Hoje a coisa mais comum é ouvirmos que as
pessoas não se comunicam mais, não mais conversam, não se olham nos olhos e a
normalmente culpam a tecnologia, as redes sociais e aplicativos. Vivemos
isolados do mundo em nossos celulares, iphones e computadores, porém o
isolamento pode até se dar de forma diferente de alguns anos mas
indiscutivelmente não é totalmente inédito na história do mundo.
Com a estreia da nova novela das seis,
Éramos Seis, dá pra se ter uma noção de como as coisas eram em termo de comunicação,
sociedade, família e em como as relações se davam. Para muitos, parece algo
totalmente primitivo viver em um mundo onde telefone era coisa de pessoas
exclusivas. Sim, nos anos 20, 30, até a poucas décadas na verdade, telefone em
casa era coisa ou de estabelecimento comercial ou de pessoas com certas posses.
O celular nem tinha sido inventado e quando o foi, tinha o tamanho de um tijolo
e servia literalmente só pra fazer ligação e pra lugares não muito longe. Mensagens
instantâneas não existiam, a forma de se comunicar com pessoas em outros
estados ou países era por carta, que você contava uma novidade hoje e quando
chegava até o destinatário já não era mais novidade. As famílias costumavam
jantar juntas, mesmo sem celular ou telefone, não havia desencontros nem isso
de "não consegui falar com você", os horários eram bem determinados,
seja de escola ou trabalho, haviam atrasos contudo os motivos para tal eram
mais lógicos e restritos, visto que as cidades não eram tão grandes e opções
eram mais escassas, não havia tanta variedade de lugares para ir. Daí nos
perguntamos, o que de fato mudou no quesito se comunicar?
A tecnologia facilitou muito, com o
advento da internet tudo despontou mais ainda. Contudo é no mínimo curioso que
por mais que você consiga falar com alguém em tempo real no Japão, as pessoas
ainda assim tenham problemas de comunicação tanto quanto haviam limitações no
passado. Quem inventou o celular, a tecnologia e os aplicativos queria
aproximar as pessoas, mas os desencontros não foram sanados mesmo assim.
Afinal, por mais que antigamente houvesse atraso considerável com cartas ou até
extravio delas, hoje existem os vácuos descarados, os bloqueios, o simples
ignorar de mensagens mesmo que quem as enviou saiba que o destinatário leu e
simplesmente não esteja querendo dar uma resposta. Você fala por vídeo com
alguém na Groelândia mas por vezes não consegue falar com seu colega que mora
ao lado, seja porque ele de fato não quer falar com você ou porque as opções de
entretenimento nas redes são tantas que ele pode estar vendo algo mais
interessante que sua mensagem.
Uma reclamação frequente é que os
celulares e etc afastaram as pessoas, elas não mais se olham, não mais
conversam, ficam cada uma em uma bolha teclando, isso é um fato muito corriqueiro
no mundo. Contudo, em uma menor escala também ocorria antigamente quando a
única fonte de informação eram os jornais de papel, os senhores permaneciam
absortos neles no bonde e as senhoras em revistas de moda e culinária, também
não havia muita comunicação e todos estavam isolados em seus próprios
pensamentos e leituras, assim como hoje se fica em redes e mensagens de grupo.
De um jeito ou de outro, havia certo isolamento entre pessoas, a diferença é
que ninguém entrava em bondes para roubar jornais.
Outra coisa que mudou mas nem tanto assim
foi a necessidade de ter algo que tornasse a realidade menos penosa. Um certo
livro que li, que se passava na década de 60/70, que tinha um bordel como um de
seus cenários numa das cenas o gerente do lugar dizia a uma das moças: “Os
clientes têm reclamado de seu mau humor. E eles não querem mulheres
mal-humoradas. Já basta o que têm que aturar em casa ou no trabalho. Quando
chegam aqui, esperam encontrar uma lady, e não uma grosseirona que só sabe
reclamar e dar foras”, na atual novela das seis isso também é bem evidente. Não
existe internet, porém haviam cabarés aos montes, onde os homens extravasavam
com dançarinas e bebidas suas frustrações da não promoção ou a chateação do
pouco dinheiro ou tédio com as questões domésticas e esposas. Lugares onde não havia depressão, mas um brilho e felicidades constantes, lá não havia problemas, pouco dinheiro, todos queriam mostrar o melhor e mais bonito de si.
Hoje não existem cabarés na forma como
eram mostrados antigamente, mas existem casas de show, camarotes e lógico,
possibilidade de fotos e publicações em redes sociais. Ninguém quer parecer
triste ou solitário, todos são felizes e bonitos. Não é uma verdade absoluta, contudo uma boa parcela das
pessoas ainda publica momentos captados em fotos não por uma felicidade real e
genuína, mas pensando em quem vai vê-las. Seja para despertar inveja, seja para
se preencher ao menos por um momento de algum tipo de vazio, seja para
pretender que tem uma vida que por trás da câmera não existe. Logo, pode-se
dizer que nesses casos especificamente, as redes sociais são o bordel da
internet. Cheio de pessoas que riem para câmeras mas choram por detrás delas
quando estão sós, pessoas cujas maquiagens sempre estão impecavelmente
esfumadas e nunca erram no delineado, moças fitness que nunca suam em suas
roupas de marca ou ficam vermelhas e onde as receitas sempre dão certo e ficam
lindas para serem servidas. As pessoas que ousam postar fotos em momentos de
fato de tristeza, ou em momentos não tão bonitos, maquiagens sem produtos de
marca não recebem tantas curtidas quanto as que abusam de filtros.
A comunicação poderia ser mil vezes melhor
do que é hoje se as pessoas talvez se equilibrassem. Se percebessem que por
mais que as mensagens se disseminem mais rapidamente, o contato humano ainda é
necessário e preciso. O que antes era por falta de recurso, hoje ocorre por
falta de vontade. Muitos ainda se isolam mesmo que possam fazer amizades do
outro lado do mundo. É estranho pensar que antigamente as pessoas também não se
comunicavam com tanta eficiência em casos de distância e hoje mesmo com o melhor
celular do mercado, optam por tal. Então meus caros, é um claro exemplo de que
as coisas mudam, só que ás vezes nem tanto..






















