segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Privilégio x Mérito


No meio de tanto bafafá de política, candidato isso, aquilo, desviou tanto, esse é melhor e muito mimimi e chatice, percebo que tem uma coisa comum em todo período político e que é um tremendo pé nos países baixos: a velha história de desigualdade, mérito e privilégio. "Ah, os ricos tem privilégios", "Oh, os pobres agora tem o mérito". Essas duas palavrinhas estão sendo usadas de forma distorcida e vulgar. Já houve quem me dissesse: "Quanto mais vejo as pessoas trabalhando, mais elas morrem de fome". Bom, acredito que se é ruim com trabalho, sem elas elas definhariam. E não só no físico, no psicológico também, afinal, trabalhar indiscutivelmente faz o ser humano se sentir útil.

Mas voltando a discussão mérito x privilégio. Segundo o dicionário, "privilégio" significa "direito ou vantagem concedido a alguém; bem ou coisa a que poucos tem acesso; qualidade ou característica especial, geralmente positiva = DOM" Ao passo que "mérito" quer dizer "merecimento; aptidão; valor moral". Então, o dicionário já mostra o quanto confundem privilégio com mérito e vice-versa.

Privilégio é ter dois olhos. Mérito é uma pessoa cega aprender a ser independente e tomar pé da própria vida.

Privilégio é ter duas pernas. Mérito é um cadeirante lutar pra ter seu espaço na sociedade e no mundo.

Privilégio é ter saúde ao passo que muitos definham em hospitais, porém você pode ter o mérito de melhorar a sua.

Privilégio é você ser sorteado pra conhecer seu astro favorito. Mérito é você entrar em contato com meio mundo, fazer algo que chame atenção e conseguir ser convidado para entrar na casa dele.

Privilégio é você poder estudar em uma boa escola, ainda que paga pelos pais. Mérito é conseguir tirar boas notas, ter notoriedade e passar no vestibular ou em um concurso.

Privilégio é ter uma casa e comida desde que nasce. Mérito diz respeito ao fato de você conseguir independência o bastante pra se mudar, arcar com suas despesas e comer onde quiser.

Privilégio é você nascer com um dom, seja aprender a desenhar lindos quadros sozinho ou a tocar piano rápido ou ser autodidata e memorizar qualquer assunto. Mérito são as pessoas fazerem essas mesmas coisas, mas percorrendo o caminho do trabalho e esforço duro.

Acredito que o que falta às pessoas são exemplos. Por vezes ainda que você os dê, elas relutam a acreditar e aceitar. No momento em que existe essa pauta de "privilégios a uns" e "mérito de outros" tão desmerecidos, talvez devêssemos olhar por diferentes lados. Nas redes sociais, parece que o discurso de diferença de classes, bolsa disso, daquilo está tomando conta, quando a questão é mais simples do que se imagina. O que incomoda quando se trata de "classes" não é o fato de uma pessoa dita pobre estar numa faculdade com uma dita rica, o incômodo é por vezes a acomodação de muitos em querer apenas receber, mas não se esforçar para ter méritos e melhorar sua própria condição. Afinal, há uma grande diferença entre eu entregar uma cesta de peixes e chamar uma pessoa e ensinar a pescar dizendo de quebra onde se compra a vara e se consegue as iscas.

De uma forma mais clara: estudei em escola boa sim. Alguns defensores ferrenhos de que não existe mérito também estudaram comigo, na mesma sala, na mesma turma, com os mesmos professores e apostilas. Muitos outros tinham boa condição, eram filhos de madeireiro, dono de rede de sapataria e por ai vai, ao contrário destes, minha mensalidade era dividida entre três pessoas. E eu tirava boas notas. Os professores elogiavam e fizeram minha imagem de "menina esforçada". Ao fim, eu passei em três universidades públicas, seriam quatro, mas perdi o período de inscrição da quarta. Não gastei nem o dinheiro de inscrição em uma particular, pois sabia que meus pais não poderiam pagar. Me questiono por que houve gente que não passou, da mesma forma como hoje em dia não passa, com cota ou não. Os que passam foram abduzidos por ET's? Tem uma tremenda sorte? Tiveram um incremento anormal de inteligência? Sofreram mutação? Ou só trabalharam em si para conseguir algo melhor?
Numa das consultas que eu tinha com meu psicólogo, me sentia meio culpada de ter passado em um concurso tão nova e eu questionei isso: "Por que eu? Por que fui eu que passei? Haviam tantas pessoas lá comigo, pessoas que eram mais velhas, já tinham casa, família, já trabalhavam, será que mereci ter passado?" E ele, sabendo de como minha vida estava complicada no período (eu saía ás 7:00hs e voltava ás 23:00hs) fora os conflitos internos, me disse: "Você não tem que se culpar de nada. Você só fez o que fez a vida toda: sentou a bunda na cadeira e estudou."

Bem, acho que entender a diferença entre mérito e privilégio é um passo pra se vencer preconceitos e idéias fechadas. Você pode ter um privilégio e ajuda, porém seu crescimento a partir disso depende de seu mérito e força de vontade. Pois esses dois fatores ainda são de um cunho bem individual...


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Papo de profissa: O que é um Fisioterapeuta?



Outubro é o mês de muitas coisas. Além de uma festa religiosa muito importante de cunho regional e o dia de Nossa Senhora Aparecida, neste mês é comemorado o dia do Fisioterapeuta e do Terapeuta Ocupacional. Os mais íntimos sabem que pertenço a essa classe e escolhi bem consciente do que queria e esperava. Por partes, "Fisioterapia" é a união de duas palavras: "Physis" e "Therapeia", em suma é a terapia através da utilização de recursos físicos, sejam eles o calor, frio, água, eletricidade ou força mecânica. Por ser uma profissão nova, muitos rótulos a respeito permanecem, continuam como a profissão começou.

Fisioterapeuta não é massagista. Usamos nossas mãos mas não somente elas. Massagem é um pequeno ramo de uma árvore chamada Terapia Manual. Ainda que muitos fisioterapeutas se ofendam com o pedido de "massagem", alguns transformam essa adversidade em diversidade. A diferença, contudo, de um fisioterapeuta para um massagista é a propriedade. O primeiro tem propriedade sobre fisiologia, anatomia, se tem matérias específicas sobre movimentos, músculos, onde começam, onde terminam, contra-indicações, sabem o que estão amassando/rolando/movimentando, e isso nem sempre os massagistas tem noção. Não raro pessoas saírem roxas de sessões de massagem com profissionais não qualificados ou até mesmo com membros lesados por movimentos bruscos.

Fisioterapeuta não faz só reabilitação. No início, quando a profissão não existia enquanto tal, havia esta exclusividade considerando os inúmeros casos de amputação pós guerra e casos de polio, porém após a regulamentação, as especialidades mais conhecidas e efetivas eram as que tratavam dos ossos e do sistema nervoso (traumatologia e neurofuncional). Fraturas de todo tipo após repouso e imobilizações acarretam danos como perda de força e massa muscular, deficiência no movimento e dor, o fisioterapeuta faz com que volte ao normal, recuperando a amplitude de movimento e função.
Já o neurofuncional tem um público bem amplo, das faixas etárias mais diversas. Do bebê ao idoso, pois as patologias que envolvem o sistema nervoso e consequentemente o muscular são bem extensas. Nesta especialidade, há uma busca por certas funções e preservação daquelas já existentes, casos como AVE's, lesões medulares e Parkinson podem ser melhorados com fisioterapia e técnicas específicas.

Com o avanço, a fisioterapia contudo, não permaneceu nessas duas especialidades, foi-se ganhando espaço e hoje estamos em todos os ambientes e trabalhamos com os mais diversos públicos. Mulheres com incontinência, puérperas e grávidas, crianças, idosos, vamos para empresas fazer ginástica laboral com foca em função e prevenção de doenças ocupacionais, trabalhamos em terapia intensiva mantendo a função pulmonar e evitando lesões derivadas de acamamento prolongado. Com técnicas e aparelhos específicos, conseguimos consolidar fraturas, amenizar estrias, drenar inchaços... Se antes somente clínicas eram o espaço que os fisioterapeutas ocupavam, hoje estamos em hospitais, programas de prevenção, empresas de grande porte. E sim, é uma profissão séria que nos possibilita viver dela.

A lei que regulamentou nossa profissão junto com a dos nossos irmãos Terapeutas Ocupacionais foi oficializada no dia 13 de outubro de 1969. E temos vivido e nos aprimorado desde então. Por isso que podemos dizer com muita felicidade: Feliz Dia pra Nós!

domingo, 12 de outubro de 2014

Anna ou Elsa?




Acho que Frozen trouxe lições preciosas e pensando um pouco, indo a um evento aqui e ali percebo o quanto a Elsa tomou conta e espaço de tudo. Não faltaram cosplays da Elsa, truques pra mudar de roupa, todo mundo comprando cadernos dela e imitando o gesto de fazer neve. E a Anna? Ela também não é importante? Entendo que Elsa é a Rainha da Neve, mas Anna foi quem a libertou pra ser quem queria ser.

Por partes, mesmo criança dá pra notar que Elsa é clara, azul, remete ao gelo e ao frio, Anna já é mais sardentinha, castanha, rechonchuda, empolgada... Consegue-se notar que Anna é muito impressionada com os poderes de Elsa, a admira e se diverte com isso. Elsa é mais centrada, tenta fazer tudo certinho, impressiona porém com uma margem de segurança. Tal qual não é seu desespero quando acerta a cabeça de Anna e como depois disso, um simples toque, um simples nervosismo faz seus poderes sairem do controle. Talvez a concentração excessiva de Elsa e essa repressão é que faz com que a neve dentro dela fique numa panela de pressão.
Anna é a ternura em pessoa, por cerca de 10 anos ela bateu na porta de Elsa, ainda que recebendo nãos, não se deixava levar pelos portões fechados e corria pela casa, gritando e falando com os quadros. Ela mantinha a alegria e não encobria isso embaixo de luvas. E era insistente... lutava contra as negativas e sempre acabava lembrando a irmã de que a tinha. Elsa preferia se trancar e não sentir. Nenhuma das duas era má, só conduziam de forma diferente suas vidas.

Os anos contudo vão acumulando certos sentimentos e apaziguando outros. Com as recusas de Elsa em determinado ponto, Anna já não batia em sua porta quando passava, apenas olhava lembrando que havia uma irmã lá dentro. E quando os pais se foram, veio a confirmação de que não havia mais ninguém, de que elas não tinham mais ninguém. Mesmo que a tendência fosse a aproximação, Elsa se afasta mais por medo e Anna permanece mais na dela.

Anna só explode quando os portões são abertos. A alegria dela já era evidente, porém ao deixar o sol entrar isso se torna potente. O encontro é inevitável e como sempre foi Anna a tomar a iniciativa, não é surpresa que tudo parta dela mais uma vez. Anna se torna importante pelo seu desabafo, por instigar de certo modo Elsa a se libertar, ainda que houvesse um certo arrependimento depois pelo ocorrido, Anna vai atrás pra ajeitar as coisas.

Anna era a caçula, mas agia com a iniciativa de irmã mais velha, por isso creio que ela teve uma importância fundamental no filme. Não só por mostrar o valor de um sacrifício por um ser amado, mas coragem de dizer que não tem medo e não desistir da irmã tentando sempre e sempre que ela conseguiria. Era um jeito muito singelo e doce, aquele jeito de carinho que não desiste, que demonstra, que não segue sem que o outro esteja junto...

Elsa pode ter cantado "Livre estou" se libertando de seu cárcere auto impingido, mas foi com todo amor do mundo que Anna cantou: "Por uma vez na eternidade, eu vou estar aqui."