Aula da Saudade normalmente tem por objetivo reunir todo mundo e relembrar coisas que aconteceram e marcaram 4, 5 anos de curso. O problema é que alguns tem memória mais fraca que outros. Ou tem coisas mais legais pra lembrar do que outros. 5 anos ou 4, que seja, pode não parecer mas é muito tempo. E um tempo no qual muitas coisas podem acontecer, algumas com poder de marcar alguém para sempre. Fazer ranhuras no seu ânimo e no seu ser tão profundas que não podem imaginar como é.
A universidade como eu disse não foi um sonho dourado pra mim. Talvez no máximo tenha sido de bronze. Um que brilhava muito, mas ainda assim bronze. Claro que decorridos alguns anos você preenche essas ranhuras, principalmente depois de ver que muitos eram mais hipócritas, bobos e ridículos do que julgavam que você mesmo o era.
Mas voltando para a Aula da Saudade, por vezes muitos não tem saudade de nada. Eu pelo menos sou uma pessoa bem saudosa e nostálgica digo de peito aberto que não sinto falta de muita gente e podia ter passado sem viver muitas coisas e conhecer muitas pessoas. E francamente, acho o fim da picada criticarem você e fazer você se sentir culpado por não morrer de amores pelas lembranças ou pelo que viveu. Você não é um ingrato ou arrogante, você só tem uma percepção diferente.
As aulas da saudade são bem parecidas pelo que já vi. Começa com a turma toda reunida, comida e bebida trazidas e brincadeiras. Por vezes começa com os próprios alunos depois pode aparecer alguém, um comediante que vai dar mais uma animada. Tem uns videozinhos com momentos e fotos e claro, a distribuição de faixas. Tanto dos alunos quanto de profs. Nessa brincadeirinha cada pessoa recebe uma faixa com a característica "marcante"ou apelido, normalmente baseado em toda a trajetória até ali, confesso que muitos revelam o quanto de criatividade possuem. Ou a falta dela.
Eu nunca fui a pessoa mais popular da universidade. Sempre fui muito na minha desde que me entendo por gente. Ás vezes no silêncio da noite penso se não devia ter uma profissão em que pudesse trabalhar no quarto sem ter contato com tanta gente intratável como a que vi na escola, universidade e na vida. Mas deixemos isso de lado e voltemos às faixas. Eram bem bonitinhas e jeitosas, com as palavras em verde brilhante. E as moças da comissão distribuindo e falando.
A primeira faixa é a "Criada por Vó". "É aquela pessoa melindrada, atrapalhada, a gente precisa explicar as coisas bem pra ela". Todos dão palpites nessa hora, como eu mesma dei, pude ver que as comissionárias já estavam até cansadas da demora em adivinharem. Notei também, fatidicamente, que os nomes de quase todo mundo já tinha sido dito palpitado. Menos o meu. Quando mencionaram ela e as moças confirmaram, meu sorriso se apagou e por 1s eu fiquei brava. Ou melhor por 5s. Fora os minutos posteriores em que fiquei pensando no que se sucedera.
Apesar disso, dá pra ver no vídeo eu sorrindo ao receber a faixa, mas eu dissera "Lembrei da minha avó". Pois bem, vamos pôr as tripas pra fora agora. Sim, eu fui criada por vó. Eu tive sorte, minha mãe também. A s mulheres de hoje reclamam que os filhos tomam tempo e ou não querem tê-los ou são como bombas relógio, a minha não teve esse problema pois mesmo que nunca tenha abdicado da responsabilidade, tinha uma mãe que dava uma força e tanto.
Ela era uma senhora muito distinta e elegante, sustentou uma casa sendo costureira, se separou de um marido que a maltratava, deu uma lição de feminismo maior e mais prática do que muitas dessas mocinhas que conheci na universidade que só postam textões, prints e fotos de mulheres mostrando os peitos, incluindo elas. Não me importo de ter recebido essa faixa. Me importei com o que colocaram sobre ela.
Minha avó faleceu pouco mais de uma no antes de eu me formar, de um jeito inesperado, de repente, sendo que eu desejei de todo coração ver o rosto dela no dia que me formei. Como digo em discussões, ninguém é obrigado a saber da sua vida, mas me dar uma faixa dessas era realmente impossível que eu não me lembrasse. Fora é claro, o "melindrada, atrapalhada", sei que foi com a intenção de brincar, mas ser chamada de atrapalhada não é a coisa mais legal do mundo.
Muitos pra quem falo essa história dizem que receberiam a faixa de cara feia. Ficou uma sensação de inferioridade, afinal foram 5 anos. 1825 dias. 5 anos desprendendo energia pra aproveitar tudo que me era passado, me envergonhando de besteiras que eu poderia ter feito, me sentindo culpada por culpas que por vezes não eram minhas, tentando fazer tudo certo pra ver que foi isso que concluíram de mim. E o pior: perceber que não se deram ao trabalho de olhar um pouquinho mais.
Eu já escrevia no blog. Eu já fazia vídeos de maquiagem. Eu compartilhava com colegas e eles faziam questão de ignorar, ao menos me consolou que em outra brincadeira, uma colega lembrou do blog e que eu escrevia. Porém preferiam o "atrapalhada" pra encobrir um olhar de "que menina meio tapada ela é", coisa essa que me assombrou por muito tempo, mesmo depois que eu já não pertencia mais à universidade. Engraçado que a "tapada" enfrentava três turnos de atividades, terminou o TCC dois meses antes do prazo e já tinha um trabalho garantido quando saiu da universidade. Quando lembro disso sabendo que me olhavam como uma tapada que talvez não se mobilizava pra nada, percebo que é uma vingança melhor que a do Edmond Danteé.
Sei que parece dramático mas muitos não tem coisas boas para lembrar também. Históricos de bullying, não adaptação, cursos frustrados, humilhações. Quem pensa que a universidade é como American Pie, com seus amiguinhos gozando (em todos os sentidos) se enganou. Se pra alguns é assim, pra muitos é dureza. Mas você não é o único, se sinta acolhido pois não é crime não ser entusiasmado com o que viveu na universidade. Como eu disse em outro post: há resquícios da escola e das dificuldades, você somente está num nível superior no qual os bullies são bullies não por serem populares, mas por participarem de outras coisas ou terem um contato aqui e ali.
Considere-se um herói de J.K. Rowling, ela diz que as histórias dela giram em torno de pessoas excluídas, estigmatizadas ou anormais, que viram heroínas. Talvez mesmo com tantas arestas para lembrar, no fim, nós somos os heróis. Pois o que de bom ocorreu, fica. O que de mau, se vai. E você segue. Mais forte, mais esperto e com certeza, muito mais maduro.



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