quinta-feira, 22 de junho de 2023

Pinóquio de Del Toro: Não é apenas mais um pinóquio


Pinóquio de Del Toro entrou pra história. Não apenas por ter desbancado a Disney no Oscar mas o próprio Pinóquio. Não é algo que se possa ignorar. A própria história tem algo de muito peculiar, ela se inicia de forma diferente, de forma que já é um soco no estômago para os que a vêem, ali já prova que não veio com o intuito inocente de mero entreterimento, é até pertinente dizer que talvez não tenha vindo sequer com objetivo de ser para crianças.

Vê-se Gepetto como o conhecemos, um velhinho de barba, com uma áurea fofa e doce, tal qual muitos velhinhos que se conhece. Todavia o diferencial aqui é que a narração se inicia com o próprio grilo falante, nomeado de Sebastião. Incrível pensar que ele assume uma energia intelectual, de um narrador analítico que ao ver os fatos de fora, assume uma postura mais séria, no filme de Del Toro ele é um romancista, alguém buscando um local para escrever sua obra e encontra o pequeno local onde Gepetto mora. Algo de muito inusitado começa a ser contado com relação ao artesão. 

Não se pode negar que Del Toro tem sua peculiaridade. A Forma da Água e O Labirinto do Fauno demonstraram que existe algo de muito profundo nas mensagens do diretor, algo de muito misterioso mas que ao mesmo tempo causa-nos um conforto, todavia sempre há um ponto convergente em suas obras e nestas três em particular é a guerra. Muitos filmes que são versões diferentes de outros outrora lançados acabm vindo para esclarecer pontos
obscuros e dúvidas persistentes por anos a fio, aqui fica claro esse lado paterno de Gepetto e o porquê é tão aflorado. Segundo o início, antes de Pinóquio ser construído, Gepetto tinha um filho. De nome Carlo, o menino havia falecido com 10 anos de idade e levado junto com ele também a vida de seu pai, viviam sempre juntos, se amavam, nada faltava a eles por mais simples que fossem suas vidas.

Para uma primeira cena repleta de emoção, canções e ternura entre um pai e um filho com desfecho trágico por conta de uma bomba lançada de um avião, já é o bastante para levar os mais endurecidos às lágrimas, ali já se percebe que os corações mais sensíveis sentirão o quão forte esse bonequiho de madeira bate. A solidão de Gepetto em determinados momentos é palpável, aliás o filme inteiro toca em temas tão profundos que os adultos são justamente os que sentem mais porque já passaram por muitas coisas, muitas experiências, logo há uma compatibilidade com Gepetto.

Interessante perceber que por mais que o gráfico e os bonequinhos sejam fofos, tudo ali é de uma humanidade visceral. Quando se narra sobre os sentimentos de Gepetto, logo se percebe duas coisas : luto e depressão. O luto é mais familiar dos adultos, embora crianças possam sofrer perdas, os adultos devido tempo de existência tem mais probabilidade de vivenciar essa separação, no caso mostrado no filme é uma separação de pai e filho, o que torna tudo mais doloroso. O luto é um processo, todavia por mais que ele tenha uma fase final, não significa que a ausência deixe de ser sentida. Com nosso artesão, vemos um luto que perdurou, estacionou na fase da dor, levando a uma depressão profunda. Todas as pessoas da vila de Gepetto conheciam ele e seu filho Carlo, conheciam-nos, cumprimentavam e achavam o menino muito doce, contudo quando Sebastião menciona o período em que Gepetto está vivenciando a dor, ele diz que ele “trabalhava pouco e comia menos ainda”, ou seja, uma depressão profunda assolou a vida do velhinho que ele mal conseguia fazer as atividades ditas básicas. A velha história de que o mundo seguiu em frente mas ele não. Percebe-se isso também no modo como as próprias pessoas de sua vila passam a encará-lo. Com a depressão, o trabalho ausente, Gepetto foi de “ciddadão italiano exemplar”, “ótimo pai” e “talentoso” a “bêbado” de forma bem rápida, demonstrando que se o próprio indivídio tem dificuldades de lidar com depressão e luto, o mundo em volta talvez tenha mais ainda.

E a partir de uma noite na qual Sebastião chega na velha casa, Gepetto tem talvez a mudança de fase do luto, em um acesso de raiva acha que pode trazer seu filho Carlo de volta na forma de um boneco de madeira. A esse pequeno boneco é dada a vida para que possa encher os dias de Gepetto de luz e aplacar sua solidão. Contudo, não seria algo tão
simples, se fosse não seria Del Toro. Exite uma adaptação, afinal, Pinocchio é um menino imperfeito e Gepetto reluta em aceitar tamanha indisciplina proveninete de seu novo “filho”. O próprio Sebastião menciona que existem pais imperfeitos e filhos imperfeitos, mas se houver uma análise da história, a busca frenética de Pinocchio em busca de se tornar “um menino de verdade” seja em que versão for, é apenas um detalhe, pois em termos de atitudes, aprendizado, sentimentos para com amigos e família, Pinocchio já é um menino de verdade, esculpido no pinheiro da mais pura humanidade e suas falhas vãs.

E o ponto da humanidade de Pinocchio não se dá apenas na indisciplina de não ir a escola, desviar seu caminho para ser uma estrela de circo ou mentir, se dá também na questão da própria morte, que de um modo até torturante está presente do início ao fim. Pinocchio é um boneco de madeira, logo de uma modo lógico, a vida lhe foi dada, ele não nasceu propriamente dizendo, logo sua morte tão pouco é literal, o que faz com que ele assim como as árvores centenárias que se conhece, viva longos períodos e se “morto” tende a voltar assim como galhos e mudas novas crescem novamente. Ele não percebe o quão cruel isso pode ser a longo prazo e até fica empolgado com a ideia de “imortalidade”, até que a própria personificação da morte diz que justamente o que torna a vida humana tão bonita é justamente o fato de que cada momento pode ser o último e uma vida pode trazer sofrimento, mas uma vida eterna pode trazer um sofrimento eterno. Ali se tem um breve lampejo do conto original e da busca de Pinóquio em busca de ser “um menino de verdade”.

Muito embora as outras versões de Pinóquio girem em torno dele se tornar de carne e osso, aqui tudo é mais metafórico e ao mesmo tempo literal. Ele pode nunca sentir as sensações fisicas que um ser humano, todavia em termos emocionais e morais, existem todas as arestas tão tipicamente humanas. E a medida que Pinóquio vira “de verdade” até mesmo sua madeira fica mais vulnerável, com mais fragilidade. Na altura na qual ele é mandado para o chamado campo dos meninos rebeldes, pode-se considerar tão de verdade que sua percepção está mais nítida, já tendo passado pela exploração do circo, visto a maldade, ele já consegue perceber muito bem onde e que momento vive. Como dito, a guerra é algo presente nos filmes de Del Toro, e quase sempre as figuras vilãs tem uma repulsa, uma energia tão vil e torpe que são facilmente odiadas, Pinóquio e os outros meninos orientados por uma dessas figuras começam a não apenas entender mas vivenciar a guerra, algo que uma criança vendo o filme pode não entender mas um adulto vendo, sente um aperto de pensar o quanto crianças tão novas eram inseridas nesse meio sem nem ao menos terem altura ou idade, tudo sob alegações falsas de responsabilidade com pátria e outras.

No mais tardar, muito da história se repete, a baleia, o salvamento e o final “feliz” entre mil aspas. Pinóquio não tem um final dito cheio de canções e fofo como talvez se esteja habituado a ver em desenhos, todavia um final reflexivo e possível considerando toda a prerrogativa a qual a história se propõe. O filme trata de perdas, logo no início já se percebe isso, perda de inocência, perda de percepções em nome de outras, perda de pessoas... e do quanto essas perdas fazem parte de nós e como devemos, ainda que não nos seja agradável, aprender a carregá-las. Literalmente se termina com todos os canais emocionais abertos e tal como Pinóquio, com a sensação de que é de fato isso que nos torna “de verdade”.


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