domingo, 24 de outubro de 2021

Por que Round 6 incomoda tanto?

 

No último mês Round 6 ficou no topo das paradas na Netflix. Mesmo quem nunca tinha visto, com certeza se deparou com memes e imagens engraçadas envolvendo pessoas com uniformes verdes e uma boneca gigante que permearam as redes sociais. Lógico que com um grande sucesso, indiscutivelmente vem as grandes críticas. Ou nem tão grandes assim, pois muito é mais como uma implicância gratuita fomentada por crenças exageradas e devaneios sobre mensagens ocultas escondidas em biscoitos.

A história toda gira em torno de Gi-Hun, um homem falido, que vive com a mãe idosa e sempre vive na pindaíba, ainda que aposte em cavalos mesmo devendo um dinheirão a agiotas e bancos. Tem uma filha, que mesmo amando muito e ela a ele, não tem condição de fornecer a menina uma boa casa e condições como a que o padrasto oferece. Gi-Hun em muitas atitudes pode ser até meio malandro, embora não propriamente mau, ele tem amor e empatia, se importa, mas é bem atrapalhado quando puxado para o mundo real que não


perdoa devedores e irresponsáveis. Nesse contexto, ele recebe um convite para uns jogos, sob argumento de que o ganhador teria um grande prêmio em dinheiro, todavia ao ver como é o caminho até lá, as coisas que se sucedem ao primeiro round e como os organizadores se portam, ele começa a repensar no quanto de fato vale o dinheiro e se compensa as submissões que teria que fazer para ganha-lo.


Assim como Gi-Hun, outras 455 pessoas atraídas pela possibilidade de um dinheiro ganho “facilmente” foram aos jogos, ali se pode encontrar pessoas novas, mais velhas, casadas, solteiras, homens, mulheres, alguns bem instruídos, outros simples, mas todos com algo em comum: o acúmulo de dívidas que faz com que se permaneça acordado durante a noite pensando em como será o dia de amanhã e quem vai bater a sua porta cobrando. Os jogos que compõe a competição de Round 6 são de cunho lúdico, brincadeiras antigas infantis, que podem até nem condizer com o público que ali está, que a princípio parecem fáceis, mas perder custa um preço alto: a própria vida do jogador.

Aqui começa a crítica: a violência. Logo no primeiro episódio, a cena de violência durante o primeiro jogo pode chocar os olhos mais, digamos, sensíveis. Pouco tempo depois da estreia da série, saiu uma reportagem sobre uma escola que enviou aos pais um comunicado avisando que não deviam deixar seus filhos assistirem Round 6, devido a violência contida nele e articulações, pessoas calculistas em nome de ter vantagem mediante a situação limite que vivem. Analisando isso e tendo por base muito do que se ouve hoje sobre escolas, fica a dúvida se isso realmente diz respeito a escola.

Quando eu estudava, Game Boys eram super comuns e mandaram um comunicado aos pais mencionando o joguinho, todavia isso ocorreu porque muitos meninos jogavam durante as aulas e o barulhinho incomodava e atrapalhava os outros colegas. Logo, se os alunos estão falando sobre e assistindo Round 6 durante o intervalo, não causando absolutamente nenhum dano ou atrapalhando o horário de aulas, talvez a escola não tenha quaisquer direitos de impor o que seus alunos devem ou não ver. Fora que não raro vermos pais afirmando que a escola em muitos aspectos quer “doutrinar” seus alunos, influenciando-os além dos limites de conteúdos escolares, enfim, coisas que não condizem com uma grade curricular de responsabilidade de uma escola. Logo, se os filhos estão assistindo Round 6, cabe aos pais permitir ou não, instruir se acharem adequado e auxiliar seus filhos a terem filtros.

Muito da crítica menciona a questão da tortura psicológica, todavia, consideremos o ambiente. Os jogadores estão ali, diante de um grande prêmio, mas também correndo risco de uma grande perda, o instinto deles sobre risco x benefício está aceso a todo instante, lógico que a tensão se faz necessária para dar clímax a história. Depois do choque do primeiro jogo, todos imploram para sair e estão


muito firmes em sua decisão, todavia, para dar mais pressão, é mostrada a quantidade de dinheiro dentro de um grande porquinho que fora acumulada até então, nessa hora, os que estavam tão seguros de quererem desistir, pensando nas dívidas e perrengue que havia do lado de fora, começam a balançar. Ao ser realizada uma votação para decidir se os organizadores liberariam, não é surpresa a quantidade de gente que desejava ficar.

Muitos começam sozinhos, logo se formam alianças de modo que se possa aumentar as chances de sobrevivência. Formam-se grupos para que troquem ideias, tracem estratégias, mesmo sabendo que ao fim apenas um pode ganhar, não significa que ao longo do caminho não se possa contar com pessoas que caminhem juntas até determinado ponto. A partir desse ponto, todavia, a individualidade retorna e o caráter e percepções é que falam mais alto. Em situações extremas, nas quais a sobrevivência fala mais alto, é comum se unir, mas depois traçar estratégias próprias. Retornando a questão polêmica das escolas, muitos dos que dizem que a escola está tomando domínios que não lhe dizem respeito, talvez por não gostarem de Round 6, seja pelo teor da história mesmo sem ter visto, seja por crenças ideológicas ou até mesmo por ser uma série de origem


coreana, são os mesmos que deram as mãos e razão concordando e até parabenizando a escola por alertar. Isso prova exatamente a mensagem que Round 6 passa nesse sentido: a de que você, em nome de uma vantagem, pode aceitar se aliar com alguém que discorde porque naquele momento é extremamente propício para você.

Muitos criticaram as brincadeiras relacionadas com a violência. Eu fiquei pensando seriamente nisso. Lógico que é algo meio tenso, mas ao mesmo tempo de um modo até meio mórbido, dá uma certa nostalgia, visto que são adultos brincando e cuja vitória vale algo maior do que um simples “eu ganhei”. Sejamos sinceros, que crianças brincam hoje em dia? Eu já vi crianças de um bairro da periferia brincando de um jogo que eu brincava, todavia elas o fazem não apenas pela diversão, mas pelas possibilidades. Vamos propor


um desafio: peguemos crianças de hoje e perguntemos a elas se conhecem 5, ou melhor, 3 (5 talvez ainda seja nível alto) brincadeiras de verdade. Brincadeiras que não envolvam vídeo game, televisão, celular, tablet ou quaisquer equipamentos áudio visual/ tecnológico, vejamos quantas conseguem mencionar brincadeiras diferentes dos clichês ou atividades físicas esportivas pagas. Crianças mais humildes brincam porque em grande parte não tem recursos para adquirir tecnologias e jogos eletrônicos, elas usam da criatividade para se divertir e gastam energia acumulada.

Ainda mencionando as brincadeiras, Gi-Hun em um dos episódios menciona várias brincadeiras e jogos ao seu grupo que podem ser usados na competição. Lógico que a tradução para o português de modo que fizesse sentido se fez necessária, todavia, todas as brincadeiras mencionadas são conhecidas por aqueles das antigas que costumavam brincar com seus amigos. Durante os episódios, os próprios jogos causam bastante reconhecimento e expectativa em quem um dia os jogou na infância e adolescência. O fato de se perceber que uma série que vem do outro lado do mundo possui jogos iguais aos daqui levanta questões até mais profundas, as de que talvez por mais diferentes que sejamos enquanto povos, no quesito


cultura podemos ter muitos pontos comuns, vindos de uma mesma origem, o que é um assunto que pra quem souber desenvolver dá uma dissertação de mestrado. Salientando sobre a tradução, a dublagem desta série foi algo de altíssimo nível e maestria, lógico que a voz máscula e marcante de Marcelo Garcia como Gi-Hun e outros nomes talentosos da dublagem brasileira deu um sentido a mais a série, todavia, impossível não dar esse crédito a esses profissionais que muito provavelmente tiveram que se adaptar a um idioma tão diferente.

Round 6 é uma série que fala de pessoas. Pessoas em seus mundos, pessoas com suas condutas e dificuldades próprias. Round 6 incomoda porque é real. Simples assim. Não é uma distopia com distritos e uma capital rica como Jogos Vorazes e crianças se matando por diversão e uma possibilidade de melhor comida, não tem um labirinto como Maze Runner ou uma tirania como Divergente. Tirando a parte de entretenimento da coisa toda, os


jogos, os organizadores meio bizarros e o sangue, ele trata de pessoas reais. Os jogadores não foram parar lá por um simples acaso, eram escolhidos a dedo conforme sua situação desesperadora. Tirando o fato de que os valores de dinheiro são meio exorbitantes, os personagens são coreanos, com aparência e língua muito diferentes, de resto poderiam ser pessoas facilmente encontradas em nossas cidades.

Pessoas que tem dívidas extensas, perseguidas, com medo, que lidam com situações humilhantes como o patrão que não paga o que deve ou pouca remuneração, o empresário bem sucedido que devido desvios de conduta se vê afundar na falência, a pessoa que faz empréstimos sem limites, até mesmo a questão dos agiotas, não


precisa cavar muito fundo para encontrar algum em bairros de várias cidades, aproveitando-se da necessidade alheia. Numa hipótese de haver um Round 6 no Brasil, ainda que fosse por metade do prêmio, haveria pelo menos o dobro de pessoas se candidatando. Um bom parâmetro são as filas que dão volta pra jogar na Megasena acumulada, todo fim de ano e que se repetem ano após ano.

Violência. Falam da violência. Muitos disseram que a violência é gratuita, que é chocante, cabe pensar se realmente este é o problema de fato ou apenas uma justificativa pra tentar criticar a série. Não faltam filmes de terror com violência psicológica/física, filmes de ação que balas voam de um lado a outro, com seus atores banhados se afogando no próprio sangue, vide os filmes de Tarantino. A violência e as mortes são de fato o problema? Até porque consideremos que vivemos no país em que seus habitantes mais


temem a violência e que ainda assim jornais tanto impressos quanto televisivos reservam um lugar bem especial para falar dela, em horário comum e com imagens explícitas, fora claro, o prazer nos compartilhamentos de WhatsApp nos grupos de família de cenas explícitas ou instinto de pegar logo o celular para gravar uma se vista na rua, logo uma violência em uma série não devia ofender tanto.

Muito da polêmica talvez se dê porque a série toca no mais profundo das relações humanas. Toca na questão das parcerias para sobrevivência, mas que podem ser revertidas rapidamente quando há dinheiro e individualidade envolvidos. Existe a questão de tirar vantagem se possível através de trapaças e “jeitinhos”, as pessoas são colocadas em confronto com seus próprios valores e fica claro que mesmo em situações limite, quem os tem de forma positiva


permanece com eles, ainda que adaptando-os, e quem tem tendência a falsidade não hesitará em aflorar isso. Mediante a quantidade de dinheiro, muitos se esqueceram dos que pereceram, muitos pesaram como era a vida fora da arena, no que iriam encontrar fora e pensaram nos jogos como uma possibilidade de mudar isso, movidos por desespero, por vazio, por falta de alternativa, por motivos envolvendo família e outras pessoas com as quais se importavam, motivos reais e palpáveis, facilmente encontrados em qualquer lugar do mundo, talvez até mesmo na sua rua.

Round 6 é uma série altamente recomendada, pode-se tirar lições incríveis dessa série, ela coloca nossos valores em conflito, nos faz ficar em desolação em como algumas coisas se desenrolam, não propriamente as cenas de violência, porém as que nos coloca de


frente com nosso interior, que envolve as relações familiares e nos toca de emoção. Afinal, pode-se até não querer brincar de Batatinha Frita 1,2,3, mas com certeza por se tratar de pessoas reais, nos veremos em seus personagens em algum momento e nos enxergaremos em seus conflitos, suas motivações, suas vidas e tentaremos responder as indagações que as cenas nos provoca.

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

A importância de ter um submundo

 

Todos conhecem o submundo. Seja das histórias gregas, seja dos filmes, todos sabem o que ele é e o que simboliza. O submundo, também conhecido como mundo inferior era o domínio do deus da morte Hades. Normalmente era descrito como sendo além dos oceanos e do limite da terra, ou seja, é um local onde nenhum mortal já esteve em vida.

Descrevem como sendo guardado por um cão gigante de três cabeças chamado Cérbero, descrevem a existência de um barqueiro que leva as almas até seu destino chamado Caronte e no meio disso tudo, há Hades, que julga a todos e dá seus destinos. O submundo é sempre visto como um local que ninguém quer estar, um local reservado,


mesmo suas cores são cinzentas e escuras. E um lugar que não é propriamente o melhor e mais desejado destino para alguém. Só que o que não sabem é que todos tem seu próprio submundo.

Um psicólogo certa vez disse que se você dá 100% de si ao mundo nada sobra para você, depois de um tempo torna-se bem reflexiva essa frase e começam as cogitações da amplitude dela.  Desde cedo somos ensinados a dividir, ensinados a partilhar com o mundo. Crianças muito quietas são mal vistas, adolescentes tímidos são tidos como esquisitos, e isso gera críticas que se estendem desde a escola, universidade, nas festas da família, os quietos costumam ser vistos


como chatos, como os que não gostam de se divertir, estranhos e antissociais. Inclusive essa impressão pode ser tão profunda que mesmo quando a pessoa tenta interagir, simplesmente nenhuma porta é aberta a ela pois já se tem a ideia pré-concebida de que ela é alguém que não vale a pena interagir ou se relacionar. E com isso o indivíduo se fecha cada vez mais mesmo que isso signifique se afastar do mundo.

Todavia muitas vezes não é uma questão de pura e simples timidez ou introspecção, é que essas pessoas frequentam seu submundo mais vezes do que os outros. Tal como eu descrevi no complexo de Hades, você reconhecer seu submundo significa ter aquele local que é seu refúgio, não há nada de errado em ter um lugar seu em um aspecto mais individual. Todos temos um submundo dentro de nós mesmos,


não é algo ruim, pelo contrário, é necessário e pertinente, pois esse submundo permite que as pessoas preservem aquela porcentagem de individualidade, o espaço que você tem liberdade pra se ver, se enxergar, perceber quem realmente é independente do que o mundo diga.

Nem todos estão preparados pra ouvir, porém quem se recusa a visitar o próprio submundo terá sérias dificuldades de se perceber enquanto pessoa, perceber seus desejos, seus verdadeiros sonhos, ambições, afinal, quem melhor pra perceber isso do que você mesmo, com quem passa 24h por dia? Mas muitos sempre estão tão imersos se voltando apenas para o mundo exterior que não conseguem ter esse autoconhecimento e tão pouco, posteriormente, um auto cuidado consigo mesmo. Como posso saber o que sinto se todos os meus 100% estão voltados para o que os outros sentem? Como posso perceber o que de fato sonho se a preocupação é sempre os sonhos alheios? Como potencializar minha auto estima se apenas me preocupo com o que os outros estão pensando ou vão pensar a meu respeito? Como me conhecer se me recuso a visitar o submundo que nasceu comigo e morrerá comigo?

Muitos dos trabalhos em terapias ou conselhos é justamente esse: você desbloquear seu submundo e perceber como ele é, é como se olhar no espelho sem filtros, perceber como você mesmo se enxerga enquanto indivíduo, é o percentual de ser individual, que é unicamente seu e assume variadas formas de acordo com o que você valoriza na sua vida, com o que gosta. Pode ser cinza como o submundo de Hades, mas pode ser colorido se você for alguém que


sempre deseja estar cercado de flores. Você pode não gostar de cachorros, então quem guarda seu submundo pode ser um gato de três cabeças com o nome de Mili, Tili e Fili, escolha sua. Pode ser silencioso, ou barulhento. Pode ter água ou ser uma floresta sem fim. É o SEU lugar, o único no qual você tem total domínio pra fazer o que quer do jeito que quer. Muitos chamam de imaginação, eu diria que no seu submundo, ela está mais presente porque lá, você dá vazão aos seus pensamentos mais internos, que não necessariamente precisa dividir com o mundo.

Muitos confundem ter um submundo com ser egoísta ou 100% individual. Não é algo impossível de ocorrer, embora neste caso seja de fato nocivo para si e para os outros. Seu submundo é o percentual que corresponde a sua individualidade, a uma parte de você que é mais interna, que lhe permite pensar em você e no que lhe é bom/faz bem, estimulado de forma saudável, permite um auto-conhecimento, auto estima e percepção claros que permitem que você não se submeta a situações que não lhe agradam ou até mesmo relações


abusivas. Uma vez que você conhece bem seu submundo, ele lhe chama quando está vivendo algo para o qual quer dizer não e lhe faz perceber as coisas de forma mais concisa. Esse percentual que ele representa lhe ajuda a pensar em si quando mesmo quando o mundo está dificultando. Pessoas que saem de situações degradantes, abusivas, param de insistir em algo que as faz sofrer em muitos casos é porque encontraram de volta o caminho para seu submundo.

O problema é quando alguém estende esse submundo para além do espaço que ele deve possuir no limite do saudável. Pessoas de fato egoístas e extremamente individuais, cujo submundo ocupa absolutamente todos os espaços, não sobra nada para outras relações das quais nós seres humanos também precisamos. Isso sem contar a grande dificuldade da pessoa de sair desse estado, há um real entrave para que ela ceda espaços dentro de si, ceda em nome do outro, tenha até mesmo sentimentos de compreensão, interação e generosidade.

Muitas vezes ela opta por isso, o faz de forma consciente, em outras é um ponto de seu ser que precisa ser trabalho, pois por mais importante que seja seu submundo, você precisa ter aquele percentual que corresponde ao resto do mundo, que lhe permite interagir sem abdicar da parte que fica ao fundo do seu ser. Ser


alguém egoísta com 100% do seu submundo tomando conta acaba abrindo brechas para outras situações, que prejudicam e muito a vida e condução de relações. É como as meninas treinadas para serem Viúvas Negras, durante os anos em que ficavam na Sala Vermelha, assistiam desenhos com teor que suprimia todas as suas emoções, de modo que os sentimentos de empatia, generosidade, cordialidade e interação ficavam inexistentes, o submundo tomava conta e elas ficavam individuais e mais suscetíveis a apenas cumprir ordens.

Ter um submundo é inerente ao ser humano. É algo que na medida certa torna sua relação saudável consigo mesmo e com os outros, conhecer a si é uma das formas mais seguras de poder perceber o mundo a sua volta, e com isso atrair pessoas que também vão se interessar em conhecer você e admirar você do jeito que é. E ainda assim, você vai se sentir a vontade para interagir com elas e voltar pro seu submundo de vez em quando se preciso for. E não haverá problema nenhum nisso...

terça-feira, 31 de agosto de 2021

Mantenha seus sonhos fora da gaveta

"Ele fez grandes sacrifícios pela sua família e abriu mão de muitos sonhos. Ele botou numa gaveta. Ás vezes, tarde da noite, nos tiramos eles de lá para admirá-los e fica cada vez mais difícil para ele fechar a gaveta, mas ele fecha. Por isso é um bravo"

Essa cena do filme do Peter Pan nos faz ter sérias reflexões. Quando a Sra. Darling fala do pai das crianças e do porquê mesmo ele é uma pessoa corajosa, mesmo não parecendo. Claro, considerando a história, na qual o Sr. Darling se sacrifica no banco como caixa para sustentar a casa e três crianças, abdicando de si mesmo, de fato existe coragem ali. Todavia algumas coisas devem ser consideradas.

Essa expressão "colocar os sonhos numa gaveta" mesmo não sendo popular começou a fazer todo sentido depois de um tempo. Afinal, durante a vida todos tem sonhos e sempre é uma vontade poder realizá-los, embora por vezes acabamos como Sr. Darling: colocando-os numa gaveta em prol de outras coisas que vão surgindo, que podem ou não estar submetidas a nossa vontade.

E o que é colocar os sonhos  numa gaveta? Todos nós sabemos pra que gavetas servem. Elas estão presentes em cômodas, em armários, em penteadeiras e guarda roupas. Muitos gostam de muitas gavetas visando guardar o enorme volume de coisas que tem, outros tem poucas já que tem pouco pra guardar. Quando se trata de sonhos dentro de uma gaveta, significa que você meio como que os guardou lá, porque não vai usar eles no momento, porque vai deixar pra depois ou porque está com outras coisas mais urgentes no momento. Todavia, diferente de objetos inanimados, os sonhos começam a fazer um volume de uma nuance que chama mais atenção, eles tomam uma forma que pode até emitir um som que chama você a um enfrentamento.

Colocar os sonhos numa gaveta sempre é arriscado e perigoso. Claro, muitos são obrigados a isso, por terem outros deveres ou até mesmo como Sr. Darling em prol de uma família ou algo maior. Isso não é algo ruim, é nobre. Todavia é preciso sempre verificar se colocar os sonhos trancados é de fato uma escolha feita do fundo do coração, algo sem dúvidas naquele momento e do qual não haverá arrependimentos. Se assim for, tudo bem, você abdicou dos sonhos em nome de algo maior e que lhe dará maiores alegrias do que poderia ter se persistisse neles. Entretanto, é sempre bom lembrar que por mais que tenha havido uma abdicação momentânea, não significa que não se possa correr atrás de seus sonhos em outro momento, ainda que seja para realizá-los de outra forma e com uma nova emoção.

Um filme chamado Robôs mostra um pouco disso. Rodney era um robô cheio de ideias que tinha um sonho de ser inventor, mesmo com todas as circunstâncias sendo contra, o que incluía cidade pequena e limitada, origem humilde de sua família, o pai era um lavador de pratos e muitos acreditavam que Rodney era louco por querer mais do que seu pai conseguiu ser. Todavia quando  ele finalmente decidiu ir para a cidade grande atrás de seu sonho, seu pai por mais que tenha se mostrado sempre humilde e resignado com seu trabalho e os abusos de seu chefe (Tudo em nome da família tal como Sr. Darling) deu todo seu apoio. E aí veio a história. O pai queria ser músico e tocava muito bem, mas a vida prática e o chamado "ganhar a vida" se fez presente de um modo cruel e ele foi escalado para ser um lavador de pratos, embora não reclamasse nem estivesse lamentando pelo rumo que sua vida tomou, ele menciona que se pudesse voltar no tempo iria atrás de seu sonho. E com isso incentivou seu filho a não desistir, porque um sonho pelo qual não se lutava poderia assombrá-lo pelo resto da vida.

Sei que parece um discurso clichê. Muitos não hesitem em chamar até mesmo de infantil, é como se correr atrás de algo que se quer, mesmo que difícil ou que pareça complicado, fosse uma fantasia, suprimida pela praticidade cruel do mundo, que fatalmente vai ser esquecida ou deixada pra lá. Todavia, coisas grandes foram feitas e conseguidas por pessoas que acreditaram em "sonhos", o próprio Walt Disney, ainda que quase falido disse que preferia o impossível porque a concorrência era menor lá. Ir atrás de sonhos não é fácil, é duro, muitas vezes doloroso, exige que se abdique de muita coisa em muitos momentos ao longo do caminho, difícil para muitos nessa persistência ver o quanto está abdicando e ainda ter que tolerar risadas, deboches e pessoas tentando parecer superiores em suas posições, mas o truque é não esmorecer. 

Todos temos gavetas em casa como já foi dito, mas existe sempre uma gaveta em especial, que pode ser a de uma penteadeira, um móvel, o que for, que é a dita gaveta da bagunça. Ali guardamos as coisas que talvez não se encaixem no padrão das outras gavetas. Coisas aleatórias, contas pagas, canetas, papéis, cartões de presentes, pilhas... coisas pequenas ou grandes mas que jogamos lá. Ela permanece sempre inofensiva, todavia conforme o tempo vai passando, aquela gaveta começa a incomodar de alguma forma. Você olha para ela e ela olha para você e de algum jeito você a evita, embora a sensação de que ela chama permaneça. O motivo para isso é simples: ela tem coisas demais dentro. Pode até não ter coisas em grande volume, mas tem coisas que precisam ser organizadas. Você evita abrir a gaveta porque sabe que ao fazê-lo, precisará arrumá-la e ao tirar e vislumbrar tudo que há nela, vai se deparar com uma decisão e ser obrigado a escolher: ou joga fora tudo que tem na gaveta ou organiza ela de forma que as coisas dentro permaneçam ainda úteis, válidas e arrumadas.

Nossa gaveta onde guardamos os sonhos é assim. Se você os guarda por muito tempo, eles se bagunçam e embora sempre estejam ali, vão uma hora forçar você a concretizá-los ou abrir mão deles para sempre, se desprendendo do compromisso de realizá-los como um dia foi de sua vontade. Eles podem envelhecer e acabar se perdendo, tal como uma pilha que fica muito tempo dentro de uma gaveta e vaza, tornando-se inútil. Nesse caso, talvez não haja mais tanta questão de realizar, seja da forma como se planejou anteriormente seja de uma forma improvisada. Mas fato é que manter os sonhos numa gaveta por muito tempo gera um sentimento de urgência, uma necessidade de se arrumar uma bagunça em nosso interior e resolver essas questões, e o modo como o fazemos determina se no futuro haverá arrependimentos ou tranquilidade.

A premissa é sempre manter os sonhos fora da gaveta, ou se for pra manter eles dentro, que seja por um tempo determinado, mas que se possa tirar eles o mais rápido possível conforme suas possibilidades. E se for pra colocar mais sonhos dentro, coloque mas tente sempre tirar outros, pra que essa gaveta não se entulhe e seu conteúdo se perca no interior de seu ser. Afinal, ninguém quer ser assombrado por uma gaveta que chama seu nome toda vez que se passa por ela....

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Lições e aspectos das Olimpíadas 2020

 

As Olimpíadas acabaram mas creio que trouxe algumas lições bem pertinentes a todos nós. Começa que o fato de ter sido na terra do sol nascente, o qual traz uma história cheia de conotação referente a superação de dificuldades já dá um sopro de esperança para o mundo, levando em consideração todo o horror, dificuldade e tempos difíceis que vivemos nos últimos quase dois anos. O Japão foi sede das Olimpíadas na década de 70, o evento trouxe naquela época toda a carga conotativa da reconstrução de um país que ficou devastado, destruído, arrasado pela guerra em múltiplos aspectos. Esse ano, considerando a pandemia, talvez o significado se mantenha: a reconstrução de um mundo devastado e fragilizado pelo Corona Vírus.

Além deste início cheio de significados, com o passar dos dias outras coisas foram emergindo. Começa que algumas categorias esportivas novas com atletas talentosos competindo, traz uma nova luz aos simpatizantes que podem ter uma expectativa de futuras competições desse cunho mundial. Skate, surf, escalada esportiva, muitos que


treinaram nessas modalidades e tiveram destaque nelas puderam sentir seu momento nessas Olimpíadas. Não só por mostrar habilidades, mas também por dar visibilidade nos referidos esportes. No caso do Brasil, a fadinha do skate Rayssa, sendo tão novinha e fazendo algo tão incrível, que vai repercutir de forma tão grandiosa para o país fez história com sua medalha de prata. No surf, a medalha de ouro com ítalo Ferreira, que na sua comemoração emocionou a todos, com caricaturas dele imitando Poseidon também foi algo que será lembrado nessas Olimpíadas.

Ao contrário das modalidades novas, as modalidades mais tradicionais surpreenderam, algumas negativamente, outras de forma extremamente positiva. Os grandes nomes da ginástica, seja feminina seja masculina emocionaram por um lado e chocaram por outro. Algumas das promessas como Nori, Zanetti suaram a camisa em suas apresentações. Nori caiu, o que fez com que ficasse longe do pódio. Ao contrário de apoio em massa, houve uma repercussão


de torcida contra, pois ele protagonizou uma situação de racismo com seu colega de equipe. E como nada fica sem uma resposta, especialmente em tempos de internet, um colega da mesma equipe em defesa de Nori, expôs que o rapaz vítima de racismo era algoz em muitas outras situações, fora os sérios desvios de conduta e responsabilidade com relação aos treinos.

Algo que nas redes sociais foi um escândalo que rendeu dias. Fora que relacionado a isso, o próprio Nori se mostrou arrependido com relação ao episódio, mas mencionou o quanto as críticas e culpa desencadearam fortes danos ao seu psicológico, havendo episódios de depressão que afetaram seu desempenho. Além de Nori, uma super estrela que ganhou destaque nas últimas competições, Simone Biles chocou a todos quando no meio da prova desistiu de competir.

Segundo Biles, haviam “monstros” em sua cabeça que estavam afetando sua saúde mental. E com isso, não conseguiu atingir seu desempenho na totalidade. Ela com essa atitude, mostrou que atletas não são robôs, por mais que a capacidade física deles seja incrível,


muito superior à de comuns de academia, o corpo e mente precisam estar na mesma sintonia em termos de saúde. Lógico que por mais que nos tempos atuais com as discussões sobre depressão e mente, houve quem condenou sumariamente, motivados pelos pensamentos de que houve investimento pesado em Biles assim como em outros atletas.

Por falar em investimento, esse foi um ponto polêmico nestas Olimpíadas. Com direito a figuras, textões e polêmicas, muito foi dito sobre como algumas nações investem pesado em seus atletas, dando-lhes condições de local de treino, salário, possibilidades para que eles possam ter uma dedicação exclusiva ao físico, por isso, muitos acharam Biles uma fracassada depois de tanto investimento de treino e financeiro ter desistido. Todavia, considerando o quanto falaram das meninas do futebol, se Biles, com toda a vulnerabilidade ainda que com investimento tivesse falhado, seria taxada de fracassada da mesma forma.

Pois bem, muitos falaram que a seleção feminina de futebol só sabe reclamar da falta de investimento e não se esforça. Mas fato é que não há de fato muito investimento, o quanto o desempenho das jogadoras foi bom ou mau, não anula o fato de que futebol feminino não é o forte quando se trata de investimento esportivo aqui no nosso país. Querendo ou não vivemos em um mundo capitalista, e mesmo no esporte, que deve ser sempre leve e alegre, não haverá investimento seja em estrutura ou pessoa, se não houver a mínima


possibilidade de lucro. Afinal, ainda com toda a vibração, são só negócios e mesmo o melhor jogador do mundo que faz desde comerciais de shampoo a estampar produtos esportivos oficiais se der o mínimo prejuízo será descartado sem segundas opiniões. Imagina um esporte que mesmo com um público fiel, não cobriria em termos financeiros investimentos feitos?

Vários atletas de outros países em situação vulnerável conseguiram medalhas, o treino pesado, alguma vantagem genética pode ter ajudado, todavia, é inegável que uma força de vontade pode levar você longe, mas um suporte adequado pode fazer você que já tem essa força de vontade latente alcançar as estrelas. Caso não tenha, como ocorre com muitos em nosso país, o caminho fica mais longo, todavia chega a ser uma pena pensar em tantos que podem estar se desperdiçando porque ainda não foram vistos pelos olhos certos. Inclusive, está rolando um vídeo mostrando meninos de um bairro de periferia de Belém, PA, com as incríveis acrobacias que fazem e que não devem nada em termo de beleza e técnica para os mais treinados.

Mas nem tudo são sombras, houve surpresas positivas e lições valiosas. Rebeca Andrade, ginasta conseguiu duas medalhas para o país. Se muitos chamaram Biles de fracassada, estes mesmos devem ovacionar Rebeca de joelhos. Ela mesmo tão nova, passou pela questão da vulnerabilidade financeira, precisou ficar longe da família


desde pequena pra poder alcançar o lugar que está hoje, afinal, quantos pais deixariam a filha de nove anos ir morar em outra cidade com o treinador para poder se aprimorar? Fora a questão física, pra uma moça tão nova, três cirurgias de joelho é algo impressionante. E eis que com graça e habilidade, ela ao ritmo de uma música considerada obscena que deixaria os tradicionais conservadores de cabelo em pé, trouxe a prata. Depois, com maestria e humildade, o ouro nos aparelhos. 

Lembra o que foi falado dos investimentos? Pois bem, para muitos atletas esse investimento começa em casa com o apoio da família e treinador, os ditos grandões só vão investir se houver ou uma grande (excepcional) chance de retorno ou se a pessoa despontar, sendo que muitos desses são os mesmos que podem ter negado ajuda lá atrás quando a pessoa era só um brotinho. Quando ela vira uma árvore


frondosa, há muitos querendo se valer de seus frutos. Rayssa, a fadinha, se recusou a tirar foto com os políticos assim que voltou, pois, seu pai no início de tudo chegou a pedir várias vezes ajuda e incentivo para a filha, sendo sumariamente recusado. Então vale a premissa: Se você não está com alguém quando está por baixo, não deixem que comemorem quando se está no alto.

Estas Olimpíadas mostraram outras faces dos atletas também.


Tivemos comemorações excêntricas, desde referências de animes como Dragon Ball Z e One Piece, apresentações com tema e vestimenta ligados a Sailor Moon, a declarações literais sobre como isso foi importante na vida dos atletas. Tivemos um atleta do salto mostrando que tinha maestria com agulhas de tricô ao fazer uma capa para sua medalha e um suéter personalizado e que isso não o tornava de forma nenhuma menos masculino como podem pensar nem menos habilidoso em seu esporte.

Em suma, vimos muito que vai ficar nesta edição. O momento do mundo em si nos fez pensar sumariamente em tudo, as surpresas que os atletas nos proporcionaram também, que possamos levar essa energia de esperança e novamente de interação com as pessoas para a próxima edição e que essa sensação permaneça viva, dando-nos o sentimento de que tudo será ainda melhor. Pois se esta foi tida como uma das Olimpíadas mais igualitárias e inclusivas, ainda que nesse caos que vivemos, talvez possamos esperar coisas extraordinárias nas próximas.

terça-feira, 20 de julho de 2021

O dinheiro sana as necessidades, mas não garante plena felicidade


Ultimamente tem rolado uma figurinha relacionando felicidade e dinheiro. Dizendo que quando se faz a afirmação de que “o dinheiro não traz felicidade” se está romantizando a pobreza, fazendo com que as pessoas tenham a ideia de que é preciso se conformar com uma situação vulnerável materialmente falando afinal, o dinheiro compra conforto, boa comida e todo tipo de bem material que proporciona a mais pura felicidade. Que o dinheiro compra tudo isso, é inegável. Agora, fato também é que não é porque você tem isso que será automaticamente feliz.

O dinheiro. Vamos pensar no que ele é de fato. Algum punhado de papel ou pedacinhos redondos de metal aos quais são atribuídos valores. Você troca essas coisas por outras que lhe são mais úteis, como comida pro seu corpo, cobertor pro frio, um teto... Sim, o dinheiro vai suprir suas necessidades. As necessidades são pontos

que estão praticamente de mãos dadas com sua sobrevivência. O que se necessita de primordial e imprescindível. Você precisa de comida, precisa de uma roupa minimamente boa que lhe cubra, precisa de uma casa que lhe abrigue e outras coisas que podem ser citadas aqui, remédios pro caso de doença e estudo pra que se possa crescer enquanto ser humano.

Todas essas coisas são perfeitamente compráveis e necessárias para a formação de uma pessoa em nossa sociedade. Muitos tem isso em excesso e de forma ostensiva até, do modo mais pomposo que o dinheiro pode comprar. O corpo precisa de comida, muitos gastam 1000 em uma conta de restaurante; precisam de uma casa, compram uma tão grande que sobram quartos vazios; precisam de uma roupa, gastam quatro dígitos em algumas poucas peças; querem o cobertor bordado com fios de ouro que brilham quando o sol aparecer na janela... E aí vem a pergunta: isso traz realmente a felicidade?

O contraponto aqui não é se negar a importância que o dinheiro tem, afinal, se você diz isso, é como se estivesse dizendo que não precisa dele pra nada, o que obviamente é um delírio tendo em vista a conjuntura atual que vivemos. Todavia o maior confronto é até onde vai o valor que alguém dá ao dinheiro e que espaço ele ocupa na vida deste indivíduo. Você pode ver esses pedaços de papel como algo que vai proporcionar sanção de suas necessidades e proporcionador de momentos de prazer, regalias e relaxamento, como também essas notas podem formar uma corda que sufocam e os pedaços de metal provocarem um tilintar tão forte que não deixam você dormir a noite.

“Ah, mas antes ser triste em Paris do que no ônibus”. É uma frase bem engraçada, considerando que quando se está triste, se estará assim em qualquer lugar e se vai enxergar tudo cinza de qualquer forma, pode até ser mais confortável em Paris, mas ainda assim

cinza. É extremamente perigoso colocar a felicidade apenas no que se pode comprar. Uma viagem, um objeto de coleção, uma bolsa de grife, porque há sempre o risco de se querer algo que não é propriamente comprável e aí, vem a decepção, o pesar de perceber que as notas não tinham todo o poder como se acreditava que tinham. No mundo dos famosos, podemos citar exemplos clássicos.

Quem não se lembra de Robin Willians? O ator tão risonho que fez gerações rirem com suas comédias? Ele mesmo antes de ser ator de sucesso faturando milhões já era rico. O pai era um executivo sênior de uma grande empresa, logo dinheiro nunca foi problema. Willians cometeu suicídio dentro de sua mansão. Chester, o ícone vocalista do Linkin Park, que fez história com seu rock, milhares de fãs, dinheiro,

se enforcou chocando o mundo com sua partida. Até mesmo o mais famoso youtuber do Brasil, Felipe Neto, já deu entrevistas dizendo que nunca teve tanto dinheiro e nunca foi tão infeliz, eu até entendo, ele tem notas pra fazer uma piscina como a do Tio Patinhas mas é tão criticado e odiado que talvez pareça ter só a piscina mesmo. Consideremos que ele teve uma infância pobre e hoje mora em uma mansão tão grande, que o estúdio dele de gravação é na própria residência, ter tanto dinheiro pra algo assim para os iniciantes que economizam mesada pra comprar uma tekpix e usam iluminação em cima de livros parece um sonho, todavia por algum motivo muitas pessoas que tem dinheiro sobrando não conseguem sentir essa tal de felicidade, por mais que possam comprar tudo que supostamente está relacionado a ela.

Por que será? Porque talvez como a maioria esmagadora, não saibam bem o que felicidade significa. A felicidade é algo relacionado ao seu cerne, a camada mais profunda do seu ser, logo, obviamente é algo que vem de dentro. Por isso, que por mais impossível que pareça, há pessoas que podem não ter muito dinheiro mas conseguem passar

uma felicidade que envergonharia milionários. A razão para isso é porque elas conseguem ressignificar as coisas simples nesse sentimento e mostram que os momentos de felicidade genuína pouco ou nada tem a ver com dinheiro. Muitas vezes tem a ver até com o caminho que se percorre para chegar até algo, que mesmo sendo material, o objeto material em si é o mais irrelevante perto do todo. É difícil de falar sobre isso para aqueles que possuem uma visão mais material e densa, principalmente se colocam o dinheiro sempre como fonte primária pra se conseguir a felicidade.

Muitos dizem que o dinheiro compra o remédio, é verdade, todavia não a saúde. O presidente do Santander era um dos homens mais ricos do país, ele morreu precisando de algo que é de graça: ar. E penso em como muitos que pregam tão veementemente a ideia de que o dinheiro resolve todos os problemas devem se sentir quando se deparam com algo que não se soluciona, mesmo que tenham muitas notas pra dar. Eu sempre digo que se um dos milionários daqui precisasse de um transplante, ele poderia ter o dinheiro que fosse pra comprar um órgão no mercado negro, traficar crianças ou quem quer que fosse pra tal, ainda precisaria achar alguém compatível e isso não dá pra comprar. Tal qual no filme Wolverine Imortal, um dos personagens podia ser multimilionário e ter todo o dinheiro para a tecnologia que prolongava sua vida, mas mesmo isso não traria a ele o corpo saudável sem os efeitos da radiação, porque o dinheiro ainda não consegue comprar tempo.

Colocar tanta expectativa, pra não dizer todas as expectativas na matéria é como se condenar a viver uma vida de paixões voláteis, sempre no plural. É ser movido sempre por objetos de desejo que vão mudar e se apagar mediante presença de outros que pareçam mais brilhantes. Você deseja comprar uma casa e consegue o dinheiro, mas aí ao visitar um parente vê que ele mora em um três andares com piscina. Sua casa que foi uma “felicidade” de repente

lhe parece feia. Compra um carro e se sente feliz andando com ele, se sente importante, aí a concessionária lança um novo modelo com bancos mais bonitos e espaçosos, o seu começa a parecer pequeno e você se sente frustrado de andar nele, a felicidade de outrora se fora.

Você compra aquele item de colecionador lindo, a empresa lança uma nova coleção e o seu parece defasado e não lhe dá mais a mesma sensação. É compreensível essa questão de sempre as coisas se inovarem, as empresas e todos os que trabalham nelas dependem do consumo e precisam sempre de coisas novas, conforme o mundo evolui. Mas como ocorre com qualquer coisa, o excesso se torna veneno, consumir em excesso crendo que isso traz felicidade quando

a matéria é tão volátil acaba se tornando um vício. Uma tentativa de preencher algo interno com algo de fora é estar sempre em eterna necessidade sem nunca conhecer a saciedade. Tanto que muitas pessoas que tem relativo dinheiro sempre dizem que estão sem ele. Podem morar no metro mais caro da cidade, viajar pra vários lugares e vestir grife, sempre dirão que estão "aperriadas", mas é porque no fundo queriam mesmo morar numa cobertura no metro mais caro da cidade, viajar pra Europa e vestir grife internacional.

O Capitão Barbossa no filme Piratas do Caribe inclusive faz interessante comparação quando conta a história de seu tesouro, ouro que reluzia mas estava banhado em sangue e uma cobiça insaciável, mas para quem deseja dinheiro e riqueza, isso se torna irrelevante, daí ele diz algo que fez pensar: “Nós encontramos, lá estava a arca e dentro o ouro. Pegamos tudo! Nós gastamos e trocamos por bebida, comida e prazer. Só que quanto mais gastávamos, mais ficava evidente que a bebida não satisfazia, a comida parecia pó em nossas bocas e toda a companhia do mundo não era suficiente. Somos homens amaldiçoados, senhorita. Éramos impulsionados pela cobiça, mas agora somos consumidos por ela”. Lógico que no caso de Barbossa e sua tripulação era bem literal, mas não significa que não possa haver metáfora com o real.  Colocar a felicidade em coisas assim é como ser um burrico com uma cenoura a frente, se consegue

sentir o cheiro, ver, até consegue tocá-la levemente mas sem jamais alcançá-la de fato. Tanto que não faltam escritores que inclusive mencionam que a riqueza e bens em excesso podem ser uma prova de vida mais difícil que a pobreza. O próprio Willians, segundo fontes ficava em dúvida se a aproximação era pela pessoa dele ou por ser filho de alguém tão rico e importante.

O dinheiro é importante, ele proporciona os bens que nosso corpo precisa, mas outras necessidades também precisam de nossa atenção e ele não atende a todas, por mais tentadora que pareça tal ideia. A falta total de dinheiro traz infelicidade de fato, mas a presença dele, mesmo em abundância, nem sempre é garantia de felicidade. As pessoas mais felizes do mundo talvez sejam aquelas que justamente não tiveram sua visão nublada pelo deslumbramento material, souberam dar o devido valor ao dinheiro sem superestimá-lo ao ponto de que ele assuma o controle.

Então convido a essa reflexão, o que realmente deixa as pessoas felizes? Mas uma felicidade genuína, tão genuína que não se dissipa como grãos de areia, mas permanece e é reavivada só com a mera lembrança. Será que esses momentos tem mesmo a ver com dinheiro? Uma questão para os sábios...
 

quinta-feira, 8 de julho de 2021

Extreme Look #37 - Azul e amarelo

 


Eu estava enferrujada! Senti isso quando comecei a fazer o look, deu um branco de início, algumas etapas da make ficaram meio balangandã mas aqui está, eu tenho o propósito de terminar certas coisas esse ano, os Extreme Looks são uma delas, afinal são dois anos de atraso. Curiosamente, esse é um ano em que nunca tive tanta coisa importante acontecendo junto, coisas que demandam sumária atenção, tipo um mestrado novo. Mas se tem algo que aprendi com anos de blog, página e etc é que não importa o que você esteja fazendo, você tem que preservar uma parte sua, o seu cerne. Na época em que perdi isso por um tempo, perdi quase tudo, era uma vida de acordar pesaroso. Então, o blog é meu cerne, maquiagens, fanfictions, eu gosto de fazer, é onde posso expressar as coisas loucas da cabeça. Então, aqui vai o look!