“Não
gosto de aventuras, elas atrasam a hora do jantar”. Quando Gandalf chegou no
Condado chamando o singelo Bilbo para uma aventura, este logo recusou pensando
em como deixaria sua toca e sua rígida rotina para trás. Passou o dia inteiro
fugindo do mago, porém a noite quando achava que sentaria tranquilo á mesa,
para desfrutar de sua refeição, sozinho como todos os dias, há batidas na porta
e aí se faz um verdadeiro redevu com a chegada e bagunça de treze anões,
bagunceiros, agitados com apetite de impigens brabas. Ali Bilbo apesar da
chateação foi confrontado com algo maior.
A
invasão, a dispensa arrasada, o barulho e cantoria foram só o início de uma
lição de moral que Gandalf queria dar: a de que Bilbo tinha se acomodado de
algum modo e usava sua rotina segura e sem grandes emoções como um escudo para
não viver algo maior do que a calmaria tediosa de sua toca. Ele é lembrado que
quando criança saia de casa a noite e voltava com os pés cheios de lama e
galhos, que sua mãe brigava com ele, mas ele nem
ligava porque buscava algo
maior do que a calmaria dos dias. “Quando foi que as colheres de sua mãe
ficaram tão importantes?”. Ali, Bilbo se lembra que um dia quis mais, quis ver
o mundo, porém seja por medo ou por comodidade, resolveu ficar quieto do que se
mover.
Isso
mostra algo muito comum a todos. Todos fomos o Bilbo criança e por vezes as
responsabilidades, a rotina exaustiva de um trabalho, de obrigações, de um
mundo cinzento fazem com que se esqueça que há um mundo lá fora, limpa-se os
pés sujos de lama, não se brinca mais com espadas de madeira, a criatividade e
sonhos morrem ou são enterrados em nome de se voltar para uma toca, segura sim,
mas sem grandes ofertas, sem maiores emoções, sem maiores movimentos e
indiscutivelmente, sem maiores sonhos.
Paulo Coelho
em um de seus livros disse que há sintomas de quando os sonhos morrem. E um dos
sintomas curiosamente é a paz. É como se a vida virasse uma tarde de domingo,
sem maiores emoções, sem maiores sentimentos que nos mova a algo maior do que
vivemos até
então. Há uma estranha sensação de que tudo “está bem”, um tédio
que não mais incomoda, mas abraça. Um conforto que de costumeiro não impulsiona
mais o desconforto e propicia uma acomodação, o tempo vai passando até que se
percebe que a tarde de domingo se estendeu demais e pode não haver mais tempo
para se correr atrás do que se perdeu, e grandes aventuras deixam de ser
vividas.
Bilbo na
manhã seguinte viu sua casa limpa, nenhum vestígio de que anões ou o mago
Gandalf haviam estado ali, nenhuma sujeira, nenhum móvel fora do lugar, era
como se tudo estivesse como sempre foi, assim como ele queria. Contudo algo
havia mudado. De repente uma chave foi gorada e uma porta aberta e Bilbo
percebeu que as motivações na gaveta não estavam perdidas, que o menino que
corria querendo achar criaturas mágicas estava ainda ali, lutando pra vir pra
fora. E nisso, ele percebe que queria viver a experiência e que sua toca se
tornara incômoda em seu silencia e prataria perfeitamente polidas.
Tal como
Bilbo em algum momento todos sentem um chamado. O ser humano não foi feito para
a inércia ou estagnação, seja física ou psicológica. A imobilização é a morte
em vários aspectos. Seja dos movimentos do corpo, seja dos sonhos, seja de
vontades há muito
deixadas para trás, o que representa um perigo para a vida e
bom funcionamento desta. E assim como o pequeno hobbit, vencendo seus medos,
suas neuras, seus melindres, saímos correndo para alcançar aqueles ou o que vai
nos propiciar um encontro conosco, com o que pode estar adormecido, perdido e
vão ser o fósforo a ajudar a acender velhas chamas, que nos façam encontrar novamente
nossa luz própria.
Gandalf e
os anões fizeram Bilbo sair de sua toca, motivaram-no a mais do que isso sair
do medo de enfrentar as coisas. No decorrer do caminho houve melindres, coisas
que o puxavam para trás, para voltar a sua clausura, foi importante para ele
também vencer a si próprio, se abrir para ver as coisas sem medo, enfrentar não
apenas os perigos físicos, mas os próprios, afinal, abdicar de sonhos e desejos
também é perigoso. E com isso, o hobbit foi mais longe do que nunca imaginou.
Viu paisagens, perigos, conheceu pessoas, conseguiu tesouros de um jeito como
mesmo criança nunca imaginou, provando que quando o amadurecimento se faz
presente, as aventuras imaginadas na infância podem ser melhores do que se
poderia imaginar.
Daí no
fim, ele pode voltar a sua toca, porém tal como Gandalf não podia garantir que
ele voltasse, este contudo garantiu que se ele voltasse jamais seria a mesma
pessoa, não apenas por sua redescoberta, porém pelas descobertas que fez com
todos. Bilbo descobriu
que por mais que sua toca seja bagunçada, você chacoalhado,
mesmo que possa voltar a segurança confortável, você também pode se abrir pra
sair de vez em quando e viver aventuras, com isso ter o melhor dos dois mundos:
ver o que há fora e ter um lugar pra onde voltar, lá e de volta outra vez...