voltar ás quadras no entanto, o desempenho de Ana não era o mesmo, ela se vê num dilema, se sentindo não mais ela e tocada a tomar um rumo diferente na vida. 

Com isso em mente, Ana decide “fugir” de casa com a filha e a irmã para a casa da avó em uma cidade vizinha, todavia no caminho, o carro em que as três estavam, capota e cai em um lago. Manuela naquele momento de desespero se vê diante de uma difícil decisão de salvar ou a sobrinha ou a irmã. Ela opta pela sobrinha, o que faz com que Ana permaneça inconsciente muito tempo embaixo d’água. Tudo isso culmina em um coma prolongado de Ana, o que para a mãe Eva que sempre odiou Manuela e queria se livrar de Júlia foi bem oportuno.


O coma de Ana dura sete anos. Nesse tempo a filha cresceu, Rodrigo após descobrir que a menina era sua filha a pega para si, a irmã ajudou na criação e ambos acabaram se apaixonando. Manuela cresceu profissionalmente, tornando-se chef de cozinha e dona de um buffet. Rodrigo também ajudava e se formou em arquitetura. Eva foi a que permaneceu 100% do lado de Ana no hospital, mas odiando a todos por tudo que acontecera.

Quando há o despertar, considerado um milagre, Ana se depara com uma realidade cruel: a

de que o tempo passou para todos, mas não para ela. A irmã tornou-se uma mulher independente, o rapaz com quem se relacionara se formou, a antiga treinadora achou outra pupila, a mãe continuou obcecada por ela como se não tivesse se passado nenhum dia ainda que a realidade depusesse contra.

Além de todos esses fatos, Ana precisou se recuperar dos próprios efeitos do coma prolongado, reaprende a andar e se movimentar, pensar em como se reergueria, o que faria profissionalmente dali por diante, uma vez que o esporte profissional estava fora de cogitação, conquistar a filha com quem não tinha convivido, era literalmente começar do 0.

E no recomeço de Ana, nas novas percepções dela, decepções e acima de tudo, pesar que acabamos nos identificando um pouco com essa sensação de “coma”. No momento em que o mundo se encontra, com tantas limitações, desde de poder ir a um programa tão rotineiro quanto um café em uma confeitaria, até planejar uma gestação, um casamento, pensar em um curso novo, boa parte de nós entrou em coma mesmo sem ser literalmente. Entramos nesse estado de letargia e estagnação, sem podermos no entanto, em muitos pontos, fazer algo a respeito, pois há fatores além de nossa vontade ou poder.


Existe um julgamento sobre o envolvimento de Manuela e Rodrigo, assim como acusação de que eles criaram Júlia juntos e até de que a irmã “roubou” a vida de Ana. Pode parecer muito cruel ou até mesmo insensível, mas é fato que por pior que seja, não dava pra entrar em um modo hibernar junto com Ana. Ainda que se quisesse, o tempo passaria de qualquer forma e quem ficou fora, precisou seguir. Rodrigo foi renegado pelo pai assim que assumiu Júlia, Manuela e a menina foram expulsas de casa por Eva, que desejou que estivessem mortas. Dois jovens, uma criança recém nascida que precisava de cuidados, era preciso que arregaçassem as mangas e buscassem meios de sobreviver. Eva possuía um patrocínio dado pelo antigo empregador de Ana assim como provável pensão do ex-marido, logo a questão do provimento material e até logístico como alimentação, lavanderia e limpeza ficava a cargo de terceiros, diferente dos outros que por necessidade precisaram buscar meios de se manter de pé. Tal como muitos hoje, podem ter ficado no torpor por um tempo, mas logo precisaram acordar e seguir.

Reaprender é muito difícil. Se reerguer é complicado. Ver Ana nos toca de algum modo porque todos nós lá no fundo estivemos nessa situação de impotência e sentimento de ter sido roubado de algo. Ela talvez seja o reflexo de nossas frustrações como um todo. Uma moça na flor da idade, com uma filha e todo o amor do mundo para um rapaz, de repente por uma fatalidade e coisas além da compreensão e vontade, ocorre algo assim e tudo que ela poderia viver lhe é tirado não por uma pessoa, mas pela própria vida, foi literalmente uma traição desta. Fatores além da vontade de Ana propiciaram tudo e por mais que haja a frustração de uma vida que ela queria ter, não pôde pelo simples fato de que não se volta no tempo.

Todos haviam mudado, tudo havia amadurecido e ela precisou encarar e aceitar o fato de que não podia voltar para a antiga vida e coisas que havia planejado que cabiam tão perfeitamente antes, não mais poderiam ser cogitadas. Por isso talvez haja essa associação. Olha-se para Ana e no fundo há a compatibilidade com a sensação de que em nossa vida também tombamos com fatos  que estão além do nosso alcance, até de nossa vontade, coisas que simplesmente acontecem, sem culpados propriamente ditos mas que tentamos buscar um para poder aceitar o fato de que não estava nas mãos de ninguém, mas do destino. Esse “ser” não palpável, não físico, todavia que nos rege e nem sempre faz o que gostaríamos que fizesse.

A situação de Ana, de um modo mais dramático, nos dá esse confronto. O confronto do quanto nos ainda não conseguimos lidar com fatos que estão além do nosso alcance, todavia que geram essa sensação de angústia, essa sensação de urgência, de querer correr atrás de um tempo perdido, de uma oportunidade, como se tivéssemos de fato estado em um coma prolongado e ao ver o quanto perdemos, quiséssemos recuperar de forma imediata. E ao nos depararmos com a impossibilidade, ocorre que forçadamente precisamos aprender a ter paciência, dar um passo de cada vez, pensar em novas possibilidades, novos meios de aprender e recomeçar.


Lógico que a dificuldade existe. Tal como Ana, não foi fácil colocar os sentimentos em ordem, perceber que o mundo havia mudado e que ninguém mais era como ela conhecia em sua adolescência e que mesmo em sua vã tentativa, apenas se machucou ainda mais percebendo que apenas havia o caminho a frente.

Essa experiência de “ficar em coma” gera revolta em nós de forma indiscutível. Todavia se analisarmos a situação, uma hora devemos acordar e podemos colocar tudo em prática novamente, talvez não da forma como queríamos mas de um modo melhor, mais maduro, mais conciso. Haverá dificuldades em se estimular a resiliência, todavia se nos abrirmos para novas experiências, se houver disposição e boa vontade, esse despertar por mais traumático que seja, pode iniciar novos ciclos. E podem ser surpreendentes.

terça-feira, 4 de maio de 2021

Recomendação: Filme Radioactive

 


Por recomendação, tirei um dia pra ver o filme Radiactive, que retrata a vida de Marie Curie e sua trajetória acadêmica.

Ela é uma figura recorrentemente citada em páginas pelos seus magníficos feitos. E sim, foram de fato incríveis. O filme mostra uma sequência lógica desde quando ela começou, correndo quando jovem até o momento em que pereceu devido suas descobertas, já debilitada.

Pra começar ela era estrangeira. Precisou mudar seu nome para poder entrar na universidade e ser aceita minimamente. Ainda que tivesse seu laboratório e equipamentos constantemente mudados de lugar, sua capacidade subestimada, negativa de fornecimento de recursos ela permanecia firma na busca pela ciência, um legítimo caso de pessoa realmente apaixonada pelo que faz.


Daí contrariando as expectativas, surge Pierre Currie, um homem que também era visto como excêntrico porém que acreditou nela, talvez a frase de que você atrai aquilo com o que se afina se faz verídica afinal. Ele viu o potencial dela, percebeu que dali poderia sair algo grandioso e a incentivou em suas pesquisas. O fato dele ter se tornado seu marido posteriormente foi só um mero detalhe, pois Marie havia deixado muito claro seu jeito e suas percepções, fora que os uniu antes de quaisquer vínculo afetivo foi o amor pela ciência e o quanto poderiam descobrir dela.

Uma das coisas mais incríveis e até inusitadas sobre Marie Curie é que em se tratando de ideologias, ela agrada tanto feministas quanto os que se dizem não-feministas. Um porque se afirma que ela era uma mulher a frente de seu tempo, que quebrou padrões e se destacou em uma sociedade ainda dominada por homens, não se submetendo nem ao marido. Outro porque afirma que ela não precisou se envolver com movimentos coletivistas, partir pra agressão e grito ou fazer confusão para ser reconhecida e vista como uma mulher pioneira.

Obviamente que não foi fácil. Por mais que houvesse parceria entre ela e Pierre, óbvio que ainda haviam momentos de competição, outros em que pesou o fato de que além de cientista, Marie tinha obrigações familiares. Por fatalidade, não pôde ir ao recebimento do primeiro Nobel devido debilidade após um parto difícil, o que lhe gerou extrema revolta. Apesar disso, creio que a parceria e o amor dos dois deu exemplo de que é possível, seja em que época for, um casal se apoiar em ambas as áreas, profissional e afetiva, mesmo que o mundo diga o contrário.

Na história dela, não vemos apenas superação de cunho científico mas de cunho pessoal. Após a morte de Pierre, acabou se envolvendo com um homem casado e não pouparam difamações a ela, usando inclusive sua nacionalidade, provando que mesmo no séc. XIX, quando sequer haviam celulares ou redes sociais, quaisquer pessoa que virasse alvo tinha características desenterradas para ser atingida. Mesmo Marie sendo uma cientista brilhante, tendo uma cadeira como professora universitária (a primeira mulher a conseguir isso), descoberto um elemento novo, era chacota devido ser polonesa de nascença e se relacionar de um modo equivocado com alguém.

No segundo Nobel, ela já estava mais refeita, foi aplaudida de pé pelas mulheres e mostrou como sua descoberta era importante. Tempo depois quando a guerra estourou, tocada por um apelo da filha mais velha, que era enfermeira e relatou que jovens estavam sendo amputados sem necessidade, ela se dispõe a levar máquinas de raio-x para os campos de batalha. Deparando-se com a falta de verba, novamente lhe sendo negada, Marie disponibiliza seus dois Nobel para conseguir a quantia. Para os que não sabem, eles são feitos de ouro maciço. Hoje percebendo tantas pesquisas de cunho questionável ou restritas a um pequeno grupo, mas tão firmemente defendidas, nota-se a nobreza de Marie em abdicar de algo tão valioso em nome da sociedade e de um bem maior. Tal atitude denota não apenas inteligência, mas grande nobreza de coração por parte da cientista.

Creio que ao longo da história do mundo, existem, de forma bem pontuada, pessoas que podemos chamar de extraordinárias. Aquelas que houve literalmente um “mundo antes” e um “depois” delas. Claro que muitos não vão descobrir um elemento radioativo, que permitiu fabricação de bombas, cura de câncer, mas tomar Marie como um exemplo de proatividade e estímulo ao crescimento pessoal em todas as áreas já é um bom começo.