sexta-feira, 24 de setembro de 2021

A importância de ter um submundo

 

Todos conhecem o submundo. Seja das histórias gregas, seja dos filmes, todos sabem o que ele é e o que simboliza. O submundo, também conhecido como mundo inferior era o domínio do deus da morte Hades. Normalmente era descrito como sendo além dos oceanos e do limite da terra, ou seja, é um local onde nenhum mortal já esteve em vida.

Descrevem como sendo guardado por um cão gigante de três cabeças chamado Cérbero, descrevem a existência de um barqueiro que leva as almas até seu destino chamado Caronte e no meio disso tudo, há Hades, que julga a todos e dá seus destinos. O submundo é sempre visto como um local que ninguém quer estar, um local reservado,


mesmo suas cores são cinzentas e escuras. E um lugar que não é propriamente o melhor e mais desejado destino para alguém. Só que o que não sabem é que todos tem seu próprio submundo.

Um psicólogo certa vez disse que se você dá 100% de si ao mundo nada sobra para você, depois de um tempo torna-se bem reflexiva essa frase e começam as cogitações da amplitude dela.  Desde cedo somos ensinados a dividir, ensinados a partilhar com o mundo. Crianças muito quietas são mal vistas, adolescentes tímidos são tidos como esquisitos, e isso gera críticas que se estendem desde a escola, universidade, nas festas da família, os quietos costumam ser vistos


como chatos, como os que não gostam de se divertir, estranhos e antissociais. Inclusive essa impressão pode ser tão profunda que mesmo quando a pessoa tenta interagir, simplesmente nenhuma porta é aberta a ela pois já se tem a ideia pré-concebida de que ela é alguém que não vale a pena interagir ou se relacionar. E com isso o indivíduo se fecha cada vez mais mesmo que isso signifique se afastar do mundo.

Todavia muitas vezes não é uma questão de pura e simples timidez ou introspecção, é que essas pessoas frequentam seu submundo mais vezes do que os outros. Tal como eu descrevi no complexo de Hades, você reconhecer seu submundo significa ter aquele local que é seu refúgio, não há nada de errado em ter um lugar seu em um aspecto mais individual. Todos temos um submundo dentro de nós mesmos,


não é algo ruim, pelo contrário, é necessário e pertinente, pois esse submundo permite que as pessoas preservem aquela porcentagem de individualidade, o espaço que você tem liberdade pra se ver, se enxergar, perceber quem realmente é independente do que o mundo diga.

Nem todos estão preparados pra ouvir, porém quem se recusa a visitar o próprio submundo terá sérias dificuldades de se perceber enquanto pessoa, perceber seus desejos, seus verdadeiros sonhos, ambições, afinal, quem melhor pra perceber isso do que você mesmo, com quem passa 24h por dia? Mas muitos sempre estão tão imersos se voltando apenas para o mundo exterior que não conseguem ter esse autoconhecimento e tão pouco, posteriormente, um auto cuidado consigo mesmo. Como posso saber o que sinto se todos os meus 100% estão voltados para o que os outros sentem? Como posso perceber o que de fato sonho se a preocupação é sempre os sonhos alheios? Como potencializar minha auto estima se apenas me preocupo com o que os outros estão pensando ou vão pensar a meu respeito? Como me conhecer se me recuso a visitar o submundo que nasceu comigo e morrerá comigo?

Muitos dos trabalhos em terapias ou conselhos é justamente esse: você desbloquear seu submundo e perceber como ele é, é como se olhar no espelho sem filtros, perceber como você mesmo se enxerga enquanto indivíduo, é o percentual de ser individual, que é unicamente seu e assume variadas formas de acordo com o que você valoriza na sua vida, com o que gosta. Pode ser cinza como o submundo de Hades, mas pode ser colorido se você for alguém que


sempre deseja estar cercado de flores. Você pode não gostar de cachorros, então quem guarda seu submundo pode ser um gato de três cabeças com o nome de Mili, Tili e Fili, escolha sua. Pode ser silencioso, ou barulhento. Pode ter água ou ser uma floresta sem fim. É o SEU lugar, o único no qual você tem total domínio pra fazer o que quer do jeito que quer. Muitos chamam de imaginação, eu diria que no seu submundo, ela está mais presente porque lá, você dá vazão aos seus pensamentos mais internos, que não necessariamente precisa dividir com o mundo.

Muitos confundem ter um submundo com ser egoísta ou 100% individual. Não é algo impossível de ocorrer, embora neste caso seja de fato nocivo para si e para os outros. Seu submundo é o percentual que corresponde a sua individualidade, a uma parte de você que é mais interna, que lhe permite pensar em você e no que lhe é bom/faz bem, estimulado de forma saudável, permite um auto-conhecimento, auto estima e percepção claros que permitem que você não se submeta a situações que não lhe agradam ou até mesmo relações


abusivas. Uma vez que você conhece bem seu submundo, ele lhe chama quando está vivendo algo para o qual quer dizer não e lhe faz perceber as coisas de forma mais concisa. Esse percentual que ele representa lhe ajuda a pensar em si quando mesmo quando o mundo está dificultando. Pessoas que saem de situações degradantes, abusivas, param de insistir em algo que as faz sofrer em muitos casos é porque encontraram de volta o caminho para seu submundo.

O problema é quando alguém estende esse submundo para além do espaço que ele deve possuir no limite do saudável. Pessoas de fato egoístas e extremamente individuais, cujo submundo ocupa absolutamente todos os espaços, não sobra nada para outras relações das quais nós seres humanos também precisamos. Isso sem contar a grande dificuldade da pessoa de sair desse estado, há um real entrave para que ela ceda espaços dentro de si, ceda em nome do outro, tenha até mesmo sentimentos de compreensão, interação e generosidade.

Muitas vezes ela opta por isso, o faz de forma consciente, em outras é um ponto de seu ser que precisa ser trabalho, pois por mais importante que seja seu submundo, você precisa ter aquele percentual que corresponde ao resto do mundo, que lhe permite interagir sem abdicar da parte que fica ao fundo do seu ser. Ser


alguém egoísta com 100% do seu submundo tomando conta acaba abrindo brechas para outras situações, que prejudicam e muito a vida e condução de relações. É como as meninas treinadas para serem Viúvas Negras, durante os anos em que ficavam na Sala Vermelha, assistiam desenhos com teor que suprimia todas as suas emoções, de modo que os sentimentos de empatia, generosidade, cordialidade e interação ficavam inexistentes, o submundo tomava conta e elas ficavam individuais e mais suscetíveis a apenas cumprir ordens.

Ter um submundo é inerente ao ser humano. É algo que na medida certa torna sua relação saudável consigo mesmo e com os outros, conhecer a si é uma das formas mais seguras de poder perceber o mundo a sua volta, e com isso atrair pessoas que também vão se interessar em conhecer você e admirar você do jeito que é. E ainda assim, você vai se sentir a vontade para interagir com elas e voltar pro seu submundo de vez em quando se preciso for. E não haverá problema nenhum nisso...