sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

Treze Representações da Morte

 

“Tem sempre um que acha que vai poder me derrotar, mas ninguém nunca escapou de mim”. Talvez se há uma frase que melhor personifica a morte, é essa. De forma muito curiosa, o ser humano de todos na natureza é o único que sabe que vai morrer, todavia faz de cada um de seus dias uma luta eterna pela sobrevivência e vivência. Eterna contra a dor, contra o esquecimento, contra o próprio fim, existe um temos com relação a esse fim, do desconhecido após ele, de como será a existência.

O temor por vezes é tanto que não somente “morte” causa aversão, mas falar nela, mencionar elementos relacionados a ela, muitos tem essa aversão tão latente que não conseguem disfarçar o desconforto, sequer tem condições de se imaginar enfrentando a morte frente a frente, seria surpreendente de se ver o quanto muitas pessoas nem vão a velórios de parentes pra não ver, isso influencia nos lutos, todavia a questão de evitar é real e palpável.

Há também a questão de que a palavra morte e tudo em torno dela sempre remeterá a algo assustador e terrível, sempre será relacionada a essa iminência, pavorosa, fazendo com que todos entrem em pânico. Os filmes de terror exploram muito mais o medo da morte causado pelos vilões do que os vilões em si, afinal, Chucky seria um bonequinho facilmente dominado se ele não causasse tanto pânico com uma faca para matar.

Contudo ainda existem outras formas nas quais a morte é representada nas mídias, nem tanto assustadoras, mas sempre com uma presença densa e plenamente reconhecível. Então eis alguns exemplos de figuras de morte, cuja presença já antecipava o que estava por vir.

1.     1. Lobo – Gato de Botas 2

Talvez uma das personificações mais interessantes da morte e que conseguiu cativar até as crianças sem assustá-las. Quando Gato chega em sua última vida, a morte vai busca-lo de forma bem enfática, dizendo que o segue a muito tempo. E literalmente o faz forçando-o a lutar pela sua vida. O Lobo conseguiu ao mesmo tempo alcançar crianças e adultos, percebendo o quanto a morte pode ser assustadora e presencial, e com suas palavras demonstrou o quanto devemos valorizar nossa vida antes do frívolo final e não viver uma vida com medo.

2.      2. Anúbis – Mitologia Egípcia

Nas mitologias de diversos povos, lógico que há a figura que representa esse tão sombrio momento do fim da vida. Para os egípcios, essa figura é Anúbis, um ser com corpo de homem e cabeça de chacal, o qual se dizia protetor dos mortos e de suas tumbas., lembremos que os egípcios eram mumificados. Dizia-se que Anúbis era quem guiava a alma dos mortos e fazia seu julgamento. No referido julgamento, o coração do indivíduo era colocado em uma balança e devia ser mais leve que uma pena, somente assim ele teria acesso aos pós vida, o paraíso por assim dizer e quem estava presente para guia-lo até lá era Anúbis.

3.      3. O Vidente – Vikings

Embora não fosse um deus, fosse um homem como qualquer outro, o vidente era tido como uma espécie de sacerdote na aldeia de Lagertha e Ragnar. Todos se consultavam com ele para saber de seu futuro, principalmente quando morreriam, e não era surpresa que muitos dos que fizeram tal pergunta receberam respostas enigmáticas, como se fossem charadas ou que não faziam muito sentido a princípio, todavia quando o momento estava se aproximando, muitos tiveram a visão do vidente e lembraram de suas palavras antes de acontecer, como foi com Lagertha. Foi dito que ela seria morta por um filho de Ragnar e em uma noite chuvosa ela, ferida, indo até Kategat tem a visão entre os raios do vidente meio que encarando-a, ali ela sentiu que algo estava próximo e quando estava perecendo lembrou das palavras e disse que era seu destino e não poderia fugir dele.

4.     4. A Morte – Sandman

Ao que parece nesta série, se quis fazer a Morte ser uma personagem boa e gentil. Ela decidiu que no fim as pessoas querem um conforto, um amigo esse momento de tanta finitude e definição, então ela tentou ser assim. Afinal, o próprio momento já é algo que assusta por si só, logo quem vem buscar você não precisa também já contribuir para o pânico, o que não impede de que o indivíduo assim que a reconhece, pedir mais uns minutos para fazer algo de última hora e ela com voz calma dizer que precisam ir.

5.     5. Hades – Mitologia Grega

Ele é sempre retratado como vilão, de aparência ou zangada ou terrível. Embora a melhor descrição que se dê dele seja de um deus calado, com tons cinzentos e uma áurea séria, tipo um cara introspectivo e meio sombrio. De seus irmãos, ele ficou com o submundo, cuja porta é guardada por um cão de três cabeças, lógico que os mortais não nutram por ele afeição. Ele conta com três bruxas responsáveis por cortar o fio da vida dos humanos, a alma deles atravessa o rio das almas rumo ao seu julgamento e destino que poderia ser um paraíso ou nem tanto.

6.      6. Morte do conto dos Três Irmãos – Harry Potter

Esse conto é uma das partes mais famosas da saga. Menciona três irmãos que se encontram com a Morte. Ao conseguirem passar por um rio perigoso ela os enfrenta pois foram espertos o bastante evita-la e lhes concede um desejo por tal feito. O primeiro irmão pede uma varinha poderosa, o segundo irmão pede uma forma de trazer os entes queridos mortos de volta e o terceiro irmão, o mais humilde, só queria ir embora sem que a morte o seguisse então vai com um pedaço da capa da morte. O primeiro que desejou a varinha morreu assassinado devido orgulho do poder que ela lhe dava, o segundo quis reviver seu amor que morrera precocemente, todavia ela estava fria pois não mais pertencia a este mundo, então ele tomado pelo desespero suicidou-se. O terceiro passou a vida toda sendo procurado pela morte, todavia ela nunca o encontrou, quando o homem já estava velho acolheu a morte como uma velha amiga sem arrependimentos ou temor.

7.      7. Anjo da Morte – Supernatural

A morte em filmes e séries de terror obviamente vai assumir as formas assustadoras que conhecemos. E na série Supernatural, ela assume a forma de um velho assustador que persegue as pessoas e ao tocá-las começa a sugar a vida delas. Essa representação do homem vestido de negro é bem comum, quando não é um anjo com asas negras, mas sempre com a áurea pesada que faz você correr dele.

8.     8. Avó – A menina dos Fósforos

Embora hajam representações assustadoras, neste singelo desenho baseado na história de Hans Christian Andersen, a morte vem na figura de alguém querido. Ao não conseguir vender seus fósforos e estar congelando em uma noite fria de Ano Novo, a pobre menina dos fósforos vê sua avó, a única pessoa que lhe tinha sido bondosa e ao abraça-la e se aconchegar naquele abraço quente, a senhora vai embora levando-a e deixando seu corpo inerte e enregelado para trás. Talvez no fundo muitos de nós desejam um fim assim, em paz, com esta visão última e sendo levado nos braços de quem nos foi querido, torna-se mais fácil e desapegado, fora de que não há medo pois o amor do momento dá segurança e sequer se olha para trás.

9.     9. Kali – Mitologia Hindu

Kali em aparência é bem assustadora e violenta, todavia sua relação com a morte é parcial. Ela em seu contexto mitológico vem para dizer que a morte é algo ilusório, que a realidade é passageira e convida a pensar nesse fim não como algo a ser adorado, mas para se superar a noção de corpo e matéria. Ela também é relacionada com o fato de que algo precisa ser destruído para que algo nasça novamente, a ideia de morte seja de uma pessoa seja de um ciclo sempre demonstra esse tipo de noção, pois algo novo surge de fins.

1010. 3º Espírito – Os Fantasmas de Scrooge

Para o velho e avarento Scrooge, o espírito do Natal Futuro foi para ele o que lhe despertou os maiores temores e ao mesmo tempo as maiores noções de humanidade. Ao passar pelos outros espíritos, o do Natal futuro surgiu como essa figura assustadora vestida de negro que lhe mostrou todos os habitantes da cidade quando souberam de seu falecimento, todos satisfeitos, aliviados ou até mesmo felizes, mas ninguém pesaroso. Ele demonstra que Scrooge morre em uma noite de Natal, uma data que ele abominava e ao se deparar com sua própria cova, o temor lhe enche a alma e ali ele percebe que precisa mudar suas atitudes e percepções. Talvez ainda que de forma meio divertida e lúdica, se mostra que se deparar com a morte tão perto pode mesmo mudar as percepções de alguém.

11  11. O Barqueiro – Invocação do Mal

Esse aqui pegou um pouco de carona no mito grego, afinal, dizia-se que para atravessar o rio das almas de Hades era preciso duas moedas para pagar o barqueiro que fazia tal travessia. Por isso que na antiguidade os gregos eram cremados com duas moedas em seus olhos. No filme, o barqueiro é uma figura sinistra, com as referidas moedas, jogando-as no chão fazendo aquele ruído característico, cercado por corpos em caixões que mesmo sem falar nada, somente seu andar lento já desperta verdadeiro terror e ar de morte.

12  12. A morte – Pinocchio

A Morte do filme Pinocchio é enigmática e muito bonita, numa sala cheia de areia azul brilhante e ampulhetas ela tem seus servos que levam os corpos ao seu encontro. Irmã da Fada da Floresta, ela pode parecer fria por dizer que Pinocchio tem vida quando não deveria e nunca será um menino de verdade, todavia é sábia por mencionar algo óbvio, porém na maioria das vezes oculto nos pensamentos: que a vida humana só é valiosa e significativa justamente pela presença da morte. Ela elucida bastante Pinocchio sobre essa questão, que ele por mais que tivesse essa “vantagem” de nunca morrer, seus entes queridos não, além de que uma vida pode trazer sofrimentos sim, mas uma vida eterna pode trazer sofrimentos eternos. Não se pode negar que gera muitos questionamentos sobre a velha questão da imortalidade, se ela seria mesmo tão incrível como parece.

13  13. La Muerte – Festa no Céu

Uma figura muito alegre e colorida, que incorpora os elementos relacionados as caveiras mexicanas, que normalmente remetem sempre a algo muito bom e nada assustador. Aqui La Muerte é uma governante, uma deusa que comanda o Reino dos Lembrados e faz uma aposta com Xibalba, seu ex marido e governante da Terra dos Esquecidos, e ambos fazem uma aposta cujo prêmio é poder interferir no mundo dos vivos e Xibalba poder governar também o Mundo dos Lembrados. La Muerte é um exemplo de como se pode incorporar a questão de morte para crianças de um modo que não se desperte medo, mas elucidação, é sempre complicado falar de um assunto tão delicado com os pequenos, mas La Muerte e o contexto do filme mostra que nas mãos dos artistas certos isso é possível.

segunda-feira, 27 de novembro de 2023

Os dias eram assim...



2023 está terminando de um jeito meio excêntrico. Passamos por uma pandemia, atravessamos uma
guerra na Europa e agora enfrentamos aquele sob o qual não temos controle: o sol. Entre medos, temores, dívidas e calor o mundo parece ter dado uma guinada meio louca ultimamente e nós somos arrastados como folhas ao vento, que por vezes sentem não ter muito controle sobre nada.

Sempre se pensa que tudo ocorre por um motivo. Os influencers que ainda valem a pena serem vistos e ouvidos ainda abordam estas questões de como devemos ver a vida de um modo mais positivo, mais ameno e que tudo um dia pode mudar de uma hora pra outra. Talvez tudo vise um aprendizado afinal. Nunca se pode aprender na zona de conforto, permanecendo confortável, sem grandes desafios ou ranhuras que nos obriguem a sair e ver que há mais do que aquilo que nos é proposto, todavia não se pode negar que o mundo tem sido submetido a várias zonas de desconforto, talvez com objetivo de se aprender algo que por ventura não estejamos percebendo.

Aprender nunca é simples. Percebe-se a dificuldade de lidar com aprendizes, eles são ainda lentos no trabalho, ainda se amarram com as intercorrências, temem qualquer coisa fora do lugar, mas tomado o tempo necessário eles tornam-se exímios e esplêndidos, fora a vontade de aprendizado e renovação constantes. Nosso mundo está passando pelo momento do aprendiz, tanto ocorrido deveria levar a uma reflexão mais profunda de nossos desejos, vontades, do quanto estamos valorizando e para onde estamos indo. Contudo ainda estamos na vive dos aprendizes, percebemos que a sociedade de repente deu uma freada em termos de condutas, concepções e até mesmo humanidade. 

De forma meio antitética, é dito que os tempos estão meio difíceis mesmo com todas as facilidades em termo de tecnologia, saúde, educação... A dificuldade se dá devido a falta de tato dos que estão surgindo agora de lidar com tanta informação. Em pouco mais de 40 anos, coisas como DVD’S, CD’S, locadoras, até mesmo livros físicos viraram história, ficaram obsoletos e ainda assim, muitos ainda fazem questão de proliferar ignorância.

Pode parecer papo de Peter Pan, dos avessos a mudanças, todos tem uma fase assim. Aquela em que a segurança parece real, porém apenas por causa da proteção dada devido a inocência, seja da idade ou da própria experiência. O mínimo pensamento de sair dessa fenda já gera crises, choros, depressões e ansiedade. Os principais males do mundo atualmente, decorrem não dos fracos, mas talvez dos que ainda não possuem a maturidade para lidar com o fato de que essas fendas por mais confortáveis que possam parecer, não são eternas.

Não que seja algo maléfico, apenas inconveniente, porque implica em aceitar e entender que certas coisas não vão durar e outras mudarão para sempre. Por vezes diz-se que ignorância é uma benção. Outra contradição. Saber é poder e possibilidades, entender como as coisas funcionam possibilita novas oportunidades, inovações e gerar conhecimentos, sabe-se o quanto isso foi importante para a evolução da humanidade, avanço da saúde e melhora em muitos aspectos de nosso mundo. Todavia é fato que o avanço nunca vem sem que algo seja deixado para trás.

É uma lógica: há pontos que nunca podem coexistir, um sempre chega para preencher o que se foi. Demora um tempo para se aceitar esse curso tão facilmente, especialmente para os saudosistas. No


filme De Repente 30, existe uma cena que causa espasmos em muitos que assistiram tal filme quando mais novos e chegaram na idade da personagem. Jenna deprimida e triste ao se dar conta do que sua vida havia se transformado resolve ir a casa de seus pais, após longo tempo sem vê-los. Ela que aos 13 anos queria ter 30 achando que seria o paraíso e apenas sucesso, se defronta com uma realidade até cruel de nossa sociedade: que nem todos vão apreciar esse sucesso, que vão se transformar ao longo do tempo e nem sempre serão sinceros ou bons, o que incluía ela mesma.

No trajeto ela vê um grupo de meninas de 13 anos e ali naquela hora, ocorre um encontro secreto com o eu dela daquela idade e há a dura realidade de que não há mais como voltar para corrigir erros, para fazer as coisas diferentes e internamente o questionamento se há tempo para talvez corrigir o que está errado até então. Ela chora ao chegar na casa dos pais, se encolhe no closet em meio às lembranças, os brinquedos esquecidos, ao tempo em que não sentia tanta solidão, ali vem o preço da vida adulta que um dia ela desejou com tanto ardor. Frisando que não se trata de uma síndrome de querer ser criança


para sempre, é ser sincero e não hipócrita o bastante pra não fingir que por mais que haja sucesso, fama, o dinheiro para a sonhada independência, as rugosidades no caminho deixam marcas tal como pisar em pedras, precisamos atravessar isso para chegar em um local melhor, mas nunca se chegará lá inteiro, nunca plenamente.

Atualmente essa idade de 30 anos se transformou em um tabu. É curioso pensar que muitos se referem a ela como um divisor de águas, nem tanto como de sucesso, mas como um lugar na vida com pesar e cargas. Não mencionando claro a questão de que muitos até afirmam no caso de mulheres, que ao chegar aos trinta elas não mais servem e seu valor diminui, em termos de fertilidade e maternidade. Em suma, é como se depois dos 30 tudo fosse um caminho para o abismo, um declínio vertiginoso sem grandes chances e oportunidades na qual só resta o saudosismo, dor nas costas, decepções e driblar a terrível conjuntura social. Não é preciso dizer que ou é caso de extremistas ou é caso psiquiátrico.

O ponto desta idade é que diferente de talvez 100 anos atrás, ao se chegar aos 30, 40 você não estava no fim da vida literalmente. Falando de pessoas saudáveis, com bons acessos a educação, alimentação e recursos, normalmente se chega aos 30 com boa aparência, vitalidade e planos extensos a perder de


vista. A questão da demonização desta idade fazendo com que muitos se sintam saudosistas é que por mais que se tenha avançado, dificilmente alguém estará na terceira década de vida sem ter experimentado uma boa penca de reveses de vida.

Claro, existem os que são mais indiferentes, os que são de certa forma protegidos por classe social e privilégio econômico, que pode os proteger das questões rugosas referentes a carreira, trabalho, chances de progresso, as dificuldades são amenizadas nesses casos, contudo isso não os protege do resto. Esse resto é justamente o que foge do controle e solução relacionados a bens materiais. As perdas não materiais são mais difíceis de lidar. E fato quem chega aos 30 sem ter sentido, nem um pouco que seja, algo assim pode-se considerar sortudo porque o universo realmente gosta muito desse indivíduo.

Perdas de amigos, pessoas queridas que seguem caminhos distintos, sonhos que se vão, lutos por morte literal, são exemplos de algumas perdas que a partir de uma determinada idade passam a ser comuns. Os casamentos, batizados, chás ficam escassos, os velórios frequentes. A mesa diminui nas festas de família nas quais havia um batalhão, a lista de presentes se reduz, afinal muitos amigos não mais estão presentes, tentaram a vida de outros meios que não coincidem mais com o seu. As lembranças permanecem, a saudade, mas neste ponto, o que dói são as cicatrizes, as marcas no espírito de ter que lidar com tudo.

Muito provavelmente o que pode parecer imaturidade na verdade é um cansaço generalizado. Um cansaço das coisas atuais e dos lutos individuais. De ver tanta coisa e ter que lidar com tanta coisa pessoalmente. Tudo gera pensamentos, sentimentos, saudades... A percepção de que a vida está passando atinge como um trator, quando se olha no espelho e vê que as marcas no rosto, os olhos


cansados nem tanto é da idade, podem nem tanto aparecer de forma evidente, mas estão lá como um reflexo da alma já calejada da lida existencial. Cada luto, perda, desistência de sonhos, lutas perdidas fazem o indivíduo passar por ciclos nos quais necessita do aprendizado, na maioria das vezes envolve dor, tristeza, lágrimas, nem sempre se aprender é um processo linear e simples e nesses ciclos, tal como foi citado, o caminho é feito de pedras, que mesmo após o alívio de ter chegado ao destino final, não exime o peregrino de chegar com os pés machucados.

A verdade é que o equilíbrio se tornou algo complicado atualmente. Se por um lado há os saudosistas que desejariam nunca ter saído de seus anos simples de filmes a tarde regados a pipoca e risadas juvenis com amigos de escola, existem aqueles que transformaram o processo inevitável do envelhecimento em uma labuta insuportável. Um é o que se recusa a sair de uma fenda, outro sofre a cada vez que precisa enfrentar uma nova. Talvez o que se deva buscar é o ponto do meio, saber que muito do tempo que se considera como único bom, não mais voltará, mas não significa que os próximos também não o sejam, em suas proporções, ainda que com suas rugosidades sempre pode haver uma pedra que lapidada se transforma em uma bela joia.

E com esse equilíbrio, podemos olhar com mais fé no futuro e enfrentar com mais maturidade os novos ciclos, mesmo que sintamos a nostalgia dos tempos antigos e digamos: Os dias eram assim...

segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Os Legítimos Gente Boa

 

Nas mídias, sejam filmes, séries, desenhos, o mocinho sempre fica em evidência. Todos sabem quem ele é, todos o reconhecem de cara. Normalmente são aqueles personagens que são um poço de virtudes, são tão doces que por vezes você até enjoa por acha-los tão monótonos e enfadonhos. Não á toa que muitos vilões acabam levando as coisas nas costas (assunto para outro post). Contudo os mocinhos tem uma forma bem específica.

Hoje talvez o que se vê é essa forma permanecer a mesma, mas a cobertura desse personagem mudar. Ele é um mocinho, mas aquela virtude imaculada não mais é obrigatória. E assim se tornam mais humanos, um modelo não tão distante e utópico, eles se mostram os legítimos gentes boa de se ver. Ao contrário do que parece, eles não são aqueles bonzinhos que baixam a cabeça pra tudo, que se deixam ser pisados e humilhados sem revidar, com a cega benevolência cristã, pelo contrário, eles sabem o modo e tempo certo de agir, sua astúcia é genuína, não pelo benefício do protagonismo. Eles sabem ser inteligentes e sagazes, porém sem que isso afete sua integridade e honestidade.

Eles sabem dar amor, mas sem abdicar de seu bem estar, não atropelam seu amor próprio em nome de quem quer que seja, mesmo que a pessoa em questão seja muito querida e amada. Sabem impor os devidos limites, o que por vezes causa até estranhamento, uma vez que há tempos se tem a imagem do mocinho como aquela pessoa tão meiga e doce que a mínima aspereza por parte dela torna-se impossível de se imaginar, entretanto até isso vem mudando e os mocinhos não são os bobos que projetavam neles. 


Os mocinhos hoje são aquela personificação humana da bondade. Nem tanto uma bondade divina como vemos nas figuras ditas religiosas/espirituais, naqueles lideres que arrastam multidões com seus ensinamentos, mas uma bondade palpável, que se mescla em muitas outras coisas. Esses gente boa não se afogam em ambição, eles são gentis por natureza, não se deslumbram por posses ou bens materiais, são humildes em sua essência sem parecerem servis, olham as pessoas independente de quem seja com os mesmos olhos. Não se envaidecem mesmo que sua posição/condição possa leva-los a isso. Eles são leais ao que sentem e acreditam, mesmo que o mundo diga que não é assim.

Na mídia eles são identificáveis a olhos vistos. Na série A Imperatriz, a jovem Elizabeth conquistou o coração de Francisco justamente por seu jeito inusitado, por falar a verdade mesmo quando todos queriam esconde-la dele. Por não se curvar a ordens que não queria obedecer, por ser espontânea e não esconder quando algo a desagradava e ao mesmo tempo era gentil com todos, tinha incalculável
humanidade e humildade, fazia questão de se aproximar dos súditos, mesmo dizendo a ela que eram a ralé pobre, tal discriminação a indignava, pois via a todos com humanidade. Tanto que para ela o melhor caminho para que o povo olhasse os nobres com simpatia era justamente que eles descessem de seus pedestais e olhasse o povo como pessoas, falasse com ele considerando-o como tal e se aproximasse com o respeito que era devido, afinal, eram seus súditos e tinham dever para com eles.

Outra pessoa com poder nas mãos e uma posição dita de autoridade que não se deixou levar pela soberba foi a famosa Lady Diana. É impossível não lembrar de sua humanidade, humildade e jeito próprio de ser. Considerando a realeza, há milhares de normas a serem respeitadas, de comportamento a conduta. Di protagonizou cenas icônicas de como ela seguiu seu coração não importando os protocolos, como quando ela participou de uma corrida na escola do filho. Tirou os sapatos e mesmo com saias esvoaçando correu e ganhou, ainda que isso fosse considerado inadequado para uma princesa e contra o manual.

Todavia foi graças a esse jeito rebelde que Di é lembrada até hoje. Pelo jeito irreverente e por ter feito coisas que a realiza nunca tinha feito até então, mas que aos olhos do mundo ficaram marcadas para sempre. Di fez um trabalho excepcional e sem precedentes com crianças africanas. A cena dela carregando uma criança negra entrou para a história, assim como suas ações em prol do continente e
humanidade genuína. Ela se colocava a nível deles, sem roupas chiques, sem jóias, que os constrangesse ou gestos superficiais, aliás não faltam comparações da postura de Di e da atual princesa Camila, a qual demonstra clara aversão a presença e ao toque com os africanos.

Ser um gente boa inclui não se deslumbrar e manter sua essência. Desse modo no pouco ou no muito sua conduta e percepções se mantém. Aninha, de Chocolate com Pimenta enriqueceu ao se casar, mas nunca pensou em bens ou poder, queria apenas um nome para seu filho que nasceria. Ao voltar para a cidade de origem, ainda era a mesma menina humilde que não se importava em abraçar o primo que
acabara de sair da lida e adorava a comida caseira da avó, e mesmo quando perdeu tudo, pouco ligava para a simplicidade das roupas e da casa para a qual voltara, queria mesmo estar ao lado da família e ser útil, o dinheiro e posses não a deslumbraram a ponto de modificar seu jeito de ser, eram apenas uma condição transitória, sua personalidade era pra sempre.

Essas pessoas não fazem diferença entre as outras, olham a todos com o mesmo respeito que tem por si mesmos e sabem reconhecer o valor de cada pessoa. No filme Histórias Cruzadas, Celia Foto era hostilizada pelas outras mulheres da sociedade. Mesmo sendo branca, as outras mulheres a rebaixavam por ela ter sido da favela e morar longe da cidade. Ou seja, por mais que ela fosse bem casada, sempre a viam como ralé. E ficou pior depois que ela se tornou amiga da empregada Minie. Considerando que a cidade era extremamente racista, Celia quebrava esse ciclo de intolerância. Não se importava de comer
junto com Minie na mesa da cozinha, mesmo esta dissesse que não. Celia era amiga e não tinha problema mostrar isso com seu companheirismo e risadas, talvez por ser hostilizada e excluída sabia como era ruim e não fazia isso com outra pessoa, daí se recusava a ser como as outras mulheres da cidade.

Outra pessoa que se recusava a fazer distinção era Luna Lovegood. A doce amiga de Harry Potter era tão doce que todos a achavam esquisita. Dona de um senso e percepção únicos, era a mais gentil de todos. Lógico que ela sabia que a olhavam como uma boba, mas era educada demais para partir para a
briga. Em muitas ocasiões salvou a todos com sua astúcia, ainda que sob um véu de inocência. Ela tratava a todos de forma igualmente educada e polida, incluindo não bruxos. Quando ela chama Dolby de “senhor”, ele imediatamente se encanta com ela, por seu respeito e educação, algo hoje que pode parecer piegas, no fundo era uma forma de mostrar que não dá pra ser gente boa se você não for gentil de forma igual.

Alguém também que demonstrava o cúmulo da gentileza era Sara. A menina protagonista do filme A Princesinha demonstrou que você pode ser gente boa independentemente do meio que vive. Afinal, ela era uma menina rica, criada com luxo e conforto, tinha tudo pra ser arrogante como as outras meninas


de sua classe, mas tratava todos com educação, gentileza, não fazia diferença de cor, para ela não fazia sentido diferenciar alguém por isso. Era estranho a ela a dureza do mundo que queriam lhe impor, sua visão otimista e positiva não a deixava esmorecer mesmo que estivesse em um porão escuro, sentia-se feliz e imaginava coisas incríveis mesmo com pouco.

Ser gente boa é algo bem genuíno, é inegável que nasce conosco e cresce à medida que se envelhece, todavia também pode se aprendido de modo que a pessoa se torne melhor enquanto ser humano, pois no fim das contas, ser gente boa é justamente ser, acima de todas as coisas, mais humano.


sábado, 4 de novembro de 2023

Vai Na Fé - O Luto e a Lição de Dora

 

Muito se falou da novela das sete passada. Embora tenha sido a melhor da safra deste ano, passado por barrigas, contradições de personagens, arcos intermináveis e explorando exaustivamente assuntos até ficarem sem combustível ainda foi a menos pior da safra.

E uma das coisas que mais emocionou os telespectadores foi a morte de Dora, uma importante personagem, mãe das principais. Matar um personagem que não é vilão ou anti-herói foi por muito tempo um tabu entre os autores de novelas. Era quase como um tiro no pé, um risco que muitos não se atreviam a correr em nome de dar ao público algo que ele queria, tanto quanto arriscado deixar um vilão se dar bem.

E tal como na vida real é quase impossível os vilões receberam seu castigo a galope ou do jeito que o público deseja, é meio impossível achar que a morte é algo que não virá, mesmo para os mais queridos, mais legais do mundo, só que claro, as novelas também tem essa função de fazer parecer tudo perfeito. Dora para muitos não merecia morrer. Afinal, ela era doce, meiga, meio hippie, sempre com alto astral mesmo com a filha Lumiar a deixando de lado e sofrendo de uma doença terminal. Uma das frases


marcantes foi quando Lumiar ao tomar pé da real situação de saúde da mãe propôs um tratamento no exterior, que buscassem outras alternativas e Dora, de um jeito muito doce, muito terno e desprendido disse que não desejava nada daquilo, disse que não queria terminar a vida passando pela agonia de um tratamento, com um hospital e pessoas estranhas. A frase que derrubou Lumiar foi dita com um sorriso: “Eu vivi uma vida maravilhosa, vivi bem, por que também não posso ter uma morte boa?”

Estudiosos que disseminam percepções diferentes sobre o assunto e muitas pessoas que a palavra “Morte” e “boa” não podem coexistir na mesma frase, todavia Dora enquanto personagem quebrou uma expectativa que normalmente se vê em novelas/filmes, principalmente os brasileiros: o de que mesmo que não ocorra um milagre ou uma reviravolta de última hora e o desfecho seja de fato a tal morte, não significa que seja ruim.

É preciso entrar em um assunto ainda muito nebuloso para a maioria das pessoas: a questão dos cuidados paliativos. O próprio assunto é novo, apenas na década de 80 é que todas as diretrizes que permeiam ele foram de fato estruturadas. E quando se menciona cuidados paliativos, quase sempre se lembra dos filmes/séries nos quais aparece a família em volta do doente prontas para desligar os aparelhos, ou se despedindo antes de uma injeção fatal. Legalmente, isso caracteriza Eutanásia, o que não é permitido pelas leis brasileiras e é julgada criminalmente como homicídio, sendo punidos todos os envolvidos, tanto família quanto equipe médica.


Cuidados paliativos nada tem a ver com desistir do doente ou negar assistência precisa ou necessária se for o caso. Tem a ver com não fazer investimentos pesados e dolorosos a própria pessoa/família, uma vez que já se chegou a um ponto no qual não haverá reversão do quadro, não importando o que se faça ou para onde a pessoa vá, em outras palavras, o único desfecho iminente é a morte logo qualquer tentativa de resultado que vá contra isso acaba sendo mais doloroso sem que se chegue ao menos perto de uma cura. O que obviamente não significa que se negligenciará os cuidados, amenização de sintomas e se dará o máximo de conforto quanto possível.

Na novela foi visto: Dora tomando bolsas de sangue para corrigir anemias, recebendo oxigênio para falta de ar e outras coisas, os cuidados, a vigilância permanecem, todavia existe a ideia ainda de que os momentos são cada vez mais escassos, próximos de um desfecho inevitável. Não raro se pensar que a família está desistindo, abdicando, todavia estudos mostram que os que compreendem e aceitam os cuidados paliativos, passam por este momento de forma mais suave. É importante mencionar que não é que não haja dor pela partida, não haja luto ou o sentimento pela ausência, a questão é que há um outro modo de sentir toda essa onde de sentimentos, essa transição torna-se mais leve.

A morte sempre vai gerar o sentimento de aversão, de dor, e quando vem acompanhando um quadro de

doença vai haver outro mix de sentimentos, que permeiam desde impotência, até lutar até o fim, revolta... os cuidados paliativos, mostrados de forma tão bonita por Dora mostrou que se pode passar por esse momento de um modo em que a dor tenha um significado menos de fardo e mais ressignificação, que haja de fato alegria até o último instante e o doente possa também ter dignidade ao fazer essa passagem, tanto quanto teve dignidade em vida.

Dora ao cantar suas músicas , ao momento de sua família se despedir em meio a versos, a leveza, suavidade, demonstrou que o amor estava em predomínio, bem mais que dor ou desespero, que Dora permaneceria ali e sua lembrança seria cheia de doçura e paz. Lógico que não é uma ideia fácil de se aceitar, para muitos a morte é um inconveniente doloroso e cruel, ainda que plenamente parte da vida, todavia os cuidados paliativos mostrados por Dora, que envolveu todos nessa energia de retidão demonstrou que é possível por mais doloroso que seja a ruptura, ainda pode ser de uma forma leve e amena, de modo que o começo do luto seja menos traumático.



domingo, 3 de setembro de 2023

Lições de Gato de Botas 2

O filme do Gato de Botas 2 entrou pra história. Não apenas por causa de seu icônico vilão, bem construído, bem desenhado, que dá arrepios mesmo sendo um filme infantil e gera muitos questionamentos, deve ter gerado muitas dúvidas nas crianças sobre as questões de medo, morte e vida. Aliás, mesmo que sendo o filme de um personagem fofinho, cujo primeiro filme foi até bobo, acabou que acertou nos adultos e seus sentimentos mais profundos, gerou identificações de pontos muito maduros e complexos, típicos de pessoas que já viveram coisas e tem experiência. Sendo assim, de um modo meio colorido, meio tenso, meio maduro e mergulhado em uma áurea de cenas divertidas, o filme do Gato de Botas traz várias lições interessantes que servem para os pequenos e mais ainda para os grandes.


1. Ser destemido é bom, mas se precisa ter cautela.

O Gato se gabava de rir com suas nove vidas. E de ter sido um herói em todas elas, de ter desafiado perigos, de ter se tornado uma lenda que se acreditava imortal, fisicamente falando. Todavia ao se basear nisso, o Gato começou a ter comportamentos descuidados consigo mesmo, se colocando em perigo deliberadamente e não pensando que poderia perecer com isso. Contava tanto com essas vidas extras que não parou pra pensar que um dia poderiam acabar ficando desesperado quando o momento chegou, começou a pensar que não seria mais nada se não tivesse esse recurso, todavia percebeu no fim que o importante não era ter tantas vidas para viver, mas viver uma única de forma intensa, que valesse a pena e de modo que permanecesse na lembrança. 


2. Por vezes você precisa aceitar ajuda. Mesmo que de uma fonte inusitada. 

Perrito começou de forma irritante com o Gato. Ele era o típico amiguinho que queria ficar perto não importava o quão cara feia o outro fizesse. E percebendo o quão o Gato estava deprimido, apático, ele se dispôs a ficar perto, a escutar, o instigava para falar sobre o que estava sentindo. O Gato era muito orgulhoso para se abrir, mas mediante a oportunidade e com um pouco de insistência, acabou cedendo ao chamado cão terapeuta e começou a se abrir, sendo imediatamente acolhido por aquela figurinha inusitada.


3. Se seu coração pudesse ser transfigurado, com certeza seria na forma do seu otimismo. 

Quando se está com o mapa do desejo, o caminho se mostra diante dos olhos assim como a dificuldade dele. Quando Kitty e o Gato pegam ele tudo que aparece são desafios e obstáculos tortuosos, lugares assustadores, tudo porque eles estavam acostumados com coisas muito difíceis e sempre achando perigos, todavia quando Perrito pegou no mapa, tudo que apareceu foram coisas coloridas, cheias de doçura e facilidade. A razão para isso é que o mapa mostrava o coração, como o dele era sempre bom, otimista e doce, isso se refletiu no caminho a frente, dando a Kitty e ao Gato uma bela lição.


4. Por mais clichê que seja, se você vê ganho, acaba tendo ganho. 

Perrito não tem uma história mais feliz que o resto dos personagens, mas o que mudou foi a forma como ele viu sua própria história. Ele contava com alegria que viviam se escondendo dele, que o levavam pra longe, que o jogaram num rio dentro de uma meia com uma pedra, e que quando ele chegou a superfície ele cresceu dentro da meia. Ou seja, eles tentaram afogá-lo e se livrar dele, mas na cabecinha dele tudo era uma boa história e a meia virou um lindo suéter, logo ele só havia tido vantagem e ganho. Lógico que não se deve amenizar sofrimentos ou desmerecer o que fez mal ou negligenciar quem o fez, todavia encarar a experiência de forma mais positiva com certeza faz mais bem do que o contrário.

5. Por vezes é difícil manter a calma, é importante ter as pessoas certas do lado. 

O Gato estava apavorado, tendo crises de pânico com a Morte atrás dele, todavia seria muito mais difícil se ele estivesse sozinho enfrentando isso ou com pessoas que não soubessem compreende-lo. Perrito com seu otimismo e sua escuta, assim como Kitty depois com sua compreensão ajudaram nesse processo. Isso demonstra que por mais difícil que a situação seja, é preciso que possamos manter a calma e ter pessoas de confiança ao nosso lado, que nos ajudem a passar por isso da forma mais fácil possível.

6. Você pode ser um herói e ter medo. 

O Gato se achava indigno do título de lenda pelo simples fato de ter medo e estar com medo da morte, todavia com sua jornada foi possível para ele perceber que mesmo sendo um herói é possível ter esse sentimento, não o fazia menos corajoso. Ter medo é normal, apenas não se pode paralisar com ele, é preciso aprender com ele e seguir em frente. Gato percebeu que mesmo com medo da Morte, ele poderia continuar vivendo sua vida e aventuras, nem deixava de ser grandioso por causa disso.


7. Por vezes, nem sempre o que achamos que nos faz feliz, é o melhor. 

Gato estava desesperado pelo desejo de ter suas vidas de volta, não hesitaria em fazer qualquer coisa para isso, todavia com o decorrer da jornada, percebendo quantas coisas essa vaidade causou, o fastando de pessoas que o queriam bem, ele percebe que não é a escolha melhor para ele. O mesmo ocorre com Cachinhos, ela acha que uma “família de verdade” a faria feliz, todavia isso faria com que ela abdicasse da família de Ursos que a acolheu e cuidou dela por tanto tempo com amor e carinho.

8. Você pode ter mil vidas, se não vive-las bem e partilhando, ainda será uma perda de tempo. 

A Morte não errou quando disse que Gato desperdiçou todas as suas vidas e não deu valor a nenhuma delas, Ele se baseava tanto na quantidade que tinha que não pensou que devia vive-las com todo afinco que poderia ter. Quando ele chega na última vida, percebe que não queria desperdiçar mais nenhuma, que queria vive-la com todo o ardor que se poderia viver, ali passa a valorizar cada instante vivido partilhando com seus amigos queridos e aproveitando ao máximo.


9. A maioria das vezes se persegue algo que estava bem diante dos olhos.

O mapa dos desejos era sonho de consumo de praticamente todos, todavia para muitos ele foi um instrumento para perceber que o desejo era algo irrelevante, pois mesmo antes já se tinha tudo que precisava ou poderia desejar. Cachinhos poderia querer uma família, mas ao fim percebe que os ursos são a melhor família em termos de amor e companheirismo que ela poderia querer, o Gato percebe que sua última vida seria a que mais valeria a pena e Kitty recupera seu amor, ninguém fez um pedido, mas todos tiveram ao fim o que mais desejavam.

10. É justamente as imperfeitções que nos torna perfeitos. 

Gato se percebe falho e comum, de início bate um desespero achando que sua vida e dignidade acabaram, contudo ele nota que o fato de ter imperfeições é o que faz com que corra atrás da melhora e isso o faz ser perfeito enquanto ser. A busca pelo constante movimento é o que faz com que sejamos perfeitos em nossas imperfeições.


domingo, 30 de julho de 2023

Não somos mais tão jovens, mas ainda sem medo

 


Existe uma frase na bonita canção de Kathleen Batle, Lovers que diz: “Éramos tão jovens, tão sem medo”. A canção menciona dois jovens que cresceram, viveram mas o amor que tinham um pelo outro permaneceu. A letra fala do campo no qual brincavam, dando a entender que eram felizes e sem maiores preocupações, que o amor dos dois era eterno. É algo tão da juventude... todo dia é uma eternidade que nem pode ser mencionada senão quebra o encanto desse campo no qual são tão destemidos.

Contudo, muito dessa determinação se dá justamente pelo desconhecimento de algumas durezas. Quando se é “jovem” no sentido cru da palavra, desprovido também de uma maturidade, existe não ter medo por não se ter noção de coisas que se pode acontecer. É um sem medo prazeroso, não se conhece muito de golpes inevitáveis que a vida dá. Daí ficamos não tão jovens... Peso de trabalho, responsabilidades, percepções começam a pesar sobre os ombros. O tempo passa, muito muda, mas o velho campo permanece em nosso coração, todavia, nosso olhar para esse campo não é mais o mesmo.

Ele talvez não pareça mais tão grande, as borboletas que ali se caçava parecem em menor quantidade, as flores não tão viçosas. Os amores tão certos de outrora começam a esmorecer, por vezes devido a decepções, por vezes porque abandonaram esse campo que antes era tão certo e tão querido. Falando assim dá a entender que ficar não tão jovem é algo ruim e muito triste contudo, não é. Afinal, tal como tudo, existe o outro lado, existe o ponto de que é preciso abdicar de algo para que outro algo nasça. Indiscustivelmente aqueles para quem essa não juventude chega, fica uma marca.

Atualmente, muito se fala sobre a tal fase dos 30 anos. Embora na verdade muito se diga disso para falar de mulheres devido ao machismo para dizer que elas são “velhas”, “cheias de marcas”, “traumatizadas” ao chegarem nesta idade, a verdade é que isso não se resume a mulheres mas a indivíduos no geral. Preconiza-se que com 30 anos já se passou por alguma coisa. O campo da velha cidade não mais está intacto como nos velhos dias.

Nessa fase já se viu e aprendeu sobre ferir, magoar, atingor porque já se foi magoado, ferido, atingido e fez-se uma marca no âmago do espírito. Assim, de forma lógica, quem tem marcas no espírito acaba que reflete no exterior. Um indivíduo que nunca teve absolutamente nenhuma aresta a ser enfrentada sempre parecerá mais jovem e mais incrivelmente imaculado, Lógico que há os alienados e os que sabem fingir muito bem ou os que já tem um grau de maturidade e percepção tão profundos que isso não mais é um tiro tão danoso, são casos dentro de uma população. Todavia a verdade é que depois de um tempo na vida já se viveu os reveses e decepções, lidar com indiferença alheia, morte, lutos, por mais que existam 1001 procedimentos para melhorar aparência, marcas no espírito não somem.

Quem conseguiu chegar a essa fase sem absolutamente nenhuma perda, ou sem senti-la, ou sendo protegido dela, nenhuma decepção, nenhuma expectativa frustrada pode-se considerar sortudo até a 3ª reencarnação porque a realidade da maioria esmagadora não é essa. Fora que se numa possibilidade conseguiu-se além disso alcançar absolutamente tudo que sempre desejou, a vida é um pôr-do-sol na praia ou uma bela tarde de domingo na qual não mais há tanta precupação ou mobilização externas, deve-se considerar sortudo pois seu campo permanece intacto.

No fim, o ser sem medo transforma-se porque já há um escudo construido, já há a certeza de saber lidar com as coisas, as pancadas que aparecem já aparentam ser menores e as percepções mais sagazes. Desse modo, acaba-se dizendo que não se é mais tão jovem como um dia se foi, mas ainda sem medo e destemido.

quinta-feira, 22 de junho de 2023

Pinóquio de Del Toro: Não é apenas mais um pinóquio


Pinóquio de Del Toro entrou pra história. Não apenas por ter desbancado a Disney no Oscar mas o próprio Pinóquio. Não é algo que se possa ignorar. A própria história tem algo de muito peculiar, ela se inicia de forma diferente, de forma que já é um soco no estômago para os que a vêem, ali já prova que não veio com o intuito inocente de mero entreterimento, é até pertinente dizer que talvez não tenha vindo sequer com objetivo de ser para crianças.

Vê-se Gepetto como o conhecemos, um velhinho de barba, com uma áurea fofa e doce, tal qual muitos velhinhos que se conhece. Todavia o diferencial aqui é que a narração se inicia com o próprio grilo falante, nomeado de Sebastião. Incrível pensar que ele assume uma energia intelectual, de um narrador analítico que ao ver os fatos de fora, assume uma postura mais séria, no filme de Del Toro ele é um romancista, alguém buscando um local para escrever sua obra e encontra o pequeno local onde Gepetto mora. Algo de muito inusitado começa a ser contado com relação ao artesão. 

Não se pode negar que Del Toro tem sua peculiaridade. A Forma da Água e O Labirinto do Fauno demonstraram que existe algo de muito profundo nas mensagens do diretor, algo de muito misterioso mas que ao mesmo tempo causa-nos um conforto, todavia sempre há um ponto convergente em suas obras e nestas três em particular é a guerra. Muitos filmes que são versões diferentes de outros outrora lançados acabm vindo para esclarecer pontos
obscuros e dúvidas persistentes por anos a fio, aqui fica claro esse lado paterno de Gepetto e o porquê é tão aflorado. Segundo o início, antes de Pinóquio ser construído, Gepetto tinha um filho. De nome Carlo, o menino havia falecido com 10 anos de idade e levado junto com ele também a vida de seu pai, viviam sempre juntos, se amavam, nada faltava a eles por mais simples que fossem suas vidas.

Para uma primeira cena repleta de emoção, canções e ternura entre um pai e um filho com desfecho trágico por conta de uma bomba lançada de um avião, já é o bastante para levar os mais endurecidos às lágrimas, ali já se percebe que os corações mais sensíveis sentirão o quão forte esse bonequiho de madeira bate. A solidão de Gepetto em determinados momentos é palpável, aliás o filme inteiro toca em temas tão profundos que os adultos são justamente os que sentem mais porque já passaram por muitas coisas, muitas experiências, logo há uma compatibilidade com Gepetto.

Interessante perceber que por mais que o gráfico e os bonequinhos sejam fofos, tudo ali é de uma humanidade visceral. Quando se narra sobre os sentimentos de Gepetto, logo se percebe duas coisas : luto e depressão. O luto é mais familiar dos adultos, embora crianças possam sofrer perdas, os adultos devido tempo de existência tem mais probabilidade de vivenciar essa separação, no caso mostrado no filme é uma separação de pai e filho, o que torna tudo mais doloroso. O luto é um processo, todavia por mais que ele tenha uma fase final, não significa que a ausência deixe de ser sentida. Com nosso artesão, vemos um luto que perdurou, estacionou na fase da dor, levando a uma depressão profunda. Todas as pessoas da vila de Gepetto conheciam ele e seu filho Carlo, conheciam-nos, cumprimentavam e achavam o menino muito doce, contudo quando Sebastião menciona o período em que Gepetto está vivenciando a dor, ele diz que ele “trabalhava pouco e comia menos ainda”, ou seja, uma depressão profunda assolou a vida do velhinho que ele mal conseguia fazer as atividades ditas básicas. A velha história de que o mundo seguiu em frente mas ele não. Percebe-se isso também no modo como as próprias pessoas de sua vila passam a encará-lo. Com a depressão, o trabalho ausente, Gepetto foi de “ciddadão italiano exemplar”, “ótimo pai” e “talentoso” a “bêbado” de forma bem rápida, demonstrando que se o próprio indivídio tem dificuldades de lidar com depressão e luto, o mundo em volta talvez tenha mais ainda.

E a partir de uma noite na qual Sebastião chega na velha casa, Gepetto tem talvez a mudança de fase do luto, em um acesso de raiva acha que pode trazer seu filho Carlo de volta na forma de um boneco de madeira. A esse pequeno boneco é dada a vida para que possa encher os dias de Gepetto de luz e aplacar sua solidão. Contudo, não seria algo tão
simples, se fosse não seria Del Toro. Exite uma adaptação, afinal, Pinocchio é um menino imperfeito e Gepetto reluta em aceitar tamanha indisciplina proveninete de seu novo “filho”. O próprio Sebastião menciona que existem pais imperfeitos e filhos imperfeitos, mas se houver uma análise da história, a busca frenética de Pinocchio em busca de se tornar “um menino de verdade” seja em que versão for, é apenas um detalhe, pois em termos de atitudes, aprendizado, sentimentos para com amigos e família, Pinocchio já é um menino de verdade, esculpido no pinheiro da mais pura humanidade e suas falhas vãs.

E o ponto da humanidade de Pinocchio não se dá apenas na indisciplina de não ir a escola, desviar seu caminho para ser uma estrela de circo ou mentir, se dá também na questão da própria morte, que de um modo até torturante está presente do início ao fim. Pinocchio é um boneco de madeira, logo de uma modo lógico, a vida lhe foi dada, ele não nasceu propriamente dizendo, logo sua morte tão pouco é literal, o que faz com que ele assim como as árvores centenárias que se conhece, viva longos períodos e se “morto” tende a voltar assim como galhos e mudas novas crescem novamente. Ele não percebe o quão cruel isso pode ser a longo prazo e até fica empolgado com a ideia de “imortalidade”, até que a própria personificação da morte diz que justamente o que torna a vida humana tão bonita é justamente o fato de que cada momento pode ser o último e uma vida pode trazer sofrimento, mas uma vida eterna pode trazer um sofrimento eterno. Ali se tem um breve lampejo do conto original e da busca de Pinóquio em busca de ser “um menino de verdade”.

Muito embora as outras versões de Pinóquio girem em torno dele se tornar de carne e osso, aqui tudo é mais metafórico e ao mesmo tempo literal. Ele pode nunca sentir as sensações fisicas que um ser humano, todavia em termos emocionais e morais, existem todas as arestas tão tipicamente humanas. E a medida que Pinóquio vira “de verdade” até mesmo sua madeira fica mais vulnerável, com mais fragilidade. Na altura na qual ele é mandado para o chamado campo dos meninos rebeldes, pode-se considerar tão de verdade que sua percepção está mais nítida, já tendo passado pela exploração do circo, visto a maldade, ele já consegue perceber muito bem onde e que momento vive. Como dito, a guerra é algo presente nos filmes de Del Toro, e quase sempre as figuras vilãs tem uma repulsa, uma energia tão vil e torpe que são facilmente odiadas, Pinóquio e os outros meninos orientados por uma dessas figuras começam a não apenas entender mas vivenciar a guerra, algo que uma criança vendo o filme pode não entender mas um adulto vendo, sente um aperto de pensar o quanto crianças tão novas eram inseridas nesse meio sem nem ao menos terem altura ou idade, tudo sob alegações falsas de responsabilidade com pátria e outras.

No mais tardar, muito da história se repete, a baleia, o salvamento e o final “feliz” entre mil aspas. Pinóquio não tem um final dito cheio de canções e fofo como talvez se esteja habituado a ver em desenhos, todavia um final reflexivo e possível considerando toda a prerrogativa a qual a história se propõe. O filme trata de perdas, logo no início já se percebe isso, perda de inocência, perda de percepções em nome de outras, perda de pessoas... e do quanto essas perdas fazem parte de nós e como devemos, ainda que não nos seja agradável, aprender a carregá-las. Literalmente se termina com todos os canais emocionais abertos e tal como Pinóquio, com a sensação de que é de fato isso que nos torna “de verdade”.