domingo, 30 de julho de 2023

Não somos mais tão jovens, mas ainda sem medo

 


Existe uma frase na bonita canção de Kathleen Batle, Lovers que diz: “Éramos tão jovens, tão sem medo”. A canção menciona dois jovens que cresceram, viveram mas o amor que tinham um pelo outro permaneceu. A letra fala do campo no qual brincavam, dando a entender que eram felizes e sem maiores preocupações, que o amor dos dois era eterno. É algo tão da juventude... todo dia é uma eternidade que nem pode ser mencionada senão quebra o encanto desse campo no qual são tão destemidos.

Contudo, muito dessa determinação se dá justamente pelo desconhecimento de algumas durezas. Quando se é “jovem” no sentido cru da palavra, desprovido também de uma maturidade, existe não ter medo por não se ter noção de coisas que se pode acontecer. É um sem medo prazeroso, não se conhece muito de golpes inevitáveis que a vida dá. Daí ficamos não tão jovens... Peso de trabalho, responsabilidades, percepções começam a pesar sobre os ombros. O tempo passa, muito muda, mas o velho campo permanece em nosso coração, todavia, nosso olhar para esse campo não é mais o mesmo.

Ele talvez não pareça mais tão grande, as borboletas que ali se caçava parecem em menor quantidade, as flores não tão viçosas. Os amores tão certos de outrora começam a esmorecer, por vezes devido a decepções, por vezes porque abandonaram esse campo que antes era tão certo e tão querido. Falando assim dá a entender que ficar não tão jovem é algo ruim e muito triste contudo, não é. Afinal, tal como tudo, existe o outro lado, existe o ponto de que é preciso abdicar de algo para que outro algo nasça. Indiscustivelmente aqueles para quem essa não juventude chega, fica uma marca.

Atualmente, muito se fala sobre a tal fase dos 30 anos. Embora na verdade muito se diga disso para falar de mulheres devido ao machismo para dizer que elas são “velhas”, “cheias de marcas”, “traumatizadas” ao chegarem nesta idade, a verdade é que isso não se resume a mulheres mas a indivíduos no geral. Preconiza-se que com 30 anos já se passou por alguma coisa. O campo da velha cidade não mais está intacto como nos velhos dias.

Nessa fase já se viu e aprendeu sobre ferir, magoar, atingor porque já se foi magoado, ferido, atingido e fez-se uma marca no âmago do espírito. Assim, de forma lógica, quem tem marcas no espírito acaba que reflete no exterior. Um indivíduo que nunca teve absolutamente nenhuma aresta a ser enfrentada sempre parecerá mais jovem e mais incrivelmente imaculado, Lógico que há os alienados e os que sabem fingir muito bem ou os que já tem um grau de maturidade e percepção tão profundos que isso não mais é um tiro tão danoso, são casos dentro de uma população. Todavia a verdade é que depois de um tempo na vida já se viveu os reveses e decepções, lidar com indiferença alheia, morte, lutos, por mais que existam 1001 procedimentos para melhorar aparência, marcas no espírito não somem.

Quem conseguiu chegar a essa fase sem absolutamente nenhuma perda, ou sem senti-la, ou sendo protegido dela, nenhuma decepção, nenhuma expectativa frustrada pode-se considerar sortudo até a 3ª reencarnação porque a realidade da maioria esmagadora não é essa. Fora que se numa possibilidade conseguiu-se além disso alcançar absolutamente tudo que sempre desejou, a vida é um pôr-do-sol na praia ou uma bela tarde de domingo na qual não mais há tanta precupação ou mobilização externas, deve-se considerar sortudo pois seu campo permanece intacto.

No fim, o ser sem medo transforma-se porque já há um escudo construido, já há a certeza de saber lidar com as coisas, as pancadas que aparecem já aparentam ser menores e as percepções mais sagazes. Desse modo, acaba-se dizendo que não se é mais tão jovem como um dia se foi, mas ainda sem medo e destemido.