É muito oportuno talvez a nova novela das seis ser justamente sobre esse tema de vida. Aos que não são noveleiros, um breve resumo.
Começa com a tenista Ana Fonseca, que tinha uma carreira brilhante no ápice, até que engravidou do irmão de criação Rodrigo, num arroubo apaixonado de adolescência, numa bonita cena dentro de um rio. Mesmo com os protestos da mãe Eva, que sugeriu o aborto e adoção, ela teve sua filha Júlia, seguindo apoiada pela irmã Manuela. A mãe esconde de todos que Júlia é sua neta, registrando a menina como filha de modo a evitar o escândalo. Após voltar ás quadras no entanto, o desempenho de Ana não era o mesmo, ela se vê num dilema, se sentindo não mais ela e tocada a tomar um rumo diferente na vida.
Com isso em mente, Ana decide “fugir” de casa com a filha e a irmã para a casa da avó em uma cidade vizinha, todavia no caminho, o carro em que as três estavam, capota e cai em um lago. Manuela naquele momento de desespero se vê diante de uma difícil decisão de salvar ou a sobrinha ou a irmã. Ela opta pela sobrinha, o que faz com que Ana permaneça inconsciente muito tempo embaixo d’água. Tudo isso culmina em um coma prolongado de Ana, o que para a mãe Eva que sempre odiou Manuela e queria se livrar de Júlia foi bem oportuno.
Quando há o despertar, considerado um milagre, Ana se depara com uma realidade cruel: a
Além de todos esses fatos, Ana precisou se recuperar dos próprios efeitos do coma prolongado, reaprende a andar e se movimentar, pensar em como se reergueria, o que faria profissionalmente dali por diante, uma vez que o esporte profissional estava fora de cogitação, conquistar a filha com quem não tinha convivido, era literalmente começar do 0.
E no recomeço de Ana, nas novas percepções dela, decepções e acima de tudo, pesar que acabamos nos identificando um pouco com essa sensação de “coma”. No momento em que o mundo se encontra, com tantas limitações, desde de poder ir a um programa tão rotineiro quanto um café em uma confeitaria, até planejar uma gestação, um casamento, pensar em um curso novo, boa parte de nós entrou em coma mesmo sem ser literalmente. Entramos nesse estado de letargia e estagnação, sem podermos no entanto, em muitos pontos, fazer algo a respeito, pois há fatores além de nossa vontade ou poder.
Reaprender é muito difícil. Se reerguer é complicado. Ver Ana nos toca de algum modo porque todos nós lá no fundo estivemos nessa situação de impotência e sentimento de ter sido roubado de algo. Ela talvez seja o reflexo de nossas frustrações como um todo. Uma moça na flor da idade, com uma filha e todo o amor do mundo para um rapaz, de repente por uma fatalidade e coisas além da compreensão e vontade, ocorre algo assim e tudo que ela poderia viver lhe é tirado não por uma pessoa, mas pela própria vida, foi literalmente uma traição desta. Fatores além da vontade de Ana propiciaram tudo e por mais que haja a frustração de uma vida que ela queria ter, não pôde pelo simples fato de que não se volta no tempo.
Todos haviam mudado, tudo havia amadurecido e ela precisou encarar e aceitar o fato de que não podia voltar para a antiga vida e coisas que havia planejado que cabiam tão perfeitamente antes, não mais poderiam ser cogitadas. Por isso talvez haja essa associação. Olha-se para Ana e no fundo há a compatibilidade com a sensação de que em nossa vida também tombamos com fatos que estão além do nosso alcance, até de nossa vontade, coisas que simplesmente acontecem, sem culpados propriamente ditos mas que tentamos buscar um para poder aceitar o fato de que não estava nas mãos de ninguém, mas do destino. Esse “ser” não palpável, não físico, todavia que nos rege e nem sempre faz o que gostaríamos que fizesse.A situação de Ana, de um modo mais dramático, nos dá esse confronto. O confronto do quanto nos ainda não conseguimos lidar com fatos que estão além do nosso alcance, todavia que geram essa sensação de angústia, essa sensação de urgência, de querer correr atrás de um tempo perdido, de uma oportunidade, como se tivéssemos de fato estado em um coma prolongado e ao ver o quanto perdemos, quiséssemos recuperar de forma imediata. E ao nos depararmos com a impossibilidade, ocorre que forçadamente precisamos aprender a ter paciência, dar um passo de cada vez, pensar em novas possibilidades, novos meios de aprender e recomeçar.
Essa experiência de “ficar em coma” gera revolta em nós de forma indiscutível. Todavia se analisarmos a situação, uma hora devemos acordar e podemos colocar tudo em prática novamente, talvez não da forma como queríamos mas de um modo melhor, mais maduro, mais conciso. Haverá dificuldades em se estimular a resiliência, todavia se nos abrirmos para novas experiências, se houver disposição e boa vontade, esse despertar por mais traumático que seja, pode iniciar novos ciclos. E podem ser surpreendentes.






Olá!
ResponderExcluirSou muito tímida e, em razão disso, leitora fantasma, então mesmo gostando de um post, fico com vergonha de comentar, mas decidi me encorajar.
Conheci seu blog por conta do seu texto falando sobre a saída de Chaves e Chapolin do ar e desde então sigo sua página, acompanhando suas postagens e gosto muito mesmo, seu trabalho é ótimo.
Também estou inscrita em seu canal no Youtube e gostaria de dizer que os seus vídeos me ajudaram muito, são bem produzidos e pode acreditar que eles são úteis a muitas pessoas, nunca deixe ninguém te diminuir e te maltratar, continue fazendo o que você ama.
A análise sobre o mote da novela foi brilhante, não tinha pensado na situação da personagem Ana dessa forma e em como num contexto mais abrangente, leva o espectador a reflexão. Obrigada pela delicadeza de trazer essa ótima visão sobre a trajetória da Ana, que pode ser (e acredito que seja) de muitas pessoas, ainda que elas não tenham passado pelo mesmo drama da tenista... senti-me tentada a comentar porque estou despertando de um "coma" e digo que embora tenha consciência de que quando um ciclo se fecha, outro começa, esse baque de entender que o tempo passou, a vida seguiu em frente e não tenho alternativa senão fazer o mesmo, é assustador, o medo do incerto convida para um abraço, mas existe aquela parte esperançosa sussurrando que tudo que acontece tem uma razão de ser, às vezes é difícil de entender num primeiro instante, entretanto, o entendimento chega.
Suas opiniões são muito bem desenvolvidas e articuladas, além de sensatas e é sempre uma grande satisfação lê-las.
Parabéns pelo blog!
Abraços!
Nossa! Que emoção receber um comentário assim tão grande, carregado de sinceridade e acolhimento. Eu que me sinto grata a você, por ter comentado e me sinto extremamente gratificada por saber que meu conteúdo ajuda as pessoas, eu devo dizer que comecei a escrever porque precisava colocar em palavras sentimentos que tinha e imaginava que outros também pudessem te-los e quem sabe se sentir menos sozinho ao saber disso, eu mesma me sentia sozinha mas quando escrevia me sentia melhor. Eu planejo voltar a fazer vídeos, só estou tentando me organizar, deixei um pouco de lado mas algo me chama pra voltar, de um jeito mais leve, e espontâneo. Fico grata e feliz de saber que você também acompanha ^^. Sobre a novela, eu assisti a primeira vez e hoje tendo passado por outras experiências consigo ver de forma mais abrangente a situação da personagem, Ana foi "traída" pela vida, por uma fatalidade, as quais podem acometer em maior ou menor grau a todos, todavia ainda é difícil para o ser humano lidar com o fato de que alguns casos simplesmente ocorrem e não tendo como apontar ou direcionar seus sentimentos a respeito para ninguém, precisa aprender a lidar com isso. É dificílimo, mas na busca pelo ressignificado, a experiência se torna amadurecimento, é difícil se livrar de velhas concepções e apego aquilo que tinhamos como certo, mas por vezes se abrir a nova possibilidade torna-se necessário, se haverá dor ou não, em boa parte depende de nós. Muito obrigada mais uma vez pelo acompanhamento! Abraços para você! ^^
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