segunda-feira, 27 de novembro de 2023

Os dias eram assim...



2023 está terminando de um jeito meio excêntrico. Passamos por uma pandemia, atravessamos uma
guerra na Europa e agora enfrentamos aquele sob o qual não temos controle: o sol. Entre medos, temores, dívidas e calor o mundo parece ter dado uma guinada meio louca ultimamente e nós somos arrastados como folhas ao vento, que por vezes sentem não ter muito controle sobre nada.

Sempre se pensa que tudo ocorre por um motivo. Os influencers que ainda valem a pena serem vistos e ouvidos ainda abordam estas questões de como devemos ver a vida de um modo mais positivo, mais ameno e que tudo um dia pode mudar de uma hora pra outra. Talvez tudo vise um aprendizado afinal. Nunca se pode aprender na zona de conforto, permanecendo confortável, sem grandes desafios ou ranhuras que nos obriguem a sair e ver que há mais do que aquilo que nos é proposto, todavia não se pode negar que o mundo tem sido submetido a várias zonas de desconforto, talvez com objetivo de se aprender algo que por ventura não estejamos percebendo.

Aprender nunca é simples. Percebe-se a dificuldade de lidar com aprendizes, eles são ainda lentos no trabalho, ainda se amarram com as intercorrências, temem qualquer coisa fora do lugar, mas tomado o tempo necessário eles tornam-se exímios e esplêndidos, fora a vontade de aprendizado e renovação constantes. Nosso mundo está passando pelo momento do aprendiz, tanto ocorrido deveria levar a uma reflexão mais profunda de nossos desejos, vontades, do quanto estamos valorizando e para onde estamos indo. Contudo ainda estamos na vive dos aprendizes, percebemos que a sociedade de repente deu uma freada em termos de condutas, concepções e até mesmo humanidade. 

De forma meio antitética, é dito que os tempos estão meio difíceis mesmo com todas as facilidades em termo de tecnologia, saúde, educação... A dificuldade se dá devido a falta de tato dos que estão surgindo agora de lidar com tanta informação. Em pouco mais de 40 anos, coisas como DVD’S, CD’S, locadoras, até mesmo livros físicos viraram história, ficaram obsoletos e ainda assim, muitos ainda fazem questão de proliferar ignorância.

Pode parecer papo de Peter Pan, dos avessos a mudanças, todos tem uma fase assim. Aquela em que a segurança parece real, porém apenas por causa da proteção dada devido a inocência, seja da idade ou da própria experiência. O mínimo pensamento de sair dessa fenda já gera crises, choros, depressões e ansiedade. Os principais males do mundo atualmente, decorrem não dos fracos, mas talvez dos que ainda não possuem a maturidade para lidar com o fato de que essas fendas por mais confortáveis que possam parecer, não são eternas.

Não que seja algo maléfico, apenas inconveniente, porque implica em aceitar e entender que certas coisas não vão durar e outras mudarão para sempre. Por vezes diz-se que ignorância é uma benção. Outra contradição. Saber é poder e possibilidades, entender como as coisas funcionam possibilita novas oportunidades, inovações e gerar conhecimentos, sabe-se o quanto isso foi importante para a evolução da humanidade, avanço da saúde e melhora em muitos aspectos de nosso mundo. Todavia é fato que o avanço nunca vem sem que algo seja deixado para trás.

É uma lógica: há pontos que nunca podem coexistir, um sempre chega para preencher o que se foi. Demora um tempo para se aceitar esse curso tão facilmente, especialmente para os saudosistas. No


filme De Repente 30, existe uma cena que causa espasmos em muitos que assistiram tal filme quando mais novos e chegaram na idade da personagem. Jenna deprimida e triste ao se dar conta do que sua vida havia se transformado resolve ir a casa de seus pais, após longo tempo sem vê-los. Ela que aos 13 anos queria ter 30 achando que seria o paraíso e apenas sucesso, se defronta com uma realidade até cruel de nossa sociedade: que nem todos vão apreciar esse sucesso, que vão se transformar ao longo do tempo e nem sempre serão sinceros ou bons, o que incluía ela mesma.

No trajeto ela vê um grupo de meninas de 13 anos e ali naquela hora, ocorre um encontro secreto com o eu dela daquela idade e há a dura realidade de que não há mais como voltar para corrigir erros, para fazer as coisas diferentes e internamente o questionamento se há tempo para talvez corrigir o que está errado até então. Ela chora ao chegar na casa dos pais, se encolhe no closet em meio às lembranças, os brinquedos esquecidos, ao tempo em que não sentia tanta solidão, ali vem o preço da vida adulta que um dia ela desejou com tanto ardor. Frisando que não se trata de uma síndrome de querer ser criança


para sempre, é ser sincero e não hipócrita o bastante pra não fingir que por mais que haja sucesso, fama, o dinheiro para a sonhada independência, as rugosidades no caminho deixam marcas tal como pisar em pedras, precisamos atravessar isso para chegar em um local melhor, mas nunca se chegará lá inteiro, nunca plenamente.

Atualmente essa idade de 30 anos se transformou em um tabu. É curioso pensar que muitos se referem a ela como um divisor de águas, nem tanto como de sucesso, mas como um lugar na vida com pesar e cargas. Não mencionando claro a questão de que muitos até afirmam no caso de mulheres, que ao chegar aos trinta elas não mais servem e seu valor diminui, em termos de fertilidade e maternidade. Em suma, é como se depois dos 30 tudo fosse um caminho para o abismo, um declínio vertiginoso sem grandes chances e oportunidades na qual só resta o saudosismo, dor nas costas, decepções e driblar a terrível conjuntura social. Não é preciso dizer que ou é caso de extremistas ou é caso psiquiátrico.

O ponto desta idade é que diferente de talvez 100 anos atrás, ao se chegar aos 30, 40 você não estava no fim da vida literalmente. Falando de pessoas saudáveis, com bons acessos a educação, alimentação e recursos, normalmente se chega aos 30 com boa aparência, vitalidade e planos extensos a perder de


vista. A questão da demonização desta idade fazendo com que muitos se sintam saudosistas é que por mais que se tenha avançado, dificilmente alguém estará na terceira década de vida sem ter experimentado uma boa penca de reveses de vida.

Claro, existem os que são mais indiferentes, os que são de certa forma protegidos por classe social e privilégio econômico, que pode os proteger das questões rugosas referentes a carreira, trabalho, chances de progresso, as dificuldades são amenizadas nesses casos, contudo isso não os protege do resto. Esse resto é justamente o que foge do controle e solução relacionados a bens materiais. As perdas não materiais são mais difíceis de lidar. E fato quem chega aos 30 sem ter sentido, nem um pouco que seja, algo assim pode-se considerar sortudo porque o universo realmente gosta muito desse indivíduo.

Perdas de amigos, pessoas queridas que seguem caminhos distintos, sonhos que se vão, lutos por morte literal, são exemplos de algumas perdas que a partir de uma determinada idade passam a ser comuns. Os casamentos, batizados, chás ficam escassos, os velórios frequentes. A mesa diminui nas festas de família nas quais havia um batalhão, a lista de presentes se reduz, afinal muitos amigos não mais estão presentes, tentaram a vida de outros meios que não coincidem mais com o seu. As lembranças permanecem, a saudade, mas neste ponto, o que dói são as cicatrizes, as marcas no espírito de ter que lidar com tudo.

Muito provavelmente o que pode parecer imaturidade na verdade é um cansaço generalizado. Um cansaço das coisas atuais e dos lutos individuais. De ver tanta coisa e ter que lidar com tanta coisa pessoalmente. Tudo gera pensamentos, sentimentos, saudades... A percepção de que a vida está passando atinge como um trator, quando se olha no espelho e vê que as marcas no rosto, os olhos


cansados nem tanto é da idade, podem nem tanto aparecer de forma evidente, mas estão lá como um reflexo da alma já calejada da lida existencial. Cada luto, perda, desistência de sonhos, lutas perdidas fazem o indivíduo passar por ciclos nos quais necessita do aprendizado, na maioria das vezes envolve dor, tristeza, lágrimas, nem sempre se aprender é um processo linear e simples e nesses ciclos, tal como foi citado, o caminho é feito de pedras, que mesmo após o alívio de ter chegado ao destino final, não exime o peregrino de chegar com os pés machucados.

A verdade é que o equilíbrio se tornou algo complicado atualmente. Se por um lado há os saudosistas que desejariam nunca ter saído de seus anos simples de filmes a tarde regados a pipoca e risadas juvenis com amigos de escola, existem aqueles que transformaram o processo inevitável do envelhecimento em uma labuta insuportável. Um é o que se recusa a sair de uma fenda, outro sofre a cada vez que precisa enfrentar uma nova. Talvez o que se deva buscar é o ponto do meio, saber que muito do tempo que se considera como único bom, não mais voltará, mas não significa que os próximos também não o sejam, em suas proporções, ainda que com suas rugosidades sempre pode haver uma pedra que lapidada se transforma em uma bela joia.

E com esse equilíbrio, podemos olhar com mais fé no futuro e enfrentar com mais maturidade os novos ciclos, mesmo que sintamos a nostalgia dos tempos antigos e digamos: Os dias eram assim...

segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Os Legítimos Gente Boa

 

Nas mídias, sejam filmes, séries, desenhos, o mocinho sempre fica em evidência. Todos sabem quem ele é, todos o reconhecem de cara. Normalmente são aqueles personagens que são um poço de virtudes, são tão doces que por vezes você até enjoa por acha-los tão monótonos e enfadonhos. Não á toa que muitos vilões acabam levando as coisas nas costas (assunto para outro post). Contudo os mocinhos tem uma forma bem específica.

Hoje talvez o que se vê é essa forma permanecer a mesma, mas a cobertura desse personagem mudar. Ele é um mocinho, mas aquela virtude imaculada não mais é obrigatória. E assim se tornam mais humanos, um modelo não tão distante e utópico, eles se mostram os legítimos gentes boa de se ver. Ao contrário do que parece, eles não são aqueles bonzinhos que baixam a cabeça pra tudo, que se deixam ser pisados e humilhados sem revidar, com a cega benevolência cristã, pelo contrário, eles sabem o modo e tempo certo de agir, sua astúcia é genuína, não pelo benefício do protagonismo. Eles sabem ser inteligentes e sagazes, porém sem que isso afete sua integridade e honestidade.

Eles sabem dar amor, mas sem abdicar de seu bem estar, não atropelam seu amor próprio em nome de quem quer que seja, mesmo que a pessoa em questão seja muito querida e amada. Sabem impor os devidos limites, o que por vezes causa até estranhamento, uma vez que há tempos se tem a imagem do mocinho como aquela pessoa tão meiga e doce que a mínima aspereza por parte dela torna-se impossível de se imaginar, entretanto até isso vem mudando e os mocinhos não são os bobos que projetavam neles. 


Os mocinhos hoje são aquela personificação humana da bondade. Nem tanto uma bondade divina como vemos nas figuras ditas religiosas/espirituais, naqueles lideres que arrastam multidões com seus ensinamentos, mas uma bondade palpável, que se mescla em muitas outras coisas. Esses gente boa não se afogam em ambição, eles são gentis por natureza, não se deslumbram por posses ou bens materiais, são humildes em sua essência sem parecerem servis, olham as pessoas independente de quem seja com os mesmos olhos. Não se envaidecem mesmo que sua posição/condição possa leva-los a isso. Eles são leais ao que sentem e acreditam, mesmo que o mundo diga que não é assim.

Na mídia eles são identificáveis a olhos vistos. Na série A Imperatriz, a jovem Elizabeth conquistou o coração de Francisco justamente por seu jeito inusitado, por falar a verdade mesmo quando todos queriam esconde-la dele. Por não se curvar a ordens que não queria obedecer, por ser espontânea e não esconder quando algo a desagradava e ao mesmo tempo era gentil com todos, tinha incalculável
humanidade e humildade, fazia questão de se aproximar dos súditos, mesmo dizendo a ela que eram a ralé pobre, tal discriminação a indignava, pois via a todos com humanidade. Tanto que para ela o melhor caminho para que o povo olhasse os nobres com simpatia era justamente que eles descessem de seus pedestais e olhasse o povo como pessoas, falasse com ele considerando-o como tal e se aproximasse com o respeito que era devido, afinal, eram seus súditos e tinham dever para com eles.

Outra pessoa com poder nas mãos e uma posição dita de autoridade que não se deixou levar pela soberba foi a famosa Lady Diana. É impossível não lembrar de sua humanidade, humildade e jeito próprio de ser. Considerando a realeza, há milhares de normas a serem respeitadas, de comportamento a conduta. Di protagonizou cenas icônicas de como ela seguiu seu coração não importando os protocolos, como quando ela participou de uma corrida na escola do filho. Tirou os sapatos e mesmo com saias esvoaçando correu e ganhou, ainda que isso fosse considerado inadequado para uma princesa e contra o manual.

Todavia foi graças a esse jeito rebelde que Di é lembrada até hoje. Pelo jeito irreverente e por ter feito coisas que a realiza nunca tinha feito até então, mas que aos olhos do mundo ficaram marcadas para sempre. Di fez um trabalho excepcional e sem precedentes com crianças africanas. A cena dela carregando uma criança negra entrou para a história, assim como suas ações em prol do continente e
humanidade genuína. Ela se colocava a nível deles, sem roupas chiques, sem jóias, que os constrangesse ou gestos superficiais, aliás não faltam comparações da postura de Di e da atual princesa Camila, a qual demonstra clara aversão a presença e ao toque com os africanos.

Ser um gente boa inclui não se deslumbrar e manter sua essência. Desse modo no pouco ou no muito sua conduta e percepções se mantém. Aninha, de Chocolate com Pimenta enriqueceu ao se casar, mas nunca pensou em bens ou poder, queria apenas um nome para seu filho que nasceria. Ao voltar para a cidade de origem, ainda era a mesma menina humilde que não se importava em abraçar o primo que
acabara de sair da lida e adorava a comida caseira da avó, e mesmo quando perdeu tudo, pouco ligava para a simplicidade das roupas e da casa para a qual voltara, queria mesmo estar ao lado da família e ser útil, o dinheiro e posses não a deslumbraram a ponto de modificar seu jeito de ser, eram apenas uma condição transitória, sua personalidade era pra sempre.

Essas pessoas não fazem diferença entre as outras, olham a todos com o mesmo respeito que tem por si mesmos e sabem reconhecer o valor de cada pessoa. No filme Histórias Cruzadas, Celia Foto era hostilizada pelas outras mulheres da sociedade. Mesmo sendo branca, as outras mulheres a rebaixavam por ela ter sido da favela e morar longe da cidade. Ou seja, por mais que ela fosse bem casada, sempre a viam como ralé. E ficou pior depois que ela se tornou amiga da empregada Minie. Considerando que a cidade era extremamente racista, Celia quebrava esse ciclo de intolerância. Não se importava de comer
junto com Minie na mesa da cozinha, mesmo esta dissesse que não. Celia era amiga e não tinha problema mostrar isso com seu companheirismo e risadas, talvez por ser hostilizada e excluída sabia como era ruim e não fazia isso com outra pessoa, daí se recusava a ser como as outras mulheres da cidade.

Outra pessoa que se recusava a fazer distinção era Luna Lovegood. A doce amiga de Harry Potter era tão doce que todos a achavam esquisita. Dona de um senso e percepção únicos, era a mais gentil de todos. Lógico que ela sabia que a olhavam como uma boba, mas era educada demais para partir para a
briga. Em muitas ocasiões salvou a todos com sua astúcia, ainda que sob um véu de inocência. Ela tratava a todos de forma igualmente educada e polida, incluindo não bruxos. Quando ela chama Dolby de “senhor”, ele imediatamente se encanta com ela, por seu respeito e educação, algo hoje que pode parecer piegas, no fundo era uma forma de mostrar que não dá pra ser gente boa se você não for gentil de forma igual.

Alguém também que demonstrava o cúmulo da gentileza era Sara. A menina protagonista do filme A Princesinha demonstrou que você pode ser gente boa independentemente do meio que vive. Afinal, ela era uma menina rica, criada com luxo e conforto, tinha tudo pra ser arrogante como as outras meninas


de sua classe, mas tratava todos com educação, gentileza, não fazia diferença de cor, para ela não fazia sentido diferenciar alguém por isso. Era estranho a ela a dureza do mundo que queriam lhe impor, sua visão otimista e positiva não a deixava esmorecer mesmo que estivesse em um porão escuro, sentia-se feliz e imaginava coisas incríveis mesmo com pouco.

Ser gente boa é algo bem genuíno, é inegável que nasce conosco e cresce à medida que se envelhece, todavia também pode se aprendido de modo que a pessoa se torne melhor enquanto ser humano, pois no fim das contas, ser gente boa é justamente ser, acima de todas as coisas, mais humano.


sábado, 4 de novembro de 2023

Vai Na Fé - O Luto e a Lição de Dora

 

Muito se falou da novela das sete passada. Embora tenha sido a melhor da safra deste ano, passado por barrigas, contradições de personagens, arcos intermináveis e explorando exaustivamente assuntos até ficarem sem combustível ainda foi a menos pior da safra.

E uma das coisas que mais emocionou os telespectadores foi a morte de Dora, uma importante personagem, mãe das principais. Matar um personagem que não é vilão ou anti-herói foi por muito tempo um tabu entre os autores de novelas. Era quase como um tiro no pé, um risco que muitos não se atreviam a correr em nome de dar ao público algo que ele queria, tanto quanto arriscado deixar um vilão se dar bem.

E tal como na vida real é quase impossível os vilões receberam seu castigo a galope ou do jeito que o público deseja, é meio impossível achar que a morte é algo que não virá, mesmo para os mais queridos, mais legais do mundo, só que claro, as novelas também tem essa função de fazer parecer tudo perfeito. Dora para muitos não merecia morrer. Afinal, ela era doce, meiga, meio hippie, sempre com alto astral mesmo com a filha Lumiar a deixando de lado e sofrendo de uma doença terminal. Uma das frases


marcantes foi quando Lumiar ao tomar pé da real situação de saúde da mãe propôs um tratamento no exterior, que buscassem outras alternativas e Dora, de um jeito muito doce, muito terno e desprendido disse que não desejava nada daquilo, disse que não queria terminar a vida passando pela agonia de um tratamento, com um hospital e pessoas estranhas. A frase que derrubou Lumiar foi dita com um sorriso: “Eu vivi uma vida maravilhosa, vivi bem, por que também não posso ter uma morte boa?”

Estudiosos que disseminam percepções diferentes sobre o assunto e muitas pessoas que a palavra “Morte” e “boa” não podem coexistir na mesma frase, todavia Dora enquanto personagem quebrou uma expectativa que normalmente se vê em novelas/filmes, principalmente os brasileiros: o de que mesmo que não ocorra um milagre ou uma reviravolta de última hora e o desfecho seja de fato a tal morte, não significa que seja ruim.

É preciso entrar em um assunto ainda muito nebuloso para a maioria das pessoas: a questão dos cuidados paliativos. O próprio assunto é novo, apenas na década de 80 é que todas as diretrizes que permeiam ele foram de fato estruturadas. E quando se menciona cuidados paliativos, quase sempre se lembra dos filmes/séries nos quais aparece a família em volta do doente prontas para desligar os aparelhos, ou se despedindo antes de uma injeção fatal. Legalmente, isso caracteriza Eutanásia, o que não é permitido pelas leis brasileiras e é julgada criminalmente como homicídio, sendo punidos todos os envolvidos, tanto família quanto equipe médica.


Cuidados paliativos nada tem a ver com desistir do doente ou negar assistência precisa ou necessária se for o caso. Tem a ver com não fazer investimentos pesados e dolorosos a própria pessoa/família, uma vez que já se chegou a um ponto no qual não haverá reversão do quadro, não importando o que se faça ou para onde a pessoa vá, em outras palavras, o único desfecho iminente é a morte logo qualquer tentativa de resultado que vá contra isso acaba sendo mais doloroso sem que se chegue ao menos perto de uma cura. O que obviamente não significa que se negligenciará os cuidados, amenização de sintomas e se dará o máximo de conforto quanto possível.

Na novela foi visto: Dora tomando bolsas de sangue para corrigir anemias, recebendo oxigênio para falta de ar e outras coisas, os cuidados, a vigilância permanecem, todavia existe a ideia ainda de que os momentos são cada vez mais escassos, próximos de um desfecho inevitável. Não raro se pensar que a família está desistindo, abdicando, todavia estudos mostram que os que compreendem e aceitam os cuidados paliativos, passam por este momento de forma mais suave. É importante mencionar que não é que não haja dor pela partida, não haja luto ou o sentimento pela ausência, a questão é que há um outro modo de sentir toda essa onde de sentimentos, essa transição torna-se mais leve.

A morte sempre vai gerar o sentimento de aversão, de dor, e quando vem acompanhando um quadro de

doença vai haver outro mix de sentimentos, que permeiam desde impotência, até lutar até o fim, revolta... os cuidados paliativos, mostrados de forma tão bonita por Dora mostrou que se pode passar por esse momento de um modo em que a dor tenha um significado menos de fardo e mais ressignificação, que haja de fato alegria até o último instante e o doente possa também ter dignidade ao fazer essa passagem, tanto quanto teve dignidade em vida.

Dora ao cantar suas músicas , ao momento de sua família se despedir em meio a versos, a leveza, suavidade, demonstrou que o amor estava em predomínio, bem mais que dor ou desespero, que Dora permaneceria ali e sua lembrança seria cheia de doçura e paz. Lógico que não é uma ideia fácil de se aceitar, para muitos a morte é um inconveniente doloroso e cruel, ainda que plenamente parte da vida, todavia os cuidados paliativos mostrados por Dora, que envolveu todos nessa energia de retidão demonstrou que é possível por mais doloroso que seja a ruptura, ainda pode ser de uma forma leve e amena, de modo que o começo do luto seja menos traumático.