Acordar de um devaneio é como acordar de um coma. É sair daquele estado de torpor no qual se permanece por um longo período e no momento que se acorda, se olha em volta, para as paredes, para o teto, se pergunta que dia é, qual ano, onde se está, tenta se lembrar de como parou ali, do caminho. E quando vê, não pode voltar atrás, porém não se sente pronto pra ir em frente, permanecendo estagnado.
Um professor meu disse que havia uma diferença muito grande entre utopia, sonho e devaneio. E é necessário que saibamos bem o que cada uma delas é, para nossa própria evolução. O sonho tem data para ocorrer. O sonho precisa de lugar; precisa de condição; precisa de estabilidade; precisa de planejamento; precisa de esforço. Já o devaneio é aquilo que não tem raiz no chão, não tem como acontecer embora a vontade (e só ela) exista, na verdade o devaneio se alimenta dela e quanto mais a vontade aumenta, mais o devaneio cria corpo, mesmo que nunca tenha criado ligação com o chão. A utopia é algo além da perfeição, pode ocorrer, porém mesmo ela começa com um sonho, portanto, até ela necessita de certos atributos.
O devaneio, pode começar como um sonho, mas a idéia de algo rápido, imediato e sem muito esforço sufoca essa semente como se ela fosse jogada em terreno de espinho. Pode-se passar muito tempo dentro desse ciclone, lutando contra tudo que há fora, tapando brechas, impedindo que verdades entrem, mal se notando que é mais fácil sair e tentar viver um sonho real do que desprender grandes doses de energia pra se manter dentro.
Devaneio disfarçado de sonho foi o que viveram Romeu e Julieta. Eles se conheceram, trocaram tantas palavras bonitas e com três dias se casaram. Só o padre bastava. Pouco importava a briga das famílias, pouco importava se eles tinham só três dias de conhecidos, pouco interessava os motivos nem que eles não tinham um teto pra morar. Julieta só tinha seu amor, só tinha sua pureza e Romeu, só tinha o nome, os versos e ambos só tinham uma briga de família, ainda que nenhum dos dois buscasse saber o real motivo da desavença nem fizessem nada para mudar isso. Não nego que é uma história linda, o amor entre os dois era, o modo como eles o fizeram é que foi errado. E a quebra do devaneio foi tão forte e tal idéia era insuportável ao ponto dos dois não quererem encarar e se matarem. Gostaria de ver Romeu e Julieta vivendo um sonho de amor, um no qual eles lutam sim, porém bem mais do que simplesmente serem de duas famílias inimigas e se apaixonarem.
Quando o devaneio se vai, é algo terrível inicialmente. Ele em si pode não ser saudável, mas a quebra dele traz muito de bom depois que a dor se esvai. O terreno de espinho é retirado e a semente perdida de sonho pode respirar, outras maneiras e sonhos começam a surgir, novas formas de felicidade aparecem, formas que o devaneio não deixava que fossem vistas, afinal ele é egoísta, ele concentra tudo num só caminho e num só objetivo, excluindo variedades. Só que uma vez quebrado, vai-se o devaneio, porém fica o sonho.
Eu descobri outros sonhos, outras formas. Não raro se surpreenderem comigo, afirmando que falo coisas tão diferentes de alguns anos atrás, dizem que foi influência, o que não é verdade. É mais fácil as pessoas jogarem a responsabilidade para o meio externo, tão limitado quando a questão é influência, do que aceitaram que alguém pode procurar por si mesmo outros caminhos e procurar outras formas de realizar sonhos perdidos. Não mudei meus sonhos apesar dos devaneios que vivi, pelo contrário, eles permanecem e acharam a companhia de outros. Sonhos tem essa vantagem, eles não mudam, só ficam sufocados por um tempinho, mas ao se libertarem buscam a melhor forma de se realizarem.
E nós também buscamos.










