terça-feira, 29 de abril de 2014

Adeus, sonho devaneiado


I lost my life, forgot to die (Eu perdi minha vida, esqueci de morrer)
Like any man, a frightened guy (Como qualquer homem, um cara assustado)



Acordar de um devaneio é como acordar de um coma. É sair daquele estado de torpor no qual se permanece por um longo período e no momento que se acorda, se olha em volta, para as paredes, para o teto, se pergunta que dia é, qual ano, onde se está, tenta se lembrar de como parou ali, do caminho. E quando vê, não pode voltar atrás, porém não se sente pronto pra ir em frente, permanecendo estagnado.

Um professor meu disse que havia uma diferença muito grande entre utopia, sonho e devaneio. E é necessário que saibamos bem o que cada uma delas é, para nossa própria evolução. O sonho tem data para ocorrer. O sonho precisa de lugar; precisa de condição; precisa de estabilidade; precisa de planejamento; precisa de esforço. Já o devaneio é aquilo que não tem raiz no chão, não tem como acontecer embora a vontade (e só ela) exista, na verdade o devaneio se alimenta dela e quanto mais a vontade aumenta, mais o devaneio cria corpo, mesmo que nunca tenha criado ligação com o chão. A utopia é algo além da perfeição, pode ocorrer, porém mesmo ela começa com um sonho, portanto, até ela necessita de certos atributos.

O devaneio, pode começar como um sonho, mas a idéia de algo rápido, imediato e sem muito esforço sufoca essa semente como se ela fosse jogada em terreno de espinho. Pode-se passar muito tempo dentro desse ciclone, lutando contra tudo que há fora, tapando brechas, impedindo que verdades entrem, mal se notando que é mais fácil sair e tentar viver um sonho real do que desprender grandes doses de energia pra se manter dentro.

Devaneio disfarçado de sonho foi o que viveram Romeu e Julieta. Eles se conheceram, trocaram tantas palavras bonitas e com três dias se casaram. Só o padre bastava. Pouco importava a briga das famílias, pouco importava se eles tinham só três dias de conhecidos, pouco interessava os motivos nem que eles não tinham um teto pra morar. Julieta só tinha seu amor, só tinha sua pureza e Romeu, só tinha o nome, os versos e ambos só tinham uma briga de família, ainda que nenhum dos dois buscasse saber o real motivo da desavença nem fizessem nada para mudar isso. Não nego que é uma história linda, o amor entre os dois era, o modo como eles o fizeram é que foi errado. E a quebra do devaneio foi tão forte e tal idéia era insuportável ao ponto dos dois não quererem encarar e se matarem. Gostaria de ver Romeu e Julieta vivendo um sonho de amor, um no qual eles lutam sim, porém bem mais do que simplesmente serem de duas famílias inimigas e se apaixonarem.
Quando o devaneio se vai, é algo terrível inicialmente. Ele em si pode não ser saudável, mas a quebra dele traz muito de bom depois que a dor se esvai. O terreno de espinho é retirado e a semente perdida de sonho pode respirar, outras maneiras e sonhos começam a surgir, novas formas de felicidade aparecem, formas que o devaneio não deixava que fossem vistas, afinal ele é egoísta, ele concentra tudo num só caminho e num só objetivo, excluindo variedades. Só que uma vez quebrado, vai-se o devaneio, porém fica o sonho.

Eu descobri outros sonhos, outras formas. Não raro se surpreenderem comigo, afirmando que falo coisas tão diferentes de alguns anos atrás, dizem que foi influência, o que não é verdade. É mais fácil as pessoas jogarem a responsabilidade para o meio externo, tão limitado quando a questão é influência, do que aceitaram que alguém pode procurar por si mesmo outros caminhos e procurar outras formas de realizar sonhos perdidos. Não mudei meus sonhos apesar dos devaneios que vivi, pelo contrário, eles permanecem e acharam a companhia de outros. Sonhos tem essa vantagem, eles não mudam, só ficam sufocados por um tempinho, mas ao se libertarem buscam a melhor forma de se realizarem. 

E nós também buscamos.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

O Complexo de Aquiles




Aquiles não era um mortal qualquer. Alguns até afirmavam, após ver suas façanhas, que ele era imortal. Não era pra menos, em toda Grécia, ele fez história pelos seus feitos, suas batalhas e vitórias. Meio indisciplinado, independente de qualquer comando, levemente arrogante, ele foi colecionando vitórias e fazendo nome entre os reis gregos, além de acumular certa inimizade com alguns deles também, pois embora suas habilidades fossem notáveis, Aquiles continuava seguindo seus princípios. "Um rei que luta suas próprias batalhas. Não seria inédito?".

Com toda essa fama e notoriedade, não era surpresa que ele fosse convidado para lutar em Tróia, a maior guerra da época. Seu amigo apareceu em sua ilha, lhe oferecendo lugar para lutar na batalha e prometendo glórias imensas após a vitória. Aquiles ainda pediu um tempo pra pensar, contudo sua mãe disse: "Se ficar em Larissa, você terá paz e encontrará uma boa moça para se casar, vocês terão filhos e seus filhos terão filhos e todos amarão você. Mas quando seus filhos partirem e os filhos deles também, seu nome se perderá. Se for à Tróia, vão escrever histórias sobre você ao longo dos séculos, o mundo saberá quem você é. Porém sei que se isso ocorrer, não o verei de novo, pois sua glória anda de mãos dadas com seu destino. Se for à Tróia, jamais voltará pra casa." Aquiles escolheu a segunda sem hesitar. Em Tróia, ele desafiou o Príncipe Heitor, cortou a cabeça da estátua de Apolo e fez outras polêmicas, sempre com o pretexto de lembrarem seu nome. Afinal, falariam daquela guerra dali a mil anos.
Ser um complexado de Aquiles é ter uma obsessão com lembranças e marcas. Tudo é voltado para que seu nome e seus feitos sejam lembrados, independente de que caminho tome pra isso. Lembro-me de um episódio de CSI no qual o assassino claramente tinha o Complexo de Aquiles. Ele era um serial killer que matava as pessoas em determinadas poses para que elas virassem estátuas vivas. No momento do interrogatório, ele requisitou que o visor da filmadora fosse virado para ele, já que desejava se ver. Ao ser mencionada a pena de morte, vem a surpresa: não há medo nem sentimento algum com relação a isso, somente o desejo de ser lembrado por sua obra.

Incrivelmente, você só e livra do complexo de Aquiles quando encontra uma Briseis e ela pode vir na forma de um hobby, lazer, projeto ou mesmo uma pessoa. É nesse momento que percebe-se haver algo mais do que lutas a serem travadas, que nas coisas simples e ternas pode haver a impressão do seu ser. É a velha história do que vale a pena ser lembrado e pelo que vale a pena lutar até o fim.

Briseis era ao mesmo tempo a ponte que ligava Aquiles a guerra e a paz. Por ser prisioneira, sua presença era tida como inimiga, porém, após ser salva de um estupro por Aquiles e se entregar a ele, nasce uma relação de amor que faz Aquiles ver algo além de espadas e sangue.

Claro que há momentos em que o desejo da glória se faz presente, contudo Aquiles torna-se mais equilibrado, mantém o foco, contudo o incentivo não é tão seco e há mais sentimento envolvido. Você vence seu complexo quando consegue sentir mais, ainda que permaneça o desejo de vencer. É nessa hora que assim como Aquiles você olha para sua Briseis, sentido-se pleno e diz: "Você me deu paz em uma vida de guerra."

domingo, 13 de abril de 2014

Vídeo Coleção de Camisetas


Oi! E aí? Na boa? Bem, esse vídeo tava na fila pra ser editado, mas finalmente saiu. Nele mostro minha coleção de camisetas, obviamente tem muitas de figuras de anime, fora as que eu pedi pra fazer do meu jeito. Acho que são uma peça muito versátil do guarda roupa, muitos deviam ter. Espero que curtam!

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Eu não mereço ser estuprada. Ninguém merece, aliás



"Eu não mereço ser estuprada". Essa frase nas últimas semanas fez sucesso. Tudo devido a pesquisa polêmica afirmando que mais da metade da população acredita que se as mulheres soubessem se comportar haveriam menos estupros e que mulheres de roupa curta merecem ser estupradas. E mesmo depois de provado que foi um erro do IPEA, a polêmica continuou e a repercussão idem. Estupro normalmente é um tema polêmico e quando vem acompanhado das palavras "merecer" e "roupa curta", a coisa pega fogo.

Primeiramente, estupro não tem a ver com sexo, tem a ver com violência. Não uma violência qualquer, é aquela do mesmo princípio de pessoas que torturam e serial killers: elas se comprazem do sofrimento alheio, é como se medissem sua força, seu poder e dominação utilizando a fraqueza do outro como cobaia. Com relação a roupa, uma frase que li desmistifica isso. "Se um bebê é estuprado, a culpa é da Pampers?". A culpa nunca é da vítima, nem da roupa nem das paredes do local, a culpa do estuprador, porém mais ainda da cultura de desrespeito que se instalou na sociedade.

Sabemos que há estupradores em potencial, assim como ladrões, assaltantes e assassinos e procuramos nos proteger, uma vez que se está a mercê de tais riscos. Compartilhei um texto que mostra uma ótica social parecida com todo esse rebu da pesquisa. Imagine que você sai de casa ornamentado, com seu anel de formatura, correntinha de ouro e tablet checando suas mensagens. Não raro alguém dirá: "Tá pedindo pra ser assaltado", "Que perigoso sair com tantos bens amostra" e se acontece o pior sempre tem: "Bem feito. Agora vai ter mais cuidado e deixar de ser besta." É bem familiar com a pesquisa não? As pessoas tem o direito de usar e sair com o que dá na telha, porém se abstêm disso em função de um perigo/ameaça que nada tem a ver com suas vontades. A culpa não é delas, é de pessoas cuja noção de respeito e compaixão é quase nula.  E pode crer, isso está muito além de machismo, paternalismo e outras palavras, é um problema da sociedade em geral.

E é claro, que uma pesquisa como essa gerou reação violenta. Protestos pipocaram em blogs, redes sociais, noticiários, o mais famoso é o de meninas seminuas com a frase escrita no corpo: "Eu não mereço ser estuprada". Acredito na validez da ação, nas intenções de chocar. Muitas toparam e entraram de cara, outras tem certo receio, já que nudez exposta sempre envolve muitos fatores. Ao mesmo tempo em que houve apoio maciço, também houve parcela rechaçando a idéia, afirmando que mostrar o corpo publicamente (ainda que a intenção fosse boa) só agrava o fato de verem a mulher como um pedaço de carne. E ainda questionarem a seriedade do protesto. Conhecidos (as) meus participaram do protesto, seja curtindo, compartilhando, escrevendo textos ou mesmo fazendo fotos. De alguns era tão esperado que o fizessem que não foi surpresa alguma suas atualizações.

Pessoalmente falando, ver meninas com seios de fora ou cobertas por um cartaz foi um protesto que não me impressionou nada. Acho que tenho alma de legista, ao meu ver anatomicamente, tirando a questão dos biotipos, somos muito parecidos por fora e internamente, daí ainda que haja uma questão de atitude envolvida, a nudez das moças (e alguns rapazes) protestando não me tocou, do mesmo jeito como não tocou a muitos. Devo dizer, todavia, que uma imagem realmente tocante foi uma na qual a moça estava coberta e com o rosto enfaixado, havia tanto significado e impacto ali, que pode ter causado mais efeito e chacoalhado mais do que as moças seminuas e seus cartazes.

A pesquisa, mesmo que falha, ajudou a mostrar como ainda encaramos essa questão da roupa curta-estupro-culpa. Ajudou também a visualizar que o problema é maior do que se pensa. Afinal, mulheres, homens, crianças, bebês e até pets que tenham donos com taras estão sujeitos ao risco de estupro e a questão da roupa curta cai por terra. Vai muito além de uma questão de machismo, feminismo radical, protesto, revolução, ou qualquer palavra dessas que se possa usar. 

"Meu dono é zoófilo.
Eu não mereço ser estuprado"
É uma questão de respeito, pura e fundamentalmente, tanto ao próximo quanto a si mesmo. O necessário é desenvolver uma consciência de que precisamos respeitar o outro, enxergar como um ser humano como nós, pois a partir do momento que se enxerga como uma pessoa digna, merecedora de paz e felicidade, se passa a ver o próximo da mesma forma. Só assim se evitarão estupros, assaltos, sequestros e catástrofes.




quarta-feira, 2 de abril de 2014

Os tipos facebookianos



Começa um novo mês e queria saber se caíram em muitas mentiras de 1º de abril, que precisa é claro, vir recheado de piadas e mentirinhas que causam aqueles sustos, só perdem a graça se forem algo realmente sério que fere as pessoas. Mas não vim contar nenhuma mentira, só fazer um post divertido que há um tempo vem martelando minha cabeça. Muitos sabem que não curto rótulos, nem nada que limite ou delimite as pessoas, só que quando se trata de facebook, notei que há grupos bem característicos conforme gostos e preferências, pode verificar seus amigos, você vai notar também. Espero que se divirtam!

1. Os Cults (e pseudo): eu já ouvi algo parecido em um post, algo como "eles estão em toda parte". No texto que li, eles são descritos como umas pessoas chatas e esnobes, embora isso não seja regra. São daquelas que criticam abertamente e de graça culturas populares tipo novelas e programas de cunho informal, curtem bandas desconhecidas, olham com desdém algumas diversões mais inúteis, não compartilham nada além de artigos de cunho científico, descobertas de pesquisas, coisas relacionadas a mente e cérebro, eruditas, da área psicológica e política. Um dia falei que gostava de animes para um cult, de um modo um tanto ríspido obtive a resposta: "Não gosto de otakus"; outra que levei na cara foi "limitação cognitiva" e "dificuldade de percepção" para o fato de eu compartilhar muita coisa de Chaves e Chapolin. E eu, um dia já com o balde alagando disse: "Percebo que você compartilha muito de neurociência, os Srs. Lundy-Ekman* ficariam orgulhosos". Com os cults aprendi que o problema não é você ser adulto ou sério ou compenetrado ou até mesmo culto e erudito, o problema é ser intolerante e chato. *Autores de livro de neurociência

2. Os Revolucionários: Raramente eles aparecem em bate papos, o que dirá conversa. São bem discretos como pessoas, porém como cidadão reivindicador eles chegam chegando. É fácil reconhecer: são aquelas pessoas que curtem páginas de partidos políticos, feminismo extremo, discussões constitucionais, compartilham textos falando de sistemas e problemas do país, revoltas, aniversários de fatos importantes, postam fotos de protestos, movimentos de crítica. Todos os status tem sempre um tom ácido e meio incitador, ás vezes meio exagerado e em casos extremos, muito desanimador com relação a coisas que deveriam ser encaradas de forma mais leve. De certa forma, qualquer conduta meio centrada na idéia de "isso é melhor que isso e tem que ser feito de qualquer forma" pode se enquadrar na categoria de revolucionário.

3. Os Profissionais: Essa também é uma categoria de discretos. O motivo, no entanto, é ocupação. Normalmente eles estão demasiado ocupados com o trabalho e profissões. Dificilmente postam fotos, o perfil tem basicamente as informações sobre instituições onde estudou, idiomas que fala e os compartilhamentos em sua maioria esmagadora são sobre cursos, bolsas e programas de aperfeiçoamento. Os profissionais são bem compenetrados e tendem a se dedicar bastante aos objetivos, normalmente demonstram em seus status algo relacionado ao seu estado (emocional ou mental) durante os períodos em que há engajamento em algum projeto, as fotos de capa e perfil sempre tem algo que remete, seja a uma roupa, símbolo ou um objeto, além do que dizeres que tem haver com suas profissões também estão incluídos.

4. Os Narcisistas: Eles demonstram amar demais sua imagem e não só tiram foto no espelho, mas em absolutamente todo lugar! É aquele amigo que tem um monte de álbuns com fotos na balada, em churrascos, em casa quando acorda, depois de comer com a boca toda melecada de molho, muitas dessas fotos são com o mesmo olhar e na mesma pose, mudando os ângulos e paisagens de fundo. Ás vezes, eles gostam de vários takes para garantir que a foto ficou boa, mas em outros casos é uma alusão a popularidade que se tem ou que se gostaria de ter. Eles gostam de lugares privilegiados nas fotos, sempre bem arrumados e sorrindo absolutamente todo tempo, nenhum deles tira foto triste ou com fome.

5. Os Espirituais: Não estou falando de Deus nem de religião, estou falando de estados de espírito  que envolvem ambos ou não. São as pessoas que compartilham mensagens de ânimo, passagens da Bíblia, textos falando de alma, espírito ou para levantar a auto estima. Fotos que são sempre relacionadas a paisagens tranquilas, imagens, pessoas espiritualizadas, como Gandhi e Madre Teresa, fotos de igrejas, templos, filmes de cunho espiritual ou de superação. O bom é que eles são pessoas muito solícitas, sempre dispostos a ajudar o próximo em conversas, sempre tem uma frase pra ajudar o outro a se sentir melhor num momento de dificuldade. Vi um que era tão espiritualizado que quando ele fez o videozinho dele de facebook tinha um pouco de tudo que falei menos uma foto do dito cujo.

6. Os Divertidos: Busquei um nome que englobasse e definisse bem essa classe, porque ela é composta de vários subtipos. Nerds, geeks, gamers, otakus, blogueiros que tratam de assuntos  como maquiagem, moda, vídeos engraçados, todos esses são os divertidos. Assim os denomino porque são pessoas que gostam das coisas leves da vida, não são de esquentar a cabeça e comumente são chamados de infantis pelo seu jeito descontraído. Há pessoas de várias idades nesse tipo, e de várias profissões, mesmo que sejam bem mesclados, sempre tem algo em comum: adoram rir, se divertir e curtir seus gostos.