terça-feira, 31 de agosto de 2021

Mantenha seus sonhos fora da gaveta

"Ele fez grandes sacrifícios pela sua família e abriu mão de muitos sonhos. Ele botou numa gaveta. Ás vezes, tarde da noite, nos tiramos eles de lá para admirá-los e fica cada vez mais difícil para ele fechar a gaveta, mas ele fecha. Por isso é um bravo"

Essa cena do filme do Peter Pan nos faz ter sérias reflexões. Quando a Sra. Darling fala do pai das crianças e do porquê mesmo ele é uma pessoa corajosa, mesmo não parecendo. Claro, considerando a história, na qual o Sr. Darling se sacrifica no banco como caixa para sustentar a casa e três crianças, abdicando de si mesmo, de fato existe coragem ali. Todavia algumas coisas devem ser consideradas.

Essa expressão "colocar os sonhos numa gaveta" mesmo não sendo popular começou a fazer todo sentido depois de um tempo. Afinal, durante a vida todos tem sonhos e sempre é uma vontade poder realizá-los, embora por vezes acabamos como Sr. Darling: colocando-os numa gaveta em prol de outras coisas que vão surgindo, que podem ou não estar submetidas a nossa vontade.

E o que é colocar os sonhos  numa gaveta? Todos nós sabemos pra que gavetas servem. Elas estão presentes em cômodas, em armários, em penteadeiras e guarda roupas. Muitos gostam de muitas gavetas visando guardar o enorme volume de coisas que tem, outros tem poucas já que tem pouco pra guardar. Quando se trata de sonhos dentro de uma gaveta, significa que você meio como que os guardou lá, porque não vai usar eles no momento, porque vai deixar pra depois ou porque está com outras coisas mais urgentes no momento. Todavia, diferente de objetos inanimados, os sonhos começam a fazer um volume de uma nuance que chama mais atenção, eles tomam uma forma que pode até emitir um som que chama você a um enfrentamento.

Colocar os sonhos numa gaveta sempre é arriscado e perigoso. Claro, muitos são obrigados a isso, por terem outros deveres ou até mesmo como Sr. Darling em prol de uma família ou algo maior. Isso não é algo ruim, é nobre. Todavia é preciso sempre verificar se colocar os sonhos trancados é de fato uma escolha feita do fundo do coração, algo sem dúvidas naquele momento e do qual não haverá arrependimentos. Se assim for, tudo bem, você abdicou dos sonhos em nome de algo maior e que lhe dará maiores alegrias do que poderia ter se persistisse neles. Entretanto, é sempre bom lembrar que por mais que tenha havido uma abdicação momentânea, não significa que não se possa correr atrás de seus sonhos em outro momento, ainda que seja para realizá-los de outra forma e com uma nova emoção.

Um filme chamado Robôs mostra um pouco disso. Rodney era um robô cheio de ideias que tinha um sonho de ser inventor, mesmo com todas as circunstâncias sendo contra, o que incluía cidade pequena e limitada, origem humilde de sua família, o pai era um lavador de pratos e muitos acreditavam que Rodney era louco por querer mais do que seu pai conseguiu ser. Todavia quando  ele finalmente decidiu ir para a cidade grande atrás de seu sonho, seu pai por mais que tenha se mostrado sempre humilde e resignado com seu trabalho e os abusos de seu chefe (Tudo em nome da família tal como Sr. Darling) deu todo seu apoio. E aí veio a história. O pai queria ser músico e tocava muito bem, mas a vida prática e o chamado "ganhar a vida" se fez presente de um modo cruel e ele foi escalado para ser um lavador de pratos, embora não reclamasse nem estivesse lamentando pelo rumo que sua vida tomou, ele menciona que se pudesse voltar no tempo iria atrás de seu sonho. E com isso incentivou seu filho a não desistir, porque um sonho pelo qual não se lutava poderia assombrá-lo pelo resto da vida.

Sei que parece um discurso clichê. Muitos não hesitem em chamar até mesmo de infantil, é como se correr atrás de algo que se quer, mesmo que difícil ou que pareça complicado, fosse uma fantasia, suprimida pela praticidade cruel do mundo, que fatalmente vai ser esquecida ou deixada pra lá. Todavia, coisas grandes foram feitas e conseguidas por pessoas que acreditaram em "sonhos", o próprio Walt Disney, ainda que quase falido disse que preferia o impossível porque a concorrência era menor lá. Ir atrás de sonhos não é fácil, é duro, muitas vezes doloroso, exige que se abdique de muita coisa em muitos momentos ao longo do caminho, difícil para muitos nessa persistência ver o quanto está abdicando e ainda ter que tolerar risadas, deboches e pessoas tentando parecer superiores em suas posições, mas o truque é não esmorecer. 

Todos temos gavetas em casa como já foi dito, mas existe sempre uma gaveta em especial, que pode ser a de uma penteadeira, um móvel, o que for, que é a dita gaveta da bagunça. Ali guardamos as coisas que talvez não se encaixem no padrão das outras gavetas. Coisas aleatórias, contas pagas, canetas, papéis, cartões de presentes, pilhas... coisas pequenas ou grandes mas que jogamos lá. Ela permanece sempre inofensiva, todavia conforme o tempo vai passando, aquela gaveta começa a incomodar de alguma forma. Você olha para ela e ela olha para você e de algum jeito você a evita, embora a sensação de que ela chama permaneça. O motivo para isso é simples: ela tem coisas demais dentro. Pode até não ter coisas em grande volume, mas tem coisas que precisam ser organizadas. Você evita abrir a gaveta porque sabe que ao fazê-lo, precisará arrumá-la e ao tirar e vislumbrar tudo que há nela, vai se deparar com uma decisão e ser obrigado a escolher: ou joga fora tudo que tem na gaveta ou organiza ela de forma que as coisas dentro permaneçam ainda úteis, válidas e arrumadas.

Nossa gaveta onde guardamos os sonhos é assim. Se você os guarda por muito tempo, eles se bagunçam e embora sempre estejam ali, vão uma hora forçar você a concretizá-los ou abrir mão deles para sempre, se desprendendo do compromisso de realizá-los como um dia foi de sua vontade. Eles podem envelhecer e acabar se perdendo, tal como uma pilha que fica muito tempo dentro de uma gaveta e vaza, tornando-se inútil. Nesse caso, talvez não haja mais tanta questão de realizar, seja da forma como se planejou anteriormente seja de uma forma improvisada. Mas fato é que manter os sonhos numa gaveta por muito tempo gera um sentimento de urgência, uma necessidade de se arrumar uma bagunça em nosso interior e resolver essas questões, e o modo como o fazemos determina se no futuro haverá arrependimentos ou tranquilidade.

A premissa é sempre manter os sonhos fora da gaveta, ou se for pra manter eles dentro, que seja por um tempo determinado, mas que se possa tirar eles o mais rápido possível conforme suas possibilidades. E se for pra colocar mais sonhos dentro, coloque mas tente sempre tirar outros, pra que essa gaveta não se entulhe e seu conteúdo se perca no interior de seu ser. Afinal, ninguém quer ser assombrado por uma gaveta que chama seu nome toda vez que se passa por ela....

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Lições e aspectos das Olimpíadas 2020

 

As Olimpíadas acabaram mas creio que trouxe algumas lições bem pertinentes a todos nós. Começa que o fato de ter sido na terra do sol nascente, o qual traz uma história cheia de conotação referente a superação de dificuldades já dá um sopro de esperança para o mundo, levando em consideração todo o horror, dificuldade e tempos difíceis que vivemos nos últimos quase dois anos. O Japão foi sede das Olimpíadas na década de 70, o evento trouxe naquela época toda a carga conotativa da reconstrução de um país que ficou devastado, destruído, arrasado pela guerra em múltiplos aspectos. Esse ano, considerando a pandemia, talvez o significado se mantenha: a reconstrução de um mundo devastado e fragilizado pelo Corona Vírus.

Além deste início cheio de significados, com o passar dos dias outras coisas foram emergindo. Começa que algumas categorias esportivas novas com atletas talentosos competindo, traz uma nova luz aos simpatizantes que podem ter uma expectativa de futuras competições desse cunho mundial. Skate, surf, escalada esportiva, muitos que


treinaram nessas modalidades e tiveram destaque nelas puderam sentir seu momento nessas Olimpíadas. Não só por mostrar habilidades, mas também por dar visibilidade nos referidos esportes. No caso do Brasil, a fadinha do skate Rayssa, sendo tão novinha e fazendo algo tão incrível, que vai repercutir de forma tão grandiosa para o país fez história com sua medalha de prata. No surf, a medalha de ouro com ítalo Ferreira, que na sua comemoração emocionou a todos, com caricaturas dele imitando Poseidon também foi algo que será lembrado nessas Olimpíadas.

Ao contrário das modalidades novas, as modalidades mais tradicionais surpreenderam, algumas negativamente, outras de forma extremamente positiva. Os grandes nomes da ginástica, seja feminina seja masculina emocionaram por um lado e chocaram por outro. Algumas das promessas como Nori, Zanetti suaram a camisa em suas apresentações. Nori caiu, o que fez com que ficasse longe do pódio. Ao contrário de apoio em massa, houve uma repercussão


de torcida contra, pois ele protagonizou uma situação de racismo com seu colega de equipe. E como nada fica sem uma resposta, especialmente em tempos de internet, um colega da mesma equipe em defesa de Nori, expôs que o rapaz vítima de racismo era algoz em muitas outras situações, fora os sérios desvios de conduta e responsabilidade com relação aos treinos.

Algo que nas redes sociais foi um escândalo que rendeu dias. Fora que relacionado a isso, o próprio Nori se mostrou arrependido com relação ao episódio, mas mencionou o quanto as críticas e culpa desencadearam fortes danos ao seu psicológico, havendo episódios de depressão que afetaram seu desempenho. Além de Nori, uma super estrela que ganhou destaque nas últimas competições, Simone Biles chocou a todos quando no meio da prova desistiu de competir.

Segundo Biles, haviam “monstros” em sua cabeça que estavam afetando sua saúde mental. E com isso, não conseguiu atingir seu desempenho na totalidade. Ela com essa atitude, mostrou que atletas não são robôs, por mais que a capacidade física deles seja incrível,


muito superior à de comuns de academia, o corpo e mente precisam estar na mesma sintonia em termos de saúde. Lógico que por mais que nos tempos atuais com as discussões sobre depressão e mente, houve quem condenou sumariamente, motivados pelos pensamentos de que houve investimento pesado em Biles assim como em outros atletas.

Por falar em investimento, esse foi um ponto polêmico nestas Olimpíadas. Com direito a figuras, textões e polêmicas, muito foi dito sobre como algumas nações investem pesado em seus atletas, dando-lhes condições de local de treino, salário, possibilidades para que eles possam ter uma dedicação exclusiva ao físico, por isso, muitos acharam Biles uma fracassada depois de tanto investimento de treino e financeiro ter desistido. Todavia, considerando o quanto falaram das meninas do futebol, se Biles, com toda a vulnerabilidade ainda que com investimento tivesse falhado, seria taxada de fracassada da mesma forma.

Pois bem, muitos falaram que a seleção feminina de futebol só sabe reclamar da falta de investimento e não se esforça. Mas fato é que não há de fato muito investimento, o quanto o desempenho das jogadoras foi bom ou mau, não anula o fato de que futebol feminino não é o forte quando se trata de investimento esportivo aqui no nosso país. Querendo ou não vivemos em um mundo capitalista, e mesmo no esporte, que deve ser sempre leve e alegre, não haverá investimento seja em estrutura ou pessoa, se não houver a mínima


possibilidade de lucro. Afinal, ainda com toda a vibração, são só negócios e mesmo o melhor jogador do mundo que faz desde comerciais de shampoo a estampar produtos esportivos oficiais se der o mínimo prejuízo será descartado sem segundas opiniões. Imagina um esporte que mesmo com um público fiel, não cobriria em termos financeiros investimentos feitos?

Vários atletas de outros países em situação vulnerável conseguiram medalhas, o treino pesado, alguma vantagem genética pode ter ajudado, todavia, é inegável que uma força de vontade pode levar você longe, mas um suporte adequado pode fazer você que já tem essa força de vontade latente alcançar as estrelas. Caso não tenha, como ocorre com muitos em nosso país, o caminho fica mais longo, todavia chega a ser uma pena pensar em tantos que podem estar se desperdiçando porque ainda não foram vistos pelos olhos certos. Inclusive, está rolando um vídeo mostrando meninos de um bairro de periferia de Belém, PA, com as incríveis acrobacias que fazem e que não devem nada em termo de beleza e técnica para os mais treinados.

Mas nem tudo são sombras, houve surpresas positivas e lições valiosas. Rebeca Andrade, ginasta conseguiu duas medalhas para o país. Se muitos chamaram Biles de fracassada, estes mesmos devem ovacionar Rebeca de joelhos. Ela mesmo tão nova, passou pela questão da vulnerabilidade financeira, precisou ficar longe da família


desde pequena pra poder alcançar o lugar que está hoje, afinal, quantos pais deixariam a filha de nove anos ir morar em outra cidade com o treinador para poder se aprimorar? Fora a questão física, pra uma moça tão nova, três cirurgias de joelho é algo impressionante. E eis que com graça e habilidade, ela ao ritmo de uma música considerada obscena que deixaria os tradicionais conservadores de cabelo em pé, trouxe a prata. Depois, com maestria e humildade, o ouro nos aparelhos. 

Lembra o que foi falado dos investimentos? Pois bem, para muitos atletas esse investimento começa em casa com o apoio da família e treinador, os ditos grandões só vão investir se houver ou uma grande (excepcional) chance de retorno ou se a pessoa despontar, sendo que muitos desses são os mesmos que podem ter negado ajuda lá atrás quando a pessoa era só um brotinho. Quando ela vira uma árvore


frondosa, há muitos querendo se valer de seus frutos. Rayssa, a fadinha, se recusou a tirar foto com os políticos assim que voltou, pois, seu pai no início de tudo chegou a pedir várias vezes ajuda e incentivo para a filha, sendo sumariamente recusado. Então vale a premissa: Se você não está com alguém quando está por baixo, não deixem que comemorem quando se está no alto.

Estas Olimpíadas mostraram outras faces dos atletas também.


Tivemos comemorações excêntricas, desde referências de animes como Dragon Ball Z e One Piece, apresentações com tema e vestimenta ligados a Sailor Moon, a declarações literais sobre como isso foi importante na vida dos atletas. Tivemos um atleta do salto mostrando que tinha maestria com agulhas de tricô ao fazer uma capa para sua medalha e um suéter personalizado e que isso não o tornava de forma nenhuma menos masculino como podem pensar nem menos habilidoso em seu esporte.

Em suma, vimos muito que vai ficar nesta edição. O momento do mundo em si nos fez pensar sumariamente em tudo, as surpresas que os atletas nos proporcionaram também, que possamos levar essa energia de esperança e novamente de interação com as pessoas para a próxima edição e que essa sensação permaneça viva, dando-nos o sentimento de que tudo será ainda melhor. Pois se esta foi tida como uma das Olimpíadas mais igualitárias e inclusivas, ainda que nesse caos que vivemos, talvez possamos esperar coisas extraordinárias nas próximas.