domingo, 23 de fevereiro de 2025

Resenha Rainha das Rainhas 2025

 


De forma totalmente inédita, o Rainha das Rainhas foi num sábado. E lógico que domingo as redes estão pipocando com as considerações e opiniões sobre o concurso. A grande vencedora deste ano foi Lohanne Lima, do Clube do Remo, com a fantasia com tema
Parvati: a energia indiana do amor”, apresentação bonita, candidata experiente com mais de 25 títulos de beleza, porém obviamente que gerou polêmicas.

O Rainha das Rainhas é tido como um concurso muito tradicional do Estado do Pará, sendo inclusive declarado como Patrimônio Cultural e Artístico Imaterial do Pará, em 2024. O slogan é sempre “o maior concurso de luxo e beleza da Amazônia”, afinal, desde suas primeiras edições sempre esteva relacionado com os bailes de carnaval e indiscutivelmente, é um evento relacionado com a elite da cidade. O custo para a preparação das candidatas, contando com coreografia, fantasia, cabelo, maquiagem é alto e lógico que prezam também para a escolha da própria candidata, a qual não apenas é membro do clube como também precisa ter os critérios e atributos físicos para representa-lo.

Para os que são de fora do estado pode parecer um tanto quanto difícil de visualizar, uma vez que a visão de carnaval, resplendor que se tem no imaginário geral nacional seja o do Rio-São Paulo, porém as fantasias do Rainha são um conjunto de elementos. É como se cada uma delas contasse histórias, um enredo contido num único resplendor, cujos elementos se interligam. Tato as cores, quanto os detalhes da fantasia, a trilha sonora, a expressão e claro, a própria candidata que está dentro.

Assisto Rainha das Rainhas desde que me entendo por gente. Desde o tempo que terminava às 4h da manhã e todo ano, quase sempre uma das candidatas levava tombo, então creio que posso dizer que vi como as fantasias evoluíram. Lógico que os critérios de beleza, dança, desenvoltura e fantasia são levados em consideração e julgados até hoje, porém com o avanço de materiais é óbvio que há mais coisa para julgar do que havia há 25 anos atrás. Em tempos antigos, mesmo quando não havia resplendor, as moças ganhavam usando o corpo, na raça, era com sua expressão corporal, com o sorriso, com a espontaneidade das coreografias, o resplendor tinha seu valor e parte, porém muitos deles se não conversassem com as moças nem houvesse uma boa sincronia da trilha e da expressão corporal, o encanto se perdia.

A vencedora deste ano, com muitas críticas, levou o título com uma fantasia relativamente simples. Tudo que teve de artifício dito excepcional foram algumas luzes de LED. Mencionaram a desenvoltura da moça na dança, as cores que conversavam entre si, porém isso muitas outras também tiveram e com muito mais elementos em suas fantasias, mais harmonia e colorido. Não faltou quem dissesse que foi injusto considerando a primeira princesa. Olhando uma segunda, terceira e quarta vez, porém, foi possível entender o porquê de o título ter ficado com Lohanne. Não que tenha sido desonesto com ela, de fato, ao comparar com rainhas de outras edições se percebe o raciocínio, entretanto não se pode dizer que não se sente pelas outras princesas que tiveram também execuções incríveis.

Esse ano uma das regras foi que a candidata era permitida sair do esplendor, algo que em outros anos descontava pontos. Muitas exploraram esta regra, inclusive a candidata do Cassazum, que ficou como Primeira Princesa, que acreditei inclusive que levaria o título, uma vez que explorou vários elementos como sair da fantasia, dança, duas faces da mesma fantasia para dois momentos distintos, além claro, da história regional e fantasia cheia de
cor. Outras também arriscaram. A candidata do Paysandu, cuja beleza e porte chamavam atenção desde o início foi a primeira que se viu sair da fantasia para executar um samba, claro que há riscos com isso. Não apenas a questão dos encaixes como também retomar o carregamento de um resplendor pesado que pode gerar acidentes ocasionais.

Em 2015, o truque de sair da fantasia foi a apoteose da vencedora Daiane. Ao encarnar uma ajudante de mágico, nada mais lógico, além da roupa e da expressão, do cenário do esplendor ela fazer um truque de mágica e ilusionismo na frente dos jurados, transformando
sua fantasia numa cabine de mágica. Um truque que casou muito bem com a apresentação e ela soube executar no tempo certo. Afinal, outro risco potencial além de ter que encaixar e carregar uma fantasia pesada novamente é justamente a perda do time, o que pode gerar atraso e incompatibilidade de ritmo durante a coreografia.

O Rainha evoluiu muito no quesito resplendor. O que antes era somente visual, agora também se transforma em um show de cinema. Quando a pioneira Taize Corrêa, com sua fantasia remetente a Deusa Tália fez a famosa giradinha, usando o truque inédito da fantasia
das duas faces, ali deu origem a engenharias que poderiam ser utilizadas nas fantasias. Tanto que foi nítido o avanço a partir daquele ano, os materiais ficaram mais elaborados, o LED foi descoberto, truques com fumaça e até mesmo uma estrutura com artimanha suficientemente boa para a candidata se pendurar no esplendor.

Tudo isso tornou o concurso mais interessante. Tanto que houve ano que toda e praticamente toda fantasia tinha LED, foi como se os efeitos especiais do cinema tivessem invadido o concurso. Entretanto sempre se precisa remeter ao básico que é a candidata. Mesmo depois de anos, com todo o avanço, os resultados ainda dão esse tapa que faz as equipes caírem na real: a candidata ainda é o destaque mais que os truques de seu resplendor.

Em 2017, Clícia deu origem ao truque de se pendurar na fantasia. Ao encarnar o relógio Big Ben, virou de ponta cabeça em 180º fazendo suas pernas de ponteiro.  Algo tão ousado que nem a repórter que apresentava o concurso pôde evitar ficar boquiaberta. Contudo por mais que nos anos seguintes o truque tenha tentado ser reproduzido em outras fantasias, por
outros clubes, uma das candidatas não conseguiu realizar de forma segura, durante a própria apresentação dela, era notório que ela estava pouco à vontade, perdeu o time várias vezes, estava travada na apresentação e na hora do que seria o auge, não foi executado da forma correta. Então dado o certo risco da manobra foi proibido.

Em 2019, Isabele com sua fantasia remetente a uma deusa viking teve de tudo um pouco em sua apresentação. Teve o LED que remetia a morada da personagem, sua roupa e pintura corporal conversavam com o tema, teve acessório e teve expressão corporal com uma


abertura de pernas, na qual ela pousou a fantasia no chão e se apoio na estrutura. A trilha foi uma combinação de três músicas que casaram perfeitamente com suas expressões que variavam da força ao sorriso, sem artificialidade.

Nos anos seguintes sempre haviam truques presentes nas fantasias, sejam as viradinhas, sejam máscaras com fumaça, porém as vencedoras sempre tinham o sorriso como principal arma e a expressão durante suas execuções. Lógico que em todas as edições praticamente sempre tem o que eu chamo de “fantasia vergonha alheia”, é aquela candidata que é linda, porém com uma fantasia que em nada lhe valoriza, seja pelo tema, seja pela forma, coisas que enquanto público se pergunta: “quem foi que fez essa fantasia?”, os elementos que no fim geram não somente nenhuma possibilidade do título, mas também um constrangimento a candidata.

Em muitas edições anteriores era possível também se ver o quanto muitas moças caiam, ou elementos de suas fantasias se desmontavam no meio da apresentação. Esse ano mesmo, uma das penas da Rainha se desprendeu e em certos momentos é possível ver o receio dela de tropeçar. O peso da fantasia contribui sumariamente pra isso, não é apenas carregar, mas se movimentar livremente com ela e ainda sorrir como se não estivesse fazendo força alguma. Nesta edição, apenas uma das candidatas estava de salto, décadas atrás era o contrário. Algumas mudanças como proibir animais vivos e determinados elementos que poderia ser perigoso também auxiliaram pra que as candidatas tivessem maior segurança em suas execuções.

O nível do Rainha das Rainhas esse ano foi bom, deve-se confessar que melhor do que o do ano passado, houve uma diversidade relativamente boa nos elementos e coreografias e tudo foi bem colorido e alegre. O Clube do Remo ganhou após 20 anos de geladeira, desde que
Paula Diocesano, ao encarnar sua índia e a cobra Tule ere foi coroada soberana do carnaval. Cabe lembrar que a fantasia de Paula também continha simplicidade, também causou surpresa aos jurados quando foi coroada, entretanto, inegável dizer que tal como Lohanne, ela também ganhou na raça, na pura força do corpo, da dança, da expressão, dos movimentos. Em suma, foi o simples bem feito no qual o menos foi tudo.