Dentre todas as coisas que estão
sendo mostradas na televisão hoje em dia, não só nos jornais cuja função é
mostrar os fatos realmente, mas também nas novelas com temáticas polêmicas, foi
tocante o modo como a novela das sete no capítulo de ontem abordou sobre
caráter e moral.
Não há outra expressão do que
tocante e reflexivo. Não por acaso o capítulo foi todo essa temática, os outros
núcleos ficaram literalmente parecendo meros coadjuvantes e o telespectador
permaneceu preso às lições de moral dadas nas cenas. Logo no início se vê
aquela cena de revelação, novelas geralmente promovem essa expectativa do cara
mau ser desmascarado. Nesse caso, o cara mau era o filho da “vítima”, envolvido
junto com o sogro num desvio de verba (roubo por assim dizer). Quem descobriu a
tramoia toda foi um funcionário do escritório de advocacia onde todos
trabalhavam. o funcionário novo, dedicado e diga-se de passagem explorado pelo
mais poderoso porém completamente incompetente. A vítima, um grande empresário
muito cheio da grana, fez um discurso louvável. Frase marcante: “No meio de tanta gente desonesta é difícil acreditar que alguém ainda possa ter caráter”. Mostrando que não era nenhum ingênuo e
enfatizando que apesar de todos os esforços para uma boa educação, baseada em
valores, em decência o filho condizia muito mais com o caráter sem escrúpulos
do sogro e havia achado o pai ideal e afim com seu jeito de enxergar a vida,
conforme palavras do próprio personagem “Um calhorda como ele”.
Incrível o paralelo feito, pode
parecer clichê da parte do autor, mas promoveu sérios pensamentos. O advogado
honesto que denunciou, era o típico trabalhador que lutou muito para chegar e
conseguir a carteira da OAB, vindo de origem humilde, á base de sacrifício e
quase órfão de pai, valoriza muito qualidades pautadas na ética e na moral e
idolatra sua profissão, tendo orgulho de ter chegado onde chegou de forma
direita, não se deixando levar pelo deslumbramento do dinheiro fácil. O outro,
o menino filho de pai milionário que recebeu boa educação, não gostando muito
do trabalho árduo, vaidoso chegou onde chegou com um contatinho aqui e ali e se
segurando na boa pinta e no sobrenome do pai, mudando rapidamente ao menor
sinal de ameaça ao seu status. Levou ao conflito não só do personagem,
completamente decepcionado com o filho e que acredita na educação e na
compensação de uma vida digna, mas dos telespectadores. Qual o preço da honestidade? Vale á pena ter caráter ou ele se molda conforme a situação? Será que as pessoas
nascem boas ou más e não se pode fazer nada á respeito?
Não. O caráter conta bastante,
contudo sua percepção do certo ou errado e suas escolhas contam mais ainda. O personagem
honesto vem de origem humilde e tem
índole boa; o rico, com todo luxo só tem seu deslumbramento pela juventude e
nenhum amor ou valorização pelo trabalho. Houve muitas cenas, com a velha
desculpe de que o trabalho não é necessário, uma vez que já se tem dinheiro pra
várias gerações. Embora, o que esteja em jogo não seja necessariamente o
dinheiro, mas a construção de uma auto suficiência. A noção de que produzir
algo e construir algo com seu trabalho, com suas mãos, se sentir útil, não só
para sua família, mas para a sociedade compensa tanto quanto ou até mais do que
o retorno material. Afinal, dinheiro, juventude, não são garantias. Eles vão
tão facilmente que quando se percebe, você acorda de mãos completamente vazias
e velho e o pior: inútil e sem ter feito qualquer diferença.
Achei interessante o paralelo
feito com a família. Por um instante a cena da esposa chocada com a situação e
demonstrando não saber de nada, me pareceu ridícula, a tola idolatrava o marido
o achando o verdadeiro tubarão do direito quando ele não passava de um bandido.
Percebi depois que foi um erro pensar assim, ainda que a culpa da esposa não
possa ser totalmente absolvida. Ela era meio perua deslumbrada, com tanto luxo
em volta, roupas caras, objetos de arte, cartões de crédito á perder de vista,
arrogância e educação apenas para cuidar de uma casa e empregados, parece muito
natural o dinheiro estar sempre ali. Ledo engano. Não entender de negócios e
transações é um fato, não saber cada detalhe do contra – cheque do marido
também, contudo apoio a ideia de que mesmo pra uma madame, ela deveria se
interar minimamente de questões financeiras relacionadas ao orçamento. Nunca confie
totalmente em uma fonte inesgotável se não puder saber a origem e o trajeto de
seu conteúdo. Fica a dica.
A dignidade da irmã do honesto, foi umas das cenas mais bem feitas do capítulo. Um verdadeiro show de atuação e do texto do
diálogo de deixar o queixo caído e até os mais céticos, emocionados. Foi a descrição
da história de vida dita como difícil em uma cena com muitos detalhes. O abandono
dos pais, a responsabilidade de criar dois irmãos pequenos e a frase mais
tocante e que já entrou pro meu próprio ranking de vale á pena ser lembrada: “Foi
nessa hora que eu vi que sozinha eu não ia conseguir. Eu precisava dos outros. Foi
aí que eu passei á respeitar os outros. Eu não tinha nada, eu precisava
conquistar a confiança das pessoas.” Todos passamos por dificuldades, isso é inerente
para a evolução do ser humano, para a construção do seu verdadeiro ser, mas o
modo como você encara o sofrimento e fica depois disso é sim, puramente
escolha.
Muitas lições foram dadas. Reflexões
instigadas, como diria no facebook “Eu curti”, pra caramba devo dizer. A
atuação de Taís Araújo, Leopoldo Pacheco, Humberto Carrão, Jonatas Faro e
muitos outros realmente deu o recado e atingiu o objetivo. Percebe-se que caráter não é algo em extinção
e rótulos nesse sentido não devem ser feitos. Pessoas humildes podem ser
honestas ou usar sua condição como desculpa, assim como milionários podem
valorizar o trabalho e o suor do rosto e a dignidade de uma vida honesta e passar
isso para seus descendentes ou ter uma vaidade tão grande, que confiam
cegamente no valor dos bens materiais. Eu acredito em índole e escolha. Acredito
que não importa se você mora num apartamento de R$ 800.000,00 ou em um bairro
de casas de madeira, é possível ter caráter, respeito ao próximo, valorização
de bons sentimentos e trabalho, independe de classe social.
E definitivamente, ficou claro
que vida digna, honestidade e caráter compensa. Mesmo no mundo de hoje,
compensa.








