"Esqueça-os Wendy. Esqueça todos. Venha comigo para onde nunca mais vai ter que se preocupar com os problemas dos adultos"
Existe uma tônica curiosa em diversos autores famosos da literatura clássica e até da contemporânea. Para os leitores de plantão é possível perceber as diferenças de estilo e assuntos abordados. Contudo converge em um ponto comum, os escritores tem uma capacidade ímpar de criarem mundos e portas que sugerem estar fugindo dos próprios medos e vida.
Não raro perceber um enredo que por mais diverso que seja tem um caminho ou porta ou chave que são a possibilidade para algo incrível, um mundo diferente e com coisas extraordinárias nunca vividas até então. É como se houvesse um desejo secreto de mudar o vivido até ali. Quando se mune dessa percepção, consegue-se ver que pode haver muito mais nas histórias que se supõe. Começando com um super clichê: Peter Pan. O que parece mais fantástico para uma criança do que a possibilidade de voar para um mundo desconhecido no qual se permanece eterna?
Todas as futuras responsabilidades de uma vida adulta chata e sisuda simplesmente desaparecem mediante um vôo. Nessa ilha, tudo que parece ser de mais bonito e divertido... para sempre. Mesmo que haja a ideia de eternidade, o nome Terra do Nunca é justamente fazendo referência a "nunca crescer", "nunca deixar sua essência de criança". Mesmo que isso significasse esquecer os pais e ser esquecido por eles, muitos pagariam o preço em troca de poder serem eternamente crianças. O autor de Peter Pannão criou a Terra do Nunca como uma alegoria. Ao ver como o filho de uma amiga sofreu com a morte do pai e desejou crescer por acreditar que os adultos eram isentos de dor e sofrimento, ele fez justamente esse lugar mágico como o contrário: como a forma de estacionar na fase da vida mais feliz.
É notório na história que Peter tem aversão, até repulsa por qualquer coisa da vida antiga. Não crescer é a metáfora da ojeriza a fase adulta, a fase em que diferente do que o menino supunha, é a mais dura e que mais se sente infortúnios, porém a questão é que adultos aguentam melhor. Ainda assim a metáfora fica clara, do quanto havia uma vontade de entrar (ou não retornar) a essa fase, com total consciência guiado por uma fadinha e tendo aventuras diárias, sem rotinas enfadonhas.
Outro que se fez valer de uma "porta" foi Lewis. No caso dele era até literal visto que era um guarda roupa o portal para algo totalmente novo. As coisas nas Crônicas de Nárnia também tinham uma situação complicada acontecendo paralelamente. Os quatro irmãos Pervensie precisaram amadurecer mais rápido em decorrência dos horrores da guerra e de tudo que veio depois disso. Ao precisarem ficar no campo por segurança, encontravam-se solitários e tristes. Daí em meio a uma brincadeira, o guarda roupa é descoberto. E daí eis que a mágica ocorre, ele se revela um portal para um mundo fascinante no qual eles não eram mais crianças isoladas, assustadas e sozinhas, mas reis e rainhas envolvidos em algo extraordinário. Uma luta e aventura onde tinham importância, onde sua presença não era um aborrecimento e eram considerados como iguais dentro de um reino. Ainda que tivessem sido envolvidos em uma guerra no fim das contas, dessa vez foi uma com propósito, onde havia algo que compreendiam e tomaram parte. As Crônicas de Nárnia demonstram que em meio ao caos você pode encontrar a luz em um lugar de esperança.
JK Rowling também sentiu e deu esperança quando sua história sobre Harry Potter, o menino bruxo ficou mundialmente famosa. Se todos já se sentiram sozinhos na vida, Harry tinha isso bem literal uma vez que tinha perdido os pais, estava sendo criado pelos tios e era considerado um estorvo o tempointeiro. Daí em um mágico destino, literalmente, ele é inserido em um mundo bruxo que sequer imaginava existir, tanto que até tentou se amenizar dizendo "eu sou só o Harry", numa demonstração de estar tão acostumado com migalhas que jamais se imaginou merecedor de mais. Lá todos o conheciam e o tratavam com respeito, gostavam dele, as pessoas queriam ser suas amigas e não estava mais sozinho no mundo. De repente, havia chance de felicidade cruzando uma pilastra da plataforma 9 3/4.
Henry Jekyll, no Médico e o Monstro, tinha boa intenção para sua fórmula. Em sua mente, liberar o que havia de pior no ser humano poderia ser útil para ajudar a combater, porém ele não imaginava que o que ele tinha dentro de si também queria conhecer o mundo, que pra ele era novo, fora das barreiras do inconsciente.
De Harry Potter a Dr. Jekyll, dos Pervensie a Bastian, de História sem Fim que salvou o reino de Fantasia e montou no dragão Falcor tendo sua porta através de um livro, todos eles tiveram algo em comum: a chance de estar em um local fantástico e sair da ordinariedade de suas vidas. Em muitos casos, a vida nem precisa ser propriamente ruim, porém mediante um reino onde há coisas fantásticas, seres incríveis e coisas tão bonitas, é óbvio que a vida vai parecer algo sem graça e cinza.
Os escritores sabia disso. Sabiam dessa condição do ser humano, algo que remanesce dos tempos de criança quando as florestas encantadas são o quintal e os castelos uma cabana de lençol. Eles sabiam que não importava que mundo fosse, seria algo que tocaria profundamente, afinal, o mundo é cheio de dificuldades, de pessoas desagradáveis e obrigações logísticas. Capitão Gancho disse: "Crescer é um investimento e tanto, cheio de inconveniências e espinhas", além dessas espinhas, há o esquecer asessências, engavetar sonhos, chega-se a duvidar da própria vida e dos objetivos dela, um mundo fantástico atrás de uma porta, de um guarda roupa, de uma fadinha que faz voar parece extremamente tentador. Uma cidade Esmeralda que reluz ao sol, numa terra com danças, amigos em toda parte e nada de boletos e pessoas chatas.
Para uma criança é mais fácil, muitos adultos podem ter dificuldade, contudo uma das coisas que podem ser consideradas um ápice é se o adulto mesmo no mundo complicado das responsabilidades, consegue transitar também no mundo das fantasias, pegando o melhor de ambos. Alguns, sejam escritores ou pessoas comuns, usam de alguns subterfúgios pra isso, e ainda que o resultado seja magistral em termos criativos, nem sempre é algo legal, Sthepen King criou mundos, personagens inesquecíveis completamente drogado em cocaína, embora não seja o melhor meio, não se pode tirar o mérito.
Que felicidade é poder aproveitar melhor a vida, as cores e mesmo que tenha boletos, ainda se possa voar nas costas de um dragão, dançar em uma ponte colorida e correr ao lado de centauros. E com maestria transitar por entre essa linha tênue quando tiver vontade. Isso talvez seja ser verdadeiramente livre. Livre e feliz.


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