Guerra, em especial a 2ª Guerra Mundial, é um assunto/tema que eu sempre tive aversão gratuita. Não me perguntem exatamente o porquê mas é algo que aparece das entranhas e dá um mal estar. De filmes a livros, a guerra é tratada de formas bem clichês e previsíveis. Ou é a visão da violência nas trincheiras, com sangue e bombas, ou é a visão poética de quem tenta amaciar a realidade (vide O menino do Pijama Listrado e A Vida é Bela) ou é a dura vida de quem viveu na pela o trabalho nos campos de concentração. Seja qual fosse a visão dada, eu corria, então qual não foi minha surpresa quando na livraria, o livro O Tatuador de Auschwitz me chamou atenção de tal modo que não só comprei mas devorei em dois dias.
Diferente de muitos, ele consegue englobar um pouco das três visões sem se tornar apelativo. Talvez o principal que faça ser incrível seja o fato de que além de conseguir isso, há um 4º e 5º elemento cruciais: o fato de que narra um amor proscrito e que tal romance é verídico. Histórias reais geram de cara um sobressalto, pois sabe-se que maquiagens não cabem. Neste caso é tudo tão natural e espontâneo que você não consegue ver outro cenário para os fatos, por mais terrível que ele possa parecer.
Tudo começa com Lale, um rapaz de 24 anos que tal como muitos de seu povo foi colocado em um trem rumo a um campo de concentração nazista em meados de 1942. As descrições não amenizam os fatos, é tudo muito rico, muito literal mas em nenhum momento floreado. É notório como tudo se dá em uma sequência lógica. Desde o medo do desconhecido até as terríveis percepções do que seria de fato tudo que estava por vir. Lale se mostra corajoso o tempo todo, mesmo quando está tremendo de medo. Ele conserva uma serenidade insana seja quando presencia coisas terríveis, seja quando precisa tirar do fundo de sua entranhas forças que parecem ter se escasseado.
No decorrer dos fatos, Lale precisa aceitar um terrível trabalho visando um pouco mais de possibilidade de sobrevivência: o de tatuador dos números dos prisioneiros recém chegados. É de algum modo fascinante descobrir através da história de Lale coisas que jamais aprenderíamos nas aulas de história. Por exemplo, o Tätoweirer, como ele era chamado, possuia certas regalias dadas pelos nazistas, como melhor alimentação. Isso possibilitava que Lale pudesse dar um pouco mais de alimento a outros colegas de outros blocos.
Daí em uma das levas de prisioneiros recém chegados, Lale avista uma moça a qual precisa tatuar. É tão fulgaz o encontro do olhar, mas em dado momento, ele sente que havia algo ali de diferente. Em meio a violência presente no campo, nasce um sentimento que cobre o mundo de algo melhor. Então se dispõe a conhecer a moça e ir atrás dela. Em uma das folgas (sim, eles tinham dias de folga) através de um acordo com seu guarda (sim, também haviam acordos) ele consegue chegar até a moça e se apresentar. Logo, os dias de folga passam a ser aguardados com expectativa.
O mais surpreendente é que todas as descrições ficam mais ricas e novos fatos inimagináveis do que eram estes lugares vem a tona. Os encontros de Lale com Gita (a moça), o modo como mesmo num ambiente tão hostil se consegue ver o colorido dos encontros, o desespero quando não se viam, o medo constante de não haver um amanhã. Lógico que você se envolve com os dois e vibra a cada vitória, obviamente que existem os empecilhos e dificuldades do próprio campo todavia logo outras surgem mesmo fora dele, e você não para de ler até o fim.
O Tatuador de Auchswitz não é apenas uma história de um amor em condições totalmente improváveis, para muitos até impossíveis, é uma história de esperança, de lição de vida, de como esse sentimento pode de fato mudar o que está ao nosso redor, de como ele pode nos fazer mais fortes e persistentes. E considerando a dureza que o amor desses dois teve que enfrentar, após a leitura, você sai com a certeza de que o amor definitivamente é o que pode mudar o mundo.