Quando se trata de Malhação,
existem temporadas boas, médias, ruins, péssimas e as que nem deviam ter um
nome. Sempre digo que as temporadas boas da novelinha teen são aquelas em que
conseguimos lembrar do enredo, dos atores, dos nomes de seus personagens, da
utilidade que ela teve em mensagens fazendo com que não se tivesse a impressão
de que era apenas um preenchimento de horário até a novela das seis.
Arrisco a dizer que uma Malhação
já tem a prerrogativa de ser boa ou não já no seu anúncio. Considerando que
Malhação Viva a Diferença foi tida como uma das melhores temporadas em muitos
anos, quando uma novela muito boa acaba, o autor da substituta tem grande
responsabilidade de escrever algo muito bom (ou até melhor) de forma que o
público mesmo sentindo falta do que acabou, sinta que sua novela foi
substituída por algo que vale a pena, o que definitivamente não é o caso de
Malhação Vidas Brasileiras.
Logo quando começou a ser anunciada,
a nova Malhação já não parecia nem de longe ter a energia de Viva a Diferença. O
enredo já começa diferente mostrando que mesmo sendo uma história de jovens, a
perspectiva será a de um adulto. Segundo fontes, esta temporada é inspirada em
uma novela canadense chamada 30 vies, na qual a cada semana um personagem
específico é explorado. Até agora já foram abordados através destes
adolescentes problemas como gordofobia, distúrbios alimentares, relações
difíceis com os pais, assédio sexual e doenças na adolescência. Alguns tiveram
uma abordagem razoavelmente boa, outros assuntos podiam ter sido melhores mas a
“dinâmica” atual impediu. Assim como muitos outros fatores.
Um deles recai no fato de que
tudo (a absolutamente tudo) envolve a professora Gabriela, ao menos até um
tempo atrás. Ela é como o elo que mantém a ligação entre todos os adolescentes
personagens. O ambiente, consequentemente acaba sendo a escola na qual eles
estudam e quase sempre ele. Gabriela é uma professora competente e dedicada em
sala de aula, contudo quando se trata de seus alunos há uma intromissão
anormal, pra não dizer absurda.
Era um tipo de indiscrição que
ultrapassava o campo pedagógico, fazendo com que a personagem parecesse puro e
simplesmente intrometida em assuntos que não lhe diziam respeito, e assim, não
parecesse nem um pouco condizente com a realidade de fora das telas. Dóris, a
boa diretora do Cora Coralina em Viva a Diferença também se preocupava com seus
alunos, seus avanços e desempenho porém respeitava o espaço e tempo de cada um.
Em Vidas Brasileira, por exemplo,
quando ocorreu a situação com a aluna Verena de ser assediada por um professor,
Gabriela insistia avidamente até fora da escola com a menina para que ela
contasse sobre o ocorrido, os amiguinhos fizeram uma manifestação uma
manifestação com cartazes querendo a expulsão do professor. A comparação com
K1, de Viva a Diferença foi inevitável e a discrepância na qualidade da
abordagem ficou evidente. Ao contrário de Verena, o assédio vinha de dentro de
casa, do namorado da mãe sendo as mudanças de comportamento notadas pelas
amigas próximas. Estas inicialmente tentaram entender o ocorrido e com essas
informações comunicaram a diretora que por sua vez buscou a lei para interceder
pela aluna, coerente e educativo. Não houve intromissão pura, mas uma sequência
de fatos e ações sensatas a serem tomadas em uma situação assim.“Viva a Diferença” trouxe como
grande proposta a interação e amizade entre meninas diferentes em vários
sentidos, já em “Vidas Brasileiras” por mais que exista pessoas diferentes
envolvidas não há um ponto de equilíbrio entre os enredos.
Pérola, por exemplo,
era uma menina rica cujo pai foi preso por corrupção. Além de precisar lidar
com a situação financeira que mudara radicalmente, a filha de sua empregada,
Maria Alice chega e começa a abalar toda a rotina da casa e o namoro de Pérola
com o rapaz Alex. Este por sua vez, em um encanto súbito que teve até traços de
artificialidade e deslumbramento, sem qualquer reserva começa a cortejar Maria
Alice enquanto Pérola tenta (inutilmente) salvar seu namoro, lidar com todo seu
drama familiar e passa a ver Maria Alice como rival. No decorrer dos capítulos,
ocorre o inevitável: o namoro acaba, Alex fica com Maria Alice e as duas acabam
virando amigas quase irmãs.
Em “Viva a diferença” as
diferenças entre classes também não impediram uma amizade sincera entre os
envolvidos, incluindo questionamentos sobre outros assuntos como racismo e
violência. Elen era negra, inteligente e teve seu pai assassinado por engano, isso
não a impediu de se tornar amiga de Lica, menina rica, meio mimada, de pais
separados mas com inúmeras facilidades de vida. Ambas inclusive trocavam
experiências, conhecimentos e ajudas.
Nesse meio adolescente, em ambas
as temporadas, o assunto drogas também foi abordado, nesta nova de um modo
infinitamente mais fraco que na temporada anterior. No caso, Alex foi acusado
de tráfico, havendo tentativa do pai de livrá-lo da culpa através de meios
escusos e oportunismo deste de culpar a esposa Gabriela, que estava se
separando. Não foi um bom exemplo, visto que na temporada anterior houve
abordagem não só de drogas ilícitas mas também das lícitas, as quais começam a
ser consumidas dentro de casa, como álcool, além de remédios ditos milagrosos,
como foi o caso de Keila que queria emagrecer depois de sua gravidez. Já Lica
aproveitava sua posição mais favorecida para promover festas em seu apartamento para todos os amigos,
classe alta ou média como era o caso de seus amigos do Cora Coralina, regas a
vinho, vodca e em uma dessas festas, drogas ilícitas na qual Lica quase se
viciou.
Em uma dessas festas também foi
mostrada ótima abordagem do sexo na adolescência e em como adolescentes mesmo
novos já precisam ter noção de proteção e em como o assunto deve ser visto de
forma natural havendo preocupação com o prazer mas também com a saúde. Em “Vidas
Brasileiras” com os personagens Tito e Flora foi mostrada a perda da virgindade
de uma forma cômica com direito a velas pegando fogo no apartamento e chamada
de bombeiros, chegou infelizmente a um ponto até meio ridículo. Nas tentativas
de conseguirem uma oportunidade, de repente o fato se tornou um reality show no
qual todos os amigos não só tinham conhecimento como acompanhavam os acontecimentos
em tempo real, aumentando ainda mais a expectativa dos jovens e desconforto
para algo que devia ser a dois (pelo menos nesse caso).
Aliás, Vidas Brasileiras tem uma
questão com a coletividade que é bem séria. Não só evidenciada com Flora e
Tito, mas também observada no arco de Maria Alice. No caso a situação foi o
falecimento de um parente que obrigou a menina e sua mãe a irem até sua cidade
natal. Lá Maria Alice demonstra grande frieza a morte do tal parente que era
seu tio, chegando a cuspir em seu caixão. Fica claro que ela não gosta do
lugar e se sente desconfortável até em sair de casa. Logo é explicado que ela
sofreu uma desilusão com seu namorado e sofreu machismo da cidade e do tio.
Aliás esse ponto do machismo em muitas cenas recheadas de expressões clichês e
artificialidade prejudicou a mensagem passada.
A questão, porém neste caso de
Maria Alice, é que no meio desses acontecimentos, simplesmente e de repente
toda a turma de Maria Alice decide ir a tal cidade ficar ao lado dela, tal como
uma caravana, pegando carona na estrada e sem saber se havia lugar para uma
turma tão grande ser hospedada. Houveram incoerências assim em Viva a Diferença,
com Tina e Anderson sendo dois adolescentes querendo fugir munidos de uma
mochila nas costas e boa vontade, contudo no fim foram chamados a razão. Em
Vidas Brasileiras, é como se os amigos não pudessem mandar uma mensagem ou
esperar a amiga voltar para prestar as condolências.
Doença na adolescência foi
abordada de uma forma muito leve pra uma questão tão séria. Em especial se tratando de ELA, uma doença neurodegenerativa que causa incapacidades permanentes e a cada nova fase, são necessárias não só adaptações físicas como também sociais. Amanda que sofre dessa doença já apresenta algumas dificuldades sérias no caminhas e no uso das mãos. Contudo algo que foi salientado por outros críticos foi a questão familiar dela. Uma doença que necessita de cuidados constantes é uma circunstância na qual fica muito estranho que os pais da menina não estejam por perto, eles mandaram a
filha para outro estado sozinha considerando todas as dificuldades que ela
poderia vir a ter e em Vidas Brasileiras isso parece não ter nenhum problema. Inclusive ela se muda em um momento para a casa do namorado, o qual os pais sequer conhecem, sofre acidentes por falta de adaptações e o preconceito da avó do menino, dá a impressão de desamparo total para com a menina. Já em Viva a Diferença, Benê tinha um grau leve da Síndrome de Asperger, sendo
sensível a alguns sons e toques, que podiam desencadear crises. A mãe Josefina era uma verdadeira leoa e sendo
zeladora da escola onde Benê estudava, tinha um cuidado a mais aonde Benê ia e
também com suas amizades.
Aliás, é notório que por mais
amizade que exista entre os personagens de Vidas Brasileiras é como se fosse
uma espécie de simbiose, dificilmente se vê um destes adolescentes por ele
mesmo. Agora outros ambientes estão sendo mostrados além da escola, porém no
início se tinha a impressão que ninguém sairia dali e viveriam lá eternamente.
Em Viva a Diferença, As Five viviam juntas, porém se via as perspectivas
individuais, os avanços individuais, desejos próprios. Inclusive em uma opiniãopessoal, uma das cenas mais icônicas foi uma que marcou o fim de uma fase, na qual as amigas brigam e cada uma decide ir para um lugar diferente, sendo mostrado um quadro com o rosto das cinco indo para seus destinos se descobrirem e melhorarem. Quando voltaram, uniram-se novamente, contudo cada uma com amadurecimento individual. Creio que inclusive o término de Viva a Diferença foi um marco, todas terminaram como supostamente adolescentes terminam a escola: ingressando na vida adulta, fazendo um curso superior ou em algum outro processo que propicie conhecimento ainda que com todos os medos do novo. E mesmo com a alusão da separação de caminhos, com a sensação de uma amizade eterna.
A bola da vez em Vidas Brasileiras
é sobre o adolescente Michael, assumidamente gay que sofre preconceitos e
precisa lidar com outras situações decorrentes de sua orientação sexual. Ao que
dar a entender, ele ajudará outro adolescente a se descobrir. Lica em Viva a
Diferença também se descobriu junto com Samantha, sua colega e as duas
engataram um romance, foi uma surpresa para ambas, porém tudo de uma forma
natural sem angústias para nenhuma das duas.
Vidas Brasileiras está sendo uma
temporada que segundo fontes perdeu grande audiência se comparada com Viva a
Diferença. O modelo novo e o fato dos personagens dos arcos anteriores fcarem deixados
de lado a cada novo arco pode ter sido um fator para isso. Algumas coisas foram
corrigidas do início da novela para os capítulos atuais, contudo em muitas
cenas e muitos capítulos, talvez alguns de nós sintam vontade de gritar: “Voltem
As Five!”.









