terça-feira, 20 de julho de 2021

O dinheiro sana as necessidades, mas não garante plena felicidade


Ultimamente tem rolado uma figurinha relacionando felicidade e dinheiro. Dizendo que quando se faz a afirmação de que “o dinheiro não traz felicidade” se está romantizando a pobreza, fazendo com que as pessoas tenham a ideia de que é preciso se conformar com uma situação vulnerável materialmente falando afinal, o dinheiro compra conforto, boa comida e todo tipo de bem material que proporciona a mais pura felicidade. Que o dinheiro compra tudo isso, é inegável. Agora, fato também é que não é porque você tem isso que será automaticamente feliz.

O dinheiro. Vamos pensar no que ele é de fato. Algum punhado de papel ou pedacinhos redondos de metal aos quais são atribuídos valores. Você troca essas coisas por outras que lhe são mais úteis, como comida pro seu corpo, cobertor pro frio, um teto... Sim, o dinheiro vai suprir suas necessidades. As necessidades são pontos

que estão praticamente de mãos dadas com sua sobrevivência. O que se necessita de primordial e imprescindível. Você precisa de comida, precisa de uma roupa minimamente boa que lhe cubra, precisa de uma casa que lhe abrigue e outras coisas que podem ser citadas aqui, remédios pro caso de doença e estudo pra que se possa crescer enquanto ser humano.

Todas essas coisas são perfeitamente compráveis e necessárias para a formação de uma pessoa em nossa sociedade. Muitos tem isso em excesso e de forma ostensiva até, do modo mais pomposo que o dinheiro pode comprar. O corpo precisa de comida, muitos gastam 1000 em uma conta de restaurante; precisam de uma casa, compram uma tão grande que sobram quartos vazios; precisam de uma roupa, gastam quatro dígitos em algumas poucas peças; querem o cobertor bordado com fios de ouro que brilham quando o sol aparecer na janela... E aí vem a pergunta: isso traz realmente a felicidade?

O contraponto aqui não é se negar a importância que o dinheiro tem, afinal, se você diz isso, é como se estivesse dizendo que não precisa dele pra nada, o que obviamente é um delírio tendo em vista a conjuntura atual que vivemos. Todavia o maior confronto é até onde vai o valor que alguém dá ao dinheiro e que espaço ele ocupa na vida deste indivíduo. Você pode ver esses pedaços de papel como algo que vai proporcionar sanção de suas necessidades e proporcionador de momentos de prazer, regalias e relaxamento, como também essas notas podem formar uma corda que sufocam e os pedaços de metal provocarem um tilintar tão forte que não deixam você dormir a noite.

“Ah, mas antes ser triste em Paris do que no ônibus”. É uma frase bem engraçada, considerando que quando se está triste, se estará assim em qualquer lugar e se vai enxergar tudo cinza de qualquer forma, pode até ser mais confortável em Paris, mas ainda assim

cinza. É extremamente perigoso colocar a felicidade apenas no que se pode comprar. Uma viagem, um objeto de coleção, uma bolsa de grife, porque há sempre o risco de se querer algo que não é propriamente comprável e aí, vem a decepção, o pesar de perceber que as notas não tinham todo o poder como se acreditava que tinham. No mundo dos famosos, podemos citar exemplos clássicos.

Quem não se lembra de Robin Willians? O ator tão risonho que fez gerações rirem com suas comédias? Ele mesmo antes de ser ator de sucesso faturando milhões já era rico. O pai era um executivo sênior de uma grande empresa, logo dinheiro nunca foi problema. Willians cometeu suicídio dentro de sua mansão. Chester, o ícone vocalista do Linkin Park, que fez história com seu rock, milhares de fãs, dinheiro,

se enforcou chocando o mundo com sua partida. Até mesmo o mais famoso youtuber do Brasil, Felipe Neto, já deu entrevistas dizendo que nunca teve tanto dinheiro e nunca foi tão infeliz, eu até entendo, ele tem notas pra fazer uma piscina como a do Tio Patinhas mas é tão criticado e odiado que talvez pareça ter só a piscina mesmo. Consideremos que ele teve uma infância pobre e hoje mora em uma mansão tão grande, que o estúdio dele de gravação é na própria residência, ter tanto dinheiro pra algo assim para os iniciantes que economizam mesada pra comprar uma tekpix e usam iluminação em cima de livros parece um sonho, todavia por algum motivo muitas pessoas que tem dinheiro sobrando não conseguem sentir essa tal de felicidade, por mais que possam comprar tudo que supostamente está relacionado a ela.

Por que será? Porque talvez como a maioria esmagadora, não saibam bem o que felicidade significa. A felicidade é algo relacionado ao seu cerne, a camada mais profunda do seu ser, logo, obviamente é algo que vem de dentro. Por isso, que por mais impossível que pareça, há pessoas que podem não ter muito dinheiro mas conseguem passar

uma felicidade que envergonharia milionários. A razão para isso é porque elas conseguem ressignificar as coisas simples nesse sentimento e mostram que os momentos de felicidade genuína pouco ou nada tem a ver com dinheiro. Muitas vezes tem a ver até com o caminho que se percorre para chegar até algo, que mesmo sendo material, o objeto material em si é o mais irrelevante perto do todo. É difícil de falar sobre isso para aqueles que possuem uma visão mais material e densa, principalmente se colocam o dinheiro sempre como fonte primária pra se conseguir a felicidade.

Muitos dizem que o dinheiro compra o remédio, é verdade, todavia não a saúde. O presidente do Santander era um dos homens mais ricos do país, ele morreu precisando de algo que é de graça: ar. E penso em como muitos que pregam tão veementemente a ideia de que o dinheiro resolve todos os problemas devem se sentir quando se deparam com algo que não se soluciona, mesmo que tenham muitas notas pra dar. Eu sempre digo que se um dos milionários daqui precisasse de um transplante, ele poderia ter o dinheiro que fosse pra comprar um órgão no mercado negro, traficar crianças ou quem quer que fosse pra tal, ainda precisaria achar alguém compatível e isso não dá pra comprar. Tal qual no filme Wolverine Imortal, um dos personagens podia ser multimilionário e ter todo o dinheiro para a tecnologia que prolongava sua vida, mas mesmo isso não traria a ele o corpo saudável sem os efeitos da radiação, porque o dinheiro ainda não consegue comprar tempo.

Colocar tanta expectativa, pra não dizer todas as expectativas na matéria é como se condenar a viver uma vida de paixões voláteis, sempre no plural. É ser movido sempre por objetos de desejo que vão mudar e se apagar mediante presença de outros que pareçam mais brilhantes. Você deseja comprar uma casa e consegue o dinheiro, mas aí ao visitar um parente vê que ele mora em um três andares com piscina. Sua casa que foi uma “felicidade” de repente

lhe parece feia. Compra um carro e se sente feliz andando com ele, se sente importante, aí a concessionária lança um novo modelo com bancos mais bonitos e espaçosos, o seu começa a parecer pequeno e você se sente frustrado de andar nele, a felicidade de outrora se fora.

Você compra aquele item de colecionador lindo, a empresa lança uma nova coleção e o seu parece defasado e não lhe dá mais a mesma sensação. É compreensível essa questão de sempre as coisas se inovarem, as empresas e todos os que trabalham nelas dependem do consumo e precisam sempre de coisas novas, conforme o mundo evolui. Mas como ocorre com qualquer coisa, o excesso se torna veneno, consumir em excesso crendo que isso traz felicidade quando

a matéria é tão volátil acaba se tornando um vício. Uma tentativa de preencher algo interno com algo de fora é estar sempre em eterna necessidade sem nunca conhecer a saciedade. Tanto que muitas pessoas que tem relativo dinheiro sempre dizem que estão sem ele. Podem morar no metro mais caro da cidade, viajar pra vários lugares e vestir grife, sempre dirão que estão "aperriadas", mas é porque no fundo queriam mesmo morar numa cobertura no metro mais caro da cidade, viajar pra Europa e vestir grife internacional.

O Capitão Barbossa no filme Piratas do Caribe inclusive faz interessante comparação quando conta a história de seu tesouro, ouro que reluzia mas estava banhado em sangue e uma cobiça insaciável, mas para quem deseja dinheiro e riqueza, isso se torna irrelevante, daí ele diz algo que fez pensar: “Nós encontramos, lá estava a arca e dentro o ouro. Pegamos tudo! Nós gastamos e trocamos por bebida, comida e prazer. Só que quanto mais gastávamos, mais ficava evidente que a bebida não satisfazia, a comida parecia pó em nossas bocas e toda a companhia do mundo não era suficiente. Somos homens amaldiçoados, senhorita. Éramos impulsionados pela cobiça, mas agora somos consumidos por ela”. Lógico que no caso de Barbossa e sua tripulação era bem literal, mas não significa que não possa haver metáfora com o real.  Colocar a felicidade em coisas assim é como ser um burrico com uma cenoura a frente, se consegue

sentir o cheiro, ver, até consegue tocá-la levemente mas sem jamais alcançá-la de fato. Tanto que não faltam escritores que inclusive mencionam que a riqueza e bens em excesso podem ser uma prova de vida mais difícil que a pobreza. O próprio Willians, segundo fontes ficava em dúvida se a aproximação era pela pessoa dele ou por ser filho de alguém tão rico e importante.

O dinheiro é importante, ele proporciona os bens que nosso corpo precisa, mas outras necessidades também precisam de nossa atenção e ele não atende a todas, por mais tentadora que pareça tal ideia. A falta total de dinheiro traz infelicidade de fato, mas a presença dele, mesmo em abundância, nem sempre é garantia de felicidade. As pessoas mais felizes do mundo talvez sejam aquelas que justamente não tiveram sua visão nublada pelo deslumbramento material, souberam dar o devido valor ao dinheiro sem superestimá-lo ao ponto de que ele assuma o controle.

Então convido a essa reflexão, o que realmente deixa as pessoas felizes? Mas uma felicidade genuína, tão genuína que não se dissipa como grãos de areia, mas permanece e é reavivada só com a mera lembrança. Será que esses momentos tem mesmo a ver com dinheiro? Uma questão para os sábios...
 

quinta-feira, 8 de julho de 2021

Extreme Look #37 - Azul e amarelo

 


Eu estava enferrujada! Senti isso quando comecei a fazer o look, deu um branco de início, algumas etapas da make ficaram meio balangandã mas aqui está, eu tenho o propósito de terminar certas coisas esse ano, os Extreme Looks são uma delas, afinal são dois anos de atraso. Curiosamente, esse é um ano em que nunca tive tanta coisa importante acontecendo junto, coisas que demandam sumária atenção, tipo um mestrado novo. Mas se tem algo que aprendi com anos de blog, página e etc é que não importa o que você esteja fazendo, você tem que preservar uma parte sua, o seu cerne. Na época em que perdi isso por um tempo, perdi quase tudo, era uma vida de acordar pesaroso. Então, o blog é meu cerne, maquiagens, fanfictions, eu gosto de fazer, é onde posso expressar as coisas loucas da cabeça. Então, aqui vai o look!

















sexta-feira, 2 de julho de 2021

Os anos 90, ah os 90! A melhor década que existiu

 

ATENÇÃO. Este texto contém SPOILERS sobre a idade da autora, coisas de sua infância e da melhor época do mundo

Um dia desses incrivelmente estava passando Os Goonies na televisão. Um clássico da Sessão da Tarde, que marcou uma geração, seja pela história, seja pela coisa singela, seja porque era simples. Puramente simples. Numa época em que os efeitos especiais eram escassos, a maquiagem era nitidamente com próteses até meio mal feitas, mas aquilo pra quem era criança, parecia a coisa mais fantástica do mundo. Eu percebi as pessoas ao redor e notei que haviam aqueles super empolgados, que riam gostosamente das cenas como quando provavelmente eram pequenos e aqueles cobertos pela mais pura indiferença. Daí, comecei a ser tocada por uma nostalgia, um sentimento até de pesar, não por envelhecer mas porque muito daquele tempo se perdeu nas brechas dos anos e coisas que eram realmente legais e incríveis.

Do início, a década de 90 foi uma época extremamente única. Por mais que hoje tenhamos uma internet mais veloz do que jamais tivemos, aplicativos que nos fazem alcançar os confins do mundo, a década de 90 foi e sempre será algo que na história jamais será esquecido. Pois bem, história do Brasil nunca foi minha favorita, todavia algumas coisas são extremamente pertinentes mencionar. Nosso país viveu uma ditadura militar até 1985. Muito de liberdade,


escolha e poder fazer algumas coisas sem medo só foram possíveis depois dessa data. Em 1988 é que pudemos ter uma constituição, em suma, foram décadas meio castrados em muitos sentidos. Não é a toa que muitos artistas mais polêmicos que se conhece nasceram nesse período de fim de ditadura e década de 90, ou seja, esse período teve um significado muito importante, marcando não só quem nasceu nele mas para outros.

Pois bem, ao meu humilde ver, percebendo o mundo após os anos 200 e sua fracassada profecia de fim do mundo, posso dizer que os anos 90 foram a década que mais se aproximou da perfeição. Mesmo que nossa política e cultura estivesse passando por profunda transformação, foi nesse período que se pode dizer que houve o divino equilíbrio entre a exposição de temas até ditos polêmicos e a naturalidade que eles eram encarados.

Os ditos “jovens” de hoje jamais saberão, mas a televisão naquela década era algo incrível. Sendo basicamente o único meio de entretenimento disponível, a maioria esmagadora da população só podia contar com ela, portanto, a programação recebia investimento pesado numa competição pela audiência. E isso era de segunda a segunda, 24h por dia. Antes da internet aparecer, havia programação de manhãzinha até altas horas da noite, pra pegar desde as crianças até a vida inteligente na madrugada. Muito hoje talvez seja difícil e

tenha dado errado porque os comerciais falando de drogas e do quanto eram nocivas pararam de passar em TV aberta. Você já sabia que era algo ruim pelo medo que eles davam. As propagandas erma mais criativas e marcantes, quem foi da publicidade naquele tempo, pode ficar orgulhoso, lembro de jingles de comerciais marcantes até hoje, ao passo que os comerciais atuais tem uma semana de validade.

Hoje parece difícil de imaginar, mas havia programas direcionados ao público infantil e quando digo programas, são aqueles com apresentadora cheia de tic tac no cabelo e mascote cantando

musiquinhas. Xuxa e Eliana tinham uma concorrência louca, você ficava passando de um canal pra outro pra poder aproveitar o máximo de cada uma. Elas hoje parecem adultas engessadas, mas já tiveram seus dias coloridos.

Os programas, ao contrário de hoje, tinham desenhos de real qualidade, o pessoal ficava grudado esperando desenhos novos, muitos dos que hoje parecem não saber muito das novidades japonesas iniciaram suas jornadas no finalzinho da década como otaku vendo Dragon Ball Z na TV Globinho, Monster Rancher no Bambuluá e Bucky no Band Kids. Todo mundo virava velocista pra terminar o dever de casa, as tarefas e sair correndo pra televisão e não perder. Havia a TVA, uma preliminar das TV’s por assinatura que conhecemos hoje, que nos apresentou a Fox Kids e o Cartoon Network, mas ainda assim era restrito ás famílias mais abastadas. Hoje temos muitas opções de planos com canais, plataformas com filmes, mas naquele tempo até quem queria ver filme de sexo escondido dos pais tinha que esperar a sessão privê da Band altas horas da noite e torcer pra não ser pego.

Afinal, meus caros, não era todo mundo que podia pagar um plano privado e não existia internet. A internet quando começou era discada, paga, cara durante os dias de semana e tão lenta que você ficava esperando tipo uma hora pra baixar uma música. Isso quando vinha cheio de vírus naqueles programas primitivos de download. 

Muitos esperavam o domingo só pra poder acessar a vontade com desconto. O MP3 quando surgiu foi novidade, porque o que muitos

ainda tiveram foi um discman (tocador de CD), sucessor do Walkman (tocador de fita), ambos armazenavam umas 10 músicas no máximo, mas se você tivesse um desses na época era considerado descolado. Muitos pediram de Natal porque era a coisa mais incrível e moderna que havia.

Dentre outros aparelhos, tivemos o videocassete, depois foi substituído pelo DVD e pelo Blueray. Mas ah, a Disney faturou com seus VHS! Especialmente porque você comprava um e vinha sempre uma propaganda do próximo filme que seria lançado. Eu tive uma

coleção de fitas VHS da Disney e das mais variadas. Nos supermercados e lojas havia uma sessão somente disso que vivia sempre cheia, hoje em tempos de Netflix, Amazon e Disney+ essa sessão vive jogada ás traças. Quando foi a transição pra DVD perdi quase todas as minhas fitas, incrível dizer que naquela época era caro, mas ainda há quem tenha. Quem não podia comprar as fitas na década de 90 recorria ás locadoras.

Sim, meus amigos modernetes, houve uma Netflix física um dia! Você ía nas prateleiras enumeradas e seccionadas de acordo com o gênero do filme, e ali, com toda a paciência do mundo, lia um por um, sinopse por sinopse e escolhia qual ia levar, filmes longos com três horas de duração eram divididos em duas fitas VHS, assisti Titanic assim. Sexta feira costumava lotar porque havia promoção 3 por 2 e você ainda ganhava pipoca de brinde. Se devolvesse não

rebobinada, pagava multa. Só esclarecendo, as fitas tinham um filme dentro que você precisava voltar no aparelho, pra ver o filme de novo do início, se devolvesse sem ter rebobinado, os funcionários tinham que ter o trabalho de faze-lo para o próximo cliente e você pagava uma multa por esse trabalho e gasto extra. As crianças de hoje jamais saberão o que era você fazer amizade com o atendente da locadora pra ele aliviar sua multa ou deixar você escolher filmes fora da sua faixa etária.

A televisão passava filmes também. Ainda há alguns remanescentes, mas nunca vou esquecer a difícil decisão que era escolher quando passava dois filmes que eu gostava tanto na Sessão  da Tarde quanto no Cinema em Casa. Classificação Etária (aquela coisa que avisam hoje antes de tudo que passa) era só uma mulher falando “Classificação 16 anos”, como eu era criança e não entendia patavinas o que aquilo significava, continuava vendo o filme mesmo assim. 

Com isso vi inúmeros filmes de terror, com insinuações sexuais, duplo (até triplo) sentido, não havia muito filtro nesse sentido e na boa, nós entendíamos, mas se não, passávamos direto. Invocação do Mal é bico, naquele tempo o Chucky e Hellraiser é que deixavam você sem dormir por três noites. E bem, naquela época, as crianças

eram obedientes, se alguém dissesse não, elas obedeciam. O problema é que foi uma época com pouco não, porque muito era encarado com naturalidade. Os nãos ficavam com as coisas que realmente importavam, tipo, não falar com estranhos na rua e não pegar nada sem pedir, hoje as crianças já tem Instagram desde o útero da mãe.

O mundo proibido. Classicão do Cinema em Casa

Vi coisas como a Bolha Assassina em plena tarde, filmes como O Mundo Proibido e Uma Cilada para Roger Rabbit, A Lagoa Azul, coisas que hoje gerariam um belo processo e escandalizariam as mães, o que no mínimo é contraditório visto que elas são dessa época, sempre me pergunto quando as pessoas que viveram tudo isso ficaram tão púdicas e cheias de reservas. Mesmo os filmes da Disney tão populares direcionados para o público infantil tinham lá suas polêmicas. 


A Lagoa Azul. Classicão da Sessão da Tarde

Muitas das coisas eram escancaradas, violência, sexo, homossexualidade... Alguns dos primeiros animes que vieram para o Brasil continham essas nuances sem lentes, sem filtros, sem película. Hoje parece que os desenhos são produzidos por pessoas que parecem gatos em uma sala cheia de cadeiras de balanço, andando na ponta dos pés, temendo quaisquer insinuação, quaisquer cor fora do lugar, quaisquer palavra inadequada que possa gerar a mínima polêmica. Na década de 90 haviam as mesmas coisas, eram escrachadas, mas não tinha toda essa repercussão talvez porque as pessoas eram mais divertidas, mais leves, não havia internet tão fácil e a disposição para textos longos questionando a cor de uma caixa de brinquedo.

Havia homossexualidade em Sailor Moon, Transsexualidade em Bucky, Sexo e violência em Dragon Ball Z, Digimon, mais sexo em

Tenchi Muyo, mesmo coisas como o chamado Bullying era feita de uma forma que era leve, vide Chaves e suas piadas com corpo. As crianças viam isso e levavam tudo de um jeito leve, a gente olhava, achava curioso, mas talvez entendesse só que passava direto porque estávamos mais preocupados em não perder os desenhos e ainda assim conseguir estudar para as provas do dia seguinte.

A televisão era algo sem comparação com hoje, havia comerciais de brinquedos, de muitas outras coisas, hoje com tantas opções e especialmente com o advento do celular e suas 10000 possibilidades de aplicativos, talvez investir em programação televisiva não seja lucro, por um lado até entendo, afinal são só negócios, mas friso que nisso Tio Silvio Santos foi gênio, ele foi o único remanescente a pensar que crianças ainda precisavam de desenhos. As mais humildes, que não podem pagar por planos de plataformas, pelo menos.

As músicas eram uma coisa que muitos papaizes e mamãezes mais impressionáveis também tentam esquecer. Quantos que não dançaram na boca da garrafa hoje ficam escandalizados com um mero “beijo na boca” em série ou trecho de música? A trilha sonora

Mamonas Assassinas e sua Excentricidade
da época era sensacional, porque a música era uma coisa meio que super democrática. O rádio era algo que tinha em 100% das casas, então absolutamente todo mundo, dos mais abastados aos mais simples ouviam música. Então era Mamomas Assassinas com suas músicas que falavam de todo mundo, nordestinos, LGBT, mulheres que lhes deram fora e foram um sucesso.

O pessoal se escandaliza com os funk, fazem textão de quando tocam nas festas dizendo ser péssima influência mas na infância, ouviam nos churrascos de domingo Reginaldo Rossi falando das mulheres gostosas, safadas, putonhas e levianas, das traições, dos gemidos, os boleros falando de cama e relacionamentos escusos, ouviram os bregas (Pará) nos quais o cara cantava que botava a

mulher “pra gemer”, “que só ia pra cama se fosse de camisinha”, dançavam o tchan, desciam por baixo da cordinha enquanto aquele tio bêbado estava jogado numa daquelas cadeiras de metal, isso quando eles próprios  não estavam jogadas enquanto todo mundo virava o copo. CD e som era algo que evolui sumariamente naquele tempo, não tinha essa de pen drive, o que se aproximava disso era um negócio chamado disquete que tinha espaço pra tipo dois ou três arquivos de texto.  

Em termo de música, tinham uns discos enormes parecendo um bolachão, as fitas cassete e depois os CDS que podendo comportar só umas 12 músicas, quem colecionava ficava com um sacolão cheio deles. Minha família levava aquela mala pra toda viagem a praia, éramos a família mais popular das redondezas porque a música não parava um minuto.

As festas eram uma coisa bem excêntrica também. Salão e recepção eram coisa rara, só quem tinha contatos ou condição financeira (apesar de ser uma época bem legal, notamos que as diferenças sempre existiam), caso contrário tudo era em casa mesmo. O tio, o avô, a mãe, avó, madrinha, todo mundo contribuía com alguma

coisa, seja fazendo a decoração, os comes e bebes, os doces, bolo, cada um usando o que sabia e sempre virava um festão. Acho que não só o que pode parecer relaxamento com relação a polêmica que existia, mas os valores tinham algo de excepcional. As pessoas tinham uma capacidade de improviso incrível e valorizavam o trabalho manual. A casa podia ser pequena, mas um radinho com música, uma mesa cheia de salgadinhos, peru com farofa e balas de coco com certeza tinha, sempre davam um jeito de botar mais convidado nem que fosse emprestando mesa e cadeira do vizinho.

O bolo era todo com cobertura de manteiga, açúcar e corante, um negócio cheio de gordura nitrogenada que lhe dava tanto prazer a cada mordida que você sentia a conexão com seus ancestrais da caverna. Não eram as mesas firulentas de hoje com docinhos e
brindes milimetricamente contados e bolinhos de pasta americana chique. Não tem mais o bexigão de balas, ali era o primeiro teste da vida no qual você percebia que se não corresse atrás do que queria, ficava sem, seus instintos competitivos despertavam na hora quando o que estava em jogo era o Big Big. Antes as coisas eram fartas, porque por ser um dia de festa tinha que ser especial, os convidados saiam com a sacolinha de brinde e comida pro dia seguinte. São coisas que hoje só vemos em casas mais simples, que conservam esse costume das festas caseiras em família e fazem questão de que todos saiam extremamente satisfeitos.

As pessoas liam mais. Claro, as histórias eram aquelas mais tradicionais de contos de fada, princesas e heróis. As pessoas compravam revistas em quadrinhos para seus filhos. As revistas relacionadas a curiosidades de artistas, coisas da adolescência e atividades se consolidaram, álbuns de figurinhas eram uma febre. Isso foi diminuindo a medida que celulares e tablets foram surgindo com toda a sua tecnologia e modernidade. Livros com figuras

coloridas eram devorados e encapados com plástico transparente, as crianças de hoje não tem muito o hábito de ler, percebe-se a dificuldade quando chegam em séries mais avançadas. Infelizmente, serão adultos mais fechados. “Nunca deixe seu filho chegar a internet sem ter passado pela leitura e pelo escrever”, eu ouvi. A pessoa tem toda razão.

A geração noventa foi uma das melhores, talvez uma das menos traumatizadas pois o contato uns com os outros era maior, tínhamos poucos recursos que substituíam o contato como hoje. Lógico que mandar mensagens por aplicativos, falar com alguém longe em tempo real é muito melhor que esperar duas semanas por uma carta, todavia a praticidade também trouxe á tona tanta rugosidade e impressionabilidade que chega até mesmo a não condizer com todo o avanço dos tempos modernos. Existe inúmeras possibilidades de se compreender e comunicar, mas ao mesmo tempo é como se estivessem totalmente inertes e se chocassem, como se recusassem que possuem a capacidade de percepção e encarar com naturalidade coisas que sempre estiveram aí.

Os anos 90 foram permissivos em muitas coisas, o perfeito balanço entre não se chocar com o que era corriqueiro, sendo politicamente corretos ao extremo e dar valor ás coisas que de fato eram importantes. Você via coisas até chocantes na televisão tipo mulheres numa banheira com fio dental minúsculo mas sabia que não devia esconder nada dos pais; você via travestis (termo não correto, assim

eram chamados na época todavia) nos programas de calouros cantando, muitos tiveram entrada na televisão assim, hoje seria um rebu, mas era encarado com naturalidade, não se via motivo para choque. Não havia celulares modernos, mas você sabia que não devia desviar o caminho de casa, se o fizesse era quase uma aventura de tão perigoso.

Fomos uma geração que viu sexo, violência, homossexualidade e peitos de fora sem reservas, sem filtro e ainda assim fomos crianças bem inocentes, contraditório mas lógico. Por ver constantemente sem o enxame em volta, a naturalidade era tanta que se passava direto, aquilo era diferente mas não chamava atenção. Se de fato houvesse algo de cunho sério, os pais estavam ali prontamente para explicar da forma singela como a década de 90 foi. Os adultos que conheço que viveram nesse tempo de algum modo são leves, divertidos, fomos inocentes, mas não tapados, os melhores são aqueles que conseguiram ainda ter dentro de si, a reminiscência mais pura do quão exclusiva foi nossa geração. 

Garotinha loira: Geração atual
Vandinha: Nós dos 90

P.S: Quem quiser saber mais coisas dessa década, sugiro fortemente o Canal 90, do Nogy no Youtube