Muito se falou da novela das sete
passada. Embora tenha sido a melhor da safra deste ano, passado por barrigas,
contradições de personagens, arcos intermináveis e explorando exaustivamente
assuntos até ficarem sem combustível ainda foi a menos pior da safra.
E uma das coisas que mais
emocionou os telespectadores foi a morte de Dora, uma importante personagem,
mãe das principais. Matar um personagem que não é vilão ou anti-herói foi por
muito tempo um tabu entre os autores de novelas. Era quase como um tiro no pé,
um risco que muitos não se atreviam a correr em nome de dar ao público algo que
ele queria, tanto quanto arriscado deixar um vilão se dar bem.
E tal como na vida real é quase impossível os vilões receberam seu castigo a galope ou do jeito que o público deseja, é meio impossível achar que a morte é algo que não virá, mesmo para os mais queridos, mais legais do mundo, só que claro, as novelas também tem essa função de fazer parecer tudo perfeito. Dora para muitos não merecia morrer. Afinal, ela era doce, meiga, meio hippie, sempre com alto astral mesmo com a filha Lumiar a deixando de lado e sofrendo de uma doença terminal. Uma das frases
marcantes foi quando Lumiar ao tomar pé da real situação de saúde da mãe propôs um tratamento no exterior, que buscassem outras alternativas e Dora, de um jeito muito doce, muito terno e desprendido disse que não desejava nada daquilo, disse que não queria terminar a vida passando pela agonia de um tratamento, com um hospital e pessoas estranhas. A frase que derrubou Lumiar foi dita com um sorriso: “Eu vivi uma vida maravilhosa, vivi bem, por que também não posso ter uma morte boa?”
Estudiosos que disseminam
percepções diferentes sobre o assunto e muitas pessoas que a palavra “Morte” e
“boa” não podem coexistir na mesma frase, todavia Dora enquanto personagem
quebrou uma expectativa que normalmente se vê em novelas/filmes, principalmente
os brasileiros: o de que mesmo que não ocorra um milagre ou uma reviravolta de
última hora e o desfecho seja de fato a tal morte, não significa que seja ruim.
É preciso entrar em um assunto
ainda muito nebuloso para a maioria das pessoas: a questão dos cuidados
paliativos. O próprio assunto é novo, apenas na década de 80 é que todas as
diretrizes que permeiam ele foram de fato estruturadas. E quando se menciona
cuidados paliativos, quase sempre se lembra dos filmes/séries nos quais aparece
a família em volta do doente prontas para desligar os aparelhos, ou se
despedindo antes de uma injeção fatal. Legalmente, isso caracteriza Eutanásia, o
que não é permitido pelas leis brasileiras e é julgada criminalmente como
homicídio, sendo punidos todos os envolvidos, tanto família quanto equipe
médica.
Cuidados paliativos nada tem a ver com desistir do doente ou negar assistência precisa ou necessária se for o caso. Tem a ver com não fazer investimentos pesados e dolorosos a própria pessoa/família, uma vez que já se chegou a um ponto no qual não haverá reversão do quadro, não importando o que se faça ou para onde a pessoa vá, em outras palavras, o único desfecho iminente é a morte logo qualquer tentativa de resultado que vá contra isso acaba sendo mais doloroso sem que se chegue ao menos perto de uma cura. O que obviamente não significa que se negligenciará os cuidados, amenização de sintomas e se dará o máximo de conforto quanto possível.
Na novela foi visto: Dora tomando
bolsas de sangue para corrigir anemias, recebendo oxigênio para falta de ar e
outras coisas, os cuidados, a vigilância permanecem, todavia existe a ideia
ainda de que os momentos são cada vez mais escassos, próximos de um desfecho
inevitável. Não raro se pensar que a família está desistindo, abdicando,
todavia estudos mostram que os que compreendem e aceitam os cuidados
paliativos, passam por este momento de forma mais suave. É importante mencionar
que não é que não haja dor pela partida, não haja luto ou o sentimento pela
ausência, a questão é que há um outro modo de sentir toda essa onde de
sentimentos, essa transição torna-se mais leve.
A morte sempre vai gerar o sentimento de aversão, de dor, e quando vem acompanhando um quadro de
doença vai haver outro mix de sentimentos, que permeiam desde impotência, até lutar até o fim, revolta... os cuidados paliativos, mostrados de forma tão bonita por Dora mostrou que se pode passar por esse momento de um modo em que a dor tenha um significado menos de fardo e mais ressignificação, que haja de fato alegria até o último instante e o doente possa também ter dignidade ao fazer essa passagem, tanto quanto teve dignidade em vida.Dora ao cantar suas músicas , ao momento de sua família se despedir em meio a versos, a leveza, suavidade, demonstrou que o amor estava em predomínio, bem mais que dor ou desespero, que Dora permaneceria ali e sua lembrança seria cheia de doçura e paz. Lógico que não é uma ideia fácil de se aceitar, para muitos a morte é um inconveniente doloroso e cruel, ainda que plenamente parte da vida, todavia os cuidados paliativos mostrados por Dora, que envolveu todos nessa energia de retidão demonstrou que é possível por mais doloroso que seja a ruptura, ainda pode ser de uma forma leve e amena, de modo que o começo do luto seja menos traumático.



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