Segundo uma pesquisa sobre
rejeição de parceiros, muitas pessoas rejeitam piercings e cabelos coloridos. A
explicação relacionada com a evolução da espécie diz que este sentimento do
homem na sua primitividade ser avesso à novidades. Em outras palavras, o
Uga-Buga de um bando rejeitava qualquer indivíduo que se apresentasse de forma
diferente do seu bando.
Hoje, milhões de anos depois, não
somos mais nômades, não caçamos pra comer nem precisamos nos deslocar em bando
para sobreviver, mas a aversão ao diferente permanece. E vários tipos de
aversão que se converte em preconceitos, falas e olhares tortos. Mesmo a aversão
a que pensa diferente de você faz muitos buscarem qualquer característica
física ou qualitativa na pessoa a fim de diminui-la.
Em especial no país em que
vivemos, qualquer coisa que se sobressaia um pouco mais já é motivo pra um
olhar mais torto ou atravessado. Seja em aparência, por gostos, hobby ou
opinião, alguns tendem a ser olhados com mais estranheza que outros, afinal
certas coisas, ainda que nada tenham de anormais, são olhadas como se fossem.
No país do futebol parece
estranho que alguém prefira games e fuja daquela social pelada, não queira uma
bola de presente ou sequer se interesse por cultura brasileira, preferindo
coisas de fora que a seus olhos pareçam mais interessantes. Em um lugar onde o
clima normalmente é quente, como conviver com aqueles que gostam de casacos
pesados, coturnos, modas alternativas? Ou simplesmente ter um cabelo diferente
do velho liso/cacheado/crespo de cor loira/castanha/preta? Acessórios como
piercings, brincos transversais, turbantes, em brancas ou negras, é olhado como
o fim do mundo.
No mês em que comemoramos o Dia
Nacional do Cosplayer, vi o quão tóxica pode ser essa reminiscência ancestral.
Na verdade vejo toda vez que há um evento e nos depoimentos dos cosplayers
sobre o que acontece do momento que estão saindo de casa até o momento em que
voltam. Cosplay é a arte de se vestir como um personagem. Seja de filme,
desenho, anime ou série, originais também valem. Nasceu meio tímida, hoje,
contudo, tem adeptos do mundo todo.
E leia-se aqui, não só adeptos
mas também eventos e competições sérias que reúnem esse público, estimulando
cada vez mais a arte. Aqui no Brasil, possuímos bons representantes no ramo. Os
Irmãos Somenzari fizeram bonito representando o país na Copa Mundial de
Cosplay. Só ressaltando que em termo de cosplay somos tri-campeões mundiais.
Logo, me surpreende haver tanta ignorância e rejeição contra o diferente. Não
só o diferente hobby do cosplay, mas diferentes esses que além de serem
hostilizados, são totalmente inofensivos e nada prejudicam quem está inserido
neles.
Por isso eu acho engraçado. Acho
uma palhaçada o Brasil sediar as Olimpíadas, da mesma forma como foi engraçado
sediar a Copa. Não toco no ponto de indignação, pois afinal, é como se já
estivéssemos tão acostumados a rachaduras na saúde e educação e roubalheiras,
que é até lucro ter um evento que faça o mundo olhar pra cá. Toco no ponto de
que é engraçado pensar que receberemos pessoas do mundo inteiro, leia-se
pessoas que falam línguas diferentes, que tem olhos e cabelos diferentes,
costumes diferentes, usam adornos diferentes... Definitivamente o mundo não é
igual a nós, contudo sequer conseguimos lidar com as diferenças das pessoas que
vivem no próprio país, o que dirá lidar com a diferença dos outros. É velha
história: arrume sua casa primeiro antes de arrumar o que está fora dela.
Talvez seja por isso que os turistas vem aqui e dizem: “Oh, beautiful!
Beautiful!” ou “C’est magnifique!”, porém não há muitos que queiram realmente
ficar aqui, ao passo que há muitos brasileiros que querem sair daqui.
E eu ainda nem estou mencionando sexualidade, religião e cor, que são os pontos mais delicados e relevantes
quando se trata de “diferença” e que fazem as estatísticas de intolerância com
relação a estes três pontos e violência engordarem de sobremaneira. Falo de
coisas simples, bobas até. Um piercing no septo nasal, um piercing no nariz,
uma tatuagem na nuca, uma camiseta de super herói, uma roupa diferente, um
cabelo colorido. Coisas que não deviam incomodar ninguém ou ser motivo de
risada, mas faz você ser olhado como um ET por ser diferente. E muitas vezes
por pessoas que também sofrem algum tipo de preconceito, de outro teor, porém
ainda assim preconceito. Tristemente constato que muitos casos se apresentam
dessa forma: você tem o teto de vidro, mas gosta de jogar pedra no telhado do
outro mesmo assim.
Essa aversão muitas vezes começa
em casa. O ambiente em que você mais deveria se sentir acolhido. Relatei uma
situação assim a um mês, de casa ao carinha que vendia balangandã, aquele olhar
de surpresa para a roupa e as mechas vermelhas. A surpresa inicial ao que foge
do padrão é aceitável, mas passados alguns segundos a naturalidade devia
aparecer, sorte que há alguns que enxergam além de uma roupa, um piercing ou
uma tatuagem de super herói e veem uma outra pessoa ali, que como você tem
gostos e vontades mas que não necessariamente iguais aos seus. Nesse mesmo
relato, falei de uma senhora de meia idade que disse: “Adorei o estilo de
vocês. Era assim quando jovem” e na mesma tarde, uma moça que pediu para tirar
fotos com aquele casal de jovens alternativos que somente quiseram um look
diferente para um cinema.
Muitas pessoas que agem dessa
forma ao diferente adoram a Metamorfose Ambulante do Raul Seixas, entoam como
se fosse um hino porém pouco praticam o que ela quer dizer e pouco respeitam
quem a segue. Se excitam com filmes dos X-men, mas além de não notarem a
mensagem do que é ser um mutante na história, tratam como “mutante” quem está
caracterizado na fila do cinema. Ser
diferente se você não prejudica nem fere ninguém não é ruim. A própria palavra “diferença” é usada na falta
de uma melhor, afinal, se ser diferente é o que vemos, devia ser encarado com mais
naturalidade. Algumas pessoas no meio da população conseguem, sabem admirar,
batem fotos porque olham e acham interessante, por mais gente assim, porém
talvez ainda seja preciso pelo menos mais 500 anos pra que o Brasil possa
começar a ser chamado de “civilizado”.
Não se deve perder a esperança.
Talvez seja possível de que num futuro o diferente por aqui, independentemente
de que teor seja, possa ser olhado de forma natural e respeitado. E aí sim
poderemos receber os eventos mundiais com todas as pessoas e sua carga de “diferenças”
com o peito mais aberto e a consciência mais leve.
























