Pense rápido: o que é preconceito?
Aposto que muitos quando escutam logo pensam em negros, homossexuais e mulheres. Não tiro a razão deles, desde a mais tenra idade da civilização, estas minorias em especial tem sofrido preconceito, embora ainda haja muito, o combate tem sido constante.
Mas repito: o que é preconceito? Uma dica: tente olhar por outros ângulos. Pense em outras populações também minorias (ou não) que são taxadas de algo. Tipo "japrega" ou "paraíba" ou até mesmo "branco leite azedo", e aí pimba! Você descobre que preconceito é rótulo. É perceber o significado semântico da coisa toda: pré-conceito = idéia pré-concebida a algo ou alguém. E esse algo ou alguém independe, você pega um determinado grupo ou algo e o rotula, generaliza. No preconceito julga-se o outro inferior por ter determinado gosto, cor, forma, classe, opinião, orientação sexual... A definição é muito simples e clara.

Só que nós humanos somos meio complicadinhos, pra lidar com nós mesmos, o que dirá com o próximo. Avançamos no que tange o preconceito contra raça, o fato de uma raça ter sido escravizada não a faz menos capaz do que outra, passamos a perceber que uma pessoa que gosta de outra do mesmo sexo não a faz promíscua, porém no que tange outros preconceitos, com outras minorias ou até mesmo maiorias muitas arestas permanecem. Maiorias sofrem preconceito? E como! Parece estranho falar que um branco, pessoas que tem condição financeira dita boa e profissionais podem sofrer preconceito, mas sofrem. É estranho mesmo afinal, essas maiorias estiveram no "topo social", talvez por isso sofram palmadas sociais e o peso de ter sido historicamente assim. Ainda que a civilização tenha começado com população negra, hoje tal população, mesmo com os avanços, com a inclusão ainda em parte se subestima, se coloca abaixo, negligencia sua capacidade. Grandes personalidades, sábios, autoridades e conhecedores são negros. Não se devia vislumbrar o pior lado da história da população negra. Ainda que haja muito preconceito desde o início da história, os negros provaram também que tem muita força e garra para conquistar seu espaço.
Os homossexuais provaram que o fato de gostarem de alguém do mesmo sexo não os faz menos capazes ou não influencia de nenhuma forma no desempenho deles para trabalho ou estudo, nem induz outras pessoas a se comportarem do mesmo modo, afinal, diferente do que achavam a séculos atrás, não é doença.

Que esses preconceitos são combatidos diariamente, de multivariadas formas, isso é verdade. Porém, há uma roda muito maior que essa. Preconceitos que o são, mas por certos motivos são desconsiderados ou nem mesmo vistos como preconceito. Há quem discorde ou ache absurdo dizer que existe preconceito contra brancos. Alguns chamam de "preconceito ao contrário", embora de contrário não haja nada, pois preconceito é preconceito, seja ele de que forma e contra quem for. Por exemplo, associar negros a apelidos pejorativos dá cadeia, mobilização, protestos... Mas o contrário não ocorre. Pode um negro ou descendente de negro chamar "branquelo(a) azedo (a)", "albino" (preconceito contra brancos e albinos duplamente), "Fantasma", tudo isso com raiva, ódio e com a clara vontade de ofender e ser totalmente aceito? Hoje, os cabelos cacheados estão voltando depois de anos da preferência por chapinha. Eu aderi e voltei aos cachos e amo. Porém, noto que muitas ao retornarem aos caracóis, passam a hostilizar as que ainda preferem a chapa ou seu cabelo liso, chamar uma cacheada de "cabelo de mola" (ou coisa pior) é quase uma guerra facebookinial, mas parece que não tem problema chamar uma lisada de "cabelo de macarrão escorrido".

Uma pessoa com boa condição financeira que more em um lugar relativamente bom. Noto que olham para o lugar, para a rua, para o prédio bonito e logo fazem o paralelo: "Burguês explorador", "Classe média desgraçada", "Arrogante", "Deve se achar muito esse filhinho de papai" e tudo isso
sem saber se a pessoa trabalhou apertando os cintos pra pagar em 10 anos uma moradia dos sonhos, sem saber (e sem querer saber) se ela precisou ralar e abdicar de muitas coisas visando algo maior adiante. Nem sempre é como parece ser. Tenho um amigo que é uma das pessoas mais íntegras, honestas e dignas que conheço, ele sofreu preconceito por ser filho de médicos, morar num lugar bom e colecionar action figures, segundo diziam ele era "ricão" afinal figures são um hobby caro. Mal sabiam que ele vivia emprestando da mãe e economizando meses de estágio pra poder pagar.

Consegue olhar uma pessoa de cabelo colorido, vestida de modo diferente, cheia de piercings ou tatuagens e não taxá-la de "maluca"?. Saí um dia com uma peruca de 1m cinza de casa para um evento, muitos me olhavam com aquela cara de "eu hein". Consegue ver uma pessoa comprando algo caro, ou gastando considerável quantia em algo que na sua visão é "supérfluo" e não rotulá-la como um "arrogante", "quer aparecer", "deve ter tudo na mão"? Consegue olhar aquela pessoa introvertida da sua sala e não taxá-la de "estranha"?
Tudo isso são preconceitos porque são rótulos. E rótulos são preconceitos, explícitos ou não. "Ah, mas essas são maiorias, não sofreram o peso da discriminação, estavam sempre no topo, não sabem como é ser oprimido, marginalizado, não deviam se ofender". Muitos realmente não se ofendem, da mesma forma como muitos negros não se ofendem e outras vítimas de preconceito deixam pra lá. A questão é: o preconceito é algo passível de justificativa? Contra determinada sociedade é punido, mas contra outras devido a determinada condição ou fator é totalmente aceitável? O preconceito que eu saiba causa os mesmos efeitos nos seus alvos porque seu objetivo é um só: oprimir e ofender. Então, não deveríamos fazer escalas para preconceitos, rotular o próprio preconceito em "bom", "aceitável" ou "passível".

As vítimas de preconceito em muitos casos usam isso ao seu favor e ao invés de enfatizar o que levou ao preconceito, revertem isso em algo positivo, transformam a adversidade em diversidade. O estudioso que vivia sendo rotulado de "esquisito", resolve estudar e melhorar; a menina que sofria opressão por parte dos pais, aos poucos descobre seu valor e se liberta; o garoto negro sabe de todas as cargas que carrega por parte da história, mas veste a camisa da valorização pessoal e da raça e vai a luta pra provar sua importância. Não é segredo pra ninguém o quanto creio que todos nós temos uma centelha que nos permite sermos melhores a cada dia. E com isso, na busca pela evolução pessoal, passar a ver pontos positivos e fortes torna-se prime, afinal, enfatizar o quanto há de errado, o lado ruim de tudo, destacar o quanto se tem de defeitos nunca, eu pelo menos na prática nunca vi, ajudou uma pessoa, povo ou civilização a crescer.

Por exemplo, imagine uma pessoa da Alemanha na sua frente, pelo que já ouvi por parte de muitos, ela já seria rotulada como "branca opressora", de "direita", "nazista" e "fria", embora quando nos dispusemos ao desrrótulo, isso não se apresenta de forma verdadeira. O povo da Alemanha tinha tudo pra ser como nós vemos nos filmes de guerra, tudo pra se condenar eternamente pelo mal que promoveram no mundo e passar isso para gerações futuras, mas não. Experiência própria. Nas escolas alemãs é ensinado sobre a culpa que tiveram, não se absolvem de forma alguma, admitem os campos de concentração, não poupam as crianças da mancha histórica do país, porém apresentam a visão de: "erramos, porém procuramos aprender com os fatos e melhorar". A coisa muda quando você é exposto a contingência de saber que "seu povo errou muito, porém deve-se aprender para não repetir os mesmos erros", não é diferente de "o povo brasileiro foi explorado em sua história, mas não nos impede de buscarmos a melhora pessoal e coletiva".
O preconceito existe, porém enfatizá-lo, seja contra quem for, não faz com que ele suma. Enfatizar o quanto o "povo negro foi oprimido ao longo da história", o "quanto brancos são arrogantes e dominadores", o "quanto alemães são tidos como maus", o "quanto otakus são tidos como malucos", o "quanto mulheres são consideradas como seres inferiores aos homens" não fará com que o preconceito diminua. O quadro porém se reverte, se os alvos passarem a mostrar que tais afirmações não são verídicas e que possuem características e qualidades diferentes que das que pintam. Talvez enfatizar o quanto preconceitos existem, o quanto são ruins é como ter uma mancha no carpete. Toda vez que você olha para a mancha e diz: "praga", "é uma chaga", "feia", "vergonhosa", acaba esquecendo dos detalhes do carpete, por mais bonitos que sejam, além de deixar pra segundo plano modos de acabar com a mancha, de tirá-la dali e fazer o carpete encantar em sua totalidade. Talvez a melhor forma de combater os preconceitos, sejam raciais, contra sexo, classe, seja a consciência de que eles existem, o combate a eles, mas não enfatização.

Nenhum preconceito é aceitável. Ou justificável. Ou justo. Disse a uma colega que considerando o fato de que muitos preconceitos tem sido combatidos com outro preconceito em direção contrária, me sentia constrangida de apresentar meu namorado a certas pessoas. Afinal, ele é nerd e usa óculos (dizem que nerds são pessoas meio estranhas, sozinhas e virgens), branco ("branquelo mergulhado no leite azedo", "albino que não toma sol"), do sul com sotaque de s arrastado (embora viva a mais de 20 anos aqui: "deve ser daqueles que pensavam que aqui era só índio e mato. Ignorante"), tem descendência italiana ("metido arrogante", "nariz em pé"), valoriza mérito ("burguês desgraçado") e ainda curte video game de pokémon ("esquisito", "tem trauma de não ter tido infância"). Conseguem perceber que há mais preconceitos do que dizem nossa vã história cultural?
E da mesma forma, eu disse e enfatizo que não devemos ver as pessoas já com seu rótulo a tiracolo: o branco, o negro, o índio, o japonês, o nordestino...deve-se ver a pessoa primeiro como a pessoa, pura e simples. Talvez ver o próximo como uma pessoa, ser humano dotado de sentimentos, desejos e pensamentos tal qual si mesmo antes de ver suas características externas e de personalidade ou opções, seja o nosso dever moral mais difícil de ser cumprido. Porém fico feliz de ver que percebemos a impotância disso e assim não desistimos...