De forma totalmente inédita, o Rainha das Rainhas foi num sábado. E lógico que domingo as redes estão pipocando com as considerações e opiniões sobre o concurso. A grande vencedora deste ano foi Lohanne Lima, do Clube do Remo, com a fantasia com tema
“Parvati: a energia indiana do amor”, apresentação bonita, candidata experiente com mais de 25 títulos de beleza, porém obviamente que gerou polêmicas.
O
Rainha das Rainhas é tido como um concurso muito tradicional do Estado do Pará,
sendo inclusive declarado como Patrimônio Cultural e Artístico Imaterial do
Pará, em 2024. O slogan é sempre “o maior concurso de luxo e beleza da Amazônia”,
afinal, desde suas primeiras edições sempre esteva relacionado com os bailes de
carnaval e indiscutivelmente, é um evento relacionado com a elite da cidade. O
custo para a preparação das candidatas, contando com coreografia, fantasia,
cabelo, maquiagem é alto e lógico que prezam também para a escolha da própria
candidata, a qual não apenas é membro do clube como também precisa ter os
critérios e atributos físicos para representa-lo.
Para
os que são de fora do estado pode parecer um tanto quanto difícil de visualizar,
uma vez que a visão de carnaval, resplendor que se tem no imaginário geral
nacional seja o do Rio-São Paulo, porém as fantasias do Rainha são um conjunto
de elementos. É como se cada uma delas contasse histórias, um enredo contido
num único resplendor, cujos elementos se interligam. Tato as cores, quanto os
detalhes da fantasia, a trilha sonora, a expressão e claro, a própria candidata
que está dentro.
Assisto
Rainha das Rainhas desde que me entendo por gente. Desde o tempo que terminava às
4h da manhã e todo ano, quase sempre uma das candidatas levava tombo, então
creio que posso dizer que vi como as fantasias evoluíram. Lógico que os
critérios de beleza, dança, desenvoltura e fantasia são levados em consideração
e julgados até hoje, porém com o avanço de materiais é óbvio que há mais coisa
para julgar do que havia há 25 anos atrás. Em tempos antigos, mesmo quando não
havia resplendor, as moças ganhavam usando o corpo, na raça, era com sua expressão
corporal, com o sorriso, com a espontaneidade das coreografias, o resplendor
tinha seu valor e parte, porém muitos deles se não conversassem com as moças nem
houvesse uma boa sincronia da trilha e da expressão corporal, o encanto se
perdia.
A
vencedora deste ano, com muitas críticas, levou o título com uma fantasia
relativamente simples. Tudo que teve de artifício dito excepcional foram
algumas luzes de LED. Mencionaram a desenvoltura da moça na dança, as cores que
conversavam entre si, porém isso muitas outras também tiveram e com muito mais
elementos em suas fantasias, mais harmonia e colorido. Não faltou quem dissesse
que foi injusto considerando a primeira princesa. Olhando uma segunda, terceira
e quarta vez, porém, foi possível entender o porquê de o título ter ficado com
Lohanne. Não que tenha sido desonesto com ela, de fato, ao comparar com rainhas
de outras edições se percebe o raciocínio, entretanto não se pode dizer que não
se sente pelas outras princesas que tiveram também execuções incríveis.
cor. Outras também arriscaram. A candidata do Paysandu, cuja beleza e porte chamavam atenção desde o início foi a primeira que se viu sair da fantasia para executar um samba, claro que há riscos com isso. Não apenas a questão dos encaixes como também retomar o carregamento de um resplendor pesado que pode gerar acidentes ocasionais.
sua fantasia numa cabine de mágica. Um truque que casou muito bem com a apresentação e ela soube executar no tempo certo. Afinal, outro risco potencial além de ter que encaixar e carregar uma fantasia pesada novamente é justamente a perda do time, o que pode gerar atraso e incompatibilidade de ritmo durante a coreografia.
das duas faces, ali deu origem a engenharias que poderiam ser utilizadas nas fantasias. Tanto que foi nítido o avanço a partir daquele ano, os materiais ficaram mais elaborados, o LED foi descoberto, truques com fumaça e até mesmo uma estrutura com artimanha suficientemente boa para a candidata se pendurar no esplendor.
Tudo
isso tornou o concurso mais interessante. Tanto que houve ano que toda e praticamente
toda fantasia tinha LED, foi como se os efeitos especiais do cinema tivessem
invadido o concurso. Entretanto sempre se precisa remeter ao básico que é a
candidata. Mesmo depois de anos, com todo o avanço, os resultados ainda dão
esse tapa que faz as equipes caírem na real: a candidata ainda é o destaque
mais que os truques de seu resplendor.
Em 2017, Clícia deu origem ao truque de se pendurar na fantasia. Ao encarnar o relógio Big Ben, virou de ponta cabeça em 180º fazendo suas pernas de ponteiro. Algo tão ousado que nem a repórter que apresentava o concurso pôde evitar ficar boquiaberta. Contudo por mais que nos anos seguintes o truque tenha tentado ser reproduzido em outras fantasias, por
outros clubes, uma das candidatas não conseguiu realizar de forma segura, durante a própria apresentação dela, era notório que ela estava pouco à vontade, perdeu o time várias vezes, estava travada na apresentação e na hora do que seria o auge, não foi executado da forma correta. Então dado o certo risco da manobra foi proibido.
Em 2019, Isabele com sua fantasia remetente a uma deusa viking teve de tudo um pouco em sua apresentação. Teve o LED que remetia a morada da personagem, sua roupa e pintura corporal conversavam com o tema, teve acessório e teve expressão corporal com uma
abertura de pernas, na qual ela pousou a fantasia no chão e se apoio na estrutura. A trilha foi uma combinação de três músicas que casaram perfeitamente com suas expressões que variavam da força ao sorriso, sem artificialidade.
Nos
anos seguintes sempre haviam truques presentes nas fantasias, sejam as
viradinhas, sejam máscaras com fumaça, porém as vencedoras sempre tinham o
sorriso como principal arma e a expressão durante suas execuções. Lógico que em
todas as edições praticamente sempre tem o que eu chamo de “fantasia vergonha
alheia”, é aquela candidata que é linda, porém com uma fantasia que em nada lhe
valoriza, seja pelo tema, seja pela forma, coisas que enquanto público se
pergunta: “quem foi que fez essa fantasia?”, os elementos que no fim geram não
somente nenhuma possibilidade do título, mas também um constrangimento a
candidata.
Em
muitas edições anteriores era possível também se ver o quanto muitas moças
caiam, ou elementos de suas fantasias se desmontavam no meio da apresentação. Esse
ano mesmo, uma das penas da Rainha se desprendeu e em certos momentos é
possível ver o receio dela de tropeçar. O peso da fantasia contribui
sumariamente pra isso, não é apenas carregar, mas se movimentar livremente com
ela e ainda sorrir como se não estivesse fazendo força alguma. Nesta edição,
apenas uma das candidatas estava de salto, décadas atrás era o contrário.
Algumas mudanças como proibir animais vivos e determinados elementos que
poderia ser perigoso também auxiliaram pra que as candidatas tivessem maior
segurança em suas execuções.
Paula Diocesano, ao encarnar sua índia e a cobra Tule ere foi coroada soberana do carnaval. Cabe lembrar que a fantasia de Paula também continha simplicidade, também causou surpresa aos jurados quando foi coroada, entretanto, inegável dizer que tal como Lohanne, ela também ganhou na raça, na pura força do corpo, da dança, da expressão, dos movimentos. Em suma, foi o simples bem feito no qual o menos foi tudo.


