sábado, 16 de abril de 2022

Resenha Anime Geek Day 2022

 


"Depois de tanto tempo circulando por aí, voltamos ao nosso lugar..."

Nós tivemos um tempo bem difícil em todos os termos. Isolamento não apenas social, mas afetivo, percepções, distanciamentos, talvez algumas empolgações que tenham amenizado, desânimo com tudo que está ocorrendo no mundo, após tudo isso eis que finalmente as coisas começaram a voltar a normalidade e com isso os eventos também acabaram voltando e nós com eles.

Não posso negar que depois de mais de dois anos achei que tinha perdido a manha, mas foi só começar a mexer com cosplay novamente, pôr a mão em EVA, cola quente e tinta que voltou o acender da velha chama. 

A pandemia tirou muita coisa de todo mundo, nos privou de muito e o isolamento trouxe percepções que dificilmente serão apagadas do nosso ser. Mesmo que tenhamos ficado todo esse tempo afastados, algumas coisas acabaram permanecendo, os hobbyes e vontade de confraternizar com os amigos que partilhavam o mesmo interesse foi um exemplo. Ali, latente, misturado com dúvidas de como continuar exercendo a arte, eis que depois do tempo isolado, finalmente o Anime Geek Day foi divulgado e em peso todos buscaram seu lugar.

Muitos de início meio que ficaram desanimados por ser apenas um dia de evento, embora isso fosse melhor do que nenhum. As pessoas estavam sedentas por ele. Não a toa que um lote foi distribuído para os pontos de revenda e esgotaram praticamente no mesmo dia, chegou a ser assustador ouvir que não haveria um segundo lote e que os ingressos teriam que ser comprados na hora, no dia do evento. O


primeiro pensamento foi que tudo bem, afinal, isso é comum e não haveria grandes problemas, todavia mesmo com a experiência de alguns anos de evento houve subestimação do quanto as pessoas estavam envolvidas.

Lógico que no dia não é apenas pegar o transporte e ir. A distância nem era tanto o problema, mas o quantitativo de gente que ali estava. Os portões abriram ás 11h, houve quem dissesse que devíamos chegar ás 9h, eu achei exagero, afinal, para um dia de domingo seria algo como acordar, tomar café e ir. E sabe-se que quando se é cosplayer, sempre na noite anterior ainda se está ajustando detalhes do cosplay e na manhã do evento está se arrumando mochilas. Ainda assim consegui chegar relativamente cedo, cerca de meia hora depois que os portões se abriram e fiquei assustada com o tamanho da fila para comprar ingresso. Estava tão grande que dava voltas e voltas e mal se conseguia ver o fim dela. Se um dia houve medo ou receio por aglomerações, ali ele estava totalmente inexistente.

Passada a fila, lógico respeitando todos os protocolos com relação a apresentação do cartão de vacinação e identidade, consegui entrar. Mesmo para um dia, haviam muitas atrações e uma delas era a dubladora Miriam Fisher, responsável por personagens como Bellatrix, Niele de Holy Avenger, uma das


melhores do país e com grande peso curricular. Cheguei a pensar em ir de Niele, todavia por uma questão de decoro e por ser o primeiro evento depois de tanto tempo, optei por algo mais confortável. Mesmo com uma espada e um escudo, tratei de ir logo para a fila de senhas para o meet com Miriam. Era uma emoção diferente depois de tanto tempo sem me encontrar com meus ídolos dubladores. A sala cosplay e o estúdio fotográfico não deixaram nada a desejar em termos de espaço e conforto, o Anime Geek evoluiu bastante no quesito diversidade das salas e boa estrutura delas.

Conseguida a pulseira do meet, fui circular de cosplay. Embora o meu não fosse muito conhecido, valeu muito a pena. O tempo a essa altura já estava adiantado e procurei algo para comer e nesse momento vi que um dos principais pontos baixos que outras pessoas também perceberam foi com relação às barracas de comida. Muito provavelmente esperavam poucas pessoas e no fim como o número foi 5 vezes maior, os próprios vendedores de comida precisaram repor seus estoques várias vezes durante o evento gerando filas, espera e fome nos presentes. A fila para comprar ingresso ainda estava longa a ponto de em determinado momento ninguém mais ser permitido entrar, apenas sair do evento.

Embora muito do tempo que permaneci tenha sido gasto com filas, não podendo assistir ou visitar outras salas e atrações que estavam incríveis, a apresentação e meet com Miriam valeu cada segundo. Lógico que não deixei de entregar um presentinho a ela como amostra da grande honra que estava tendo ao conhece-la em pessoa, mais um maravilhosos trabalho do ESoda Canecas. E lógico que toda a equipe de staffs e apresentadores se mostraram muito solícitos aos fãs que quiseram bater fotos no palco, mostrar seus cosplays referentes aos personagens dela e a deixaram a vontade assim como o público.

Creio que esta edição foi uma pequena amostra do que podemos esperar nos próximos eventos no resto do ano, ainda estamos um pouco marcados pelo isolamento, ainda nos organizando, mas com certeza tendo grandes planos para o futuro.
















quarta-feira, 6 de abril de 2022

A Apatia e Nós

 


“Onde estão o cavalo e o cavaleiro? Onde está a corneta que estava tocando? Passaram como chuva nas montanhas, como vento nos prados. Os dias sumiram no Oeste atrás das montanhas para as sombras. Como isso foi acontecer?”

Talvez o sentimento do Rei Théoden antes da fatídica Batalha do Abismo de Helm, onde por mais armados e preparados que os cavaleiros fossem, estavam sem esperança de vitória ou êxito, defina exatamente o que o mundo de modo geral está passando atualmente. O nosso mundo, a sociedade de modo geral está enveredando por condutas que tem deixado mesmo os mais céticos de cabelo em pé, não apenas pela intensidade, mas pelo desligamento de coisas que justamente nos fazem parecer mais humanos.

No início da pandemia do COVID quando todos ainda estavam temerosos, meio sem saber o que fazer, como agir, houve um boom de emoções e ideias quando as medidas para contenção começaram a ser tomadas. O isolamento definitivamente foi a pior delas. E ali vimos os revoltados liberarem o pior de si, os mais medrosos serem tomados pelos seus bichos papões e a sensação de impotência, tristeza e pesar se assolar sobre um mundo que passou a se conectar quase que exclusivamente de modo virtual na maioria de seus habitantes.

O ser humano ainda é um ser social. Não mais precisam depender de outro para a sobrevivência, mas ainda se precisa minimamente do contato uns com os outros. O isolamento tirou isso das pessoas. De muitos ainda mais, considerando que nem todos possuíam uma rede familiar presente e companhia. O isolamento não foi apenas com relação a domicílios, mas com relação a toda uma questão social que envolveu estudos, lazer, trabalho e expectativas. Fora a questão da saúde que assustou o mundo, houve quem perdesse seus sonhos, seus momentos, suas vitórias. E indiscutivelmente isso causa efeitos tão nocivos quanto uma doença.

Aliás, as doenças mentais se potencializaram no período mais crítico do isolamento. Elas foram o reflexo de tantos sentimentos dúbios e contraditórios, o medo de algo desconhecido e ao mesmo tempo a revolta por não poder ir contra. Foram noticiados inúmeros casos de depressão e síndrome do pânico, brigas de famílias, cansaços... Afinal, quando se fica em casa tanto tempo ao lado das pessoas, pode acontecer de repente arestas que antes eram ignoradas começarem a aparecer de forma mais efetiva, certas conversas a tanto adiadas sob o manto das ocupações diárias não mais tinham desculpas ou fugas. As pessoas além de terem que lidar com os próprios medos, precisaram lidar umas com as outras, o que de certa forma é muito mais difícil do que parece.

E aí a pandemia passou. Veio um vislumbre de esperança quando as coisas começaram a voltar a normalidade. As casas e estabelecimentos abertos, as ruas aos poucos ficando cheias novamente, todavia talvez tenha sido apenas isso: um vislumbre. Um raio de luz proveniente de uma estrela que passou muito rápido e que mal deu tempo de apreciar seu brilho por mais. Foi um alívio ver a pandemia aos poucos ir embora, todavia veio a guerra no leste Europeu.


Guerras sempre trazem uma apreensão. As mundiais na história foram avançando lentamente, levaram tempo para atingir seu auge e também tempo para terminar. Contudo, os tempos eram diferentes, as tecnologias outras. O que não é o caso atualmente. Mal a guerra estourou, os repórteres já noticiaram para o mundo inteiro como os civis estavam fugindo, como as estradas ficaram abarrotadas e a todo momento a imprensa chagava ao território. Os preços e produtos usados mundialmente também dispararam, tornando um cenário que ainda estava se recuperando das consequências de a pandemia sofrer mais uma baixa.

Doença, guerra, problemas, morte... Tantas coisas negativas jogaram sobre o mundo uma espécie de véu da apatia. Apatia é definida como estado não suscetível de interesse ou comoção, uma certa ausência de sensibilidade ou emoção. Não que os sentimentos se tornem maus ou não mais haja capacidade de sentir pelo outro, mas é uma ausência desses sentimentos. É como se muitos houvessem se tornado ocos, um interior no qual a terra ficou estéril após tantas tempestades.

O mundo ficou tão interligado em apatia nos últimos anos que dias antes festivos passaram pelas pessoas sem causar a comoção capaz de tirá-las do estado inerte. Vimos tantas datas comemorativas virem e irem sem que houvesse a alegria de outrora, era como se o de repente as pessoas passassem a viver de lembranças. Memórias de um tempo no qual tudo era mais leve, não havia cuidados excessivos nem o temor de que o chão de repente faltasse debaixo dos nossos pés.

Como chegamos nesse ponto? Como ficamos tão cansados de modo que não conseguimos nos tocar com as coisas mais simples? A apatia e o cansaço são portas perigosas. Ainda que faça certas coisas se ausentarem dos corações dos homens, escondem um perigo que se infiltra e pouco a pouco insufla uma chama que pode queimar multidões. Foi percebido que a falta de sensibilidade deixou todos a mercê de quem soube se aproveitar disso. Vimos durante a pandemia e mesmo durante a guerra pessoas com ideias absurdas ganharem notoriedade e se destacarem com ideias torpes.

É algo lógico de entender até. Pessoas cansadas abrem a porta da apatia, a apatia libera falta de energia para pensar e até mesmo reagir contra absurdos, logo foi um terreno fértil para os mais espertos


querendo notoriedade se criassem e brotassem. Foi notório o boom de pessoas que instruíam as outras nos mais diversos assuntos, alguns de fato traziam benefício, uma vez que auxiliavam na questão da saúde e também de clarear a mente, outros, no entanto se fizeram com informações falsas, difamatórias, humilhando grupos específicos ou disseminando/incentivando condutas torpes e ganhando legião de fãs com isso.

Sempre existe perigo quando a apatia se instala seja em uma pessoa seja coletivamente. Pode parecer inofensiva de início, mas ela é capaz de apagar a mais bela das luzes interiores. Mesmo que no nosso mundo hoje se tenha instalado certa apatia, certo cansaço devido a situação geral, não esqueçamos que sempre podemos ver uma pequena luz nos locais mais escuros e uma esperança brilhando pronta para ser achada em cada um. Afinal, mesmo que Rei Théoden estivesse apático e quase sem forças antes da batalha do Abismo de Helm, ele pôde contar com seus fiéis homens e juntos conseguiram encontrar a força necessária para vencer mais uma batalha.