Minha história com filmes de terror não começou bem. Ao contrário dos aficcionados do gênero, eu tinha medo até da madrasta da Branca de Neve e o filme do Sexto Sentido me fez ficar sem dormir por três noites. Contudo, um belo dia eu perdi o medo. Na verdade, eu percebi como lidar com ele. Curiosamente, sempre tive muitos medos que me faziam tremer só de pensar neles, mas para meu azar (ou sorte) quando muitos deles se concretizaram e eu percebi que precisava lidar e sobreviver, com o tempo não pareciam tão terríveis assim.
Desse modo, ao enfrentar tantas coisas doloridas, que fazem tremer na vida real, será que um filme é de fato tão assustador quanto parece? Lógico que considero os baseados em fatos reais, esses deixam as pessoas impressionadas ao verem os créditos, todavia afirmo que o cinema enfeita bastante e muitos daqueles demônios, espíritos, entidades são bem maquiados justamente para amedrontar todo mundo, fazer com que as pessoas levem susto e recomendem o filme aos amigos. Medo é algo engraçado. Faz você ficar em alerta, porém quando enfrentado não mais parece assustador. Ele permite que você desperte o instinto de autoproteção mas existe algo que impulsiona você a querer sentir tudo de novo. É curioso pensar que é exatamente nisso que se baseia a indústria do terror, todavia analisando um pouco mais, percebe-se que mesmo terror possui uma sequência lógica em seus filmes, histórias que colocadas lado a lado possuem um cerne, algo que as liga à mesma raiz.
Se pegarmos os filmes de terror mais assustadores da história, veremos que são pautados em um tema comum. Ressalva que os "mais assustadores" aqui mudam conforme a época. Frankenstein (1931) e O Exorcista (1973) foram marcos de seu tempo. Hoje, muitos dormiriam e revirariam os olhos com os efeitos especiais parcos, a imagem de qualidade baixa, isso se não rissem das atuações. Mesmo os filmes contemporâneos com a melhor maquiagem e imagem 3D pode não ser tão impressionante para alguns... Todavia retomando o ponto inicial, a maior parte se baseia em algo peculiar: o desconhecido
O desconhecido aqui envolve os mistérios da vida e principalmente da morte, e nossa relação com esses mistérios que normalmente vem pautada de receio e temor. Em Frankenstein, logo no início um aviso é dado ao telespectador sobre o teor do filme, afirmando que estavam sendo avisados sobre a tensão a qual seriam submetidos. Afinal, a história envolve um homem que tenta recriar vida a partir de cadáveres, para a sociedade da época era algo realmente impressionante e assustador, da mesma forma como O Exorcista, por mexer com questões religiosas, fez muitos saírem vomitando do cinema.
Nos dias de hoje, tivemos o famoso O Sexto Sentido, Espíritos, a franquia Invocação do Mal, que contou com fatos reais, considerados realmente assustadores mas que também tocavam nesse ponto do limite entre a vida e o além túmulo. Cabe dizer que é no mínimo curioso algo assim causar tanto temor, uma vez que é a coisa mais certa e definitiva da vida, todavia quando a questão "morte" se envolve, tudo assume uma nuance assustadora, por mais que se saiba processo natural da vida.
Boa parte dos filmes envolve uma necessidade de seus personagens de lidarem com algo que não só não compreendem bem, mas que em 98% dos casos tem natureza maléfica, que traz quaisquer tipo de prejuízo aos envolvidos. Em Invocação do Mal, Anabelle e O Exorcista vimos entidades ditas "más" trazerem coisas realmente horríveis para aqueles que tiveram contato com elas, fazendo com que a ideia de morte/espiritual já viesse associado com algo negativo de cara. Quando não vem associado com algo do tipo, seja através de fenômenos sobrenaturais assustadores que ocorrem dentro de um local ou com alguém, vemos que o desejo de talvez ter contato com uma pessoa querida que já se foi pode permear o enredo.
Creio que quando amor e morte estão presentes numa mesma figura, os sentimentos podem ser dúbios. Existe a terrível dor pela ausência e o desejo de proximidade todavia se sabe que um contato com sentidos físicos envolve algo maior que nós. Como vemos em Anabelle 2 e 3, o desejo ávido de ver e reencontrar parentes amados já falecidos, tornou os personagens vulneráveis a qualquer coisa que lhes desse essa ilusão. O problema é que nesse ato, coisas ruins se aproximaram, trazendo o caos para esses personagens, isso mostra a dificuldade de lidar com a perda e o que essa vontade de poder ter contato, mesmo que por um momento com seres queridos, pode levar alguém a se submeter e fazer.
Lógico que muitos desses filmes trazem dentro de sua áurea escura, um pouco de elucidação sobre esse assunto. Mesmo que a franquia Invocação do Mal tenha sido feita com o objetivo de chocar, Lorraine Warren com sua doçura traz alguns conhecimentos sobre o assunto, mostrando que se pode conviver com isso tendo o conhecimento devido. O Sexto Sentido também traz o jovem Kevin nesse processo de autoconhecimento, numa tentativa de poder ter mais paz e lidar melhor com seu dom. Assim como em Espíritos 2, que mostra a saga de uma família cujos integrantes possuem um dom comum. Muitos podem crer que isso tem a ver com religião ou alguma doutrina, porém tem a ver com elucidação. Não vou mentir que muitas religiões tratam do assunto de um modo mais natural, com outro foco que fica bem longe de medo, numa experiência pessoal, aprendi a tratar da morte dessa forma, falo de forma tão natural que já me perguntaram como consigo dormir á noite.
A elucidação é acima de tudo um conhecimento e ele é como uma luz abrindo caminho no meio da escuridão, e quando a iluminação vem, perde-se o medo do desconhecido. E esse mesmo conhecimento possibilita que no caso de filmes de terror, haja menos medo. Quem gosta não vai deixar de assisti-los, mas definitivamente os sustos não farão com que se passe uma noite em claro...




Muito interessante sua análise. Acredito que colocam algo malefico nos filmes para que, junto dos protagonistas, possamos encarar e enfrentar esses medos. Seria meio que o motor da trama. Apenas curiosidade não faria com que as pessoas interagissem por vontade própria (devido a contemporaneidade dos nossos dias), aí é necessário dar um empurrãozinho, tipo, ou vc interage comigo ou morre. :p
ResponderExcluirDe fato, a parte contemporânea é um empecilho para essa interação, porém creio que o ponto de vida vs morte ainda é um ponto bem presente nesses filmes ^^
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